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sábado, 19 de janeiro de 2008

A SURRA IMPROVISADA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Desde o primeiro dia de aula que vinha havendo umas provocações, uns insultos dissimulados ou explícitos. Tudo começou quando os sobrinhos da professora e netos do velho patriarca coronelzinho, dono da fazenda onde ficava a escola, quiseram que eu brigasse com um de seus irmãos menores, para ver quem era mais homem. Isso era uma prova maluca, pois tínhamos apenas algo em torno dos sete ou oito anos de idade. Esses os sobrinhos menores da professora eram do meu tope, como se dizia, e havia uma ética de fazer duelarem apenas aqueles que mantinham condições físicas parecidas. Então, naquele primeiro dia de aula, quando saímos da escola, no meio da baixa que ficava entre a escola e a casa grande da fazenda do velho patriarca coronelzinho, pai da professora e avô dos provocadores, fui interditado:

– Aí! Você não disse que é bom! Quero ver é você ganhar para este daí!

E me empurraram um dos irmãos do meu tamanho. Foi o desfecho das provocações miúdas que duraram toda a manhã daquele primeiro dia de aula. Era como se fosse um ritual de passagem, e eu, sendo o menor daquela turma, teria que dar provas de que poderia continuar vindo à escola sem problemas. Mas meu pai, que era rigoroso, havia avisado: “não quero confusão. Se se envolver em briga, quando chegar em casa vai se haver comigo. Se apanhar, quando chegar em casa, apanha. Se bater, apanha do mesmo jeito”. Não tinha escapatória. A situação era do tipo “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. E bastou essa lembrança das palavras do meu pai, para que eu começasse a corar, a tremer e a prenunciar um choro. Puta constrangimento! Foi o jeito ser sincero:

– Meu pai disse que se eu brigasse, ele me batia quando chegasse em casa.

A situação não melhorou. Os muitos meninos que estavam ali, ansiosos pela “farra”, começaram a gritar em coro: “correu, corrão, com medo do gavião”. E começaram a empurrar uns aos outros para cima de mim. O jeito foi abrir o berreiro. Meu irmão me puxou e fomos embora sob vaias e insultos, cujo mais difícil de ouvir era a adjetivação de “covarde”.

Esta situação foi suficiente para que nos outros dias de aula, os insultos e provocações só fizessem aumentar. Até pirralhos mais amarelos do que eu começaram e me insultar. Um deles, no entanto, era o Edvaldo, filho de Bernardino, do Papagaio. Este era um moleque insolente. Metido a valente! Vivia cumprindo expediente que os frouxos sobrinhos da professora e netos do dono da fazenda, não conseguiam por conta própria. Arreliava. Insultava. Provocava. Com isso ia intimidando, até que se auto-proclamava o vencedor das contendas. Na verdade era uma espécie de capataz daqueles sobrinhos da professora, que se consideravam donos do pedaço só porque a escola ficava em suas terras. E o avô de vez em quando até ia à escola, com revolver no coldre, espiar se alguém estava fazendo alguma estripulia e intimidar, exceto aos seus netos. Esses aí, como tinham essa proteção, se aventuravam em algumas confusões, mas como não tinham coragem de dar cabo de suas arrelias por conta própria, usavam o Edvaldo como escudo.

De vez em quando nosso pai nos incumbia de aproveitarmos a ida à escola para trazermos água da cacimba do velho coronelzinho, que era uma das duas únicas fontes de água, naquele período de seca: a outra era o tanque do Juvino. Mas a cacimba do velho coronelzinho era bem mais perto da escola e da nossa casa. Então a gente levava o jegue com a cangalha e dois barris pendurados nela, um de um lado e outro do outro. Deixávamos o jegue amarrado em alguma sombra rala ao lado da escola, durante toda a manhã. Quando a aula acabava, descíamos até a cacimba, enchíamos os dois barris, feitos de borracha de pneu de caminhão, e pendurávamos na cangalha. Esta etapa era curiosa: eu, bem menor que meu irmão mais velho, ajudava ele a colocar o primeiro barril, de um lado, e ficava escorando este, para que não despencasse com cangalha e tudo, enquanto meu irmão se virava para colocar o outro barril do outro lado. Depois de ambos enganchados nos ganchos da cangalha, os pesos se equilibravam.

Foi quando ainda estávamos pelejando com os barris de água que eles chegaram. Eu brincava com o Raimundo de Cizino, que era um rapaz já, quando eles insultaram:

– Quero ver se você é bom é se enfrentar este daqui.

“Este daqui” era o Edvaldo. E o seboso não esperou nem eu responder, veio vindo em minha direção, aproveitando que eu havia afrouxado no primeiro dia de aula, e foi logo retirando a bolsa com os livros e jogando no chão, para ficar livre para a luta. Estávamos embaixo de uma daquelas enormes caraibeiras que adornam a margem do riacho em toda aquela região. Nesse período de seca, era costume cortar os galhos das caraibeiras para servir como forragem para os animais caprinos e ouvinos. Os galhos eram espalhados embaixo da árvore e eram ali mesmo consumidos pelos animais. Depois de desfolhados restavam apenas varas finas, com tamanhos entre um e dois metros. Naquele momento essas varas estavam também amolecidas pelo sol. “São chicotes perfeitos”, pensei.

E lá vinha o Edvaldo, maior do que eu, com ares de vitória antecipada. Eu, mirrado, começando a tremer, entre o jumento com a cangalha e os barris de água, o meu irmão – que não se envolvia – e as pernas do Raimundo de Cizino que, sendo rapaz feito, achava ético também não se envolver. E lá vinha o Edvaldo, inflando as esporas como galo de briga. Se ele me agarrasse eu estava frito. Bastaria uma rasteira para me por ao chão e zerar minha honra, já abalada desde o primeiro dia de aula. E eu, amarelo, com a boca seca, sem querer rogar ajuda aos maiores que estavam do meu lado, olhei aquelas varas desfolhadas e molengas de caraibeiras: “o jeito é não deixar nem ele chegar perto”.

Dei de garra de uma daquelas varas molengas e parti para cima do Edvaldo, que parece não ter acreditado na minha reação, que era, naquele momento, mero desespero. Ele insinuou que iria pegar também uma daquelas varas, mas aí já era tarde: eu desfiei uma seqüência de lapadas no Edvaldo, nas costas, nas pernas, na cabeça, no corpo todo, e ele começou a se contorcer e desistiu de pegar uma vara. Desistiu também de enfrentar-me. Recucou ainda se contorcendo, com o rosto enrubescido, mas sem chorar. Via-se que estava que era ódio vivo. Não admitia que tivesse sido escorraçado a chicotadas. Mas eu estava ali, teso, com escuma saindo pela boca, com a vara – que a esta altura tinha a ponta um tanto desfiada pela seqüência de pancadas – ainda em punho. Olhava para o Edvaldo, com fogo saindo pelos olhos. Então ele pegou sua bolsa de livros que estava logo ali, ao chão, e se foi para junto dos seus conluiados, que também não acreditaram.

Fez-se silêncio! Em silêncio todos se foram, e nós também. Tocamos o jegue para casa. Neste dia meu irmão e eu também íamos em silêncio, ouvindo apenas os barris de água rangendo nos ganchos e na ossatura da cangalha. Mas meu irmão tinha um ar de orgulho nos olhos. Eu ainda tremia, mas nossos olhos pactuaram que nada contaríamos aos nossos pais. E tínhamos certeza de que do outro lado nenhum deles relataria o ocorrido, afinal, a desonra era do Edvaldo e dos seus senhorinhos.
Dali em diante, fui tranqüilo para a escola e ninguém mais me incomodou.

domingo, 13 de janeiro de 2008

O B R A S * S U S P E N S A S

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Aquele Homem agora inventa títulos para os poemas e livros que escreverá.

Primeiro os títulos: “rascunhos de mim”; “todas as vezes que fui embora”; “todas as vezes que ela disse não”... Vai anotando – e imaginando o percurso de cada narrativa, o enredo, as nuances dos seus personagens, e todos, no entanto, dizem respeito à sua vida. Tem enorme consideração por boa parte deles. Mas ainda não os premiou com esta segunda vida ilustrada, cuja morada é a própria literatura.

Por enquanto entretém-se com os títulos que vai inventando: “o rico pobre” – um tratado de sócio-antropologia em forma de literatura dramática, onde cogitará a hipótese de que os ricos de antes eram melhores, pois neles havia pelo menos alguma riqueza moral. Os ricos de hoje, geralmente pobres de ontem, são também pobres de espírito, deseducados, deselegantes... Mas o Homem não desenvolve os temas contidos nos títulos que inventa. Pelo menos por enquanto interessam-lhe apenas os títulos: Mira-os como se fossem obras de arte da pintura. Obras-primas visuais! Ou, por outra, demora-se nas sonoridades de suas pronúncias. De resto, se propõe a compor imaginariamente, linha a linha, cada uma dessas obras, sejam versos, sejam livros, romances. Imagina-os virando best sellers, liderando as listas dos mais lidos, ponto em que, daí em diante, terão a chance de serem adaptados para o cinema, etc., etc., etc.

Mas o que ele precisa mesmo é de dinheiro, está devendo, mas não quer se render a uma existência ordinária; não quer ser uma variação de rico pobre, ao que prefere ser o que sempre foi: um pobre rico! Alguns lhe apontam sem rodeios: “você só quer dar uma de rico”. E ele enforcando-se, ainda escolhe marcas de vinho e inventa ocasiões especiais! Então, se o que lhe falta é exatamente dinheiro – coisa que não deve faltar aos ricos, mesmo quando pobres – então imagina formas de ganhá-lo luxuosamente, por exemplo (e a título de sugestão), como um artista das letras, de sucesso. Um escritor!!! Mas versos – que é bom! –, necas!

Tem procedimentos parecidos quando se trata de mulheres. E também lastima as mulheres com as quais não rolou. Não rolou! Tinha tudo pra rolar e não, nada. Às vezes lastima o fato de ter ido para a cama com algumas delas e ter, literalmente, dormito no ponto. “Sono da bubônica!” – diria um chegado seu, desses que quase se pode chamar de amigo! Claro que essas desventuras soníferas foram raras, pois basicamente o que ele lastima é o fato de não ter colocado em prática aquele movimento estudado, que várias vezes elaborou, e tanto o repetiu em elaboração que tal movimento foi sofisticando-se aos poucos, até tornar-se um movimento refinadíssimo. E na hora H, cadê?

Gastara dias provendo de detalhes um encontro de alcova; prevendo como desceria os dedos pelo busto da moça, como roçaria a ponta do nariz em volta do umbigo, como farejaria os pelos pubianos, como a viraria de bruços para descer as mãos quentes pelos quadris, pela parte interna das coxas e descer até a panturrilha, o calcanhar, a sola dos pés, os entre-dedos; depois subiria devagar até esbarrar nas franjas de pele que entornam as regiões mais íntimas. E, vendo que ela havia se excitado, introduziria dois dedos em sua boceta, enquanto lançaria a língua em seu clitóris... Todos os preliminares foram por ele minuciosamente estudados e planejados, até que cada moça estivesse tão “ao ponto” que imploraria para ser possuída – “vai! Mete! Mete tudo, vai!” Mas ele ampliaria o êxtase apenas com introduções mínimas e sutis, feitas por trás, avançando um pouquinho mais a cada vez, enquanto arrebitava a bunda, e ele recuando um pouco para ouvir os suplícios da moça, já aos gritos: “Ai... Vai... Aaaiiii... Vai... Vaaaiiiii!”

Tanto tempo aquele homem gastou nisso que todas as mulheres se foram embora antes que ele concluísse tais elaborações; se foram embora com homens de movimentos menos refinados, porém mais práticos e mais ágeis. Ou de pau maior que o seu – que nem era lá essas coisas! Em geral ainda resignava-se: “elas não sabem o que perderam!”. Noutras acabava masturbando-se com a imagem de uma moça de cada vez na cabeça, que ele sempre trocava na hora de gozar. Masturbava-se com uma e gozava com outra... Noutras vezes apenas fez poema:

(...)
e enquanto isso
enquanto me acanho
outros são velozes
logo te abocanham
violam os instantes
atropelam tudo
(...)

Menos mal. Mas acabava fazendo poemas sem título, sem início nem fim! Aquele Homem agora não passa dos títulos para a obra; e parece que não passa da obra para os títulos – pelo menos não passa do fragmento do poema, querendo virar escrito literário, órfão de uma nomeação. Seu problema é exatamente este. Ele começa pelo final. Pensa as capas, as contra-capas, as epígrafes, as dedicatórias, os agradecimentos, a relação sumária dos temas, as partes, os subtítulos... Pensa o corpo que nem conhece ainda, o cheiro que não sentiu – e esquece-se, porém, do principal: o que colocar dentro! Dentro dos livros ou das moças! As histórias: é preciso escrevê-las. O corpo é preciso rabiscá-lo como uma página em branco à espera da narrativa.

De todo modo – é importante considerar! – imaginar possibilidades literárias já é um modo inventá-las um pouco, por um lado; por outro, é vivê-las, mesmo que em forma de delírio. Quem sabe, porém, um dia aquele Homem passe ao universo dos atos, que é outra forma de viver as narrativas, de fato.

L A B I R I N T O

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
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Fazia dias que eu estava prostrado naquela casa, imensa, vazia. Fora deixado nela ela, agora parecendo uma caverna quase luxuosa, aspecto que restou depois da subtração de sua mobília. Agora as palavras ecoavam pela casa, saiam batendo nas paredes como se quisessem povoá-las de outras vozes, mas sempre reverberavam nelas mesmas, ecoavam. Fiquei na casa apenas com meus livros e um quadro que paguei durante dez meses, como se estivesse pagando a prestação minhas falidas pretensões aristocráticas. Fiquei também com o sofá da sala e a televisão de vinte e nove polegadas. O sofá tinha forma de divã, e a TV era minha analista: parecia confirmar o que parece que eu tinha me transformado.

Passava o dia ali, comendo porcarias e vendo TV, como se meu mundo tivesse se resumido àquilo. Dormia, acordava, cochilava, me assustava, o sol entrava pela janela, invadia a sala, eu suava, me virava, mudava de posição... e a TV sempre ligada. Olhava alguma banalidade que ela me oferecia – nossa! Quanta banalidade a TV nos oferece! Voltava a dormir, sonhava entre um cochilo e outro. Mas os sonhos eram diferentes: pela manhã sonhava sonhos quase completos, em que eu estava em alguma ação que, mesmo sempre confusa, nela eu ainda tinha algum ânimo e mobilidade. Pela tarde, sobretudo quando o sol entrava pela janela e ardia em minha cara, tinha pesadelos. Nesses, eu geralmente estava dopado, drogado, ou nu. Alguma coisa ridícula sempre rondava esses tormentos em forma de sonhos-pesadelos. E eu acordava num susto ensopado de suor. Mas pela manhã tinha sonhos diferentes. E ficava na dúvida se não tinha sido durante a noite que eu os havia sonhado. Eu não sei. Agora tanto fazia ser noite, manhã ou tarde, eu estava sempre no sofá, entre restos de porcaria – coisas que eu comia; coisas que vinham da TV.

O sonho de hoje foi curioso. Sonhei que eu ficava cansado desta depressão de quem fora abandonado com alguns livros e algumas drogas – a TV sendo a principal – e resolvia dar uma volta. Ia a um boteco desses que nem sanitários têm. Era na orla velha, um bar improvisado entre aqueles casarios abandonados. Quando a gente queria mijar o garçom indicava um corredor ao lado, que ia dar no interior de uma dessas construções velhas e abandonadas. E não havia ali nem um vaso sanitário, nem um desses canis improvisados de cimento, que servem de mictório na maioria dos bares fuleiros como aquele. O jeito era fazer xixi ali mesmo, no pé da parede, na ponta dos pés para não sujar a barra da calça com a urina dos que vieram antes. Era preciso ficar na ponta dos pés, segurar o pau com uma das mãos e tapar o nariz com a outra. E depois, nem uma piazinha para lavar as mãos. Merda! Coisa de terceiro mundo! E a gente ainda tem orgulho disso! Vangloria-se dizendo que esse é “nosso jeito”, é a nossa “natureza”. Isso não passa de uma moral de jegue – como um dia me disse um amigo meu.

Mas o corredor prosseguia e eu resolvi andar um pouco mais nele, para ver onde ia dar. Houve algo. Alguma passagem eu acho que se deu ali. De repente eu estava numa enorme sala mobiliada em estilo colonial, com uma imensa mesa com todas as doze cadeiras, tudo coberto com plástico. Como se alguma cena tivesse que ser mantida intacta por anos a fio. Na parede atrás da mesa havia um quadro no qual estava estampada a imagem de uma família. Dava pra ver que era. Todos em pose nobre, com roupas galanteadas. Eram muitos. O pai, a mãe, alguns homens jovens, rapazes, deviam ser os filhos, e apenas uma moça. Entre o pai a mãe. Como rosto mais jovem ainda, com cara de quem era uma caçula. Uma única mulher e ainda caçula.

Mas havia mais que isto naquela imagem. Ela parecia reproduzir os lugares daquela imensa mesa. Mas aquela moça guardava traços e circunstâncias muito interessantes. Havia algum mistério em sua feição. Estava entre o pai e mãe, como se ambos estivessem lhe protegendo de alguma coisa. Ou como se ela fosse algum elo quase perdido. Em seu riso havia alguma distorção – como se fosse um alegre solo de guitarra no meio de uma 5ª sinfonia de Beethoven. Aquela imagem me arrepiava. Eu estava totalmente arrepiado. Não sentia os cabelos, os pelos. E mesmo assim eu permaneci ali, mirando aquela imagem, onde aquela moça parecia me mirar. Como se ela quisesse contar-me algum segredo: estivera esperando pos isso esses anos todos, sabe-se lá quanto tempo.

Mas esta sala não era no térreo. Não sei como, mas seguindo aquele corredor eu havia subido algum lance de escada, sem perceber. Ou então aquela sala havia se elevado comigo dentro dela. Talvez tenha sido naquele momento em que eu me arrepiei. Agora eu via que lá embaixo um guarda vinha à minha procura. Talvez houvesse alguma proibição em entrar ali e ficar especulando aquele espaço. Talvez ali estivesse reservado para turistas, que podem tudo – como diria Arnaldo Antunes, “e os turistas estragando todos os lugares”. Talvez estivesse lacrado para alguma inspeção que estivesse sendo aguardada há anos. Além do mais, eu jamais havia ouvido falar que naquele cais antigo, naquela orla abandonada houvesse um casario com tamanha pompa, uma espécie de castelo. Mas, o fato é que vinha o guarda à minha procura, com cara de poucos amigos, como é típico dos guardas e segurança – deve até ser algum quesito específico para a contratação! O guarda vinha! E alguma coisa me dizia que eu não deveria esperá-lo; que eu nem deveria procurar o caminho de volta, para voltar ao boteco por aquele corredor fedorento, e pagar a cerveja, que a estas alturas eu havia esquecido! Será que o cara é segurança do bar e, achando que eu dei o calote está vindo atrás de mim? Mas cerveja quente e corredor fedorento não são motivos para querer voltar. Eu deveria seguir. Os olhos daquela menina me diziam que eu deveria seguir... Para onde?

Avistei uma escada que descia para o outro lado, para o lado do rio. Desci a escada correndo! Quase deslizando nos íngremes degraus. Tudo estava um pouco escuro ali dentro, mas havia uma luz no fim da escada. Parecia o sol. Deveria ser o sol, que se põe para aquele lado... Desci, escorregava, deslizava, parecia uma escorregadeira. Pufo! Caí no fim da escada numa espécie de arraial interno. Como se fosse um quintal de uma grande propriedade, mas havia uma pracinha, com um bangalô no centro, e de uma dos lados o rio. Não era bem um bangalô. Era uma espécie de latada com banquinhos. Era uma estrutura antiga, por isso robusta, com pés-direitos redondos e grossos, feitos de tijolo. Com algumas flores nas bordas dos degraus. E havia bancos. Que alívio, havia bancos e eu estava exausto. Dirigi-me a um deles. E eis que nele havia uma moça, a moça da imagem da sala, o mesmo sorriso como uma distorção de guitarra em uma sinfonia clássica. A mesma jovialidade! E a mesma expressão de quem quer contar algum segredo. Olhava para mim! Queria me contar alguma coisa! Arrepiei-me!

Tocaram a campainha! Acordei suado! Assustado! Arrepiado! Em outra circunstância eu teria exclamado um “merda!”, mas naquele momento eu parecia ter sido salvo de algum destino trágico. Meu Deus! E a porra da TV ali impassível, vendendo suas porcaria. E eu as comprando! Abri a janela par ver quem era. Era uma moça, com o mesmo sorriso distorcido como um solo de guitarra. Dizia: “abre, por favor, querido, que eu esqueci a chave!”

C L A R I C E

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
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Poucos dias antes dela chegar por ali, correu o bochicho na redondeza de que viria uma menina morar com “mãe Gripina”. Cogitava-se que era filha de Preta de Espingardinha, fruto de um amor fortuito com algum homem cujo nome poderia ser João da Mata, ou qualquer outro. Pelo visto tal pai, com este ou outro nome, deixou filha e mãe ao relento. Pois então viria a menina, com seus sete anos de idade, morar com Agripina.

Os meninos, que não tardam a viver farejando cheiro de tanga de tudo que é menina, já inflaram o disse-me-disse. Coincidiu com o ano que iríamos para a escola, a de Baiana, tutelada pelo velho pai coronelzinho, de revólver no coldre e tudo. A menina morava com Agripina, que era esposa de um dos filhos do velho e, portanto, ia à escola com os seus agora “irmãos de criação”, netos do velho, sobrinhos da professora. Isso iria dar em confusão, mas por enquanto apenas a menina interessa.

No caminho da escola, onde as estradas se encontram, um pouco antes da casa grande da fazenda do velho coronelzinho, seja porque uns adiantaram o passo, seja porque outros remancharam um pouco, o fato é que os alaridos de todos possibilitaram o encontro. E lá ia ela, toda diferente do todos, calada, linda, com cara redonda e alva como lua cheia.

Meu coração de menino de nove anos já tinha se influído por outras meninas; eu já sabia o que era pelo menos trocar insinuações de ousadia com outras meninas, especialmente no encontro com outros meninos. Lucia, Bela, Alda, Guimar... Todas essas a gente vivia arriscando um lutrimento, se escondendo no mato para velas tomar banho peladas na cacimba. Mas a campeã era Evanilda, menina de corpo bonito, que em minha cabeça estava sempre vestida em um vestido verde cana, curto e com muitos babados. Todos nós tínhamos uma Evanilda particular, quando se tratava de fantasias eróticas. Fora isso, questões de sexualidade eram resolvidas por ali mesmo, entre brincadeiras de “cair no poço” com as primas, ou entre o algodoal, ou na areia do riacho, ou ainda em noite de lua – enquanto os pais debulhavam feijão ou se distraíam com as visitas – quando inventávamos um mundo de pai e mãe, só para experimentar alguma núpcia, atrás do feixe de caibros arrumados em forma de casinha.

Mas agora chegara essa menina para morar na casa de “mãe Gripina”. Linda, branca, cabelos negros, panturrilhas arredondadas e gestos delicados. Quem ousaria dirigir-lhe uma ousadia? Com ela o sentimento era outro. Bastou ela me pedir para fazer-lhe a ponta do lápis, para que eu me apaixonasse perdidamente por ela. Passei a andar com a imagem dela na cabeça, desde o momento em que as estradas se separam e cada um vai para o seu lado na volta da escola. Ao fim das tardes, antes ou depois de gritar as cabras nos pastos, subia na caraibeira mais alta para cantar algumas canções, certo de que o vento, que espalharia o alarido pelos quatro cantos da redondeza, também permitisse a ela ouvir e saber quem cantava. Vez em quando anunciava o nome próprio, para não haver dúvida na audição. Fazia isso até ouvir o berro do meu pai ecoando no baixio: “vem pra casa moleque!... casa moleque! ...moleque! ...leque! ... que!”. Cada fim de tarde eu queria antecipar a manha seguinte para re-encontrá-la lá onde os caminhos se fundem, ou na porta da escola. Então decidi dizer-lhe tudo isso numa carta, primeira, e já de amor.

Meu pai nos escolarizou antes de irmos à escola. Por isso mesmo, naquele primeiro ano de escola eu já me arriscava em escrever uma carta de amor. E escrevi. Derramei meu sentimento todo ali, preto no branco. Mas uma carta jamais é suficiente para caber todo o universo de sutilezas que inventamos em situações sentimentais com esta. De fato eu sonhava primaveras entre as caraibeiras floridas, a acrescentar bordas amarelas ao zigue-zague do riacho esturricado; ou então sonhava noites prateadas, depois das chuvas, entre os muçambês pretos, de caule remelento e flor branca, que faziam a roça ficar infestada de abelhas e besouros. Nas noites de lua cheia, eu e ela, de mãos dadas, corríamos e nos deitávamos naquele mar de flores brancas, entre as abelhas, besouros, vaga-lumes e outros insetos, que doavam alguma trilha sonora à imagem prateada, como uma coisa esponjosa e radiante, na qual afundávamos até a altura dos joelhos. Deitaria ali com ela, lado a lado, de titela virada para a lua, com as abelhas e besouros compondo curiosas melodias. E nem os caules pegajosos dos muçambês, nem o cheiro meloso de suas flores interrompeririam aquela felicidade prateada, minha e dela. Permaneceria ali, imagem congelada, que possa ser revista sempre que quiser, mas que daí não saia, para não corromper-se com outras realidades.

Nesses instantes, sexo era coisa impura demais para se misturar a tal imagem. Era coisa para apontar para outras garotas, com ou sem babados, ou até para alguma cabra velha, ovelha, novilha, jumenta, e outras tantas possibilidades mais ou menos nojentas de prática sexual com animais, coisa que muitos fazem nesses ermos de sertão, mas que pertence o universo das coisas inconfessáveis. Mas com aquela menina nada disso havia; a não ser aquela imagem congelada de um inferno de muçambês floridos feito praga, transformado em paraíso prateado para nós dois.

Por capricho dos destinos minha mãe, que escrevia e não lia, deu com a carta, escrita em mal-traçadas linhas, misturadas ao material da escola. Recorreu a alguém para lê-la, o que se sucedeu de forma mais mal-traçada ainda, mas, suficiente para ela entender do que se tratava e asseverar: “guarde ali na gaveta da máquina que eu vou mostrar pro pai dele”. A coisa ia se complicar. Esperei minha mãe se distrair e entrei na ponta do pé, peguei a carta, levei para o mato e rasguei em pedacinhos miúdos, depois os misturei com as folhas secas de marmeleiros e baraúnas. Mas quem leu a carta para minha mãe andou batendo com a língua nos dentes e no outro dia já se adiantaram os “irmãos de criação” dela, já nos insultos, querendo explicação. O velho coronelzinho já se enchei de gracinhas para perguntar: “já tá mijando pra cima, menino?”. Foi aquele bafafá e eu acabei me acanhando mais com a menina. Passamos a nos falar quase nada, muito raramente ela vinha me pedir que eu fizesse a ponta do seu lápis, e me olhava de raspão, com um quase sorriso pendurado num dos cantos da boca. Mas carta havia estragado tudo, ou quase tudo, principalmente porque não a entreguei, nem pude dizer-lhe como eram bonitas as minhas fantasias.

Minha mãe tinha uma banquinha de doces no mercado novo do povoado, ao lado da banquinha de “mãe Gripina”, que vendia um arroz doce com canela inigualável. Um dia minha mãe me pediu que ficasse na banquinha e, para minha surpresa, lá estava ela, a menina, com um vestido de estampas e laços no cabelo. Passei o dia do lado dela, ela vendendo as coisas da “mãe Gripina”, e eu vendendo as coisas da minha mãe. Raramente, um emprestava algum troco ao outro, e aquilo era pura felicidade. Eu comecei a solicitar à minha mãe que me deixasse ali na baquinha, todos os domingos. Embora não houvesse diálogos, e sempre aparecessem outros meninos insinuando alguma ousadia dissimulada, era eu que passava o dia ao seu lado. E isso era tudo.

Mas veio o dia em que meu pai voltou com a notícia de que iríamos embora. Mandou que juntássemos as cabras, ovelhas, vaquinhas em pele e osso, jumentos, peias e mochilas de dar milho, porcos e cochos, cachorros sem coleira e canários de gaiola, que no dia seguinte partiríamos. E foi o que se sucedeu. À tardinha gritamos os bichos no mato. Eles vieram todos para a malhada. Abrimos a porteira do curral para as vaquinhas, e a porteira do chiqueiro para as cabrinhas; o chiqueiro para os porcos, o cercado da palma para a burra e o jumento. No dia seguinte, cedinho, viramos retirantes.

Muito tempo depois voltei ao mercado daquele povoado e ela estava lá, ao lado da banca de arroz doce de “mãe Gripina”. Mas tinha crescido. Apareceram-lhe seios, bustos, bunda, quadris... Tinha-lhe estufado tudo! Cheirava a sexo. Os meninos olhavam para ela e apalpavam o saco, cuspiam virando a cabeça para o lado e esguichando o cuspe por entre os dentes, como marrões querendo virar pai-de-chiqueiro, lambuzando-se com suas próprias excrescências. Tava na cara que ela agora era a sensação das punhetas da molecada.

Quanto a mim, não era mais ela a menina que deitava comigo naquele tapete prateado de mucambês floridos em noite de lua cheia. Não era mais a menina por quem meu coração acelerava quando vinha pedir-me que fizesse a ponta do seu lápis, quando então eu sentia o cheiro, ouvia a voz, e quase roçava a sua pele. Eu achava que no dia em que isso me acontecesse eu empedrava. E eu desejava isso – que permanecia apenas um grande mistério, um grande delírio. Mas, agora, ela não era mais a pessoa para quem escrevi minha primeira carta de amor. Não era mais!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

PALAVRAS LUMINOSAS

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Minha memória encontra apenas pontos borrados, com espaços iluminados aqui e ali, de todo modo descontínuos. Sei apenas que houve um dia, quando estávamos na roça – provavelmente a roçar com foices o muçambê preto que havia virado praga – quando os nossos primos, filhos de tio Ioiô e tia Carminha, Gigi, Dinô, Mazim, exceto Viva e Xanda, que já eram mais crescidos para irem à escola, e, além desses, Jorge, filho de Paulino e Guiomar, mas criado pelo velho Petú, pai de Ioiô e quase meu avô, passavam lá no alto da encosta, indo para a escola. A algazarra era grande, típica de um bando de meninos indo para a escola juntos, quando se aproveita o percurso para fazer estripulias inconfessáveis, principalmente se vai junto alguma menina, e ia, a filha de Tonhazão e outra prima dos primos, sobrinha de tia Carmina, que viera passar uns dias com ela para estudar. Iam para a escola e aquilo me despertava curiosidade; uma curiosidade misturada à vontade de me ver livre daquela foice e daquele muçambê preto, de flor branca e caule grudento, de cheiro forte e infestado de abelhas e besouros.

A palavra escola eu já conhecia e já sabia que a ela ia-se para aprender a ler e a escrever, afinal, naqueles tempos, “escreveu, não leu, o pau comeu”. Não por este mote, mas, pelo puro acontecimento de ir à escola, já aí residia um bocado de fascínio, independente daquela praga de muçambês. Meu pai havia prometido nos colocar na escola. Mas foi naquele contexto de foices, muçambês e besouros que ouvi outra palavra que a mim me apareceu suficientemente luminosa para que dela eu jamais esquecesse: aluno. Meu pai disse distraidamente: “Eita! Os alunos de Baiana vão ali numa zuada!”. Aluno ligava-se, em minha cabeça, à palavra alumínio, que eu conhecia não apenas dos caldeirões, tachos e panelas que havia em casa, mas de uma memória mais reluzente ainda, a das bolas prateadas – dizíamos niqueladas – que encimavam as antenas da boléia do caminhão de Antônio Roquete, que nos aparecia ali todos os anos, agredindo os marmeleiros das estradas estreitas, para garimpar sacas de algodão ou alguma de feijão ou milho que por ventura tivesse sobrado das reservas dedicadas à alimentação da família ou ao plantio no ano seguinte. A palavra aluno, por via de sua conexão com as bolas niqueladas do Caminhão de Antonio Roquete, ainda ligava-se a outra palavra: buzina.

A primeira buzina que ouvi – um tanto assustado e ainda sem saber nomeá-la – não foi nem daquele caminhão de antenas com bolas niqueladas, que com o tempo foi se tornando muito familiar, mas foi de algum carro atolado lá na Lagoa ou na passagem do riacho, perto de Samuel. Quem caísse naquele atoleiro, buzinava para que os homens da redondeza se compadecessem e aparecessem por lá para empurrá-lo e livrá-lo do atoleiro. A meninada corria junto, quase sempre à frente, de pés descalços a bater na bunda, para chegar primeiro. A primeira buzina que ouvi, como uma espécie de apito estranho e potente, que ecoava nas encostas e o nos baixios, era algo que meus ouvidos não tinham ainda experimentado e para o qual eu ainda não tinha uma palavra. Saía, provavelmente, de alguma rural ou jipe, pois lembro apenas que os pára-choques e as maçanetas das portas do tal carro eram todos prateados, niquelados. A palavra buzina, quando enfim a ouvi, se ligava, em minha cabeça, a outra palavra que ouvi de conversas distraídas dos adultos, mas que havia se reforçado no dia em que meu pai chegou-nos com carros de plásticos – dizíamos “de mangaba” – e afirmava que aqueles carros eram “feitos de fábrica”, e junto à palavra fábrica soltou outra, não sei em que contexto: usina.

O meu mundo começava a se povoar de palavras estranhas que me traziam um mundo de todo modo reluzente, como aquelas bolas que encimavam as antenas da boléia do caminhão de Antonio Roquete. Enxada, foice, facão, caldeirão, tacho, frigideira, também reluziam, pois eram de aço ou de alumínio. Mas, aluno, alumínio, buzina, usina eram para mim palavras parentes, e me sugeriam algo muito mais reluzente, fosse pelas suas luminosidades verdadeiras, fosse apenas pela luminosidade que uma palavra empresta à outra quando as colocamos lado a lado. Eu sabia que essas palavras não diziam a mesma coisa, mas elas se aparentavam. Aluno mesmo eu não sabia o que era: sabia apenas que essa palavra me remetia a algumas imagens brilhantes.

Aluno e escola eram, ao seu modo, palavras que me remetiam a um mundo que eu apenas começava a desejar pelo mistério que a ele se associava – e, como sabemos, há sempre algo brilhante no núcleo turvo dos mistérios – e sugeriam que havia mundos diferentes do que eu vivia ali, e que estes mundos se tocavam em suas bordas, sem de todo se misturarem, mas havia alguma passagem de um a outro, talvez através daquele caminhão de boléia, antenas e bolas niqueladas; talvez através daquela rural ou jipe no meio do atoleiro; talvez através da escola e seus alunos – palavra que até então eu não sabia exatamente o que era, mas sabia que era algo que brilhava
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terça-feira, 6 de novembro de 2007

TV E IMBECILIZAÇÃO DO POVO

Cada vez mais estou convencido de que a TV Brasileira é a maior agencia de imbecilização do nosso povo. Com a desculpa de que "é disso que o povo gosta", a TV Brasileira se imbeciliza e imbeciliza. Agindo assim (“movidos pelo é disso que o povo gosta”), esquecem que o povo sempre foi tratado com "cesta básica": seja de alimentação, seja de saúde, seja de educação e, portanto, de cultura, de formação e de informação; esquecem que se se oferece coisa boa, o povo também gosta. Mas ao povo tem-se negado o poder de escolha: ele escolhe entre as imbecilidades que lhe são oferecidas. E dessa forma a "opinião pública" ou a "opinião nacional", acaba sendo um produto de repetitivos processos de “idiotização”; processos de empobrecimento das formas de discernimento, processos estreitamento do “senso comum”; A “Opinião Nacional”, atualmente não ultrapassa o estreitismo das questões colocadas pelo “Você Decide”.
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Na verdade, as elites brasileiras, possuidoras do poderio midiático estão pouco “se lixando” para o que ocorre com a “formação da opinião pública”, da “opinião nacional”. E tenho ficado cada vez mais angustiado em saber que programas inteligentes na nossa TV estão cada vez mais escassos. A "baixaria" é geral: em todas as TV's – inclusive e principalmente na Globo. Durante a semana, os filmes se encarregam de promover o "imaginário da violência e da destruição", visto que não há um que não se estabeleça a partir das cenas em que estreiam muito sangue, muita bala, muito "terrorismo", muita violência (e depois reclamamos porque a juventude ou a sociedade como um todo é violenta e queima índio vivo em Brasília).
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Filmes bons – incluindo a produção nacional recente – onde encontramos? Em que canal? Enquanto isso o Faustão, o Gugu, Ratinho, a Márcia, o Canário e toda essa 'laia', ganha terreno e ajuda a confundir o resto e a aumentar a "abestalhação" da população, a midiatizar, a sensacionalizar e a banalizar os nossos grandes temas; nossos grandes males. Espaços reservados para a produção da atitude cidadã, estão cada vez mais escassos: são banidos pelo processo de concorrência para ver quem imbeciliza mais. Nos domingos é preciso ter muito 'saco' para agüentar as besteiras e as apelações. Depois a globo lança uma campanha com o mote: “Como salvar um pais através da educação”. Mas ela não se inclui como (des)educadora.
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[Mensagem enviada para o “Boca Livre” (site da Globo na Internet), em 1998. Mas não foi ao ar, mesmo a boca sendo livre].

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

EU, ETIQUETA

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Carlos Drummond de Andrade
(Corpo, Rio de Janeiro, Record, 1984)

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Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

SERÁ QUE ESTOU DOENTE?

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III

Dr. Eduardo Ferreira dos Santos, médico psiquiatra (e eu entendi que ele é também militar), atende a pessoas traumatizadas pela violência urbana. Hoje, ainda há pouco, foi entrevistado pelo Jô Soares, em seu programa. Começou a entrevista dizendo que “a violência urbana deixou de ser um privilégio dos ricos”. O Jô parece ter chegado a franzir a testa, mas mão contrariou o "Dr.", e este seguiu dizendo que, “infelizmente hoje existem muitas instituições, muitas ONGs que defendem os marginais, enquanto que as vítimas se tornaram desprotegidas...”. E coroou o raciocínio se referindo ao “Movimento Cansei”, como sendo um movimento de vítimas. Pasme! Pasme duplamente, pois não apenas o “Dr.” fez a mais simplistas das oposições entre bandidos e vítimas, equivalendo os bandidos aos pobres e as vítimas aos ricos, como seu raciocínio não mereceu um só comentariozinho de Jô. Será que deu um curto nos neurônios?

Esse tipo de entrevista me incomoda muitíssimo! Não porque se trata de uma opinião isolada de algum “Dr.”, mas porque é um tipo de senso comum, que embora seja portandor de uma estúpida pobreza de percepção, é elevado à condição de análise legítima e especializada – tanto que se torna merecedor de espaço em um programa de entrevistas como o de Jô Soares.
Eu não sei em que mundo vivem Jô e seu entrevistado, mas certamente eles não vivem no Brasil. Caso vivessem, um não pronunciaria essa aberração – “a violência urbana deixou de ser um privilégio dos ricos” – e o outro não a aceitaria impassível, a não ser que realmente tivesse ficado atônito, o que parece não ser o caso aqui.

Como assim, “privilégio dos ricos”? Não é isso que registra a nossa experiência, nem os relatos da História, nem as estatísticas sociais – que indicam que morrem mais pobres e pretos, vítimas da violência. Mas, segundo o raciocínio do “Dr.”, esses pobres e pretos morrem não porque são vítimas, mas porque são bandidos! Assim, certamente, o índio Galdino, morto por jovens “ricos”, e a empregada doméstica espancada igualmente por jovens “ricos” no Rio, o foram porque, sendo pobres, eles eram automaticamente bandidos. E os “ricos” que praticaram tais atos de crueldade, o fizeram protegidos por suas condições de vítimas. Da mesma forma as chacinas rotineiras, e os 111 presos mortos no Carandiru, e todas as formas de violência desferida pelo Estado ou pelas elites contra os pobres, na verdade, é apenas uma forma de violência de “vítimas” contra “bandidos”, portanto, perfeitamente aceitável e justificável – que as ONGs teimam em se colocar contra e defender "pobres/bandidos" como se fossem seres humanos.

Estranha forma de raciocínio essa! E mais estranho ainda é que não foi digna de um só comentário do Jô! Nem sobre isso nem sobre o “Movimento Cansei” ser um movimento de vítimas! Essa é boa! O presidente da OAB-SP, Luiz D”Urso, João Dória Júnior (entrevistador da Rede TV!), Alencar Burti (da Associação Comercial), o presidente da Philips do Brasil, Paulo Zottollo (aquele que disse que se o Piauí deixasse de existir ninguém ficaria chateado), Ivete Sangalo e seu irmão, Jesus Sangalo; Juca de Oliveira, Leonardo, Hebe Camargo, Ana Maria Braga, a ex-namoradinha do Brasil, Regina Duarte; Agnaldo Rayol, Ronnie Von, Moacir Franco e Adriane Galisteu, entre outros, são as vítimas? Coitados!!!
Por falar nisso, essa mesma turma não apoiou, por ocasião do Referendo do Desarmamento, a perspectiva de que “o cidadão” deveria permanecer armado, para se “defender dos bandidos”? E qual tem sido o impacto da vitória dessa perspectiva? Alguém quer saber disso? Alguém se responsabiliza?

Alguém, por favor, me faça um chá, uma garapa, alguma coisa, pois eu estou doente!!! O meu remédio talvez chegue com a edição de setembro da Revista Caros Amigos.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

VIVA O BRASIL.... E VIVA CUBA!!!

TAM, PAN, RENAN,
TAM, PAN, RENAN...
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Isso daria uma outra versão para a versão da 5ª Sinfonia de Beethoven que foi utilizada na propaganda oficial do Pan do Brasil no Rio ("pan, pan, pan, pan...") - se bem que o Renan foi o menos presente nesses dias, especialmente depois do acidente da TAN; praticamente esquecemos dele.
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Queria destacar duas coisas curiosas. Primeiramente, o Pan do Rio teve custeio que contou com uma boa bolada de recursos federais. O curioso é que isso não apenas não ficou evidenciado, como também o próprio presidente foi vaiado na abertura, numa vaia que, segundo fontes não oficiais (diga-se, não vinculadas à mídia que teve a exclusividade de transmissão dos jogos e de estabelecer sua verdade, a Globo liderando), foi arquitetada com ensaio e tudo.
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Em segundo lugar, já não basta a besta arrelia entre brasileiros e argentinos, neste Pan configurou-se uma outra arrelia, desta vez com Cuba, dentro e fora das quadras. Nas quadras os comentários - especialmente de Galvão Bueno - eram em tom de desqualificação ou de desprezo, mas sempre como se por trás das palavras houvesse uma vontade de externar uma classificação de malcaratismo em relação aos cubanos. Fora das quadras, reportagens insistiam em que os cubanos estariam desertando e pedindo exílio no Brasil, para se livrarem do "tirano ditador Fidel". Pelo que sei apenas um desses casos foi confirmado. Ontem, no encerramento, os cubanos desmentiram essa versão insistentemente veiculada pela grande mídia.
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Resta ainda uma última consideração. Claro que o Brasil está de parabens! Seus atletas fizeram bonito nas competições. Bateram récordes e deram muitas demonstrações de superação. Temos muito o que comemorar, por termos ficado à frente do Canadá. Mas há uma coisa que as arrelias alimentadas em relação a Cuba não permitem esquecer: Cuba, uma pequena ilha, pobre, bloqueada pelo imperialismo americano (com a conivência dos países e da opinião pública mundial também alinhados a esse imperialismo), arreliada e atualmente chacoteada pela imprensa brasileira, ficou em segundo lugar, à frente do Brasil. Talvez seja esse o caroço que a nossa mídia golpista (muitíssimo parecida com aquela que tentou, na Venezuela, um golpe contra Chávez) não consegue engolir. Não apenas no esporte, mas se houvessem olimpíadas de educação, de cultura e de saúde, certamente Cuba ficaria à nossa frente. Porque lá há políticas públicas!!!
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No Brasil só há esse palavrório privatista e essa mentalidade que vira as costas para a América Latina e propõe birras com a Argentina, com a Venezuela e com a Bolívia de Morales... porque preferimos achar que estamos mais próximos dos "isteites". O Brasil sempre esteve de costas para a América Latina, e durante muito tempo preferia viver com a cabeça em Paris. Agora é em Miame.
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Considere-se, adicionalmente, que os atletas de Cuba são treinados em Cuba, e não nos "isteites", como uma boa parte dos nossos. Talvez assim devamos reconhecer que os "nossos" atletas são menos nossos, e uma boa parte deles já desertaram há muito tempo. O fato é que, se temos que dar parabens ao Brasil pelos resultados e medalhas conquistadas, temos também que admitir que Cuba ficou à nossa frente.
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Cuba está à nossa frente! Por isso, viva o Brasil... e viva Cuba!
E abaixo a imprensa arrivista, conservadora e golpista!

terça-feira, 24 de julho de 2007

RELUTÂNCIAS

“Uma coisa é uma coisa,
outra coisa é outra coisa”
– Dizem os filósofos de rua
Mancos de tudo que é sorte
Coxos de tudo que é perna
Todos cagando e andando
Para a Tradição Moderna
Ou sua morte suposta
Ou qualquer uma outra bosta
Que depois dela se eleva
Entre o clarão e a treva.

Se assim é, hoje, ainda
Pois não é coisa que finda
De uma hora pra outra,
Continua sendo válido
Que “cada caso é um caso”
E “cada qual casa com o seu”.
Penso então que ainda resta
Fresta que divisa o eu
De tudo que eu não for
Apesar do turvo e breu
Que o pós-moderno ampliou.

ALGUÉM DÊ UM DESCONFIÔMETRO A LUCIANO HUCK


Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)

O Programa Caldeirão do Huck, sob a liderança do seu apresentador, Luciano Huck, tem se convertido é uma dessas pérolas da nossa santa idiotice que diariamente preenche a programação da TV aberta brasileira, sob a bandeira da “liberdade de expressão”. Essa fronteira confusa teve um dos seus mais significativos momentos na edição do programa supracitado que foi ao ar sábado, dia 21 de julho de 2007.

Eu cochilava no sofá, em frente à TV – meio esquecido da letra da música “Milha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”, d´O Rappa, que diz: "me abrace e me dê um beijo, faça um filho comigo, mas não deixe sentar na poltrona no dia de domingo, procurando novas drogas de aluguel nesse vídeo coagido, é pela paz que eu não quero seguir admitindo”. Pois que, de repente, pulo da poltrona para prestar atenção no que vinha da TV e ter certeza que eu estava acordado, e não mais cochilando. E o pior é que nem era dia de domingo, mas esse detalhe apenas nos lembra que as drogas de aluguel e os vídeos coagidos na TV brasileira não se resumem aos domingos.

Na tela o Luciano lembrava um episódio de um americano que, por ocasião do início dos jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, havia comparado o Brasil com o Congo e, diante de tamanha ofensa (imagine!), o tal americano foi mandado de volta ao seu país. Então, anuncia o Luciano Huck, para mostrar que o Brasil (especialmente em época de Panamericano) é democrático e hospitaleiro e sabe conviver com todos (exceto com que faz tal tipo de comparação), resolve fazer uma homenagem ao Congo – ele ainda se pergunta sobre o gentílico de Congo e sugere que é King-Kong. Essa homenagem consiste em uma pessoa vestida de gorila andando pelas ruas do Rio e, segundo o próprio apresentador, esse gorila é um legitimo habitante do Congo. O vídeo do programa, para quem não o viu e quiser conferi-lo, ainda está disponível na internet no seguinte endereço: http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM704416-7822-UM+GORILA+SOLTO+PELAS+RUAS+DO+RIO+NO+PAN,00.html.

Quer dizer que não podemos tolerar uma comparação do Brasil com o Congo, mas, para “homenagear o Congo” nós podemos transformá-lo em algo desumanizado, para nos divertirmos à suas custas. Achei que a mensagem deveria ser para o tal americano que fez a comparação, mas o que Luciano Huck fez foi juntar-se ao americano, não mais para chacotear o Brasil, mas para chacotear o Congo – que nesse caso foi duplamente aviltado. Eu sinceramente espero que este exemplo não seja o que sustenta a defesa de “liberdade de expressão” patrocinada pelos donos e magnatas da comunicação e hoje corrente na mídia brasileira. Se for para isso só posso imaginar que essa “liberdade de expressão” não é a mesma que eu defendo, pois essa liberdade sem parâmetro e sem o mínimo de responsabilidade nos encaminha numa direção extremamente confusa.

Espero que haja um conjunto de instituições brasileiras e transnacionais, interessadas em dar a Luciano Huck e à sua equipe, um pequeno desconfiômetro, ou seja, que ele seja alertado para o fato de que, do mesmo jeito que nos incomodamos com comparações aberrantes que são feitas a nosso respeito, outras pessoas em outros países também podem se sentir enormemente ofendidas, quando decidimos rir às suas custas. Alguém tem que dizer a esse moço que ele “se toque”, que ele “se ligue”. Ao besteirol que custeia a sua vida deve ser imposto o limite da ética.

sábado, 14 de julho de 2007

PARABENS JUAZEIRO... ACORDA!!!

Eu não sou juazeirense nato, portanto não posso me portar com a mesma carga de amor que expressam aqueles que nela nasceram. No entanto, sou juazeirense! Como muitos outros que contribuem para o seu crescimento, sou emigrante vindo de Curaçá, que aqui chegou em 1990, e como me estabeleci aqui e aqui constitui família e trabalho e consumo e pago impostos para qualquer uma das atividades que exerço, não só me sinto um legítimo juazeirense, quanto me sinto apto a opiniar sobre a cidade e participar de sua cidadania. Então, é o que faço.

Quando cheguei aqui no início de 1990 e fui morar nas imediações do canal da Vila Jacaré, logo me impregnei de uma sensação de que a cidade toda fedia. Um pensamento sempre me era recorrente, estivesse eu em casa ou na rua: "essa cidade fede". Dezessete anos depois, penso que, ou os meus sentidos olfativos se acostumaram ao odor da cidade, ou ele de fato diminuiu um pouco.
Mas, de fato, os odores permanecem, por duas breves razões, entre outras: por um lado, o canal da Vila Jacaré embora tenha sido saneado em sua parte que fica dentro da cidade em quase 100%, isso não significa que seus odores tenham sido do todo extintos. Abaixo do concreto, especialmente em messes de temperatura elevada, os odores ainda se elevam por entre as fendas das vigas que tampam o canal; por outro lado, como as lagoas de decantação, que tratam os esgotos da cidade, e o Curtume Campelo (outro produtor de fétidos odores) ficam do mesmo lado da cidade, o lado leste, isso facilita que o vento sempre traga de volta os mal-cheiros que supostamente tínhamos mandado pra longe. Some-se a isso a presença de muitos terrenos baldios, mesmo perto do centro da cidade, onde os moradores costumam jogar todo tipo de "lixo extraordinário", ou seja, um gato morto, por exemplo, que não pode ficar nos vasos ou nos sacos de lixo que são recolhidos regularmente, etc. Um suma, a cidade continua fedendo!
Mas não é isso que mais me incomoda nessa cidade. O que mais me incomoda é o fato de a gente não poder dizer isso - especialmente por ocasião de seu aniversário. Festa de aniversário é assim, parece ter sido inventada apenas para elogios, incluindo em sua etiqueta a possibilidade de você ser hipócrita e tecer elogios a algo ou alguém que diuturnamente você vive a falar mal.
No dia do aniversário de Juazeiro dei uma entrevista para a TV local. Pediram-me que falasse dos "movimentos sociais" na cidade. Achei um tema vago, desses que são inventados para evitar que realmente se discuta o que é importante ser discutido, então me intrometi e sugeri acrescentar uma parte sobre a cidade, avaliando que ela continua sendo mal planejada e precisa ser muito melhorada. Falei, mesmo sob a franja na testa do repórter, mas a entrevista não foi ao ar porque foi considerada "menos importante".

Esse tipo de coisa se parece com aquelas situações em que você é um professor numa escola caindo aos pedaços, mas que, no dia em que vai haver a visita de alguma autoridade, ela maqueia sua realidade e finge que está tudo bem, e perde a oportunidade de mostrar àquela autoridade as suas reais necessidades. Em Juazeiro as coisas são um pouco assim. A cidade parece ter sido condenada a viver enclausurada no ciclo de sua caótica fundação, dentro de um buraco topográfco, na confluência de três riachos, lugar mais baixo da redondeza, que inunda com qualquer chovisco, mas não se habitou e mirar-se em seu próprio espelho. Prefere morar em suas fantasias.
Uma dessas fantasias é a que a tem como a "Capital da Irrigação". Eu, por minha vez vivo me perguntando o que é que este título tem agregado à cidade. Onde estão os louros da riqueza da agricultura irrigada? Onde é que está a marca positiva da "capital da irrigação"? Excetuando-se o surgimento de alguns condomínios privados (febre das "classes emergentes", que mais parecem ser fruto do próprio crescimento do país como um todo, e nem se restringem a pessoas ligadas ao agronegócio) a cidade em si continua inchando de periferias por todos os lados. É mais facil até ver a ligação entre essas periferias e o agronegócio, posto que é nesses bairros desordenados, sujos e fedorentos, com esgotos a céu aberto e lixo esvoaçando nos arbustos, que os trabalhadores pobres e de baixa escolarização que servem à agricultra irrigada são obrigados a viver. Fora isso, a cidade continua crescendo desordenadamente, sem planejamento, sem distribuição e ordenação dos fluxos de seu crescimento.
Os juazeirenses detestam comparações com Petrolina - e, inclusive, como forma de compensação, inventaram um velho mito de que Juazeiro é mais "poético" do que Petrolina, e que as pessoas de Juazeiro são mais amistosas do que as mais sisudas de Petrolina. Juazeiro estaria mais para a poesia e Petrolina mais para o trabalho. Poesia aonde sarará? Pode até haver algum fundo provável de verdade nisso, mas é também verdade que Petrolina tem feito obras estruturais que atrem novos negócios e permitem à cidade crescer de forma sustentável (diz-se que ela aparece entre as melhores cidades para se viver no Brasil), enquanto Juazeiro tem feito apenas obras "plásticas", maquiagens.
A transformação do cais em orla não passou disso, não há nada de estrutural, apenas maquiagem. A construção do "M", e até a construção da Avenida Luiz Inácio Lula da Silva, não passaram disso. O "M" atendeu à demanda narcísica de um de seus administradores. A avenida Lula, por sua vez, tinha tudo para ser uma obra estrutural, mas virou obra de apelo populista. E não liga nada a coisa alguma. Começa próximo à Vila Jacaré e termina num contorno na confluência entre o canal e o leito de outro riacho, próximo ao Alto do Cruzeiro, através do qual curvamos para voltar ao ponto inicial. A própria ligação com o Alto do Cruzeiro parece mais ser fruto da contravenção dos usuários, do que de algo devidamente planejado. Há algumas ligações marginais medíocres, mas não lhe foi agregada nenuma qualidade de mudança estrutural, do ponto de vista do planejamento urbano.
A Lagoa de Calu está linda mas segue a mesma linha. Por isso, não olhe para as ruas do bairro Alto da Maravilha, que lhe dão acesso, pois você pode se decepcionar - aliás, recomenda-se que, sempre que possível, acesse a Lagoa de Calu e saia dela pelo mesmo lado: aquele acesso ao asfalto de continuação da Travessa Viana, ali á altura do trevo do Lomanto, logo depois daquele posto de Gasolina. Os outros acessos lhe mostrarão que a Lagoa de Calu é uma ilha de excelência em termos de urbanização e pavimentação, em um mar de urbanização caótica.
Juazeiro continua assim! E para completar o desencorajamento à crítica, o seu aniversário é dia de puxada. E sendo puxada, tem que ter trio e corda - nem que não haja qualquer justificativa para o uso da corda (por exemplo, não haja a quem separar pela corda). Olhe a corda... Acorda Juazeiro!

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Entrevista professor Pinzoh " O PT tem errado e tem que pagar pelos seus erros..."

Filho de um agricultor semi-analfabeto e uma dona de casa, analfabeta, que foi doceira durante um tempo, Josemar da Silva Martins, cujo apelido Pinzoh foi batizado pelos colegas de sala depois que errou numa prova de História o nome do navegador Vicente Yãnez Pinzón, tem uma trajetória de vida que além de render um bom livro pode-se fazer um excelente roteiro de cinema. Nascido no sítio São João, povoado de São Bento, município de Curaçá-BA, Pinzoh estudou a vida toda em escola pública, foi servente de pedreiro, frentista, ator de teatro, aventurou-se na poesia, foi serigrafista durante anos e vendedor ambulante das camisas que pintava. Nesta mesma caminhada, entrou em Pedagogia na UNEB, fez especialização em Gestão de Sistemas Educacionais na PUC-MG, em seguida fez mestrado em Educação na UQAC, Université du Québec à Chicoutimi e antes mesmo de defender sua tese ingressou no doutorado na FACED/UFBA concluído em 2006. É professor da UNEB-Juazeiro desde 1994 e militante político desde que começou a participar de movimentos estudantis e levantar a bandeira da luta pela liberdade de expressão, igualdade e fraternidade.

Vendo esse histórico com um olhar pós-modernista poderíamos dizer que Pinzoh é um exemplo de homem que mesmo estando na roça e olhando para o sequeiro nordestino de piso rachado como algo além da natureza, visualizou também possibilidades de transformações. Não desistiu, não morreu e não deu pra ladrão. Hoje é um estudioso e questionador da forma como a mídia expõe a Educação. Enfático e agressivo (no bom sentido, claro) quando o assunto é política, não tive como deixar de abordar boa parte deste tema na entrevista com o professor Pinzoh onde ele coloca suas defesas e críticas, em parte sustentadas nas análises acadêmicas em outras pela sua prática do dia-a-dia. De Renan aos Coelhos em Petrolina segue a entrevista na íntegra.

Blog Teresa Leonel- Existe uma imagem propagada de que a educação é o único caminho pelo qual o Brasil pode mudar, ou melhor, desenvolver. Isso é genérico? Qual a sua avaliação?

Josemar da Silva Martin - Pinzoh - Eu fico com a opinião de Sérgio Buaque de Hollanda constante no livro Raízes do Brasil, do início do século XX, onde ele critica – já lá – os “pedagogos da prosperidade”, que se apegam a soluções onde se abrigam verdades parciais e as transformam em requisito obrigatório e único de todo o progresso. O problema é que, quando a gente pronuncia “educação”, em geral está dizendo “escola”. Certamente a educação é a chave para irmos melhor em muitos assuntos, mas desde que a encaremos como algo mais amplo. Pensemos bem: mirando o tamanho do paradoxo da sociedade que vivemos, dá para falar que “escola” resolve alguma coisa isoladamente? Os meninos de classe média que queimam índio em ponto de ônibus, achando que é mendigo (como se isso justificasse), ou espancam empregada doméstica achando que é prostituta (como se isso justificasse), ou matam o pai ou a mãe etc., por acaso eles não têm educação (escolar)? Então que “outra” educação lhes falta? Por acaso as outras instituições sociais, os profissionais liberais, os comunicadores, os políticos, estão preocupadas em educar? Será que não vivemos numa sociedade em que a própria família esqueceu de educar? Será que já nos tornamos reféns de nossa própria ilusão de liberdade – que no fim das contas não passa de liberalismo de mercado? Além disso, dizer que a educação resolve tudo, não é uma forma de desviar a atenção para as reformas de base? Nós estamos de acordo com uma Reforma Agrária ampla! Nós estamos a favor da taxação das grandes riquezas? Nós de fato queremos dividir riqueza? Ou nós apenas estamos satisfeitos com o dinheiro que ganhamos e com as prisões domicialiares que com ele podemos construir para nelas morar? Todo mundo ganha dinheiro e gera problema; depois a gente diz que é a educação que tem que resolver esses problemas. Esse é o problema! A educação continua sendo vista de modo restrito; é grande nos discursos mas não passa de pano de chão nas práticas sociais! Há até preconceitos contra ser professor. Exemplos não faltam!

Teresa Leonel- Como professor e vivenciando o debate Acadêmico sobre as diversas formas do exercício da nossa democracia, na sua opinião o PT (Partido dos Trabalhadores) mesmo depois do desgastes em relação aos escândalos sucessivos, ainda é a melhor opção para consolidar esta democracia?

Pinzoh - Eu não sei se o PT é ainda a melhor opção. O que eu sei é que a sigla PT virou bode expiatório. Quando a gente vai falar de corrupção a gente diz “corrupção do PT”. Eu sou sabedor das mutretas do Renan desde antes dele apoiar Collor (como político ele esteve sempre do lado do poder). Mas quando a mídia toca nisso (incluindo as “meninas do Jô” e o Jabor) parece estar vinculando a sua corrupção ao governo do PT. É como se a gente desconhecesse o elevado grau de corrupção de nossas elites. É como se um Coelho, por exemplo, nunca tivesse praticado coisa similar aos casos que agora Renan permite expor. É como se a gente esquecesse dos Anões do Orçamento e de outros tantos escândalos.Eu ando muito decepcionado com o PT e espero sinceramente que a gente aprenda a fazer política de um outro jeito, que a gente disse que seria possível. Mas não aceito que um Arthur Virgílio venha pousar de paladino da moralidade; que um ACM Neto vire príncipe da ética – aliás todos nós sabemos que ACM e sua família também enricou com procedimentos similares aos de Renan, e de Jader Barbalho, e de Hildebrando Pascoal, e de João Alves etc. etc. etc., mas parece que ignoramos isso. Pelo amor de Deus! Aliás, o principal problema em relação ao Renan é que ele disse: “se é pra investigar, então vamos fazer uma investigação ampla”. Aí todo mundo gelou! Quem quer isso? E sabem porque o ACMzinho não está todo dia na mídia? Não será por que também apareceu nos registros da Operação Navalha? Mas o foco numa única pessoa ajuda a esquecer outras, não é mesmo?.

Teresa Leonel – Por que os petistas aos serem abordados sobre os escândalos políticos dentro da própria base do partido ficam sempre comparando e justificando os escândalos com os governos anteriores?

Pinzoh - Talvez seja para dizer ”atire a primeira pedra!”. Talvez seja para lembrar de nossa cordialidade (nos termos também de Sérgio Buarque de Hollanda) sempre flertou com o poder público para permitir o proveito próprio, o nepotismo, o fisiologismo, o apadrinhamento. Porque o curioso é que todo mundo faz isso. Dúvido que não haja caixa 2 nas campanhas em Juazeiro e Petrolina. Duvido que não haja os mesmos tipos de negociatas. DU-VI-DO! E quero é prova! Quero saber, por exemplo como é que o PFL custeava a compra de votos nos sertões, como caçamba de areia, como filtro caseiro, com óculos e dentadura? Quero saber o que foi a “Indústria da Seca” que vampirizou a SUDENE a ponto dela ter que ser desmontada? Quem fez isso? Foi o PT? Você nunca deu alguma gorjeta a um guarda ou policial rodoviário? Eu já! Numa situação onde era impossível não dar. E nem era porque eu estava ilegal, era porque a força não estava do meu lado. Presencio isso o tempo todo em viagens nas estradas de Pernanbuco, da Bahia, de Sergipe, de Alagoas... Por que a gente não faz o que Renan sugeriu? Vamos abrir a conta de nossas consciências, a gaveta de nossa ética com a coisa pública?

Teresa Leonel – Não foram os petistas que sempre defederam as badeiras da moralidade, da ética e da não corrupção?

Pinzoh - Não foi só o PT que fez isso. O PT tem errado e deve pagar pelos seus erros, principalmente pelos que continua a cometer. Mas é bom lembrarmos que desde que eu me entendo por gente; desde que leio... que vejo a elite empostar a voz para falar em moralidade, para defender “a moral e os bons costumes”. Ou estou errado? Você nunca viu/ouviu isso? Essa é a mesma elite que no âmbito oficial aparece empecável, com inabalável retidão de caráter, e é também a mesma elite que, fora dos holofotes da aparição pública, é promíscua, adúltera, incestuosa, preconceituosa, inescrupulosa e corrupta. Toda a nossa “nobreza” foi promíscua, especialmente com a coisa pública, e, no entanto, sustentou sempre um discurso moralizante. Não esqueçamos que Collor, por exemplo, foi eleito com o discurso de que “caçaria” os marajás, quando ele próprio era um marajá, que era sustentado pelos marajás e se portava como um marajá.

Teresa Leonel – E falando em ética, o senhor defendeu em um dos seus artigos sobre Ética e Comunicação que a palavra “ética” ainda é muito confundida e vulgarizada para nomear “código de conduta” de determinados grupos humanos. No caso específico dos políticos e do Partido dos Trabalhadores o que se pode e deve ser aplicado?

Pinzoh - Eu não imaginei que esta entrevista fosse sobre o PT. Mas, vamos lá! O que eu disse no texto, que está em meu Blog, (http://blogdopinzoh.blogspot.com/2007/03/tica-e-comunicao.html), foi que ética ainda é confundida com ética corporativa, por exemplo, quando falamos em “ética médica”, “ética jurídica” ou “ética jornalística”. Na verdade, em geral esses exemplos se tratam de códigos deontológicos, de códigos corporativos de conduta. Prefiro pensar a ética para além disso, fazendo froteira com a esfera pública, que excede o âmbito corporativo. Agora, se você quer discutir a ética dos partitidos políticos (incluindo o PT), podemos até discutir, desde que outras siglas possam compor seu repertório de referências. Pode ser?

Teresa Leonel - O senhor contestou a análise sobre reforma política feita pelo publicitário e marketeiro Zé Nivaldo postada neste blog (04/07) dizendo que o mesmo desdenha de sua importânica. Na sua opinão de que forma as campanhas políticas deveriam ser realizadas ou formatadas?

Pinzoh - Sou amplamente a favor de limitar o uso de propagandas (como aliás já se fez na última eleição, o que, ao meu ver, melhorou muito o perfil das campanhas). Seria uma forma de, por um lado, evitar que se fabricasse um perfil meramente fictício, cuja finalidade é meramente a enganação dos eleitores. Por outro lado, esse trabalho é feito pelo marketing político (um dos principais meios de gestão dos caixas 2). Então, limitando isso estaríamos limitando também uma parte das falcatruas. Sou a favor do financiamento público das campanhas, e do estabelecimento de um sistema rigoroso de análise das contas de campanha. Mas desconfio que uma boa reforma não saia a não ser que houvesse uma constituinte de “não políticos”, apenas para legislar sobre questões onde os políticos são extremamente corporativos e advogam em causa própria.

Teresa Leonel - Agora virando a mesa, qual a sua opinião sobre o papel da mídia em relação a divulgação dos escândalos políticos e apuração dos mesmos para manter a sociedade bem informada? A sociedade está sendo bem informada?

Pinzoh - Eu acho que:1) grande parte da mídia não tem isenção porque está na mão de uma elite comprometida até o pescoço com esses temas e essas mesmas tramoias (aliás, quem da imprensa apoiaria uma CPI da Comunicação – que desvelasse os modos como se estabeleceram e ainda se estebelecem as maiores concessões?) 2) liberdade de imprensa, na maioria dos casos, só existe para quem é dono da empresa de notícias; 3) mesmo assim uma grande parte dos jornalistas “se acha”, ou seja, pensa que “é livre” e que mais ninguém entende de nada. Muitos dizem um monte de aberrações como se fossem a verdade e ponto; 4) aquilo que a gente tem chamado de “a sociedade da informação” tem se traduzido na sociedade da desinformação; do blefe, do “copy and paste”... Nesse sentido não posso achar que a sociedade está bem informada. Ela está confusa. As novas gerações não conseguem formular uma idéia do mundo, além daquilo que vêm nos programas bobos das rádios, das TVs, das revistas de fococa ou nas vitrines e nas relações meramente consumistas e capitalísticas. Analise o conteúdo dos veículos de comunicação de Juazeiro e Petrolina (com poucas exceções) e você mesma pode responder a essa pergunta. Ainda bem que tem gente que consegue viver e se informar para além dessa fronteira!

Teresa Leonel - A mídia também está sendo passada a limpo. O senhor acredita que a nossa forma de noticiar, hoje, tem mais a ver com o espetáculo do que propriamente com a informação?

Pinzoh - Não sei se a mídia está sendo passada a limpo. Só sei é que temos uma mídia de péssima qualidade (com exceções), onde tudo virou espetáculo. A morte, o sexo, a intimidade, a pobreza, a corrupção. Tudo é espetáculo. Tudo é lançado para o jogo das audiências. Aliás, você que vive dentro dos meios de comunicação, pode falar melhor de como se estabelecem critérios para os programas, para as pautas; de como o índice de audiência virou uma paranóia e justifica programações extremamente idiotas. Há duas obras que acho boas para nos falar do que ocorre agora: “A sociedade do espetáculo” de Guy Debord; e “Simulacros e Simulação” (e outros escritos), de Jean Baudrillard. A mídia hoje é isso, com raríssimas exceções.

Teresa Leonel - Gostaria de fazer algum comentário específico?

Pinzoh - Queria acrescentar que eu sou filiado ao PT. Não me envergonho disso. Fui um dos fundadores do partido em Curaçá, lá pelos idos de 1986. Fizemos várias campanhas sem um tostão furado, recolhendo contribuições de centavos, fazendo cartazes em papel madeira e colando com cola caseira feita com soda; fazendo bottons e pintando camisetas com serigrafia caseira e vendendo tudo isso para fazer outros dinheiros para repetir todo o processo. Nunca ganhei um centavo em campanhas, pelo contrário, sempre botei dinheiro, sem pedir nada em troca. Nunca vivi de cargos públicos. Sempre fui professor concursado. Ultimamente tenho também feito palestras, seminários, assessorias para algumas prefeituras – inclusive em Curaçá, onde sou um dos autores da Proposta Pedagógica para as escolas municipais (atualmente não utilizada). E me orgulho muito disso, de nunca ter precisado baixar as calças para algum político. Essa autonomia muitos jornalistas não têm, porque seus patrões, com suas relações duvidosas, lhes tolhe a liberdade! E isso eu não invejo!

Quanto ao PT, este aprendeu a fazer o jogo que as velhas elites sempre jogaram – e isso me entristece. Nada justifica. Tenho sido um crítico dessas novas práticas do PT, principalmente do modo como atualmente as tendências e o critério de BU (Boletim de Urna) têm sido usados para praticar o patrimonialismo e privatizar a esfera pública em seu poder. Por um lado, as práticas pregressas dos outros partidos não justificam essas posturas do PT, tampouco algum partido pode dizer que não faz ou fez isso. Por isso, ver a elite pousando de defensora da ética, “da moral e dos bons costumes”, é algo que me deixa profundamente irado.

Por fim, obrigado pela oportunidade da entrevista e espero que você me permita postá-la também em meu blog.

OBSERVAÇÃO:
Esta entrevista foi dada à jornalista Teresa Leonel, para o seu Blog. O título que ela preferiu dar à entrevista expressa um dos recursos mais utilizados pela imprensa para produzir um determinado efeito e sentido, logo na chamada. Eu realmente disse que o PT tem errado e tem que pagar pelos seus erros, mas se eu fosse dar um título ou fazer uma chamada para esta entrevista, teria utilizado outro fragmento de minhas respostas.

Confiram no Blog de Teresa Leonel (http://teresaleonel.blogspot.com/2007/07/entrevista-professor-pinzoh-o-pt-tem.html)

domingo, 24 de junho de 2007

Estamos às portas do PAN

Por Juca Kfouri
Do Pan dos desatinos, do orçamento estourado quatro vezes. Porque, segundo as autoridades, o Rio foi preparado para muito mais, para ser sede da Olimpíadas. Mesmo que não se tenha saneado a baía da Guanabara, a lagoa Rodrigo de Freitas, não se tenha ampliado o metrô nem o transporte de barcas, nada, embora tudo tenha sido prometido. A chance de o Rio ser sede de uma Olimpíada nos próximos 20 anos é zero. Mas estamos às portas do Pan. Relaxe e goze, pois, como diria o..., como diria a... Afinal, o estupro foi mesmo inevitável. E a gente gostamos de esporte.
Ainda bem que teremos um maravilhoso torneio de futebol no Engenhão, com a Seleção Brasileira...sub-17. Felizmente os norte-americanos vêm com seu quinto time de basquete, se tanto, e os argentinos, campeões olímpicos, com o terceiro, se tanto. Porque o nosso time de basquete também será o segundo, se tanto, já que nenhum dos nossos que jogam na NBA virão.
A vontade que dá é a de seguir no caminho da ironia. Mas não dá. Porque o que dá é raiva. Raiva da chance que o Brasil desperdiça ao não fazer do Pan uma oportunidade de inclusão social por meio do esporte. Raiva de ver essa cartolagem que nos assola nadar de braçada no dinheiro público e mentir sem pudor.
Houve até quem dissesse (o ministro do Esporte, Orlando Silva) que o planeta estará de olhos voltados para o Rio.Mas na Europa nem se sabe o que é o Pan.E nem mesmo em países como Estados Unidos ou Argentina, que dele participam, a competição desperta qualquer interesse.Que dirá na Ásia, na África, na Oceania!
O Pan era para ser evento nosso, muito nosso, para estimular essa gente bronzeada a entender o valor da prática esportiva. Uma competição para cidades como Salvador, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Floripa, Porto Alegre, talvez, Brasília. Jamais para o Rio ou São Paulo.
Vamos viver dias, isto sim, de hipocrisia explícita. A TV aberta, sócia do Pan e, portanto, absolutamente acrítica em relação aos seus milhões de pecados, exaltará o ouro dos tolos e criará uma expectativa que tornará os Jogos Olímpicos de Pequim, no ano que vem, palco de grande frustração nacional.
Porque os resultados que aqui acontecerão, com raras exceções, se houver, não significarão rigorosamente nada em relação às marcas mundiais. O Pan, enfim, é um evento menor. Maior torna-se o escândalo do dinheiro nele investido. E as CPIs, tanto municipal, quanto estadual e federal, inevitáveis.
Mas devolver o dinheiro do povo que é bom, nem pensar. Estamos às portas do Pan. Não é para amá-lo nem deixá-lo, que não somos disso. Mas deveremos cobrá-lo. Até o fim.
Juca Kfouri é jornalista.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

A CRISE DA MÍDIA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)


A mídia brasileira está um tanto confusa! Prestemos atenção nos discursos que são veiculados nela, como há alguns que não são combináveis. Por um lado há um forte e constante questionamento do Governo Lula em dois pontos essenciais: a) o crescimento do país; b) a corrupção no governo. Em ambos os casos, há discursos divergentes e até inconciliáveis. E por outro lado não consegue oferecer uma contrapartida em termos de outros assuntos relevantes.

No caso do crescimento econômico todo mundo alardeia que o país está crescendo mediocremente; o país está paralisado, atrofiado, etc. E nesse assunto há sempre os que aparentam saber muito, sendo que uma parte desses sabedores são jornalistas (que, afinal, pretendem entender de tudo). Ao mesmo tempo (e ás vezes na mesma matéria) se diz que o poder aquisitivo da população aumentou; que está havendo mobilidade social com a inserção nas condições de participação no consumo de classes sociais e setores totalmente excluídos dessa participação. Diz-se que as pessoas estão comprando mais e que, inclusive, as pessoas estão consumindo coisas que não tinham por hábito consumir, como o entretenimento, a diversão, o lazer, etc., e até estão entrando no consumo de bens mais supérfluos que estão fora da “cesta básica” das necessidades primárias. Estão trocando bens móveis, automóveis e imóveis. Há aí algo a ser esclarecido: afinal, o país está ou não está numa fase boa? Está ou não está crescendo?

Não se trata de negar que ele precisa investir em infra-estrutura, melhorar as estradas, os portos; melhorar as vias por onde devem circular os fluxos do desenvolvimento e do crescimento. Mas trata-se de uma coisa mal explicada. Por exemplo, houve um momento, enquanto o dólar caía que houve reclamações, bloqueios de estradas, protestos. Claro que este “movimento” (em ano eleitoral, é importante não esquecer) era de quem negocia em dólar, e se coloca mais na perspectiva externa do que interna. Houve até manifestações explícitas na imprensa, na TV, alegando que o dólar baixo era uma ficção, que se o dólar baixasse mais o país quebraria etc. E o dólar despencou e o país não quebrou – inclusive nos parece que os manifestantes estão descobrindo que também podem lucrar com a baixa do dólar. Há coisas aí que poderíamos entender melhor se a mídia brasileira fosse melhor informada e menos instrumentalizada pelo jogos de interesse.

O outro ponto é a questão da corrupção do governo. No ano passado a velha elite em processo de esclerose apoderou-se das cagadas dos aloprados do PT para dizer ao país que jamais houve momento na história da República em que se viu tanta corrupção. Não só isso, mas fazia-se crer que essa corrupção era praticada exclusivamente pelo governo. E, aproveitando-se de nossa memória curta, se dizia: “nunca houve governo tão corrupto”. O PLF (agora DEM) pousou de paladino da moralidade (esquecendo que os principais escândalos de corrupção do país na história recente da República foram protagonizados por gente do PLF ou por ele apoiada).

Mas agora surge um fato curioso que a mídia trata de forma extremamente “vacilona”. É o caso das corrupções tornadas públicas pela Operação Navalha, especialmente no tocante ao senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Por um lado foi o próprio Renan que enquadrou o Senado. Diante da iminência de uma investigação das suas relações com a rede de corrupção que envolve contratos com construtoras, ele foi esperto: defendeu que, se fosse para investigar, que se fizesse uma investigação geral e profunda, das relações que o congresso tem com empreiteiras. Claro que ninguém quer um negócio desses. Aliás, foi essa a razão de terem escolhido para relator um senador que se encontrava ausente, Epitácio Cafeteira (PTB-AM). Coitado! Herdou o abacaxi, pois ninguém queria se comprometer ele. Nem o próprio Cafeteira! Por isso inocentou Renan e agora está solicitando afastamento do Conselho de Ética, alegando problemas de saúde. Ora! Nós podemos no mínimo desconfiar de tais procedimentos. Nós sabemos que as relações do Congresso Nacional com as redes de corrupção não são nada amistosas. Nós abemos inclusive, de onde vêm os patrimônios da maior parte dos deputados e senadores, em geral incompatíveis com suas próprias rendas declaradas.

Claro que a mídia não quer explorar isso – embora saiba como as coisas funcionam! Todos nós sabemos que já se formou uma “cultura da licitação” que vai do mais alto ao mais sorrateiro escalão de poder. Conheço uma pessoa que trabalha com captação de recursos em grosso volume na região Sudestina (com prioridade para São Paulo e Rio de Janeiro). Ela me assegurou que todas as empresas, quando vão participar de licitações, sempre aumentam os preços em no mínimo 30 %. E uma parte dessa cifra é geralmente doada como prêmio aos titulares do órgão no qual a respectiva licitação se dá. É assim que uma boa parte dos políticos (senão todos, especialmente as “raposas velhas”) custeia suas campanhas e mantém suas redes de beneficiamento e dependência política entre eleitores. Ainda mais quando se tratam de contratos milionários ou bilionários como aqueles que se estabelecem com empreiteiras que trabalham com grandes obras. Não esqueçamos que uma parte dessas empresas pertence a políticos, como se pode ver na Bahia, no Maranhão... e onde mais?

O problema da mídia é que não quer falar sério! É que se for escarafunchar demais, pode chegar nos modos como a própria mídia brasileira se estabeleceu, num sistema formidável de beneficiamento de compatriotas e comparsas, como é o caso especialmente da TV no Brasil. A rede de corrupção é muito mais ampla, e é claro que ninguém quer mexer nela. Esse foi o pulo do gato de Renan Calheiros. No fundo ele não é nem mais nem menos corrupto que a maioria esmagadora dos nossos políticos, de esquerda e de direita.

Mas a mídia não tem pulso para assumir isso. Prefere ficar estandardizando o “relaxe e goza” da Marta Suplicy!

NOSSA ATUAL PERDIÇÃO:

Contribuição à constituição de uma teoria da greve atual


Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)

Cada dia me sinto mais confuso! A minha confusão agora é em relação às greves de professores na Bahia, tanto a da Educação Básica, quanto a da Educação Superior. Em uma de nossas discussões no DCH III um colega disse com muita ênfase que, uma coisa ele tem certeza: que ele pertence a uma categoria de trabalhadores, a categoria docente. Se para ele isso esclarece tudo ou quase tudo, para mim isso não esclarece quase nada. Desconfio que essa consciência de classe nós não chegamos a construir – e nem sei se isso é bom ou é ruim.

Talvez, se abandonássemos um pouco os chavões, as frases de efeito (que confundem mais do que esclarecem; por exemplo, o que quer dizer atualmente “reforma neoliberal da educação”?), restasse uma pequena fresta para pensarmos as contradições que envolvem nosso “movimento”. Uma delas é que, em que pese essa insistência de alguns em falar em nome da “classe dos professores” com uma suposta legitimidade, não conseguimos explicar porque o “movimento docente” se faz com tão pouca gente. As assembléias que deliberam sobre a própria greve sequer atingem 10% do número de professores, no caso da UNEB. No caso da APLB esse índice é muito menor. Não há procedimentos de representação e os líderes sequer aceitam que se discuta isso, em nome da democracia que eles mesmo dizem estar de acordo. No caso da UNEB o seu caráter de multicampia jamais foi levado a sério pela ADUNEB, embora os seus líderes cobrem isso das instâncias de gestão da Universidade. Esse detalhe permanece como algo para o qual aparentemente sabemos o que é certo (e cobramos dos outros), mas não sabemos praticá-lo.

Em relação à consciência de classe chegou-se a aventar que as pessoas que se colocam criticamente em relação à greve – e colocam questionamentos como os que estou tecendo aqui – não tem consciência de classe e estão instrumentalizados pelo Governo para defendê-lo. Ocorre que, como não somos crianças, sabemos também como nossa consciência de classe está eivada de posições divergentes, e que, nesse exato momento há uma parte de nós que é vinculada a um movimento de oposição que não começa e nem termina com o Governo Wagner e já era seu opositor antes mesmo de ele se iniciar. Esse campo de disputa política que extrapola o próprio Estado da Bahia foi, em boa medida, o que acelerou a nossa atual greve (não esqueçamos, por exemplo, que temos um colega, que está na liderança da greve, que foi candidato a Governador). Não dá pra falar aqui em consciência de classe, mas em interesses políticos que sequer se assentam mais em oposições do tipo esquerda-direita. Eis a dinâmica de nossa greve! Em nossa comissão de greve, temos colegas que tiveram sua participação questionada na comissão porque tinha uma posição diferenciada, ou seja, só temos capacidade de acatar o tipo de pensamento inteiramente convergente. Qualquer outro, rapidamente pode ser taxado de outra coisa.

Há quem diga, por exemplo, que aquela ira com a qual Rui, da APLB, se coloca na TV Bahia (e olha como ele está na mídia como nunca esteve, virou astro) é uma ira dirigida exclusivamente ao Secretário de Educação, Adeum Sauer, pela razão de que no movimento paredista há quem gostaria que o secretário fosse outro, ou outra. Há quem afirme que o trabalho ali, da greve da APLB, é de desgaste do atual secretário.

Outra mudança que precisamos ter capacidade de interpretar e reagir a ela, é ao formato que a TV Bahia assumiu rapidamente. Nunca houve tanto debate na TV Bahia, nunca Casemiro Neto foi tão ávido e "livre" com seus entrevistados, ao cobrar explicações da parte do governo. Se fôssemos ingênuos poderíamos achar é como se, finalmente, o pessoal da TV Bahia estivesse aprendendo a fazer televisão, inclusive diversificando seus convidados. Uma vez, em um dia 15 de outubro não lembro de que ano, dia dos professores, dei uma entrevista à TV Norte (atual TV São Francisco, em Juazeiro) à repórter Sibele Fonseca. Naquele momento estávamos também em uma greve nas universidades baianas e o governador, salvo engano, era Paulo Souto. No final da entrevista Sibele me perguntou se havia o que os professores comemorarem. Eu respondi que não, exatamente pelo tratamento que o Governo do Estado estava dando aos professores e à educação baiana. Como o programa não era ao vivo, Dadau, que era diretor na TV, falou pelo ponto da repórter que eu deveria refazer a minha resposta, porque eu havia me referido ao Governo do Estado da Bahia, e não podia.

Olha, vejam só! Como a TV Bahia se tornou “democrática”. Não me surpreenderia se daqui a pouco ela estivesse nas ruas, reivindicando “liberdade de expressão”, se colocando numa condição de “oprimida” e, ainda por cima, contanto com o nosso apoio de “classe trabalhadora”, consciente de sua “condição de classe”, e vigilante em sua “memória das lutas da categoria”. Será que em outros tempos essa nossa “revolução” seria televisionada?

Será que depois que fragilizarmos o atual governo (ainda em formação) seremos convidados à festa da direita, e teremos o direito de emitir uma opiniãozinha na TV Bahia? Sobretudo, tomara que estejamos com a disposição que estamos agora de abrir o verbo como estamos abrindo, com tanta ira nos olhos. Da minha parte acho que nem Rui, da APLB, nem qualquer um de nossos líderes da greve das Universidades Estaduais, têm a mesma coragem quando se trata de encarar os olhos do carlismo.

Será que diante disso teríamos condição de avaliar quem “instrumentaliza” quem? Quem está sendo “instrumentalizado” por quem? Teríamos condição de avaliar em quantos pedaços se despedaçou a nossa “consciência de classe trabalhadora”? Espero que aceitemos o fato de que esta greve tem muitos motivadores que extrapolam a pauta ordinária de nossas reivindicações e a suposta moldura de nossa “consciência de classe”.

Aceitem o atual grau de minha atual “perdição” e a legitimidade das questões que ela permite levantar.

“NOSSO” DE QUEM, SARARÁ?

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)

Há alguns dias comecei a escrever algo sobre a constituição e a condução do governo Wagner, mas me retive por várias vezes, por diferentes motivos. Um deles é a minha própria implicação com o governo, já que fui nomeado (embora não tenha tomado posse) para uma das Diretorias da SEC (a de Currículos Especiais); e já que, agora mesmo, há um processo de consultoria em vias de se consolidar – e eu espero que se confirme!

No entanto, há muitos outros motivos que me convocam a finalizar o que iniciei. Um deles é o fato de eu ser cidadão, eleitor, filiado ao PT, e perceber certas incongruências na condução dos processos de composição do governo. Por outro lado vivo outra crise como funcionário do Estado, enquanto professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) desde 1994. Nesta, por exemplo, estamos vivendo uma greve (juntamente com os docentes das outras universidades estaduais), em função do acúmulo da precarização nas condições básicas de funcionamento do ensino superior. Não apenas faltam-lhe os recursos para as atividades de ensino, pesquisa e extensão, como também faltam estruturas físicas e equipamentos e até materiais de expediente, tão essenciais quanto detergente e papel higiênico. Hoje mesmo soubemos também que a empresa de segurança vai demitir os guardas, em decorrência dos vários meses de pagamentos em atraso.

De fato estou entre dois universos. E titubeio! No momento em que a greve começou a se esboçar, eu me posicionei contra ela, alegando que é muito cedo para o governo dar as respostas que dele esperamos, considerando que ele herdou um orçamento aprovado na gestão passada, bem como os muitos problemas e vícios infestados no serviço público pela tradição política carlista. Logo depois me inclino a aceitar que o governo deveria ter se antecipado, fazendo funcionar o que tinha que funcionar, negociando e implementando pequenas reformas e reajustes, abrindo diálogos setoriais e implantando um planejamento transparente e participativo, inclusive ao estabelecer os números para compor o PPA para os próximos anos. Então me inclino a aceitar o que as pessoas comuns dizem pelas ruas, por onde passamos (com a frase já convertida em piada): “o governo Wagner ainda não tomou posse”.

Por minha vez acho que o que tem acontecido é que “o governo” não consegue se acertar consigo mesmo. Por um lado porque ele já começou de forma absolutamente equivocada. Um governo que prometeu mudanças não pode simplesmente reproduzir as mesmas velhas formas de se fazer governo, utilizadas pelo carlismo. Mas isso tem efetivamente acontecido: onde antes questionávamos os cabides de emprego, agora brigamos para definir quem será o novo donatário do cabide. Isso não passa de uma forma pouco disfarçada de patrimonialismo.

É isso que ocorre, por exemplo, em Juazeiro, BA, na definição dos cargos e funções. Aqui o critério para prover cargos é apenas um: BU (Boletim de Urna). Quem teve mais voto, tem poder de mando, encarna a figura do coronel contemporâneo, que define, indica e veta e ainda pousa de democrático. As vagas nos estabelecimentos, todos nós sabemos, foram loteadas entre os partidos da base aliada (briga que dura até agora), e dentro do PT as vagas que lhe couberam, foram loteadas entre as tendências, seguindo o mesmo critério do BU.

Curiosidades à parte, um caso exemplar é o do Centro de Cultura João Gilberto. Na matemática do loteamento dos cargos e da troca dos donatários, o CCJG acabou se tornando propriedade de uma das tendências do PT, a AE (Articulação de Esquerda). Essa é uma primeira privatização, tão sutil que a gente nem percebe: o CCJG pertence à AE. Como nesta tendência há uma pessoa com maior expressão no meio artístico-cultural, logo a vaga do cargo é exatamente desta pessoa. Esta pessoa é Márcio Ângelo (Marcinho).

Claro que os nobres companheiros entendem que estão fazendo a coisa da maneira mais correta, e quando a gente quer questionar este formato, é subitamente confundido com alguém que quer tumultuar o processo, pois já está tudo decidido, tendo havido inclusive a elaboração de uma fórmula matemática específica para solucionar o processo de loteamento. Se a gente quer saber em que pé anda esta questão ou se quer problematizar este formato, a resposta mais comum é: “companheiro, você não participou da discussão” (leia-se: do loteamento).

Os nobres companheiros estão simplesmente privatizando a discussão, restringindo-a ao círculo restrito dos “eleitos”. Esquecem-se, por exemplo, que o “meio ambiente” da arte e da cultura em Juazeiro é muito mais amplo, e tem muitas histórias a contar. Há um coletivo grande de pessoas que fazem arte de forma militante (não em termos partidários, claro) que sequer são tidas como pares nessa discussão. Esse aspecto piora a sensação de privatização.

O caos e a crise que se anunciam no governo Wagner é fruto dessa arrogância dos companheiros que privatizam tudo com base no critério do BU, e desconsideram que há outras histórias em andamento, movimentos com agendas construídas há bastante tempo – inclusive com avanços já firmados nos governos anteriores (apesar do carlismo). Não se pode simplesmente jogar isso fora, e transformar todos os sujeitos não alinhados aos guetos das tendências em opositores automáticos. Mas é isso que tende a acontecer! É como se essa galera quisesse governar por apenas um mandato – como ocorreu no governo Joseph, em Juazeiro, pois só há um culpado pela sua derrota: o próprio governo Joseph.

Pois é contra essa atitude mesquinha que venho me pronunciar publicamente. O governo precisa urgentemente abandonar o “balcão de negócios” para tornar-se ágil e competente. Os companheiros precisam desprivatizar a discussão a respeito dos órgãos públicos e dos cargos a eles inerentes. Precisam ver menos inimigos entre aliados e abandonar a tática isolacionista. Isso é prenúncio de derrota futura. Além disso, o governo precisa acontecer!

É contra essa arrogância de gueto que me pronuncio contra a privatização do Centro de Cultura João Gilberto sob o critério do BU e sob domínio da Articulação de Esquerda. Posiciono-me contra a indicação PRIVADA do nome de Márcio Ângelo para ser seu diretor (e não há nada de pessoal nisso), pois é uma indicação de gueto, privatista e até onde sei sem o respaldo da classe artística de Juazeiro.

E se é Marcinho mesmo o indicado, porque ele ainda não foi nomeado? Há alguma coisa mal-explicada nisso. Recentemente ouvi dizer que Luiz Galvão (aquele dos Novos Baianos) está andando rua acima rua abaixo com um abaixo-assinado indicando o seu nome. Acho essa outra solução também desastrosa, inclusive por Luiz Galvão já foi diretor do CCJG e não foi lá essas coisas. Há, certamente, outras pessoas e capacidades a serem reconhecidas.

O meu posicionamento aqui se deve a esse fechamento dos companheiros em discutir tais questões. E nesse sentido, sugiro que a discussão da direção do Centro de Cultura João Gilberto seja reaberta e que outros nomes sejam postos à análise. Aqui vai a sugestão de um nome que desde já me coloco em campanha para defendê-lo – principalmente porque não está alinhado aos guetos das tendências do partido: Antonio Carlos Coelho de Assis (Coelhão).

Pois, se a direção das coisas for essa perspectiva privatista, não se pode dizer que esse governo é “nosso”. “Nosso”, de quem, sarará?