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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

OS JOVENS VELHOS


Curioso mesmo são estes jovens! Eles fecham a cara e fazem pose de machões! Exibem os músculos, como trunfos! E são exatamente a mesma coisa, há tanto tempo!

Os poetas, então! Estes encarnam sempre algum personagem de taberna, onde sequer houve taberna um dia. Emulam o ambiente esfumaçado, o lirismo dos bafos de taberna. Mas não saem da frente do computador, comendo besteira. E estão sempre inventando uma dor onde não há. Uma dor que é tão fina, aguda, lustrada, que é só uma dor estética. Brilhante!

Tudo é sofrimento! A poesia é um lugar para distribuir pontapés contra a espinheza do mundo, que, no mundo, é apenas o mundo das letras! A literatura é encarada como uma prisão! Por isso é urgente inventar novas fórmulas literárias libertárias, dar nomes novos e esdrúxulos aos estilos que inventam e cuspir na cara de obras e autores, insultados como páreas.

Em pouco tempo já inventaram mais regras para si e para o mundo que todos os conservadores que dizem combater. Com menos de 25 anos, já estão velhos, cansados, lamuriando a vida! Até já pousam como se fossem a mais importante personalidade do mundo das letras. Portam chapéus e fumam cachimbos. Alguns até emulam uma bengala e uma pequena tortura num dos cantos da boca.

Logo eles, que se insinuam tão jovens, é a velhice que eles parecem desejar e a simulam nos quatro cantos de seus quadrados!

domingo, 26 de dezembro de 2010



ACIDENTADO

sinal dos tempos: tempos sem tempo

sinal pra comprar a prazo
firmar o dito até que seja feito
Cruz-credo: sinal para fechar o peito.

sinal de que todos vamos indo
indo, vindo, rindo ou não, até mais
perambulando entre os sinais

por sinal quero dizer que li errado
o seu sinal fechado, e avancei...

RESSACA 2

Durmo, enquanto os pelos crescem
Rugas, fome e gastrite me despertam
Enquanto eu peço algum tempo ainda
Pois para mim esta manhã não é bem-vinda!

Sou da noite. Note-se!
Entro nela como num grande lago
Onde tão logo se esbanjam bafos e tragos
Estrago-me entre a fumaça e os odores
Entre encantos, desencantos e quase-amores.

E até esqueço que mais cedo ou que mais tarde
A noite que de início arde, ainda criança
Logo mais balança velha e enrugada e, enfim, finda
E eu desconheço aquelas faces, há pouco lindas.

Mas eu, afoite, me apeguei à noite
E nela espero sempre a eternidade
Entre goles, entrego os meus segredos,
Como se, trôpego, precipitasse a confissão
Descuidado da paixão que nunca míngua.

Confesso que transito entre dois pontos
Zonzo e tonto entre a escassez e o excesso
E agora, nesta cama, dos pés à cabeceira
Nem rastro daquela chama
Que queimei a noite inteira.

Ressaca e fadiga contornam a agonia
O tic-tac, a batida do pedreiro, o assovio...
Por detrás daqueles tetos desce o rio
Por detrás daquele morro sobe o sol

E é um pouco menos luz que eu suplico
É contra a claridade que eu me agito
É contra todos os barulhos que eu grito.

Manhã que, se não fosse o mal-estar, eu saudaria!
Mas fico teso, a mão no saco, retardando o dia.

ANTES DE DORMIR


A tocha da TV apaga-se, após os minutos programados. Resta a cabeça acesa, chiando entre os zumbidos da ausência da TV. E o escuro fez-se claro, claríssimo escuro! Uma tela inteira, tingindo todos os lugares, colando os olhos ao olhado. As primeiras imagens, manchas, nódoas, como aquelas que as goteiras deixam nas paredes. Como uma espécie de mofo! Depois as formas geométricas, esfera brilhante, dança de círculos, caleidoscópio, descanso do tornado. Fico esperando a vez do spray do sono, mas ele se demora em suas composições de formas, até o ponto em que os olhos inventam sua própria escuridão. Ou não!

sábado, 25 de dezembro de 2010

Ainda Menos


Veio. Não para mim, que não mereço – embora queira!
Mas veio. Sentou aí na sala e abriu um portal. Antes eu achava que era só uma janela. Profunda! Alta! E eu, com medo de altura! E eu, cansado! Perdendo! temendo escorregar por ela, goela abaixo!

Descobri que entrego os pontos. Partida de dominó, mão sei jogar. Desaprendi! Não sei contar as pedras. Às vezes ganho, mas não explico! Nem seguro! Não dou permanência! Vou dormir com meu fracasso!

A menina dos olhos, caídos! E a menina acesa! Corada! A ideia andando em grande velocidade. Um poema na tela. E tê-la? Cadê? Tenho a impressão de que roço a folha do metal, a lâmina, encosto ali e sinto o gelo! Gelo! Aliás, gélo, de gelar, o verbo, não o substantivo! Gelar, paradoxa ação, cujo paradoxo insiste em não ficar no feminino!

Todas as mãos, os gestos, eu acompanharia, sem grilos! Colocaria meu afeto onde desse pra sentir de leve! A não ser que tivesse lido, visto e fumado Clarice Lispector. Raxixe puro! E nisso, a noite, essa passagem, sempre deixa sempre essa sensação de que poderíamos ir mais longe! Ou mais perto! Ali, do lado!

Às vezes eu envelheço rápido, nisso! Resta ainda, lá no fundo, um punhado de menino, querendo se pendurar em galho! Querendo um atalho pra sair do chão! Mas, então a noite finda, e eu me vingo indo embora! Entro depressa e fecho a minha bolha!

Hoje, vislumbrei uma enorme rachadura, no canto superior esquerdo da minha ilusão! Tem dias que eu acho que sim. Há dias que acho que não! Hoje, logrei saber ainda menos! Tem nada não!

Vou me olhar mais uma vez neste espelho angular, oblíquo, pra ver se me arrisco do lado de fora! Porei o pé, como se põe o pé na água, em pleno sertão! Assim, devagarinho. Até que tudo se precipite de uma vez!

Aí a gente encara a vida, e pensa: venha!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Empréstimo a Mário Quintana

DA FELICIDADE
Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

MARIO QUINTANA

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Anti-Mensagem de Natal


Todos os anos, quando chega neste ponto em que se misturam a compaixão religiosa, a transição para um ano novo e todos os ímpetos comerciais agregados a isto, eu me torno uma pessoa estranha. Não tolero mais esse Papai Noel de plástico e papel. Desacredito dessas mensagens laureadas de sinos, estrelas, lambuzadas de virtual pó-mágico dourado e animadas com essas musiquinhas entediantes. Desconfio até dessas mensagens bem intencionadas dos amigos. Em geral me resguardo, não vou às compras, não dou presentes – a não ser a pessoas bem especiais. Não quero ser Papai Noel, nem de plástico, nem papel.

Mas, afinal, os fins de ano são essas oportunidades, muitas vezes melancólicas, de estabelecermos um contrato com nós mesmos. A vida não é negócio! Mas, às vezes, os negócios gerenciam a nossa vida. E nos vampirizam! Chegamos ao fim do ano com a sensação de que vivemos menos e negociamos mais. Será isso mesmo o que chamamos de produção da vida? Se for isto, é preciso pensar melhor em como otimizar a nossa relação com os fluxos econômicos, como direito de vida.
Porque, vivendo, cada vez aumenta mais em mim essa necessidade de um intervalo maior, a cada dia, para mirar o mundo, suas belezas e suas estranhezas. Buscar a beleza que há na beira do rio (1), no pôr-do-sol (2). Será pela beleza que miramos aos céus nossas antenas (3) e as torres da Igreja (4)? E por que não miramos mais o horizonte, a cidade, tanto mais caótica quanto mais florida poderia ser (5, 6, 7, 8, 9)? Como poderiam ser elas mais belas, todos os dias do ano, nos oferecendo em cores um chão mais macio (10)!

Desvio o meu olhar para outras singelezas! Vou pegar o meu barquinho (11), esse portal de tantas possibilidades, e navegar. E espero que no ano próximo, haja mais que 2011 razões para servos felizes nele.

Abraços a tod@s!

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

VOZES

O que eu faço com estas vozes todas
Fazendo reboliço dentro de mim?
E as cores da bicicleta enfeitada que eu tinha?
– fitas coloridas, continhas nos raios e espelhos...

Espelhos!!!
O que eu faço com eles que nascem invertidos dentro de mim?
O que eu faço com isso atravessando a minha insônia?
E aquela montanha plantada bem ali na frente,
Como um teiú mordendo sua batata?
E aquela lenda do carneiro de ouro no lombo da montanha?
E a passagem para o fim do mundo?
E aquela da onça que eu vi sem medo e ela nem ligou pra mim?
– As pessoas não acreditavam e nem eu desmentia.

E agora, o que eu faço com isso, se crescem como pêlo?
Se quanto mais me dou ao desespero da razão
cresce mais em mim a imagem do terreiro
e o som daquela assombração na minha insônia
arrastando pela noite o ramo de São João
ou o berro do meu pai estremecendo lá embaixo, no baixio:
– “Vem pra casa moleque”.

O que faço com isso, se cada vez mais distante estou?
E quanto mais distante, mais me chamam vozes assim
Ecoando no baixio das minhas noites...
– “Vem pra casa moleque”.
– “... pra casa moleque”.
– “... casa moleque”.
– “... moleque”.
– “...leque”.
– “...que”.

FORA D'ÁGUA

Não sei porque quero começar a dizer isso
Nem pensei se querem ouvir-me
Sei apenas que me vem, de vez em quando,
Uma vontade de retorno...
De voltar a correr pela caatinga em tempo de chuva
De correr descalço pelas grotas,
Pelos córregos e riachos
De olhar aquelas ervas frágeis
Rompendo o casco endurecido do chão
Sem mesmo querer entender aquilo que ocorre ali
Sem mesmo pensar se não é a terra que se abre
Para que aquelas ervas frágeis amanheçam...

E essa lua que me mira?
Essa lamparina insistente contra mim. Que não pisca.
Às vezes tenho medo que ela me enfeitice: fecho a porta.
Tenho medo de já ser tão outro
Que já não caiba naquela vereda estreita
Que já não reconheça a correnteza
E nem me apeteça mais o cheiro de terra molhada...

Se me pergunto quem sou e aonde vou
Não o faço a vocês que não me têm respostas
Apenas sufoco o meu uivado,
O meu ganido em noite de lua cheia
Quando então apenas me recolho: fecho a porta!
E durmo sem saber em que rede fui pescado.

NA REDE

NA REDE


Curiosas estas imagens, a nos dizerem que já não basta que arrolemos a vida no campo como uma espécie de paraíso perdido, onde se reserva intacto algum pedaço de nossa humanidade perdida, corrompida, à espera de preservação e recuperação. Ao contrário, não apenas este paraíso nunca existiu, como agora mesmo todas as forças horizontais, centrípetas, da vizinhança, do parentesco, lentas e de longa duração, já estão sendo arrastadas pelas forças centrífugas, verticais, velozes, globais, capitaneadas pelo valor monetário e pela tecnologia. Estas novas imagens indicam que novas conjunturas humanas se formam, à espera de nossa tradução.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

FIO DE ALUCINAÇÃO

Hoje te encontrei de vestido vermelho. Num fleche rápido de minha imaginação, cujo fluxo me escapou, você me ofereceu a boa. Não fez biquinho – que isto é uma forma de dissimulação! Ao contrário, a escancarou em risos, desses cujos olhos vêm junto e à frente – mas não se semicerram em piscos, tremelicados, que isso soa como enganação. Pelo contrário, desses que entram na gente sem piscar e se demoram em seu profundo envio de sins. Até que enfim!

Hoje quem piscou fui eu, vacilando entre os olhos e a boca, sem saber onde fixar minha resposta. E, derrepente, a cena se esvaiu, fluxo ingrato que esvaneceu antes que eu soubesse o gosto. Antes que eu provasse o vermelho pasto, posto em minha lenta imaginação. Tudo e nada! Platonismo em forma de alucinação.

Não é a primeira vez que você vem, como um fio de quase nada a se perder no cosmo escuro. Fio cuja ponta, fina e frágil, ainda seguro.

domingo, 24 de outubro de 2010

olhos de turista

enquanto a gente se lambuza desses sonhos de evasão
as ondas lambem a areia e molham a solidão dagente
o peixe já está vindo na panela
condenado ao ácido do estômago, seu inferno
todos os que nos servem são pretos
os outros se divertem!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

FÁBRICA DE POEMAS

Poesia, se for em noite de lua,
é lavrar a palavra no corpo,
corporificar metáfora no gesto,
grafar desejo na pele nua...

(Ah, meu Deus! Eu não posso ficar lhe mandando poesias, pra não arranhar o seu corpo com minhas metáforas)

Mas se quer mesmo se arriscar...
Primeiro um papel em branco,
um instrumento que rabisque
e uma idéia em deriva...
invente!

Faça de conta que é brincadeira
e recorte palavras, e monte seqüências
e jogue com os sentidos duplos
e com os efeitos fortes,
daquelas palavras que cortam
como navalha, gilete e machado

posicione os pesos diferentes
quando a questão for fazer sentir
e rasgue o verbo
e borre adjetivos límpidos

tudo é uma questão de desencanar
– até o gozo!!!
e de fricção também...
E se for preciso leia Leminski
e tire faísca de pedra
(por puro prazer da fricção)

(Se for o caso me peça ajuda!)

BESTA

noite, noite, noite,
pra que tanta pressa
de passar por nós
se este é meu momento
e se uma noite é pouco
pra ficar a sós

se tudo que pensei
tudo que sonhei
pra dizer agora
soa diferente
soa inadequado
e indo vão-se as horas

preciso dizer
arranjar um gesto
sair do impasse
por isso que peço
que pare o universo
que a noite não passe

que não venha o sol
que não venha o sono
que o tempo estacione
que o papo não mingue
que eu tenha coragem
de dizer o teu nome

no meio das coisas
que eu digo que amo
nomeie a fissura
que eu digo que sinto
declare o desejo
que por ti carrego

tropeço nos gestos
disfarce, embaraço,
e a noite correndo
as horas se indo
o papo cessando
o sono chegando
o que há comigo?
são coisas tão simples
que tenho a dizer
sei que não machucam
que não vão doer
sei que são afagos
sei que são sinceras

e porque não digo?
e por que reluto?
sofro antecipado
e antes de dizer
algo me atormenta
torna-me um culpado

e enquanto isso
enquanto me acanho
outros são velozes
logo te abocanham
violam os instantes
atropelam tudo

e eu com essa mania
de achar um jeito
de ser bem sutil
não assustar tanto
escorrego sempre
nas horas que passam

que há nisso tudo
que me assusta tanto?
um não, um talvez?
um sim, por enquanto?
uma longa história?
um amor rebento?

antes que eu desista
antes que seu rosto
se perca de vista
antes que amanheça
digo de uma vez
que eu quero, que eu topo,
que eu amo e sou besta.

DANÇAR

E por que não brilhar entre os escombros?
Retirar dos ombros este peso dos dias
Esquivar-se do tumulto das ruas
E dançar!

Dançar pra pedir perdão
Dançar pra pecar também
Dançar em forma de prece
Para essas crianças sem rosto
Desalmadas, desarmadas...
Dançar em forma de reza
Contra essas balas perdidas
E contra os mísseis de guerra
Sabe Deus não veja encanto
No fraseado de passos
Pois se Deus nem desencanta
Nem a gente desencana,
– Eis outra forma de dança!

Certezas duvidosas

Certeza tem dessas coisas
De um dia se quebrar
Parece uma coisa frágil
E tem fazes como a lua
Ora cresce, ora míngua
Quando cresce é algo claro
Mas claro que há escuros!
E se míngua a face turva
Mas resta réstias de luz
Nalgum ponto reto ou curvo.

Certeza é coisa que cega
A dúvida quase esclarece
É como uma meta-prece
Sem um santo definido
Mas cujo jeito é aquele
Que ninguém acaso disse
Mas doutro jeito não serve.

Será certo ter certeza?
É duvidoso estar certo?
É complicado, é complexo
Como se diz hoje em dia.
É preciso o afastamento
Para mirar doutro ângulo
Não se vê bem, bem de perto
Parar para por suspenso
O certo que de tão certo
Já se tornou desonesto.
Cogite uma fórmula nova
Agite antes de guardar
Que a vida nasce na cova.

Faça já seu sacrifício
De criar a diferença
Da cor, do amor, da crença....

Bom filho é o que a casa deixa
Sem queixas, sem desaforo
Que deixa a casca do ovo
Sem amassá-la, sem furos
Bom homem é o que tem pecados
É o que erra, é o que berra
Chora, mama, arrota e reza.
Bom discípulo é o que xinga
Se a topada lhe castiga!

PROPOSTA

Que bom se você deixasse
Beijar o céu da sua boca
Abraçar sua voz rouca
E varrer de lá todas as estrelas
Como sabor de pecados recentes.

Colorir seus sonhos com a minha mão
E te fazer leve e solta
Como bolas de sabão

Pronta para renascer

Livre como sonho de vida
Sobre a pedra endurecida do viver
Viver nada mais que o sonho
Partido aos pedaços, dispersos
Sonhar nada mais que unir
Os cacos diversos da vida
Na vinda, na ida...
Dividi-los em versos
Agregá-los em sonhos