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quinta-feira, 11 de junho de 2009

DO CORREIO CAROS AMIGOS

Peço permissão à Revista Caros Amigos e ao Correio Caros Amigos para replicar aqui, o escrito abaixo, que recebi por e-mail e que vem datado de 10 de junho de 2009. Na verdade é apenas a minha contribuição no oferecimento de outra posição e de outra visão das coisas, que não seja aquela emanada das grandes corporações da mídia nacional e nem da ANJ. Aliás, a justificativa do meu interesse por isso pode ser acrescida da informação de que eu não sou jornalista; sou educador.
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Nova descoberta da Petrobrás abala mídia grande


A criação do blog da Petrobrás merece atenção não apenas por levar a público informações relevantes sobre a maior empresa do Brasil – isto já era feito por sua página na Rede. O grande diferencial do blog está em sua postura firme e decidida na divulgação de sua versão dos fatos e, o que é mais importante: a crítica contundente – e elegante – do posicionamento editorial das corporações de mídia




Foi assim com a Folha de S. Paulo, que afirmou em sua edição do dia 6 de junho que a Petrobrás possui 1.150 jornalistas em sua equipe de comunicação, mas não publicou o desmentido enviado pela empresa. No dia seguinte o blog denunciava a omissão. O mesmo foi feito com matérias publicadas pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Em postagem no dia 5 de junho, o blog da Petrobrás registra, na íntegra, todas as perguntas enviadas por esses três jornais, bem como as respostas encaminhadas pela empresa. E sempre fazendo questão de dizer que apóia a liberdade de imprensa e de ampla circulação das informações.

Com menos de uma semana de vida, o blog foi alvo de violenta crítica de O Globo. Matéria publicada em edição dominical (7 de junho) acusa a empresa de “vazar informações”: “Empresa quebra confidencialidade de perguntas enviadas à assessoria de imprensa pelos veículos de comunicação”, diz o subtítulo. O texto começa afirmando que a Petrobrás é “alvo de suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos”.

A onda raivosa contra a Petrobrás chegou ao ápice neste dia 8 de junho com a divulgação de nota da Associação Nacional de Jornais (ANJ), espécie de confraria das virgens imaculadas da imprensa. A cara de pau é tanta que o senhor Júlio César Mesquita, que assina a nota, afirma que o blog encampa uma “prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa” e que se trata de uma “política de comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao democrático escrutínio de seus atos”. Como, santo Deus, se o blog publica tudo na íntegra – diferentemente das corporações de mídia?

Na verdade, a nota da ANJ é bastante esclarecedora. Se lida ao contrário. Para tanto, basta lembrarmos que atores patrocinaram um golpe de Estado no Brasil, em 1964, em nome da democracia e da liberdade de imprensa. E para que não restem dúvidas vamos consultar a história recente do país e relacionar os setores que sempre lucraram ao manter a opinião pública debaixo de rígida tutela, sobretudo numa época em que não existia a internet – cujas possibilidades põem em marcha uma verdadeira revolução nos meios de comunicação no mundo inteiro. Por fim, vamos notar que esses grupos são os mesmos. E são também os mesmos que juravam de pé junto que no Brasil não existia petróleo...
O argumento político das suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos – todos levantados pela direita entreguista, vale destacar – não se sustenta, posto que acusações semelhantes são simplesmente ignoradas pelos mesmos veículos de comunicação. Exemplo: a denúncia feita pelo deputado federal Ivan Valente ao Núcleo Piratininga de Comunicação de contratos suspeitos firmados entre a editora Abril e o governo do Estado de São Paulo, controlado pelo PSDB. Segundo o parlamentar, nada menos que 10 milhões de reais foram destinados à empresa, sem licitação, só no segundo semestre de 2008.O fato é que o monopólio dos meios de comunicação de massa no Brasil acostumou-se a descrever o país segundo sua própria concepção de mundo. Como não havia voz discordante, esse sistema sempre esteve à vontade para mentir, distorcer, manipular e omitir informações, sem jamais encontrar uma força política proporcional que lhe opusesse resistência.

Esse momento talvez tenha chegado. Agora, a maior empresa brasileira – e a maior do mundo em tecnologia de prospecção de petróleo em águas profundas – criou uma ferramenta capaz de fazer frente à máquina de propaganda neoliberal. Em menos de uma semana o blog da Petrobrás alcançou nada menos que 100.000 visitas, uma repercussão capaz de desestruturar o esquema dos veículos que manipulam as informações para prejudicar a empresa. Se milhares de pessoas passam a ter acesso aos argumentos da Petrobrás diretamente da fonte, e os comparam com o que foi publicado pela imprensa, então esta imprensa é quem será julgada pelos leitores. A nova descoberta da Petrobrás abalou a tática da mídia grande, que consiste em dizer sem permitir o contraponto.
O acesso a diferentes fontes com o advento da internet, aliás, pode ajudar a explicar o recente relatório divulgado pelo Instituto Verificador de Circulação, que aponta declínio na tiragem dos jornais de maior circulação no Brasil. Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Dia estão entre os que mais perderam circulação, sobretudo neste primeiro trimestre de 2009. Não vendem, nem influenciam tanto quanto antigamente. O Globo, só na última década, perdeu mais de 20% da circulação. Por outro lado, a tiragem dos jornais populares e democráticos vem subindo, como evidencia o próprio blog da Petrobrás e outras tantas iniciativas.
Por fim, é preciso ressaltar que se a maior empresa do Brasil vem mudando a partir da nova gestão – mais contratações em concursos públicos, novos investimentos no país e aumento no lucro líquido – ainda existem problemas que prejudicam substancialmente o desenvolvimento do país, sendo a manutenção da quebra do monopólio estatal do petróleo o mais grave deles. E num momento em que os contratos da empresa são questionados, dou minha contribuição: por que não investir na criação e consolidação dos jornais, revistas e blogs que, faz tempo, têm mostrado que praticar Jornalismo ainda é possível? Uma imprensa que mereça este nome é o pilar que resta ser erguido para a constituição da democracia no Brasil.




[Marcelo Salles, jornalista, é coordenador da Caros Amigos no Rio de Janeiro, editor do jornal Fazendo Media e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.]
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

CRÔNICAS DA (IN)SUSTENTABILIDADE

Participei, entre os dias 26 e 29 de maio, em Campina Grande, PB, do "II Simpósio sobre Mudanças Climáticas e Desertificação no Semiárido Brasileiro". Eu fora convidado para uma mesa sobre tecnologias para difusão de informações na rede de ensino. Bom foi ter interagido com outras falas e com a discussão em geral. Saí de lá convencido de uma coisa: nós pensamos mal a questão "sustentabilidade" e pensamos mal o papel que a educação joga nisso tudo. Mas há esperanças!
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Ponto 1.
Por princípio, educar alguém não resolve nada do ponto de vista da sustentabilidade, não produz, a priori, nenhum tipo de reorientação da nossa relação com os meios e recursos naturais. A degradação ambiental é produzida por ações que derivam da sociedade altamente escolarizada. Neste caso, a educação, a ciência e a tecnologia, antes de serem solução, são parte do problema. Temos que acabar com a visão de que são os pobres e desescolarizados que degradam o meio ambiente. Quem degrada é a sociedade altamente tecnificada, industrializada e consumista.
Um Dr. de São Paulo, do INPE, disse que primeiro houve a SOCIEDADE EXTRATIVISTA, depois a SOCIEDADE DE TRANSFORMAÇÃO (a industrial) e agora a SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO. Quis fazer entender que a sociedade que mais causou dispêndio na natureza foi a primeira. As outras não! Principalmente a última. Disse isso com pose de quem está dando a mais fantástica das notícias! Como se na sociedade da informação, silício, petróleo e energia, não fossem derivados de modos profundos de extração. Um extrativisto levado às últimas consequências. Como se computador não ajudasse a exaurir o que a terra pode oferecer.
Disse o Doutor que um bastão de papel é menos degradante do que um bastão feito de galho de árvore. Nem pensou em quantas árvores têm que tombar para produzir um bastão de papel. Disse que a diferença é que o bastão de papel gera atividade remunerada e isso permite produzir inclusão. Esqueceu-se que nós conhecemos a história do capitalismo, que é a história da remuneração, e isso não produziu inclusão, muito pelo contrário...
Disse que a solução do mundo é educação integral... fez com que essa pronúncia fosse feita de boca cheia, de modo que a sonoridade ressoasse no auditório!
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Ponto 2.
Meu raciocínio é simples: quanto mais a gente refrigera, mais esquenta! O esquentamento é fruto do aumento da pressão antrópica, do aumento cada vez mais acelerado das atividades de produção, consumo e descarte. Aí esquenta. Quem pode, compra refrigerador. Quanto mais refrigeradores ligados, mais o planeta esquenta. Simples! E espero que os cientistas me desmintam. Principalmente os do INPE! Os economistas e o pensamento medíocre dizem que o Brasil tem que crescer a 6% ao ano, pelo menos. Isso resolve o problema da economia nacional e ajuda a resolvê-la em termos globais; isso cria oportunidades individuais (principalmente se as pessoas estiverem escolarizadas, com formação acadêmica sofisticada e especializada), MAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA AMBIENTAL. Pelo contrário, aumenta-o! O aumento da produção e do consumo, aumenta a pressão sobre a natureza! Não há outra fórmula! Se há, nós não a conhecemos! Nós não estamos discutindo a produção de outra experiência civilizatória, baseada na diminuição da produção e do consumo. Isso implicaria em rever muitos dos nossos discursos e re-orientar a nossa vida coletiva. Mas não estamos fazendo isso! Estamos dizendo: "consumam, para nos tirar da crise!". Sequer estamos discutindo a redistribuição das riquezas já produzidas e acumuladas e o problema da desigualdade. Estamos, ao contrário, discutindo como aumentar a produção e o acúmulo em poucas mãos de mais riqueza. Apenas isso! Essa direção não serve para a questão da mudança climática e do esquentamento...
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Ponto 3.
E a questão da Educação? A Educação deve salvar o mundo. Todo mundo deve ganhar dinheiro e gastar, comprar e sujar à vontade, mas a educação deve salvar o mundo. Os professores estão depressivos, doentes, aviltados de todas as formas, fudidos e mal pagos, mas eles devem salvar o mundo. Nenhum doutor, tipo do INPE, aconselha seu filho ou filha a irem para a docência (especialmente no setor mais fragilizado, a educação fundamental), pois há profissões mais nobres, sobretudo aquelas em que se pode granhar muito dineheiro quanto mais rápido melhor, e aumentar o poder de compra e consumo, bem no estilo que só faz degradar mais rápido o meio ambiente... mas a educação deve salvar o mundo! Isso, para mim que sou educador, é o fino da hipocrisia!
Eu sei que todo mundo quer ser bacana, que todo mundo tem o direito de ganhar dinheiro e gastá-lo como quiser. Eu sei que a escola ajuda a abrir essas possibilidades e todas as pessoas têm direito a esse direito. Eu sei que esta é nossa idéia básica de inclusão. Mas isso não resolve nada do ponto de vista da diminuição de nossa pressão sobre o meio ambiente! Não apenas a educação não vai salvar o mundo, como também ela sozinha não pode produzir outra experiência civilizatória, sem que a produção da vida ande noutra direção. Enquanto a escola trabalha valores, os outros meios esvaziam os valores e dizem apenas: "consumam, desejem, vivam o êxtase... e o resto que se exploda".
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Ponto 4.
Tudo bem! A Educação pode ajudar. Mas a educação não está apenas na escola - que tem virado uma ilha. A educação está também na TV, na rua, na praça pública, na festa. Mas esses espaços já foram transformados, por políticos e empresários medíocres, em poleiros de degradação e drogadição. Educação? Sim, eles educam, mas se educassem bem, não estaríamos requisitando a escola para que ela salve o mundo.
Quem quer saber de educação? Eu, que sou educador e não pretendo ser mártir, acho que ela pode fazer muito. Principalmente se os professores começarem a ser tratados com dignidade, principalmente se os espaços escolares forem re-investidos de dignidade, se neles houver espaços e tempos para outras linguagens... Principalmente se deixarmos de comprar livros bestas e caros dos cartéis da indústria do livro didático, basicamente situados em São Paulo. Principalemente se começarmos a ousar produzir novos discursos e novas práticas, sem esperar que sejamos autorizados pelos intectuais do primeiro mundo.
Principalemente se estes discursos vierem acompanhados de ações concretas que apoiem nossa capacidade criativa, para prduzir outros materiais didáticos: livros didáticos, literatura de apoio, filmes, vídeos, CDs, DVs, músicas, jogos... contextualizados segundo nossos dilemas, anseios e auto-imagem! Isso talvez até ajudasse a resolver nossa auto-imagem! Talvez, com isso, não salvássemos o mundo, mas pudéssemos re-orientar algumas práticas, a partir de conteúdos encorajados a tematizar o espectro de nossas relações e a nossa feição civilizatória.
Sem engessar a criatividade; mas também sem deixar essa criatividade escrava do liberalismo de nossa época! Aqui há de haver partilha de sentido e compromisso!
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Ponto 5.
Temos que mostrar que somos capazes disso! Sem a tutela dos Doutores do centro. No máximo, parcerias isonômicas. Nada de submissão! E quanto mais nos experimentarmos nisso, mais Capital Social se produzirá entre nós. Neste sentido, o mais importante é apostar na capacidade e na estética dos subalternos! Abrir-lhes oportunidades; apoiar os sabres e aperfeiçoar-lhes a formação técnica e valorativa, para que sinalizem de modo criativo outros universos de sentido!
É por aí que acho que o INSA cumpre um papel importantíssimo nisso, que ainda está em construção! Vamos construí-lo!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

EVANDRO TEIXEIRA E O JORNALISMO DE SUPERFÍCIE

Evandro Teixeira, um dos mais renomados fotojornalistas brasileiros esteve em Juazeiro. No Centro de Cultura João Gilberto, no dia 22 de maio, abriu a exposição de fotografias do Mural Galeria Euvaldo Macedo, com fotos do livro Canudos 100 anos. Ali o céu se move! Está em todos os lugares, e te olha, e dança por trás dos personagens!
Depois da abertura da exposição mostrou fotos de seu acervo e contou as histórias que as fotografias, por si só não contam. Talvez seja preciso lembrar que, especialmente no fotojornalismo, as fotos são registros que não devem contar tudo, e não contam. A maioria delas exige sempre que se explicite, por outras vias, a narrativa que lhe é inerente! Não se trata do deleite esttético da fotografia. Trata-se do que ela tem para contar. E esta narrativa não pode se desgrudar do próprio autor. O fotojornalismo trás essa marca do autor. Se alguma objetividade deve ser aí discutida, deve reconhecer que ela fala do sujeito também. De suas escolhas, de suas aventuras, do seu campo de guerra.
Parei nas fotos do enterro do poeta chileno Pablo Neruda. Evandro estava no Chile cobrindo os eventos do golpe militar liderado por Pinochet. Cobriu os massacres nas ruas e no Estádio Nacional. Registrou cenas da chacina! Fez fotos da janela da sede do governo, em cuja sala Salvador Allende tombou. E soube que Neruda estava muito mal. Foi ao hospital, encontrou apenas o corpo frio de Neruda sendo preparado para a urna funerária e para o enterro. Era o único fotográfo e decidiu a companhar tudo. A preparação, a transferencia do corpo para outro lugar, para escapar dos militares, o enterro... Quero considerar duas coisas aqui:
a) há fotos que, sem essa narrativa, se tornam fotos banais ou iguais a qualquer outra foto, como a foto de uma pessoa improvisando uma ponte para passar o riacho cheio. Seria uma foto qualquer, se sua narrativa não incluisse o fato de que aquela ponte estava sendo improvisada para permitir a passagem do corpo de Pablo Neruda. A foto é um testemunho a espera de outro, que a completa.
b) e se Evandro Teixeira, como fotojornalista, não soubesse quem era Pablo Neruda? Aqui a objetividade e a competência técnica do fotógrafo dependem de uma coisa chamada "repertório". Chamamos isso, ordinariamente, de "bagagem". Sem isso, ele não seria o único fotojornalista do mundo a ter feito tais fotos. E onde se ensina isso? Em que matéria "objetiva" e "prática" se ensina isso?
Todo jornalista jovem, quer chegar primeiro ao sucesso. Já quer estrear como âncora do Jornal Nacional. Na fotografia, já querem começar com uma premiação internacional. Esquecem dos percursos que todos os bons profisionais tiveram que trilhar, começando entregando cafezinho ou espanando o pó das prateleiras. Recebendo alguns nãos e persistindo! Assim se faz um bom profissional, em qualquer área. Com esforço, dedicação e menos nariz arrebitado!
O fetiche no jornalismo anda junto com o agravamento de sua sperficialidade. A objetividade do texto, o foco no espetacular, inibem a perspectiva mais plural dos contextos. Os grandes nomes não se fizeram em salas com ar condicionado! Mas, ao contrário, com trabalho árduo!
Trabalho árduo, aliás, foi o da comissão formada por Flávio Ciro e pelos seus alunos monitores e voluntários, com destaque para Cecílio e Silvana. Eles realizaram um dos mais importantes acontecimentos do jornalismo no Vale do São Francisco, que foi a vinda de Evandro Teixeira. Mas nem sequer a imprensa local, acotumada ao jornalismo de superfície, compareceu e cobriu o evento.
É uma pena!

A LOUCURA EM MOVIMENTO

Na manhã do último dia 19 de maio de 2009, no Auditório Clementino Coelho do Centro de Convenções de Petrolina, participei de um dos mais inisutados acontecimentos, entre os muitos para os quais sou chamado. "A LOUCURA EM MOVIMENTO" nomeou um evento comemorativo ao Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Os debates da mesa para a qual fui convidado orientavam pelo mote "O que é loucura, afinal?".
Boa pergunta, pensei eu! E lá no autidório, todos tinham de louco, um pouco! Usuários dos CAPS, loucos varridos, alunos da UNIVASF, professores, médicos psiquiátricos, artistas, coordenadores de centros de apoio prsiquiátrico... A mesa, então, estava bem representada!

Antes da nossa mesa vi um vídeo de um usuário do CAPS em Minas Gerais, contando um música que dizia algo como: "alguma coisa está querendo sair de dentro de mim; será um caminhão carregado de cimento; ou será um sentimento...". Boa! A loucura é isso: alguma coisa querendo sair, crescendo dentro... Precisa sair!

Para mim que não sou da medidcina - e sei que há na medicina esta pretensão de ser o único campo em que se pode produzir o discurso legítimo sobre a loucura - acho que a discussão é boa! Acho ainda que a loucura é um tema múltidisciplinar. Aliás, a primeira coisa a considerar é o fator contextual da loucura. Basta que uma convenção ou uma conveniência qualquer seja ignorada para que se produza uma situação de loucura. O louco, neste caso (na política, nas relações sociais...) é aquele que coloca-se contra uma ordem estabelecida. Ou então é uma desordem fora do lugar - pois, certamente há um lugar onde se pode ser louco à vontade...
O louco, então, é o imprevisível, o portador da força indomável, uma temível materialidade. Por isso é preciso "educar", como primeiro ato de "cura". Foucault já temtizou quase à exaustão os viesses em que a loucura é epnas este dispêndio de desajuste a alguma regra estabelecida. Por isso é preciso mais que educar: é preciso reter, interditar, silenciar... Assim, fui eu o louco que com outros loucos pixamos a parede da Prefeitura, questionando o despotismo que ali reinava, na minha pequena cidade, tornada feudo. Assim fomos os loucos que saimos no carnaval de paletó, gravata e cueca; que recitamos em cima dos postes do calçadão, que ouvimos rock ("eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada..."), que pomos brincos nas orelhas, que tomamos banho pelados na ilha e usamos roupas um tanto fora de moda... Para nós estavam reservados os recursos da cadeia ou do manicômio, como procedimento normal.

É correto pensar que há, como no filme "As Loucuras do Rei Georege", uma situação de alteração orgânica, em que a pessoa já não controla duas próprias escolhas. Mas nem isso está ausente de motivações contextuais. A sociedade de agora, por exemplo, é uma formidável fábrica de ansiedades e depressões. Leiam a Caros Amigos, edição do mês de maio de 2009. Ali há uma entrevista com a psicanalista MARIA RITA KEHL, onde, falando de seu livro, analisa as conseqüências do ritmo frenético da vida contemporânea e aponta a depressão como sintoma social (leia trechos). Nunca vi uma geração tão facilmente depressiva! Nunca a palavra depressão se banalizou tanto. Em "O Vestígio e a Aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo", Jurandir Costa Freire analisa bem algumas situações, e entre elas, o hedonismo, o narcisismo, a doenças somáticas de todo tipo, as bulimias e aneroxias, e estultia, resultado das excitações cotidianas, das promessas não cumpridas, das autopunições em razão disso e da assunção da impotência e da autocomplacência. O resultado nunca é tranquilo! Como diz Gabriel, O Pensador, "Aquilo que o mundo me pede, não é o que o mundo me dá". Esta é a fábrica de loucura que não cessa! A felcidade tornou-se paradoxal, segundo estudos do francês Gilles Lipovetsky. O gozo sempre postergado, adiando, não cumprido - principalmente quando a promessa é sempre de um gozo excepcional e até extra-humano. Mas ele nunca vem! É sempre aquela normalidade pífia. Frustração que vira buraco sempre mais aprofundado, para ser enchido de tudo que é apetrecho material e sensorial: a vertigem do consumo, a aneomania, a velocidade, o êstase, a moda, o fetiche, a droga... Isso dá dinheiro! As indústria e sua publicidade não param de sacar desta conta e de aumentar o rombo! No fim das contas, são as pessoas que, sozinhas, têm que ser responsabilizadas pelo descontrole. São elas que pagam, em seus corpos, com seus corpos, essa conta. São elas as encarceradas, as interditadas, as mutiladas!

Mas a conversa versou sobre esperanças. Aquilo que quer sair, que precisa sair e como oportunizar a saída. Os monstros que devem ser exorcizados, não exigem tanto as drogas científicas destinadas a este fim, mas as oportunidades de desinterdição. É preciso destrancar o sujeito! A arte, as produções expressivas, o movimento, a dança, o riso, a minimização da solidão! Às vezes, isso é quase tudo o que uma pessoa precisa para voltar a si, recuperar o cuidado de si, tomar de volta o controle de suas escolhas.

Achei bacanas as conversas! Mas acho ainda que os governos deveriam criar mais oportunidades para as novas e velhas gerações, para acalentar nossas loucuras. As nossas cidades continuam feias, sujas, barulhentas e ivadidas por tudo que é porcaria. É preciso abrir outros destinos!

domingo, 17 de maio de 2009

D E S V E N T U R A

O poema não é esse
Mas outro não acontece
Não se insinua, não nasce
E se não nasce, não cresce
Não desenvolve ou floresce

Outro poema não veio
Pois paralisou no meio
Nas franjas do cerebelo
No pouco de zelo e medo
Entre ousadia e receio

Porque olhou de viés
E afundou cem mil pés
O amor que nem merece?

Mas não há nenhuma multa
Nenhum castigo se imputa
Sua desculpa é que não desce!

NADA

Pelos pêlos do camelo!
Meu amor carece zelo
Como ar para o nariz
A bola, a pipa e o cabelo

Meu José carece Mar
Para amar as profundezas
Do teu corpo de planeta

Meu corpo carece um copo
De nada para nadar!

L U T O ! ! !

Quando caio na luta
Ás vezes saio de luto
E mesmo de luto
Caio na luta
E luto!

domingo, 3 de maio de 2009

A LIBERDADE POSSIBILISTA

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Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
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Mesa de bar é onde os papos mais inusitados se estabelecem! Algumas vezes é onde se dispõem aquelas convicções que sequer duram até o último instante da noite. Há sempre os que têm convicção de sobra e os que nada querem com a convicção. Há os que constóem uma imagem de si tentando demonstrar a clareza de suas escolhas, e os que preferem ancorar esta auto-imagem na imagem de abertura total. Em geral nem uma e nem outra são posições assim tão sustentáveis. A certa aultura da noite, estarão os sectários tentando desfazer alguma rigidez que se esconde no ecletismo dos relativistas. É só papo de mesa de bar! Mas, em compensação, é um bom exemplo de como produzimos a vida! Primeiro, a necessidade de ir ao bar! É como religião! No fundo todo mundo se fixa em alguma órbita. Alguns vão para a gnose, outros para o chá de auasca, outros para algum esoterismo oriental, outros vão para a Igreja Universal. E muitos outros vão para o Cais do Porto! Eu, entre estes!
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O mais interessante é quando a gente encontra gente muito nova querendo dar lição em gente mais vivida! Ultimamanete é isso: os meninos sempre acham que estão por cima da carne seca. Estão na crista da onda, na crista da novidade, surfando na "sociedade da infromação". De vez em quando até ficam tentando fazer com que a gente se sinta mais velho do que é. Meninos e meninas da geração saúde, que não fumam, que não bebem, que só se drogam de shoping e de moda enlatada, e que dão a entender que são muito abertos, descoladas e bonitinhas, podem até levar a gente a ficar lastimando não ter podido acompanhar melhor essa era da pegação! Ou então a gente fica tentando "agregar algum valor" à idade, pousando de quem viveu coisas sensacionais. O problema é que a certa altura do papo vem sempre uma frase do tipo "isso era no seu tempo". Que coisa horrível! Aí somos obrigados a reagir com algum "meu tempo é hoje!" Resta saber se esta geração descolada e expert em tudo, é mesmo sem preconceito, ou se tudo não passa de uma capa de exibição com verniz cafona, caretice que se esconde na maquiagem da cutis sedosa.
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O papo dessa vez era sobre liberdade, escolhas, educação de filhos, etc. Liberdade é uma dessas palavras que já não sabemos mais o que quer dizer. Os homens de negócio sabem que é preciso não haver barreiras às suas criativas formas de ganhar dinheiro e a isso chamam liberdade. A liberdade de expressão também anda por aí. Antigamente ela era um bordão na boca de uma geração silenciada pela repressão e pela grande mídia, coadunada com a repressão. Liberdade de expressão não era termo proferido pelas grandes comporações da imprensa. Pelo contrário: este era um discurso dos silenciados, dos pasquins clandestinos. Ultimamente a liberdade de expressão banalizou-se como discurso do grande conglomerado da imprensa nacional, justamente aquela que se especializou em distribuir baboseiras aos montes para imbecilização geral na nação! E qualquer proposta de questionamento disso aparece, perante o discurso dessas corporações, como sendo uma ameaça à liberdade de expressão! Em outra instância a liberdade de organização e de fé beira hoje a cartelização geral do mundo e a comercialização de Deus. A própria fé virou um bom negócio, com direito a publicidade e tudo!
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De fato, tudo virou uma questão de consumo. A indústria que dirige a promoção e a regulação do consumo (sim, por que é preciso administrá-lo, criar disposições...) tem a publicidade e a propaganda como os principais instrumentos de gestão da própria vida coletiva. E ai de quem ouse questionar a liberdade da publicidade, mesmo quando ela é explicitamente danosa e irresponsável. Nos tornamos ordas de consumidores atrás dos nossos "nichos" - palavra mais que apropriada e assimilada pelo próprio discurso do empreendedorismo. Nossa liberdade virou uma coisa estranha. Nós a temos cada vez mais, e cada vez mais somos mais prisioneiros. Construimos em nossas casas nossas prisões domésticas, aparelhadas com muros altos, grades, cadeados, microcâmeras e cercas elétricas. Temos medo de tudo, e os que podem só saem às ruas em carros com vidros blindados. Vivemos a era do medo e do pânico, muitas vezes distribuídos pela mídia de massa! Curiosa essa nossa liberdade!
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Mas, como estamos numa mesa de bar, sempre pode acontecer o inusitado. Desta vez uma garota bonita trouxe uma palavra nova. Nos disse que o mundo não é mais determinista, mas possibilista. Sonoridade nova! Coisa chique! Ora pois, mas então devem estar ensinando isso nas escolas, na Universidade! E talvez até a própria publicidade esteja se encarregando de generalizar tal novo conceito, tão importante à nossa vida contemporânea! Possibilismo! Grifo eu! E o que vem a ser isto? - pergunto. "Ah, é isso, é que hoje em dia você pode escolher, você pode decidir sobre sua vida, o que você quer ser; não tem mais esse negócio de imposição, de proibição. E você não é obrigado a gostar de uma coisa só, depende do momento..." Parece bom! Parece residir aí uma formidável imagem de abertura. Seria um devir deleuziano?
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Bom, minha curiosidade não pode esperar que a nova palavra fosse grafada nos dicionários, ou nos livros. Como um bom contemporâneo que afirma que "meu tempo é hoje", recorri ao copy & past que a internet e as novas tecnologias da informação e da comunicação (NTIC, chique!) me possibilitam. Fui ao meu amigo Google, escorreguei até a Wikipédia (ignorei suas pendengas) e achei: "Possibilismo foi uma tendência introduzida no movimento socialista europeu que aceitava o princípio do reformismo, considerando que se devia tentar obter apenas o que era possível, o que no seu entender não incluía uma revolução proletária. O conceito teve origem na França, no seio do movimento socialista defendido por Paul Brousse, Benoît Malon e outros. O surgimento do possibilismo e de uma facção que defendia a via reformista levou à cisão do Partido dos Trabalhadores da França em 1882".
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Ora, ora! Será que as Universidades estão ensinando direito? Será que a propaganda e os workshops que trabalham também com outras palavras chiques como inovação, flexibilidade, resiliência, etc., estão colocando a palavra possibilismo no lugar certo? Essa origem um tanto política do termo será que ainda interessa a alguém? Se mexer um pouco mais vai ver que o possibilismo aparecerá de namorico com o pós-estruturalismo francês, com o pós-modernismo, com o pós-utópico, o pós-crítico e o pós-tudo... e quiça não ande de braços dados com o neoliberalismo!
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Fucei um pouco mais e encontrei, também na Wikipédia, que o "possibilismo é uma escola do pensamento geográfico (Francês) que encara o ambiente natural (a Natureza) como um mero fornecedor de possibilidades para a modificação humana, não determinando a evolução das sociedades, sendo o homem o principal agente geográfico (...). O gênero de vida não é uma consequência inevitável das condições ambientais, mas de um acervo de técnicas, hábitos, usos e costumes, que lhe permitiram utilizar os recursos naturais disponíveis. Juro que já vi isso, especialmente nas teorias da cultura, nas definições de territorialidade, enfim! Mas há mais: o possibilismo surgiu nos finais do século XIX, em França, como reação ao determinismo ambiental propugnado pelas correntes geográficas alemães, tendo como principal proponente Paul Vidal de la Blache. Mesmo que admita alguma influência do meio [natural, digo eu] sobre o homem, essa escola afirma que, o homem, como ser racional, é elemento ativo, portanto tem condições de modificar o meio natural e adaptá-lo segundo suas necessidades".
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Bom! Mas aqui há ainda uma ressalva a fazer. Há também um francês, chamado Edgar Morin, que em um de seus "Métodos", o IV, vai afirmar que o meio não é só natural. O meio ambiente é social, noosférico! O homem é sim o seu pricipal agente transformador, mas isso inclui todo tipo de jogo. Inclui todo tipo de força e de farsa. Os dispositivos físicos e a camada de imaterialidade constituída de todo tipo de signo, de linguagem. A cultura, a tecnosfera, a política, o negócio, a publicidade, o narcotráfico e tudo o mais! Este meio interfere sim na constituição das condutas, especialmente porque somos levados a adotar sempre uma gramática de bando. É preciso levar em conta essa nossa tão antiga - e cada vez maior - disposição para o bando, essa espécie de "espírito de bando", de experiência de "manada", o "efeito manada". Um meio que possibilita (possibilismo) e o faz em geral operando também certas convocações e mesmo certas coerções. A própria Natureza não só possibilita, mas também veta. E ai de nós que não entendamos urgentemente os seus limites!
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Menina bonita essa que pronunciou "possibilismo". Mesmo! Resta saber se ela não será a mesma que pode expressar facilmente uma espécie de caretice "de bando", típica de uma geração que se mostra demasiadamente eclética, mas que, no fundo, esconde nesse ecletismo seus fechamentos e suas limitações para o julgamento! Uma geração facilmente disposta a julgar o feio, o fora de moda, o cafona, o nada a ver! Que até vive julgando os pais em relação a isso, reclamando das combinações de roupa das mães; muitos até se envergonham dos país, não querem ser vistos com eles... Uma geração que sofre com pouca coisa, que vive com depressão, que vive se achando fora do modelo - e é dai que vem a maior parte das doenças somáticas dessa geração! Ave Maria, nunca vi uma geração tão facilmente depressiva! Eu não entendo! E onde é que entra o tal possibilismo? Será que não é um termo que apenas faz frente a qualquer regra de responsabilidade que esta geração tenta a todo custo evitar? Quais são seus outros engajamentos, fora da moda, do consumo e das fantasias elatadas? Se ainda querem transfromar o mundo, em que direção será essa transformação? Será demasiado afirmar que esta mesma geração, que diz estar à nossa frente, é a mesma que não concebe a possibilidade de ter responsabilidades?
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Voltando à liberdade, esta todo mundo quer! Ninguém, por outro lado, quer lutar por ela e bancá-la. Liberdade virou uma coisa que os pais dão aos filhos logo muito cedo, como se fosse uma penca de chaves e a autorização para dormir em casa com o/a parceiro ocasional. Liberdade é isso? Liberdade virou sinônimo de plaquinha no quarto do filho "favor bater antes de entrar, respeite minha privacidade", quando é a própria privacidade dos pais que não existe mais, nem é levada em conta. Aliás, numa sociedade paranoicamente autovigiada, é a própria privacidade como condição da liberdade que foi-se para as cucuias. Tá assim de filhos repreendendo os país por alguma bobagem, enquanto os repreensores detestam ser repreendidos. Tá assim de pai que virou refém dos filhos apenas para parecer moderno! Aliás, há de tudo - e coforme o pensamento em voga, cada caso é um caso!
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Resta saber se essa idéia de "liberdade possibilista" não está ela própria retida no limite do "copy & paste". Eu mesmo copiei e colei informações sobre o possibilismo que constam na Wikipédia, com a ajuda do meu "amigo" Google. E podemos dar por concluído o aprofundamento sobre o conceito? Há outros exemplos, como aqueles que se situam no contexto da linguística, quando se trata de discutir reformas que implicam numa tensão entre língua e identidade nacional, como ocorre no seio do chamado nacionalismo galego, em que o possibilismo acaba sendo questionado e aproximado do mero liberalismo. Ora, então pode ser isto: uma palavra nova para dizer de um novo jeito aquilo que o liberalismo já selou. Ao que tudo indica, há muito mais a conhecer sobre o possibilismo!
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Em relação à liberdade, não se trata de apenas "jogar os dados" e de deixar a porta sempre aberta. Se assim fosse, por que estaríamos nos encarcerando tanto? O que eu sei é que toda a liberdade de que se fala ultimamente está de algum modo adequada às escolhas de consumo, já vampirizadas pelo dirigismo da publicidade. Além disso, como é que eu escolho algo que não está posto para escolha? - pois uma das coisas que a lógica de mercado faz é vetar o espaço para aquilo que não se presta a ser cosumido em grandes quantias. O grosso consumo e a audiência é que mandam! A imprensa e a própria política são escravas da audiência e do espírito de bando, e se encarregam de (re)produzir o efeito manada! Para onde uns vão, todos devem ir. A própria política e a imprensa trabalham para fortalecer esta idéia, para levá-la ao extremo, à exasperação. Então, me digam onde fica a liberdade e o possibilismo nisso!
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Se em boa medida os dados já foram jogados, é preciso saber até onde essa palavra nova nos leva e o que ela se presta a esconder atrás de sua sonoridade charmosa e de sua promessa de novidade. Ainda bem que, com essa palavra ou apesar dela, há sempre a possibilidade de, lá pelas tantas, depois de vários goles, a gente mandar a seriedade ir passear, cuspir na cara das regras duras e se jogar no possibilismo! Mas se fosse só isso, por que teríamos que tolerar uma "lei seca"? Porque há também os sem noção, os exibicionistas, o individualismo, o narcisismo e o hedonismo! E é apenas para preservar o lugar de todos que certas coibições se justificam! Mas regra virou palavra feia demais, eca! Na abertura do ERECOM (encontro regional de estudantes de comunicação), que ocorreu no ano passado no DCH III/UNEB, quando um dos coordenadores da abertura disse que tinham que combinar algumas regras, o bando todo ensaiou uma vaia: "que porra de regra!". Ainda bem que houve a auto-gestão de regras. Mas regras houve!
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Fiquei pensando apenas o seguinte: e quanto a nós, os pais, ainda temos algum papel a cumprir? Não me parece que é isso que coisas como a Super Nanny, alguns episódios de novela, algumas reportagens e os novos discursos pedagógicos estão a dizer. Sinto mesmo que uma nova convocação para que os pais reassumam seu papel na educação dos filhos está ganhando vigor. E sobre o resto eu prefiro acreditar em Bárbara, minha filha, conforme o seu blog: http://blueknapsack.blogspot.com/. Ela deve saber mais do que eu sobre a sua própria geração.
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Mas é claro que, lá para as tantas, um papo como este já cansou a maior parte dos participantes - ou então já ficou animado demais e até pernicioso. Então vamos cair na bagaceira, pois como diz um outro jargão em voga no presente, "QUANTO PIOR, MELHOR". Pense numa sociedade doida! Mas não me cobre nada não viu, que eu estou na minha LIBERDADE... e a noite é uma criança (tomara que não seja mimada)!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

PAPO DA MADRUGADA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Véspera de feriado é assim. Mesmo que o tempo esteja de cara feia, e haja uma atmosfera murcha nos bares, a gente inventa um canto na casa de alguém pra esticar a noite. E lá pelas tantas, os mais sóbrios se arriscam em ir buscar mais alguma coisa pra beber em algum lugar sempre aberto na madrugada. Aí não vai um só: vai uma cambada inteira! E aproveita pra ouvir um som, pra puxar um papo e para dar outras voltas.
Ontem foi assim. E o papo foi daqueles. Falei de pessoas que nunca conhecem as músicas que a gente gosta, como se vivêssemos em mundos muito diferentes. Uma garota que pegou carona comigo peguntou se eu não tinha O Bonde do Tigrão. Eu falei que não! "E Gatinha Manhosa?" Também não. E "Saia Rodada?". Também não. E "Vitor e Léo?" Também não. "Vixe, você não tem nada disso? Você ouve o quê?" Ouço Djavan e Gil, e Céu e Ceumar e Pedro Luis e a Perede e Cidadão Instigado e Zeca Baleiro e Nilton Freitas e Alexandre Leão e Maviael Melo e Clã Brasil... "Djavan? Você tem Djavan? Eu adoro Djavan!" Tenho sim! "Tem Dia Frio?". Não! Tenho um disco chamado "Alumbramento". "Não, conheço não"... No meio da conversa a pessoa vê um disco de "Garotos de Programa" e seus olhos brilharam: "não acredito! Você tem Garoros de Programa? Bote aí!" E vai logo se enxerindo em colocar o tal disco que recebei num brinde de posto de gasolina, afff! E vai logo se atrevendo a aumentar o volume até... "Peraí! Calma! Eu não costumo nem ouvir este disco nem ouvir nada neste volume. Por favor!" Pois é!
Cris falou de uma pessoa que ele conhece que revelou num papo que não conhece, Caetano Veloso, nem Djavan, nem Tom Jobom, nem - imagine! - Gilberto Gil, nem - pior ainda! - Luiz Gonzaga!!! Porra! Mas, segundo informações do informante, é uma garota gostosíssima! Gosta de pagode, de "rala a tcheca no asfalto" e coisas do gênero! Ambas as situações narradas envolvem garotas em torno dos 20 ou 20 e pucos anos. Pensei comigo: a nossa Constituição Brasileira, a Constituição Cidadã, faz 21 anos neste ano de 2009. É da idade dessas garotas! E o papo foi andando!
Já ouvi alguns conservadores afirmarem que o problema do mundo é que hoje em dia "tem democracia demais". Às vezes acho que deveríamos simplesmente desprezar posições deste tipo. Às vezes acho que deveríamos considerar a possibilidade de posições deste tipo serem um índice de que essa saudade dos tempos de chumbo ainda pode criar problemas. Mas não me furto a pensar no paradoxo da nossa jovem democracia! Fico pensando, às vezes: as gerações que hoje têm em torno de 20 anos (idade de nossa constituição) são um retumbante exemplo da qualidade de nossa democracia! Será que nesses anos o apartheid cultural só fez de acirrar? Será que nossa sociedade da informação tem sofisticado os seus filtros para fazer com que existam mundos tão separados e paralelos que uma jovem de 21 anos, vivendo um centro urbano de relativa importância, cruzado de diversos meios de comunicação, não conheça alguns artistas que de fato são ícones da cultura musical brasileira? O que isso significa? Este é um tema banal e sem importãncia? Como é que isso marca a nossa jovem cidadania?
Os que me lêem podem pensar: "eita que o cara agora assumiu o seu próprio conservadorismo". Estam na era do relativismo absolutista (ou do absolutismo relativista, que deve dar no mesmo). Os mais "descolados" intelectualmente acham que "é isso mesmo". É o povo gerindo sua própria vida como bem entende e sem dar explicação a ninguém. Eu de cá penso: "santa inocência!" Eis aí um modo de a própria "indústria do abestalhamento" se autojustificar - e de se ocultar também. Então ficamos no seguinte ponto - porque afinal a noite segue seu ritmo e a cerveja está esquentando, e não podemos nos dar esse luxo de desperdício: a questão é saber se essa aparente "livre escolha" tem produzido um mundo melhor. Temos sido mais responsáveis, mais comprometidos com problemas coletivos, mais preocupados com o futuro nosso e do planeta. Tenho muitas pistas para afirmar que não. Tenho muitas razões para pensar que JAMAIS deveríamos desejar voltar à situação anterior, da Ditadura! Mas tenho as mesmas razões para pensar que, se não quisermos voltar àquilo (e ainda viver na ilusão de que somos mais livres, o que é perfeitamente possível), deveríamos tantar fazser a nossa democracia sair da adolescência - afinal ela já vai fazer 21 anos.
Sair da adolescência significa, não voltar a proibir, mas distribuir de modo mais igual as condições de participação, a educação, a cultura, ainformação. Uma sociedade que se nomeia de "sociedade da informação" não pode simplesmente deixar a socialização das novas gerações ao encargo do orkut, do MSN, dos porta-malas dos automóveis ou da sanha privatista que hoje abocanha as festas populares e a praça pública.
Não há nenhum problema em uma jovem gostosíssima (segundo Cris) gostar de pagode e de ralar a tcheca no chão. Mas há problemas sim em ela não conhecer um dos mais importantes artistas brasileiros que, acima de tudo, foi também o mais significativo dos Ministros da Cultura Brasileira até mo momento, Gilberto Gil. É apenas este ponto! Exatamente este ponto porque ele coloca um desafio ao próprio Ministério da Cultura, que é o de ampliar as oportunidades culturais. Mas coloca também desafios à Comunicação (ainda bastante privada e privatista) e à Educação.
A Democracia Brasileira precisa sair de sua fase adolescente, marcadamente leberal e ingênua! O apartheid social no Brasil ainda é enorme.
Mas agora é hora de voltar e abrir mais uma cerveja, que já demoramos demais nessa conversinha!

domingo, 19 de abril de 2009

ALMAS CIBERNÉTICAS

que almas calmas roçam de leve a poça d’água
sopram os galhos da palmeira
estilhaçam cada gota antes que elas toquem a terra
e rompam sua áspera aridez?

que almas calmas embalam as cigarras?
não aquelas de óperas desesperadas
no seio ressequido do sertão
mas este chiado constante do lugar aonde chegamos

estas almas calmas conseguem captar velocidades?
e conseguem contrapô-las?
há almas que resistam a este chiado constante
de cigarras cibernéticas?
a este reboliço que estremece
na invisibilidade das instituições que nos habitam?

que almas calmas resistem a longas reuniões?
a barrigas vazias, salários atrasados
e demasiadas teorias?

que pressupostos movem as almas calmas?
e as fazem acordar cedo no chiado de cada dia
bule no fogão, chiado da chaleira
trânsito na rua, turbina do avião
vassoura e chinelo se arrastando pela sala
esgotos descendo embaixo do chão...

casulo de lagarta se rompendo
ruídos das asas da borboleta
que almas calmas captam esses sons sutis
do estrondo do sol se levantando
das raízes rompendo lá embaixo o chão
da lua escorregando na minha janela?

almas calmas dormem nesse zum-zum-zum de abelha?
no chiado do enorme entulho de barulho
que depositaram bem abaixo da minha orelha?

dormem com o rugir da vida andando, indivisível?
ou na engenhoca das coisas se movendo, dragão invisível?
onde se afugentaram longe daqui as almas calmas?

aqui moram agora as cibernéticas, de silício,
só éter, chama, luz e sobra sem textura
que não dormem um instante e sequer pousam

e se cairmos todos agora desta altura?


(Poema ganhador do VI Salão de Artes Universitário Regional, na categoria poesia. UNEB/DCH, abril de 2004)

A CHUVA

A CHUVA

Há dias vinha havendo o aumento do abanar de mãos à cama
O arreganhar de janelas e o abuso dos ventiladores
O tempo quente e úmido e pesados tons eram os do céu.
A mulher murmurava – “vai pegar fogo em tudo!”
Enquanto o homem desabotoava a camisa alisava a pança.

Presságios! E nem por isso arrumou-se o telhado.
Nem por isso recolheu-se o lixo das ladeiras
Ou limparam-se as bordas dos bueiros.
Nem por isso afastou-se dos precipícios das encostas
Os desvalidos de todas as estações do ano
Nem deu-se folga à margem já minguada do riacho!

E o tempo trincando tudo de calor!
Daí a pouco, um pingo grosso, pancada forte na vidraça
E logo outro e outro e outros...
Um raio rachou o céu no meio, de cima a baixo
Crispou uma franja na borda do céu
E o estampido foi quase uma bronca irada na moçada!
E veio a primeira enxurrada!

E tão logo correram todos a aparar goteiras,
A fechar janelas, a recolher roupas no varal
E desligar os aparelhos eletrônicos...
E outros tantos a desabar ladeira abaixo
Ou a nadar no rio da rua, se a sorte lhe foi boa!

Era a chuva, nos dizer de nosso despreparo
em conviver com suas (ir)regularidades.
E ainda assim comemoramos, em meio ao aperreio!
Certamente a natureza se refresca
E em pouco tempo os brotos farão festa.

Por enquanto uns alegremente se lameiam.

Outros tantos só lamentam!
E alguns, nem isso! Apenas bóiam!

DIA E NOITE

os dias passam como as águas
como o rio, o tempo é sempre adiante.
só eu pareço parado, franja na testa, idéia tesa!
ouvindo escorregar o tempo como as águas
e algo, porém, em mim, é radiante.

eu ouço o tilintar metálico das horas
eu sinto o palpitar da terra se movendo
perscruto até o ranger das nuves lá no céu
outras coisas nem com esforço entendo
como um larido que há aqui na vizinhança
que eu não cogito razão de existência...
ou a xaropice dos barulhos da cidade
que vazam até mim pela fresta da janela
e gastam até um pouco a minha tolerância
mas por hora só sei do zumbido maior dentro de mim
este sim, exige dose maior de paciência.

acho que sei que a vida é assim
um labirinto largo, que dura a vida toda
e que só à noite a alma se liberta
e até flana em passeios que não conto.

penso que um outro eu de mim se despreende
para rondar os becos da cidade
até achar um deles que leve ti
para ter, assim, notícias suas
e vira esquinas e dobra ruas
e volta a me dizer que dorme em paz,
que tem os olhos bem fechados
e um riso inciado na boca entreaberta
e quando a manhã vem e me desperta
eu tenho a sensação de ter sonhado.

assim vivo, dessas sensações pequenas
desses pequenos acenos dos seus olhos
dessas mentiras que invento pra mim mesmo
pois dentro de mim só o que existe é ermo
o tempo extenso, o dia quente e longo

já que nessa confissão eu escorrego
aproveito então e digo logo
que só em sua promessa e eu já me afogo
um meio sorriso seu, e eu já desabo...

e espero o tempo, rio que nunca pára
que me promete que quem espera alcança
promessa esta que em mim balança
pêndulo do tempo, e apenas isto!
e se nem assim isto me cansa,
assim também, afirmo, eu não desisto!

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

chegada e permanência

I

a criança abriu os olhos e viu tanto brilho
disseram que a mãe
deu-lhe a luz
- puta que pariu!
- quanta luz!
a criança chorou,
tomou banho e se vestiu
no mundo da luz
a criança não sorriu
pediu silêncio,
pediu escuro e dormiu

II

e veio fome de peito,
fome de pão e de afeto
colo de mãe e de pai
e antes do chão, viu o teto

o clarão diminuindo
cada imagem clareando
cores das coisas, foi vendo
vida se foi tecendo

a textura, o mole, o duro
e o território do quarto
desenhando o seu futuro

o sexo e a identidade
pendurados nas paredes
nas cores e nos brinquedinhos
um dizer silencioso
na pelúcia dos bichinhos

e a criança escutando
tornando-se aos pouquinhos
por cada dizer profundo
que falam todas coisas
um ser total deste mundo.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O RECADO DAS URNAS

JOSEMAR MARTINS (PINZOH)
Professor e filiado ao PT
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Nossa democracia ainda é uma criança. No dia 5 de outubro de 2008 ela fez apenas 2o anos e quase ninguém lembrou, acendeu-lhe uma vela e cantou-lhe parabéns! É ela da idade de muitos jovens que, em 2008, ainda estão votando pela primeira vez. Talvez estes meninos, que acham que estão na “crista na onda”, que acham que sabem tudo, mas sabem cada vez menos, não compreendem o simbolismo desta data. E sequer os políticos fazem qualquer esforço para lembrá-los. Tudo virou espetáculo! Mas, ao invés de ficarmos lamentando, nem tudo está perdido – e é com os jovens também que nossa esperança se renova; por isso é importante considerar que estamos aos poucos aprendendo a fazer democracia.
///
Os mais conservadores, que têm saudade dos tempos de chumbo e do despotismo com que o coronelato exercia seu poder nos sertões, acham que se o mundo está muito confuso hoje é por culpa da democracia. Estes dizem isto porque não sabem o que é democracia, não lutaram por ela e não estão interessados nela. E, de modo geral, a maioria confunde a espetaculaização de tudo com democracia, confunde baderna com democracia e – o que é sempre pior – confunde liberalismo com democracia. Mas a democracia não é nada disto. Na democracia existem regras e, infelizmente, quanto pior sem elas. O sonho de uma sociedade desprovida de regras e coibições parece um tanto pesadelo, quanto mais temos dificuldades em lidar com nossa liberdade, quanto mais retardarem a diminuição das distâncias entre ricos e pobres, quanto mais continuarmos a ser “o lobo do homem”. Mas vamos aprendendo e, quiçá, um dia, quando tivermos aprendido mais, podemos até afrouxar o aparato disciplinador.
///
As regras das eleições têm evoluído para permitirem minimamente as condições de participação democrática. Aprendi a política, antes da Constituição de 1988, no sertão, com alguns filhotes da Ditadura Militar (ou representante dos filhotes) governando com mãos de aço. Aos prefeitos não se exigia lisura em nada – e nem instrumentos para tal havia. Quem era a favor tava bem; quem fosse contra tinha que amargar muitas humilhações e perseguições, quando não tinham que pagar, alguns, com a própria vida. E quem foi punido por isto? Quem foi punido pelas tantas corrupções cometidas? Mas alguns velhacos ainda teimam e querer firmar que só há corrupção gora. Fui menino e jovem num tempo em que voto era comprado com saco de cimento, cestas desviadas da merenda escolar, caçamba de areia, tijolo, dentadura, ligadura de trompas e até com vaga em escola. Conheci o tempo do voto de cabresto. E quem é que os praticava? Muitos desses ainda estão por aí, ainda em atividade.
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Na minha cidade tinha uma ambulância que os prefeitos que se revezavam (e eram apenas dois) tratavam como se fosse ela uma propriedade dos mesmos. E como não havia atendimento médico decente na cidade (e todos os exames que fazíamos no posto de saúde davam sempre “normais”), qualquer probleminha mais sério era preciso “tirar” pra Juazeiro, na ambulância “do prefeito”. Com isso – políticas públicas revertidas em gestos de caridade; direito público convertido em “favor” de político – muita gente ficava devendo várias vidas a estes políticos, e a eles tornavam-se cativos, pagando em voto através de várias gerações.
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Mudamos, aos poucos, mas mudamos bastante! Talvez nem percebamos, mas mudamos! Ora, mas quem é que fez isto mudar? Foram os velhos políticos? Foi ACM ou os cativos dele? Não! Não foi não! A construção da democracia foi (e ainda é) dura. Mas o ponto em que estamos é fruto da ação de muitos que sequer foram eleitos alguma vez – enquanto alguns estavam refestelados no poder. Foi assim que a velha elite foi aos poucos saindo de cena, ou saindo dos seus lugares habituais para permanecerem em cena, como ocorre hoje com muitos do PFL, que transmudou para DEM, mas não escapou ao naufrágio. Por isso, muitos deles, ao verem a velha casa desmoronar, pularam fora. É curioso ver os velhos déspotas dos sertões da Bahia, por exemplo, indo parar no PMDB, partido do velho Ulisses, uma das figuras mais simbólicas da luta pela democratização do país e da promulgação da nova constituição. PMDB que tem virado a morada de muitos déspotas vindos do PFL.
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Da mesma forma é curioso que muitos partidos que deram grandes contribuições para a construção da democracia – como o PT, o PC do B e outros – de vez em quando, acabem sendo vampirizados por personagens que os colonizam em benefício próprio, oportunistas que querem repetir as velhas estratégias do despotismo. Certas coligações, por exemplo, sequer poderiam ser cogitadas há algum tempo. Mas há coisas que estão mudando! Mesmo que as fronteiras entre os déspotas e os democratas (imagine o absurdo do PFL ter virado “democrata”) já tenham sido borradas, há recados que a população manda. Só não entende quem não quer.
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Para mim as eleições de Curaçá e Juazeiro trazem estes recados. Em Curaçá um velho político (não de idade, mas de espírito) achou que poderia governar da mesma forma com que governou a cidade durante muito tempo, lá nos anos idos de 70 e 80. Mas parece que, mesmo ele utilizando a máquina da Prefeitura, amarando compromissos por “favor” de emprego e outros, a população disse, não! Os jovens, que não o conheciam, e os velhos que dele estavam com saudade depois de doze anos, não parecem ter gostado tanto assim da escolha que fizeram na eleição passada! Mas também parece que não há mais um compromisso de fé da parte dos que votam, em relação a quem ganha: “depois de quatro anos, se não estiver bom, a gente tira”. Este parece ser o recado e tomara que ele seja ouvido também por quem se elegeu!
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O recado em Juazeiro tem outro sentido: muitas pessoas comemoraram, no dia 5 de outubro de 2008, não tanto a eleição de Isaac (mas muitíssimos comemoraram isso também, claro), mas a derrota de Misael e Joseph. Misael, mesmo com a máquina na mão – e tudo indicava que ele a estava utilizando muito bem a seu favor (afinal, o que é isso de deixar para fazer as obras de quatro anos no último mês de campanha?) –, mesmo se valendo da participação dos funcionários e prestadores de serviço que deveriam conseguir “pelo menos dez votos” e mesmo se valendo de argumentos escusos como “não acredita em Deus” (que coisa ultrapassada!), deve agora tentar entender o que o eleitorado tentou lhe passar.
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Joseph, finalmente, foi impedido de constituir para si uma monarquia. Tentou de tudo para fazer ver que ele ainda é um mito forte e bom. Mas não é mais! É um mito murcho! Não adiantou se valer do guarda-chuva de Lula e Wagner e da marca 13 – coisa que ele, ordinariamente, institucionalmente, nem dá tanto valor assim. As urnas disseram a ele: “se ligue!”. Os fanfarrões, do partido ou não, que o seguem como cordeiros, talvez estejam, também eles, a ouvirem retumbar o eco do recado! Definitivamente não é esse tipo de postura política que queremos e que esperamos dos políticos. E nem é esta Juazeiro envelecida, suja, encardida e fedorenta (já pensou se isto vira orgulho da municipalidade!) que queremos.
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Talvez por isso a população esteja abandonando os “políticos profissionais” (aqueles que desaprenderam de trabalhar para viverem 100% de suas vidas na politicagem mais fajuta). Talvez a população tenha apostado em políticos menos “profissionais”. É caso de Júlio, em Petrolina, contra o “profissionalismo político” de Gonzaga? Talvez! É o caso de Isaac, em Juazeiro? Talvez!
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A renovação da câmara é outro aspecto. Estamos querendo renovar. Estamos cansados dos mesmos velhos lobos. Que só se interessam por gerir o patrimonialismo! Em Petrolina eu não sei, mas tenho certeza que, em Juazeiro, o voto em Isaac foi um voto de protesto. Então Isaac, também ele, cabe ouvir o recado das urnas, pois não estamos dispostos a perder mais quatro anos.
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O fato é que fiquei entusiasmado com os resultados das urnas. E tanto fiquei que me deu até vontade de mandar fazer um bolinho, acender umas 20 velinhas e cantar parabéns para a democracia no dia em que ela fez 20 anos. Talvez com ela o povo esteja deixando de ser besta.
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sábado, 30 de agosto de 2008

A Face da Arte Contemporânea

Entre Duchamp, A Favorita e Raphael Guedes Augustaitiz

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
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De vez em quando passo por São Paulo, que acho a mais brasileira e a mais internacional de todas a cidades e, por isso, a diversidade de suas opções parece não ter fim. Na maioria das vezes vou a trabalho – mesmo que sempre dê para dar umas voltas. Desta vez fui mais para visitar parentes e amigos, pingar um pouco mais na casa de uns do que na casa outros, e menos a trabalho. Aproveitei para transitar um pouco mais por suas esquinas, vias, vales, montes e subsolos. Cheguei dia 11 de julho e, por puro golpe de sorte, pude testemunhar a abertura da exposição que o Museu de Arte Moderna (MAM) dedicou às “obras” de Marcel Duchamp – entitulada "Marcel Duchamp: Uma Obra Que Não É Uma Obra 'De Arte'". A exposição fica no MAM de 15 de julho a 21 de setembro de 2008. Eu não poderia deixar de ver a simulação dos signos – e enigmas! – que este “artista” impôs ao século XX e à arte de uma forma geral, tendo estabelecido os princípios daquilo que temos chamado de “arte contemporânea”. Eu não poderia deixar de me banhar nessas águas – embora tenha percebido que elas já estejam um tanto envelhecidas.

No Museu, depois de pagar o passaporte, tem-se que atravessar um corredor ladeado por um enorme painel branco, com pichações feitas com tinta preta e borra de café; aí vem os guardas engalanados para nos dizer o que pode e o que não pode ali (filmar não pode!). Na exposição pude perceber que tanto havia aqueles esforçados em ver algum valor na “obra” e até pretendiam fazer outros perceberem sua coerência – como o caso de uma moça que explicava a um grupo de jovens que não usavam All Star (lembro agora de um texto que li numa edição da Revista Bravo!, fazendo uma relação entre os públicos jovens que freqüentavam a Bienal, e distinguia os que usavam All Star, jovens de classe média, universitários; e os que usavam tênis “da hora”, garotos da periferia) – então falavam da transformação operada pelo “artista” com seus ready mades, mesmo que algumas pessoas franzissem a testa.
Havia até aqueles com algum princípio de riso não contido, no canto da boca.

Desconfio que a “arte” atual (entre aspas, como consta no título da exposição) não apenas é mais radical do que Duchamp, como também há um desconforto que se insurge ali. As “obras” são cópias (talvez de outras cópias) e nisso não haveria nada de mais, em se tratando de Duchamp, já que foi ele o principal demolidor da relação entre o original e a cópia – coisa que só tinha sentido quando à arte estava consagrada alguma aura. A questão é que aqueles seguranças engalanados dão a entender que ali trata-se não apenas de um relicário, mas de um santuário. Alguma aura é re-investida ali, mesmo que já seja ela convertida em simulacro, pois as consciências presentes pagam pela falsificação com a certeza de se relacionarem com alguma coisa autêntica. É, no mínimo, uma relação movida pelo fetiche.

Ocorre que, justo no dia 11 de julho, dia em que cheguei à cidade, o capítulo de A Favorita, novela das oito da Globo, levou ao ar uma cena em que a personagem Alícia está apresentando sua “obra de arte contemporânea” constituída de uma “instalação” de ovos espalhados no chão, formando uma espécie de tapete, e um ovo grande (do tamanho de um ovo de avestruz) que ela própria segura nas mãos, enquanto recita um texto. É interrompida pela personagem Céu, que perguntando se é aquilo que chamam de “arte contemporânea”, invade a instalação e começa a atirar ovos em Alicia. Curiosamente nesse mesmo dia fazia exatamente um mês do ato de Raphael Guedes Augustaitiz, aluno concluinte da Escola de Belas Artes, que invadiu a escola acompanhado de 40 pessoas encapuzadas que picharam o prédio da referida escola, dizendo ele que o gesto fazia parte do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). O jovem aluno de 24 anos não logrou o mesmo sucesso de Duchamp. A arte que ele fez está mais para aquilo que, quando criança nossos pais nos diziam: "cuidado com isso, pra não fazer arte". A arte como acidente, desastre, malogro. Por isso o tratamento recebido pelo jovem aluno está mais para o vexame vivido por Alícia, em A Favorita: foi expulso da Faculdade de Belas Artes de São Paulo e ficou sem o diploma. Fez arte! Foi punido, dizem, por ter pichado o prédio da instituição e – conforme palavras de vários veículos de comunicação – por ter depredado, agredido funcionários e destruído alguns trabalhos expostos nas dependências da Universidade. Fez arte!

Voltei de São Paulo com uma sensação estranha em relação à “arte contemporânea” e ao tratamento que damos a ela. De fato, conheço muitas pessoas que não compreendem os seus axiomas, incluindo alguns que nela se aventuram. As pessoas que não tem formação muito requintada de conceitos acadêmicos certamente a estranham. E não a entendem porque não conseguem enxergar o percurso do deslocamento que transforma peças comuns, de uso cotidiano, em obras de arte: o que diferencia um urinol ou uma roda de bicicleta de Ducham de um urinol ou uma roda de bicicleta qualquer? E há aqueles que, compreendendo os axiomas da “arte contemporânea”, deles discordam, como é o caso de Affonso Romano de Sant´Anna, que escreveu um livro de crônicas e críticas de arte cujo título é Desconstruir Duchamp, e para o qual a “arte contemporânea”, emulada a partir do paradigma de Duchamp, rompe com a aura na obra de arte para fincá-la no terreno do puro conceito. É por isso que Céu, personagem “matuta”, não compreendeu a obra de Alícia.

E a minha sensação estranha vai mais além: enquanto “professores” tentam iniciar alguns jovens que não usam All Star no terreno conceitual da “arte contemporânea”, a mesma academia que “banca” o valor da arte de Duchamp, só vê vandalismo na pichação do aluno. É ai onde a estética de contestação da arte contemporânea passa longe da verdadeira contestação. Estava certo Adorno quando relacionou Ulisses atado ao mastro para ouvir o canto das sereias, à divisão da arte em arte de elite (exuberante, refinada, mas atada) e o que se reservara aos remadores: cera nos ouvidos. Este é o duplo silêncio da arte de elite. Silêncio de si. Silêncio dos que poderiam contestar, pois tem sua contestação sequestrada pela simulação "oficial". Suponho que no ato de Raphael Guedes Augustaitiz haja uma dupla inspiração: por um lado o suposto ambiente “liberal” da Universidade, onde aparentemente tudo pode, especialmente no terreno da “arte contemporânea”; por outro lado, a contestação radical, nutrida noutras redes de sentido que, infelizmente, a Universidade não está pronta para dialogar, pois implicaria em reposicionar seu próprio discurso sobre a arte contemporânea.

Neste caso, recomendo ao aluno ler um livro introdutório sobre arte contemporânea, Arte Contemporânea: uma introdução, de Anne Cauquelin (Martins Fontes), para ele entender que a pergunta “o que é arte?”, só pode ser respondida levando em conta a rede de relações que sustenta a respectiva resposta. As redes que decidem o que é arte formam uma instância muito específica, por isso mesmo uma borra de café espalhada em um painel branco na entrada do MAM, abrindo acesso a uma exposição de Marcel Duchamp, não só pode como conta até com trabalho profissional sofisticado, produção, curadoria, etc. Não é apenas estético: é conceitual. E há uma elite que vai ali para consumir este conceito de pichação, educadamente aprisionada em sua rede e em sua simulação: simulacro de rebeldia e transgressão. Por isso mesmo, o ato real, radical, de pichar as paredes da escola, não pode. A rebeldia, a transgressão, desde Duchamp, não passam de encenação! O que não é encenação, pode ser confundido com terrorismo. Maldição!

ONÇA PINTADA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Havia sempre um ritual no meio do verão. Tudo secava. Os barreiros, os tanques, os açudes e até as cacimbas de bogó. A água ia se exaurindo e a terra se exasperando. As pessoas suavam à noite e sonhavam com um furo se abrindo no meio do açude ou do tanque e a água descendo, se contorcendo em rosca, e sumindo para o centro da terra. E as pessoas sonhavam que corriam até o leito do açude a tempo de ainda ouvirem o barulho da água se indo buraco adentro. E restava apenas aquele buraco no meio do leito vazio, como uma passagem para o outro mundo, enquanto o leito dos barreiros ia estalando, esturricando, se arreganhando em rachaduras que mais parecia uma obra surrealista.

Mas fora os pesadelos da noite, depois que toda água se ia, o dia começava sempre antes da manhã. À luz da Estrela Dalva, todos já estavam a caminho do curral, incluindo a meninada que era acordada com um “olha o sol na bunda!” O sol ainda vinha longe, mas era bom prevenir. Parte do trabalho do dia era soltar os animais dos chiqueiros e currais, cortar alguma rama de juazeiro, caraibeira ou outra qualquer que fosse possível, e conseguir água, levantar vaca caída, cortar palma, preparar ração. As cacimbas precisavam ser limpas diariamente porque a areia dos riachos se movia com o pisar dos bichos, e entupia o poço que fora aberto no dia anterior. Além disso, limpar as cacimbas era como se fosse uma forma de massagear as tetas da terra para que ela liberasse um pouco mais do precioso líquido. Mas o fato é que água ficava muito escassa, e a vida ali girava em torno dela. E se a cacimba servia para o consumo humano e para os animais, outros gastos de água ficavam à espera de alternativas. Por isso mesmo, todos os anos, aí pelo mês de outubro, quando tudo já estava pegando fogo, as catingueiras se retorcendo e entrando em hibernação e as cigarras zumbindo em solos desesperados, as famílias se reuniam, juntavam toda a roupa suja, acumulada durante alguns meses, e iam atrás de outras fontes de água – afinal não se podia poluir as poucas fontes com espumas de sabão. Além do mais, a água salobra das cacimbas cortava quilos de sabão em barra, boa parte dele feita em casa, com gordura pobre de fato de bode e decoada, uma espécie de ácido que se extraia do curtimento dos estrumes.

Um destino seguro para encontrar água era a Serra da Natividade. Ali, do outro lado, o norte, onde se chagava contornando sua cabeceira oeste, havia dois “caldeirões” talhados na pedra do “pé da serra”, obras da natureza que ficavam com água o ano todo, porque não infiltrava, e tudo que dali era subtraído era por obra da evaporação e pelo consumo dos animais silvestres: pebas, tatus, jacus, caititus, veados, onças, gambás, saruês, preás, mocós... Por ali, na gramática dos homens, bastava a todos que fossem chamados apenas de “caça”.

A água dos “caldeirões” não era boa para beber, pois ali se acumulava lodo e outras sujeitas dos usos silvestres, mas era excelente para a roupa suja acumulada, que aguardava uma oportunidade de se refrescar. Ia-se à serra, então, por duas razões: as mulheres iam para lavar as roupas; os homens iam para caçar. E a molecada ia para ajudar aos adultos, especialmente às lavadeiras; mas queriam ir porque também era algum tipo de aventura, uma espécie de lazer.
Por obrigação os meninos tinham que carregar água para as mães, irmãs ou tias lavarem a roupa; ajudavam a colocar a roupa para quarar ou para secar em quaradouros de pedras redondas, todas cuidadosamente arrumadas... No resto do tempo a molecada se ocupava em brechar nesga de calçola das lavadeiras e imaginar situações de caça, cujos experimentos em geral se restringiam a matar caga-cebos, correr atrás de calangos e lagartixas com seus estilingues e inventar pequenas mentiras de caçadores – à sombra das grandes mentiras que os adultos contavam à noite, no acampamento, ao redor da fogueira.

Naquele ano foi quase uma expedição. Cinco famílias se juntaram para ir à Serra. Os meninos disputavam para ver quem iria – já que alguns tinham que ficar zelando da casa e dos animais, em cada sítio. A expedição, em geral, durava dois dias e duas noites. Todos levavam material para montar acampamento: redes, algum pano que servisse para improvisar uma tenda, esteiras, cobertores, blusas – afinal, a noite do sertão é muito fria, mesmo nos meses mais quentes. E iam, claro, as trouxas de roupa e as espingardas e rifles. Os mantimentos iam nos alforjes, boca-pius, colchonis e coronas: feijão, arroz, óleo, sal, pimenta do reino, corante, rapadura, farinha, carne seca, fósforo, candeeiro, vela, alho e fumo – até porque era preciso dar um pouco de fumo à caipora. Além das armas de fogo, cartucho, pólvora, espoleta e bucha, cada homem levava também canivete, faca, e facão. Aqui e ali algum levava até um machado ou um serrote – e aproveitava para, na volta, trazer uma carga de lenha, ou alguma madeira para as cercas.

Naquela expedição iam, além dos adultos, homens e mulheres e algumas mocinhas, apenas dois meninos. Um era um sarará amarelo, cabelo de fogo, rosto sardento, um tanto raquítico para a idade. Tais características lhe rendiam apelidos variados: Vermelhinho, Pinto Calçudo, Pintadinho... Este último venceu a disputa com o irmão para que decidir quem iria, pelo simples fato de ser mais frágil. O cuidado do sitio, enquanto os adultos estavam fora, exigia um pouco mais de habilidade e maturidade. O outro guri que ia na viagem era vizinho e primo do primeiro, e fora criado com xodó de avô, por isso havia se acostumado a mentir para tirar proveito das situações. Quando estava junto era um santo, mas a trinta metros de distância, tinha a mania de despachar um monte de palavrões e xingamentos e sair correndo. Nos próximos encontros voltava a ser um santo, como se nada houvesse acontecido. Enquanto o primeiro era de uma timidez assustadora, dessas de ganhar doce e deixar derreter na mão com vergonha de comê-lo em público, o segundo gostava de uns amostramentos inoportunos e chegava a aprontar poucas e boas, destravancando porteiras e colocando a culpa nos outros, ou botando apelidos nas mães e irmãs dos colegas; gostava de gozar com a cara dos amigos, principalmente do amarelo que agora lhe fazia companhia na viagem.

No primeiro dia, chegaram aos caldeirões perto do pôr-do-sol, e o restinho de dia que ainda havia, serviu apenas para armar acampamento. Cortaram e fincaram varas, estiraram lona, armaram redes, estiraram esteiras e agasalharam as trouxas, sacos e alforjes em seus devidos lugares. E enquanto as mulheres e crianças ficaram recolhidas, os homens trataram de explorar a caatinga, com suas armas e cachorros. Vez ou outra se ouvia um latido dos cachorros, ou algum tiro, e lá pela madrugada eles chegaram carregando algumas caças e muitas estórias de caçador. Os meninos já dormiam.

Dormiram pouco, pois, como disse, o dia começa sempre antes da manhã. Tendo despontada nos céus a Estrela Dalva, os homens já estavam fuçando as trempes improvisadas para acender o fogo. Era apenas nessas ocasiões em que os homens chegavam perto do que se pode chamar de fogão. As mulheres haviam trazido cuscuzeiros e chaleiras e logo se improvisou um café. Os homens estavam com pressa de se embrenharem novamente no mato. As mulheres tinham o dia todo para ensaboarem, baterem, quararem e enxaguarem suas trouxas de roupa, com a assistência das mocinhas e dos dois meninos, que na ausência dos adultos ainda faziam as vezes de guardiões de honra da mulherada.

Mas havia tempinhos de folga, às vezes até forçados, quando os dois meninos aproveitavam para arriscar um distanciamento do acampamento e explorar as suas redondezas. Depois as mulheres ralhavam aos berros e eles voltavam correndo para não piorar a situação. Às vezes inventavam coisas bestas para a distração: correr atrás de calango, apostar quem tinha a melhor mira com a baladeira, arrancar flechas de macambiras, fazer cordinhas com tiras de embira, ou subir no alto das pedras mais próximas para vislumbrar a paisagem. Apostavam que estavam vendo a cidade, lá longe, perto do rio, onde sequer tinham ido nunca, a não ser em imaginação. Então o moleque criado com avô propôs ao amarelo que fossem até o outro caldeirão. Era perto, mas era mais selvagem. Certamente a presença de humanos naquele primeiro poço tinha obrigado os animais silvestres a se servirem apenas daquele outro. Iriam lá, mas sem dizer nada às mulheres. Seria na surdina mesmo; quando elas percebessem eles já estariam de volta. E foram!

Cada um foi com suas alpercatas de borracha de caminhão, deixando rastros de pneu de carro no caminho estreito e empoeirado. As baladeiras nas mãos, os bolsos cheios de pedrinhas escolhidas com astúcia. Iam vacilantes, em silêncio ou cochichando comentários sobre a paisagem. O moleque criado com avô inventou que tinha visto um caçador, escondido numa umburana, e era Tintim, o cabeleireiro do povoado, que deixava toda a meninada com o mesmo topete. Mas o amarelo de cabelo de fogo não viu nada. E o moleque criado com avô saiu inventando um monte de coisas que dizia ver e que o outro não via nunca. Alternavam no percurso: ora um ia adiante, ora o outro ia, alternando a brincadeira de meter medo e oferecer suspense um ao outro. Às vezes um triscava no corpo do outro para ou soltava algum rosnado para testar sua coragem. Mas de fato eram os cabelos de ambos que já se haviam arrepiado!

Iam se aproximando do outro caldeirão, este começava a despontar por trás das folhas e já dava pra ver que ele era menos pedregoso e havia até mais lama em suas bordas. De repente, o moleque criado com avô, que ia à frente, fez volta abruptamente e desembestou numa carreira de volta, gritando “Olha a onça!” O amarelo não pensou nem por um milésimo de segundo, fez carreira também atrás do outro, com os cabelos desaparecidos da cabeça. O outro parou antes de chegar ao primeiro caldeirão, onde as mulheres sequer tinham dado por falta dos dois, e perguntou ofegante: “você viu a onça?”.

Claro que deveria ser mais uma das mentiras do garoto – e talvez ele até esperasse que o outro dissesse que não, para que ele insistisse e tirasse alguma outra gozação. Mas, inesperadamente, o amarelo de cabelo de fogo disse que “vi, sim!”, com o coração palpitando na testa. “Viu?”, reagiu o outro, meio incrédulo, e acrescentou um “viu nada!” Mas o amarelo insistiu no “vi, sim” e ficaram ali naquela peleja ofegante. Então o moleque criado com avô disse que não vira onça nenhuma, que estava era brincando e tinha inventando aquilo para assustar o outro, e que o outro é que estava mentindo. Mas o amarelo veio com um “problema seu, se não viu! Eu vi a onça sim, seu otário!” Então se fez um breve silêncio. O amarelo sabia que não poderia mais recuar. E quem poderia lhe desmentir, se aquelas bordas de poço estavam todas pisoteadas de tudo que é pés de bicho do mato? Certamente haveria ali um rastro de onça.

“Tu viu mesmo? E como era a onça?”, perguntou o moleque criado com avô. “A onça?”, respondeu o outro. “Parecia um gato, mas era grande, assim do tamanho de Leão, o cachorro de papai... Acho que era até maior, a bichona. Tava bebendo água, esticada e torcendo o rabo que nem um gato, lá do lado de lá do poço, do lado que fica pro lado da serra”. “Tá mentindo seu sarará!”, o primeiro insistia, incrédulo. Assumiu novamente que não vira nada, pediu que o outro confessasse que também nada tinha visto, mas ele se mantinha firme. Então combinaram que contariam às mulheres o que ambos tinham visto. Mentira ou verdade, seria de ambos.

A mulherada ficou alvoroçada e deram, por uma boca só, broncas e ordens para que os moleques não se afastassem mais dali. Os homens, que deles só se sabia pelos esparsos barulhos que provocavam na mata, um estridente bater de asas ali, um estampido de tiro acolá, um alarido de latidos, mais ali, o eco de um tropel de bicho correndo. Estavam eles enfiados em suas aventuras de caçadores. Em breve chegariam para o almoço, embora já passasse do pino do meio dia. E foram chegando aos poucos, com suas tralhas e uma ou outra caça pendurada nas costas, entre elas um veado ainda jovem, um jacu e dois mocós. A hora do almoço virou um momento de interrogatório coletivo, com o moleque amarelo no centro do inquérito, já que o outro, criado com avô, tinha se reduzido a um coadjuvante, que apenas confirmava as coisas que lhe perguntassem, por força da determinação da estória que o outro contava.

“Parecia um gato grande, maior que um cachorro e era pintada de preto com branco...” seguia explicando o moleque. “Eita! É bem esta bicha que anda comendo a criação! Logo vi que só podia ser coisa de onça pintada”, os homens viam lógica no que lhes era contado por um dos moleques e confirmado pelo outro. Foram ao outro poço, constataram ali rastros de tudo que é bicho e rastros de onça também. “E pela pegada da bicha, é uma bichona! É maior do que um cachorro e muito!” Mas havia rastros menores, rastros de gatos, rastros já endurecidos e outros um pouco mais frescos. Teimaram sobre isto, pois tal detalhe poderia por em prova a estória do menino. Mas se convenceram. E o menino não vacila: tinha visto uma onça, uma onça pintada!

Na volta da viagem, uns com caças ainda frescas na garupa, outros com carnes retalhadas dentro dos bornais e alforjes, as mulheres com suas trouxas de roupas limpas, muitas estórias das caçadas, mas a única estória que havia se consolidado no grupo todo era a do moleque que havia visto uma onça das raras: uma onça pintada! Ou outro moleque, criado por avô, virara um coadjuvante frouxo, que sequer tinha certeza se tinha visto ou não a onça, mas era obrigado a confirmar para não ficar por baixo. O amarelo de cabelo de fogo havia virado celebridade.

No dia da feira, que era sempre aos domingos, o moleque fora abordado por algumas dezenas de homens, velhos e moços, e teve que repetir a mesma estória várias vezes, sempre com a mesma coerência de detalhes, tantos eram que era até surpreendente que tivesse visto tanto em tão pouco tempo. Mas sempre que via o risco de ser posto em prova, dizia “isto aí não deu pra ver, não”. Havia momentos em que se formavam rodas com vários homens em torno dele, e vários deles esbravejavam, depois de ouvir o relato: “é esta fera que tá acabando meu criatório. Já perdi várias cabeças... Eu sabia que tinha um animal destes por aqui, atacando a criação. Ó aí, a prova tai!”

O menino amarelo de cabelo de fogo ficou conhecido como “o caba que viu a onça pintada”. Muitas vezes teve que confirmar aquela estória e repeti-la. O outro moleque, por várias vezes ainda perguntava: “você viu a onça mesmo?” Mas com o tempo deixou de fazer isto; se contentara em fazer parte dela, sem ser seu protagonista. Quanto ao “caba que viu a onça pintada”, seguiu com aquela estória de onça pintada, uma espécie de gato grande, esticada para beber água no poço do caldeirão e contorcendo o rabo. A estória de uma imagem que se tornara algo tão nítido em sua mente que ele jamais teve a oportunidade de dela duvidar.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

DE QUEM ESTAMOS REFÉNS?

JOSEMAR DA SILVA MARTINS (PINZOH)

Acabo de ler um artigo intitulado “Toque de recolher, medo e indignação”, do ator baiano Lázaro Ramos, publicado no 1º caderno do Jornal A Tarde, em 17/06/2008. Faz pouco tempo conclui a leitura de “Mundo Perdido”, de Patrícia Melo – mesma autora de “O Matador”, que deu origem ao filme “O Homem do Ano”, de José Henrique Fonseca (2003). Acabo de chegar de minha cidade natal, Curaçá, BA. Os elementos aqui descritos parecem não ter relação alguma, mas têm! O ponto comum é este estágio civilizatório que logramos atingir, onde figuram, em profundo desequilíbrio, liberdade e segurança. Em Curaçá, por exemplo, fiquei sabendo, entre outras coisas, da morte de um jovem de uma família com as quais tenho próximas relações. Este jovem, depois de morto, foi queimado e enterrado, e tudo indica que tamanha brutalidade não passou de “queima de arquivo”. E o pior de tudo isso é que a população até desconfia (ou sabe) quem pode ter cometido tamanha brutalidade, mas está amedrontada! Acuada! Refém!

Freud, em um pequeno livro cujo título é “O Mal-Estar na Civilização”, trás questões importantes sobre essa relação entre liberdade e segurança – questões estas retomadas por Zygmunt Bauman, em “O Mal-Estar da Pós-Modernidade”. Pois estes dois livros nos ajudam a entender que o “estado de saúde” de uma sociedade diz respeito ao equilíbrio que ela mantém entre liberdade e segurança. Mas atingimos um ponto em que, supostamente, temos muita liberdade, e quase nenhuma segurança. Mas aqui se instala um ponto altamente melindroso, pois já não sabemos o que é a liberdade. Na maioria dos casos, a liberdade é confundida como puro liberalismo (excepcionalmente no mundo dos negócios), ou com aquilo que, na língua do povo, é mera libertinagem (na esfera da moralidade). Num caso ou noutro, trata-se de um tipo de liberação desprovida de parâmetro.

Certamente muito do que nomeamos como liberdade, se enquadra naquilo que Bobbio, em “Igualdade e Liberdade”, chama de liberdade negativa – que, na linguagem política, qualifica a situação na qual um sujeito tem não apenas a liberdade de agir sem ser impedido, mas também a de agir sem ser obrigado e, ainda, a de não ser obrigado a agir. Aqui instala-se o indivíduo com toda a sua absoluta potência, sem parâmetros sociais que qualifiquem e modulem a sua ação ou a sua não-ação. É, sem dúvida, a liberdade do indivíduo, em detrimento da liberdade da coletividade. É a relação muda e surda entre indivíduo e coletividade. Certamente as grandes firmas, têm muito interesse nesse tipo de indivíduo, para transformá-lo em consumidor. E aqui as grandes firmas se isentam de suas responsabilidades e se escondem por trás daquilo que chamam “liberdade de expressão” – sendo este o tipo de liberdade que atualmente mais tem sido vampirizada pelas leis do mercado e do consumo.

Podemos falar do mundo das drogas, podemos discutir o conceito de droga – para incluir nele parte da indústria do consumo legal e da indústria cultural – enfim, podemos falar do sexo dos anjos: mas se não tocarmos neste ponto, não chegaremos a lugar algum. Em Curaçá, enquanto o barulho e a fuleragem enlouquecem a cidade, enquanto tudo vira negócio – e, portanto, enquanto mais dinheiro circula na cidade – os pais já não sabem mais o que fazer com os filhos. Encontrei uma menina de uns doze anos dizendo que estava há dois dias sem dormir só “comendo água”, e para não dormir tomou alguma droga que, segundo ela, era “arrebite”. Quase todas as amigas dela já são mães, antes dos 15. Os filhos? Estes estão sendo cuidados pelos avós. Aliás, os avós, cujas aposentadorias e pensões custeiam boa parte da economia da cidade, são os únicos para os quais a cidade nada oferece, além de barulho e incômodo. É dos salários dos avós, muitas vezes, que os jovens sacam empréstimos bancários para comprar moto ou colocar quilos de som no porta-malas do carro. São os avós que ficam com a conta! E para eles, nada, Necas! Eles não têm voz. Eles não existem! Os governos? Estes estão interessados em votos. Em função disso, enchem a praça de eventos de porcaria, de putaria, de coisa ruim e feia. Nossa crise entre liberdade e segurança também passa por essa vampirização da esfera do cotidiano pelas indústrias do consumo, do voto e da droga.

Pode parecer estranho eu estar dizendo isto, já que pertenço a uma geração que também se drogou, que viveu tardiamente sua fase de “sexo, drogas e rock and roll”. Mas afirmo que nossas transgressões não eram meras perversões. Havia ali um protesto. E contra o que protestam os mercadores da banalidade e da droga de agora! Certamente não inventamos esse estado de perversão! Certamente não quisemos esses festivais de besteirol – nem era isso a contracultura de Woodstock, em 1969. Digo isso antes que apereça um conservador qualquer e aponte o seu dedo facista gritando: “a culpa é de vocês, a geração psicodélica!”. Esta geração gritou contra o fechamento conservador e toda forma de discriminação, principalmente a racial e a sexual. E contra o que gritam os vândalos da fuleragem de agora?

Desta fronteira para a froteira do narcotráfico, da corrupçãoe e da banalidade de todas as formas de violência, há também um ponto comum que é a falência da moral – e olhe que não sou um moralista. Por isto, quero fazer aqui uma relação que me é cara: a moral é o lastro da ética – pelo menos conforme o que indica Adolfo Vásquez, em “Ética” – e, em consequência, penso que toda ética deve se traduzir, em termos práticos, em critérios de moralidade ordinária. Se a moral conservadora e elitista era anti-ética, a ética nem por isso deve pretender o niilismo moral. Pelo contrário, a ética de que precisamos deve nos oferecer capacidade moral suficiente para termos coragem de rechaçar todo tipo de ato estúpido e cruel, bem como todo tipo de liberdade negativa que atenta contra nossa segurança coletiva.

Ocorre que a nossa ética – como sugere Zygmunt Bauman, em "Ética Pós-Moderna" – já é “a la carte” e, portanto, já foi confinada nos confins do individualismo. Mas somos bacanas demais para discutir tais questões. Enquanto isso, temos que admitir o “toque de recolher” determinado pelos canalhas, e medrosamente recolhermo-nos em nossa indignação resignada. Os que têm grana podem dispor de suas fortalezas particulares, condomínios privados, redes de eletrochoque, micro-câmeras de auto-vigília, cabines blindadas, salas vip, etc., enquanto os pobres se contentam com os “toques de recolher”. Mas, deveríamos lembrar aos ricos que parte destes desajustes é fruto dos desajustes que eles também patrocinam, ao estarem interessados apenas em ganhar dinheiro com todas as indústrias do consumo, do voto e da droga, ou simplesmente por lavarem as mãos, julgando estar seguros demais em suas fortalezas particulares. Por quanto tempo?

É deste estado de coisas que estamos reféns!
UM ACRÉSCIMO POSTERIOR:
Espero que Lázaro Ramos, indignado como parace estar, se disponha a incluir o cenário civilizatório de sua indignação, na série "Ó paí, ó!", que será exibida na Globo, e a tematizar Salvador, uma cidade cruzada de paradoxos. Seria bom que ele lesse minha crítica ao filme "Ó paí, ó!" (O Que Eu Vi em "Ó paí, ó!"), que conta neste blog.
Pinzoh