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quarta-feira, 19 de setembro de 2007

EU, ETIQUETA

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Carlos Drummond de Andrade
(Corpo, Rio de Janeiro, Record, 1984)

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Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

SERÁ QUE ESTOU DOENTE?

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III

Dr. Eduardo Ferreira dos Santos, médico psiquiatra (e eu entendi que ele é também militar), atende a pessoas traumatizadas pela violência urbana. Hoje, ainda há pouco, foi entrevistado pelo Jô Soares, em seu programa. Começou a entrevista dizendo que “a violência urbana deixou de ser um privilégio dos ricos”. O Jô parece ter chegado a franzir a testa, mas mão contrariou o "Dr.", e este seguiu dizendo que, “infelizmente hoje existem muitas instituições, muitas ONGs que defendem os marginais, enquanto que as vítimas se tornaram desprotegidas...”. E coroou o raciocínio se referindo ao “Movimento Cansei”, como sendo um movimento de vítimas. Pasme! Pasme duplamente, pois não apenas o “Dr.” fez a mais simplistas das oposições entre bandidos e vítimas, equivalendo os bandidos aos pobres e as vítimas aos ricos, como seu raciocínio não mereceu um só comentariozinho de Jô. Será que deu um curto nos neurônios?

Esse tipo de entrevista me incomoda muitíssimo! Não porque se trata de uma opinião isolada de algum “Dr.”, mas porque é um tipo de senso comum, que embora seja portandor de uma estúpida pobreza de percepção, é elevado à condição de análise legítima e especializada – tanto que se torna merecedor de espaço em um programa de entrevistas como o de Jô Soares.
Eu não sei em que mundo vivem Jô e seu entrevistado, mas certamente eles não vivem no Brasil. Caso vivessem, um não pronunciaria essa aberração – “a violência urbana deixou de ser um privilégio dos ricos” – e o outro não a aceitaria impassível, a não ser que realmente tivesse ficado atônito, o que parece não ser o caso aqui.

Como assim, “privilégio dos ricos”? Não é isso que registra a nossa experiência, nem os relatos da História, nem as estatísticas sociais – que indicam que morrem mais pobres e pretos, vítimas da violência. Mas, segundo o raciocínio do “Dr.”, esses pobres e pretos morrem não porque são vítimas, mas porque são bandidos! Assim, certamente, o índio Galdino, morto por jovens “ricos”, e a empregada doméstica espancada igualmente por jovens “ricos” no Rio, o foram porque, sendo pobres, eles eram automaticamente bandidos. E os “ricos” que praticaram tais atos de crueldade, o fizeram protegidos por suas condições de vítimas. Da mesma forma as chacinas rotineiras, e os 111 presos mortos no Carandiru, e todas as formas de violência desferida pelo Estado ou pelas elites contra os pobres, na verdade, é apenas uma forma de violência de “vítimas” contra “bandidos”, portanto, perfeitamente aceitável e justificável – que as ONGs teimam em se colocar contra e defender "pobres/bandidos" como se fossem seres humanos.

Estranha forma de raciocínio essa! E mais estranho ainda é que não foi digna de um só comentário do Jô! Nem sobre isso nem sobre o “Movimento Cansei” ser um movimento de vítimas! Essa é boa! O presidente da OAB-SP, Luiz D”Urso, João Dória Júnior (entrevistador da Rede TV!), Alencar Burti (da Associação Comercial), o presidente da Philips do Brasil, Paulo Zottollo (aquele que disse que se o Piauí deixasse de existir ninguém ficaria chateado), Ivete Sangalo e seu irmão, Jesus Sangalo; Juca de Oliveira, Leonardo, Hebe Camargo, Ana Maria Braga, a ex-namoradinha do Brasil, Regina Duarte; Agnaldo Rayol, Ronnie Von, Moacir Franco e Adriane Galisteu, entre outros, são as vítimas? Coitados!!!
Por falar nisso, essa mesma turma não apoiou, por ocasião do Referendo do Desarmamento, a perspectiva de que “o cidadão” deveria permanecer armado, para se “defender dos bandidos”? E qual tem sido o impacto da vitória dessa perspectiva? Alguém quer saber disso? Alguém se responsabiliza?

Alguém, por favor, me faça um chá, uma garapa, alguma coisa, pois eu estou doente!!! O meu remédio talvez chegue com a edição de setembro da Revista Caros Amigos.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

VIVA O BRASIL.... E VIVA CUBA!!!

TAM, PAN, RENAN,
TAM, PAN, RENAN...
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Isso daria uma outra versão para a versão da 5ª Sinfonia de Beethoven que foi utilizada na propaganda oficial do Pan do Brasil no Rio ("pan, pan, pan, pan...") - se bem que o Renan foi o menos presente nesses dias, especialmente depois do acidente da TAN; praticamente esquecemos dele.
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Queria destacar duas coisas curiosas. Primeiramente, o Pan do Rio teve custeio que contou com uma boa bolada de recursos federais. O curioso é que isso não apenas não ficou evidenciado, como também o próprio presidente foi vaiado na abertura, numa vaia que, segundo fontes não oficiais (diga-se, não vinculadas à mídia que teve a exclusividade de transmissão dos jogos e de estabelecer sua verdade, a Globo liderando), foi arquitetada com ensaio e tudo.
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Em segundo lugar, já não basta a besta arrelia entre brasileiros e argentinos, neste Pan configurou-se uma outra arrelia, desta vez com Cuba, dentro e fora das quadras. Nas quadras os comentários - especialmente de Galvão Bueno - eram em tom de desqualificação ou de desprezo, mas sempre como se por trás das palavras houvesse uma vontade de externar uma classificação de malcaratismo em relação aos cubanos. Fora das quadras, reportagens insistiam em que os cubanos estariam desertando e pedindo exílio no Brasil, para se livrarem do "tirano ditador Fidel". Pelo que sei apenas um desses casos foi confirmado. Ontem, no encerramento, os cubanos desmentiram essa versão insistentemente veiculada pela grande mídia.
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Resta ainda uma última consideração. Claro que o Brasil está de parabens! Seus atletas fizeram bonito nas competições. Bateram récordes e deram muitas demonstrações de superação. Temos muito o que comemorar, por termos ficado à frente do Canadá. Mas há uma coisa que as arrelias alimentadas em relação a Cuba não permitem esquecer: Cuba, uma pequena ilha, pobre, bloqueada pelo imperialismo americano (com a conivência dos países e da opinião pública mundial também alinhados a esse imperialismo), arreliada e atualmente chacoteada pela imprensa brasileira, ficou em segundo lugar, à frente do Brasil. Talvez seja esse o caroço que a nossa mídia golpista (muitíssimo parecida com aquela que tentou, na Venezuela, um golpe contra Chávez) não consegue engolir. Não apenas no esporte, mas se houvessem olimpíadas de educação, de cultura e de saúde, certamente Cuba ficaria à nossa frente. Porque lá há políticas públicas!!!
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No Brasil só há esse palavrório privatista e essa mentalidade que vira as costas para a América Latina e propõe birras com a Argentina, com a Venezuela e com a Bolívia de Morales... porque preferimos achar que estamos mais próximos dos "isteites". O Brasil sempre esteve de costas para a América Latina, e durante muito tempo preferia viver com a cabeça em Paris. Agora é em Miame.
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Considere-se, adicionalmente, que os atletas de Cuba são treinados em Cuba, e não nos "isteites", como uma boa parte dos nossos. Talvez assim devamos reconhecer que os "nossos" atletas são menos nossos, e uma boa parte deles já desertaram há muito tempo. O fato é que, se temos que dar parabens ao Brasil pelos resultados e medalhas conquistadas, temos também que admitir que Cuba ficou à nossa frente.
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Cuba está à nossa frente! Por isso, viva o Brasil... e viva Cuba!
E abaixo a imprensa arrivista, conservadora e golpista!

terça-feira, 24 de julho de 2007

RELUTÂNCIAS

“Uma coisa é uma coisa,
outra coisa é outra coisa”
– Dizem os filósofos de rua
Mancos de tudo que é sorte
Coxos de tudo que é perna
Todos cagando e andando
Para a Tradição Moderna
Ou sua morte suposta
Ou qualquer uma outra bosta
Que depois dela se eleva
Entre o clarão e a treva.

Se assim é, hoje, ainda
Pois não é coisa que finda
De uma hora pra outra,
Continua sendo válido
Que “cada caso é um caso”
E “cada qual casa com o seu”.
Penso então que ainda resta
Fresta que divisa o eu
De tudo que eu não for
Apesar do turvo e breu
Que o pós-moderno ampliou.

ALGUÉM DÊ UM DESCONFIÔMETRO A LUCIANO HUCK


Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)

O Programa Caldeirão do Huck, sob a liderança do seu apresentador, Luciano Huck, tem se convertido é uma dessas pérolas da nossa santa idiotice que diariamente preenche a programação da TV aberta brasileira, sob a bandeira da “liberdade de expressão”. Essa fronteira confusa teve um dos seus mais significativos momentos na edição do programa supracitado que foi ao ar sábado, dia 21 de julho de 2007.

Eu cochilava no sofá, em frente à TV – meio esquecido da letra da música “Milha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)”, d´O Rappa, que diz: "me abrace e me dê um beijo, faça um filho comigo, mas não deixe sentar na poltrona no dia de domingo, procurando novas drogas de aluguel nesse vídeo coagido, é pela paz que eu não quero seguir admitindo”. Pois que, de repente, pulo da poltrona para prestar atenção no que vinha da TV e ter certeza que eu estava acordado, e não mais cochilando. E o pior é que nem era dia de domingo, mas esse detalhe apenas nos lembra que as drogas de aluguel e os vídeos coagidos na TV brasileira não se resumem aos domingos.

Na tela o Luciano lembrava um episódio de um americano que, por ocasião do início dos jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, havia comparado o Brasil com o Congo e, diante de tamanha ofensa (imagine!), o tal americano foi mandado de volta ao seu país. Então, anuncia o Luciano Huck, para mostrar que o Brasil (especialmente em época de Panamericano) é democrático e hospitaleiro e sabe conviver com todos (exceto com que faz tal tipo de comparação), resolve fazer uma homenagem ao Congo – ele ainda se pergunta sobre o gentílico de Congo e sugere que é King-Kong. Essa homenagem consiste em uma pessoa vestida de gorila andando pelas ruas do Rio e, segundo o próprio apresentador, esse gorila é um legitimo habitante do Congo. O vídeo do programa, para quem não o viu e quiser conferi-lo, ainda está disponível na internet no seguinte endereço: http://video.globo.com/Videos/Player/Entretenimento/0,,GIM704416-7822-UM+GORILA+SOLTO+PELAS+RUAS+DO+RIO+NO+PAN,00.html.

Quer dizer que não podemos tolerar uma comparação do Brasil com o Congo, mas, para “homenagear o Congo” nós podemos transformá-lo em algo desumanizado, para nos divertirmos à suas custas. Achei que a mensagem deveria ser para o tal americano que fez a comparação, mas o que Luciano Huck fez foi juntar-se ao americano, não mais para chacotear o Brasil, mas para chacotear o Congo – que nesse caso foi duplamente aviltado. Eu sinceramente espero que este exemplo não seja o que sustenta a defesa de “liberdade de expressão” patrocinada pelos donos e magnatas da comunicação e hoje corrente na mídia brasileira. Se for para isso só posso imaginar que essa “liberdade de expressão” não é a mesma que eu defendo, pois essa liberdade sem parâmetro e sem o mínimo de responsabilidade nos encaminha numa direção extremamente confusa.

Espero que haja um conjunto de instituições brasileiras e transnacionais, interessadas em dar a Luciano Huck e à sua equipe, um pequeno desconfiômetro, ou seja, que ele seja alertado para o fato de que, do mesmo jeito que nos incomodamos com comparações aberrantes que são feitas a nosso respeito, outras pessoas em outros países também podem se sentir enormemente ofendidas, quando decidimos rir às suas custas. Alguém tem que dizer a esse moço que ele “se toque”, que ele “se ligue”. Ao besteirol que custeia a sua vida deve ser imposto o limite da ética.

sábado, 14 de julho de 2007

PARABENS JUAZEIRO... ACORDA!!!

Eu não sou juazeirense nato, portanto não posso me portar com a mesma carga de amor que expressam aqueles que nela nasceram. No entanto, sou juazeirense! Como muitos outros que contribuem para o seu crescimento, sou emigrante vindo de Curaçá, que aqui chegou em 1990, e como me estabeleci aqui e aqui constitui família e trabalho e consumo e pago impostos para qualquer uma das atividades que exerço, não só me sinto um legítimo juazeirense, quanto me sinto apto a opiniar sobre a cidade e participar de sua cidadania. Então, é o que faço.

Quando cheguei aqui no início de 1990 e fui morar nas imediações do canal da Vila Jacaré, logo me impregnei de uma sensação de que a cidade toda fedia. Um pensamento sempre me era recorrente, estivesse eu em casa ou na rua: "essa cidade fede". Dezessete anos depois, penso que, ou os meus sentidos olfativos se acostumaram ao odor da cidade, ou ele de fato diminuiu um pouco.
Mas, de fato, os odores permanecem, por duas breves razões, entre outras: por um lado, o canal da Vila Jacaré embora tenha sido saneado em sua parte que fica dentro da cidade em quase 100%, isso não significa que seus odores tenham sido do todo extintos. Abaixo do concreto, especialmente em messes de temperatura elevada, os odores ainda se elevam por entre as fendas das vigas que tampam o canal; por outro lado, como as lagoas de decantação, que tratam os esgotos da cidade, e o Curtume Campelo (outro produtor de fétidos odores) ficam do mesmo lado da cidade, o lado leste, isso facilita que o vento sempre traga de volta os mal-cheiros que supostamente tínhamos mandado pra longe. Some-se a isso a presença de muitos terrenos baldios, mesmo perto do centro da cidade, onde os moradores costumam jogar todo tipo de "lixo extraordinário", ou seja, um gato morto, por exemplo, que não pode ficar nos vasos ou nos sacos de lixo que são recolhidos regularmente, etc. Um suma, a cidade continua fedendo!
Mas não é isso que mais me incomoda nessa cidade. O que mais me incomoda é o fato de a gente não poder dizer isso - especialmente por ocasião de seu aniversário. Festa de aniversário é assim, parece ter sido inventada apenas para elogios, incluindo em sua etiqueta a possibilidade de você ser hipócrita e tecer elogios a algo ou alguém que diuturnamente você vive a falar mal.
No dia do aniversário de Juazeiro dei uma entrevista para a TV local. Pediram-me que falasse dos "movimentos sociais" na cidade. Achei um tema vago, desses que são inventados para evitar que realmente se discuta o que é importante ser discutido, então me intrometi e sugeri acrescentar uma parte sobre a cidade, avaliando que ela continua sendo mal planejada e precisa ser muito melhorada. Falei, mesmo sob a franja na testa do repórter, mas a entrevista não foi ao ar porque foi considerada "menos importante".

Esse tipo de coisa se parece com aquelas situações em que você é um professor numa escola caindo aos pedaços, mas que, no dia em que vai haver a visita de alguma autoridade, ela maqueia sua realidade e finge que está tudo bem, e perde a oportunidade de mostrar àquela autoridade as suas reais necessidades. Em Juazeiro as coisas são um pouco assim. A cidade parece ter sido condenada a viver enclausurada no ciclo de sua caótica fundação, dentro de um buraco topográfco, na confluência de três riachos, lugar mais baixo da redondeza, que inunda com qualquer chovisco, mas não se habitou e mirar-se em seu próprio espelho. Prefere morar em suas fantasias.
Uma dessas fantasias é a que a tem como a "Capital da Irrigação". Eu, por minha vez vivo me perguntando o que é que este título tem agregado à cidade. Onde estão os louros da riqueza da agricultura irrigada? Onde é que está a marca positiva da "capital da irrigação"? Excetuando-se o surgimento de alguns condomínios privados (febre das "classes emergentes", que mais parecem ser fruto do próprio crescimento do país como um todo, e nem se restringem a pessoas ligadas ao agronegócio) a cidade em si continua inchando de periferias por todos os lados. É mais facil até ver a ligação entre essas periferias e o agronegócio, posto que é nesses bairros desordenados, sujos e fedorentos, com esgotos a céu aberto e lixo esvoaçando nos arbustos, que os trabalhadores pobres e de baixa escolarização que servem à agricultra irrigada são obrigados a viver. Fora isso, a cidade continua crescendo desordenadamente, sem planejamento, sem distribuição e ordenação dos fluxos de seu crescimento.
Os juazeirenses detestam comparações com Petrolina - e, inclusive, como forma de compensação, inventaram um velho mito de que Juazeiro é mais "poético" do que Petrolina, e que as pessoas de Juazeiro são mais amistosas do que as mais sisudas de Petrolina. Juazeiro estaria mais para a poesia e Petrolina mais para o trabalho. Poesia aonde sarará? Pode até haver algum fundo provável de verdade nisso, mas é também verdade que Petrolina tem feito obras estruturais que atrem novos negócios e permitem à cidade crescer de forma sustentável (diz-se que ela aparece entre as melhores cidades para se viver no Brasil), enquanto Juazeiro tem feito apenas obras "plásticas", maquiagens.
A transformação do cais em orla não passou disso, não há nada de estrutural, apenas maquiagem. A construção do "M", e até a construção da Avenida Luiz Inácio Lula da Silva, não passaram disso. O "M" atendeu à demanda narcísica de um de seus administradores. A avenida Lula, por sua vez, tinha tudo para ser uma obra estrutural, mas virou obra de apelo populista. E não liga nada a coisa alguma. Começa próximo à Vila Jacaré e termina num contorno na confluência entre o canal e o leito de outro riacho, próximo ao Alto do Cruzeiro, através do qual curvamos para voltar ao ponto inicial. A própria ligação com o Alto do Cruzeiro parece mais ser fruto da contravenção dos usuários, do que de algo devidamente planejado. Há algumas ligações marginais medíocres, mas não lhe foi agregada nenuma qualidade de mudança estrutural, do ponto de vista do planejamento urbano.
A Lagoa de Calu está linda mas segue a mesma linha. Por isso, não olhe para as ruas do bairro Alto da Maravilha, que lhe dão acesso, pois você pode se decepcionar - aliás, recomenda-se que, sempre que possível, acesse a Lagoa de Calu e saia dela pelo mesmo lado: aquele acesso ao asfalto de continuação da Travessa Viana, ali á altura do trevo do Lomanto, logo depois daquele posto de Gasolina. Os outros acessos lhe mostrarão que a Lagoa de Calu é uma ilha de excelência em termos de urbanização e pavimentação, em um mar de urbanização caótica.
Juazeiro continua assim! E para completar o desencorajamento à crítica, o seu aniversário é dia de puxada. E sendo puxada, tem que ter trio e corda - nem que não haja qualquer justificativa para o uso da corda (por exemplo, não haja a quem separar pela corda). Olhe a corda... Acorda Juazeiro!

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Entrevista professor Pinzoh " O PT tem errado e tem que pagar pelos seus erros..."

Filho de um agricultor semi-analfabeto e uma dona de casa, analfabeta, que foi doceira durante um tempo, Josemar da Silva Martins, cujo apelido Pinzoh foi batizado pelos colegas de sala depois que errou numa prova de História o nome do navegador Vicente Yãnez Pinzón, tem uma trajetória de vida que além de render um bom livro pode-se fazer um excelente roteiro de cinema. Nascido no sítio São João, povoado de São Bento, município de Curaçá-BA, Pinzoh estudou a vida toda em escola pública, foi servente de pedreiro, frentista, ator de teatro, aventurou-se na poesia, foi serigrafista durante anos e vendedor ambulante das camisas que pintava. Nesta mesma caminhada, entrou em Pedagogia na UNEB, fez especialização em Gestão de Sistemas Educacionais na PUC-MG, em seguida fez mestrado em Educação na UQAC, Université du Québec à Chicoutimi e antes mesmo de defender sua tese ingressou no doutorado na FACED/UFBA concluído em 2006. É professor da UNEB-Juazeiro desde 1994 e militante político desde que começou a participar de movimentos estudantis e levantar a bandeira da luta pela liberdade de expressão, igualdade e fraternidade.

Vendo esse histórico com um olhar pós-modernista poderíamos dizer que Pinzoh é um exemplo de homem que mesmo estando na roça e olhando para o sequeiro nordestino de piso rachado como algo além da natureza, visualizou também possibilidades de transformações. Não desistiu, não morreu e não deu pra ladrão. Hoje é um estudioso e questionador da forma como a mídia expõe a Educação. Enfático e agressivo (no bom sentido, claro) quando o assunto é política, não tive como deixar de abordar boa parte deste tema na entrevista com o professor Pinzoh onde ele coloca suas defesas e críticas, em parte sustentadas nas análises acadêmicas em outras pela sua prática do dia-a-dia. De Renan aos Coelhos em Petrolina segue a entrevista na íntegra.

Blog Teresa Leonel- Existe uma imagem propagada de que a educação é o único caminho pelo qual o Brasil pode mudar, ou melhor, desenvolver. Isso é genérico? Qual a sua avaliação?

Josemar da Silva Martin - Pinzoh - Eu fico com a opinião de Sérgio Buaque de Hollanda constante no livro Raízes do Brasil, do início do século XX, onde ele critica – já lá – os “pedagogos da prosperidade”, que se apegam a soluções onde se abrigam verdades parciais e as transformam em requisito obrigatório e único de todo o progresso. O problema é que, quando a gente pronuncia “educação”, em geral está dizendo “escola”. Certamente a educação é a chave para irmos melhor em muitos assuntos, mas desde que a encaremos como algo mais amplo. Pensemos bem: mirando o tamanho do paradoxo da sociedade que vivemos, dá para falar que “escola” resolve alguma coisa isoladamente? Os meninos de classe média que queimam índio em ponto de ônibus, achando que é mendigo (como se isso justificasse), ou espancam empregada doméstica achando que é prostituta (como se isso justificasse), ou matam o pai ou a mãe etc., por acaso eles não têm educação (escolar)? Então que “outra” educação lhes falta? Por acaso as outras instituições sociais, os profissionais liberais, os comunicadores, os políticos, estão preocupadas em educar? Será que não vivemos numa sociedade em que a própria família esqueceu de educar? Será que já nos tornamos reféns de nossa própria ilusão de liberdade – que no fim das contas não passa de liberalismo de mercado? Além disso, dizer que a educação resolve tudo, não é uma forma de desviar a atenção para as reformas de base? Nós estamos de acordo com uma Reforma Agrária ampla! Nós estamos a favor da taxação das grandes riquezas? Nós de fato queremos dividir riqueza? Ou nós apenas estamos satisfeitos com o dinheiro que ganhamos e com as prisões domicialiares que com ele podemos construir para nelas morar? Todo mundo ganha dinheiro e gera problema; depois a gente diz que é a educação que tem que resolver esses problemas. Esse é o problema! A educação continua sendo vista de modo restrito; é grande nos discursos mas não passa de pano de chão nas práticas sociais! Há até preconceitos contra ser professor. Exemplos não faltam!

Teresa Leonel- Como professor e vivenciando o debate Acadêmico sobre as diversas formas do exercício da nossa democracia, na sua opinião o PT (Partido dos Trabalhadores) mesmo depois do desgastes em relação aos escândalos sucessivos, ainda é a melhor opção para consolidar esta democracia?

Pinzoh - Eu não sei se o PT é ainda a melhor opção. O que eu sei é que a sigla PT virou bode expiatório. Quando a gente vai falar de corrupção a gente diz “corrupção do PT”. Eu sou sabedor das mutretas do Renan desde antes dele apoiar Collor (como político ele esteve sempre do lado do poder). Mas quando a mídia toca nisso (incluindo as “meninas do Jô” e o Jabor) parece estar vinculando a sua corrupção ao governo do PT. É como se a gente desconhecesse o elevado grau de corrupção de nossas elites. É como se um Coelho, por exemplo, nunca tivesse praticado coisa similar aos casos que agora Renan permite expor. É como se a gente esquecesse dos Anões do Orçamento e de outros tantos escândalos.Eu ando muito decepcionado com o PT e espero sinceramente que a gente aprenda a fazer política de um outro jeito, que a gente disse que seria possível. Mas não aceito que um Arthur Virgílio venha pousar de paladino da moralidade; que um ACM Neto vire príncipe da ética – aliás todos nós sabemos que ACM e sua família também enricou com procedimentos similares aos de Renan, e de Jader Barbalho, e de Hildebrando Pascoal, e de João Alves etc. etc. etc., mas parece que ignoramos isso. Pelo amor de Deus! Aliás, o principal problema em relação ao Renan é que ele disse: “se é pra investigar, então vamos fazer uma investigação ampla”. Aí todo mundo gelou! Quem quer isso? E sabem porque o ACMzinho não está todo dia na mídia? Não será por que também apareceu nos registros da Operação Navalha? Mas o foco numa única pessoa ajuda a esquecer outras, não é mesmo?.

Teresa Leonel – Por que os petistas aos serem abordados sobre os escândalos políticos dentro da própria base do partido ficam sempre comparando e justificando os escândalos com os governos anteriores?

Pinzoh - Talvez seja para dizer ”atire a primeira pedra!”. Talvez seja para lembrar de nossa cordialidade (nos termos também de Sérgio Buarque de Hollanda) sempre flertou com o poder público para permitir o proveito próprio, o nepotismo, o fisiologismo, o apadrinhamento. Porque o curioso é que todo mundo faz isso. Dúvido que não haja caixa 2 nas campanhas em Juazeiro e Petrolina. Duvido que não haja os mesmos tipos de negociatas. DU-VI-DO! E quero é prova! Quero saber, por exemplo como é que o PFL custeava a compra de votos nos sertões, como caçamba de areia, como filtro caseiro, com óculos e dentadura? Quero saber o que foi a “Indústria da Seca” que vampirizou a SUDENE a ponto dela ter que ser desmontada? Quem fez isso? Foi o PT? Você nunca deu alguma gorjeta a um guarda ou policial rodoviário? Eu já! Numa situação onde era impossível não dar. E nem era porque eu estava ilegal, era porque a força não estava do meu lado. Presencio isso o tempo todo em viagens nas estradas de Pernanbuco, da Bahia, de Sergipe, de Alagoas... Por que a gente não faz o que Renan sugeriu? Vamos abrir a conta de nossas consciências, a gaveta de nossa ética com a coisa pública?

Teresa Leonel – Não foram os petistas que sempre defederam as badeiras da moralidade, da ética e da não corrupção?

Pinzoh - Não foi só o PT que fez isso. O PT tem errado e deve pagar pelos seus erros, principalmente pelos que continua a cometer. Mas é bom lembrarmos que desde que eu me entendo por gente; desde que leio... que vejo a elite empostar a voz para falar em moralidade, para defender “a moral e os bons costumes”. Ou estou errado? Você nunca viu/ouviu isso? Essa é a mesma elite que no âmbito oficial aparece empecável, com inabalável retidão de caráter, e é também a mesma elite que, fora dos holofotes da aparição pública, é promíscua, adúltera, incestuosa, preconceituosa, inescrupulosa e corrupta. Toda a nossa “nobreza” foi promíscua, especialmente com a coisa pública, e, no entanto, sustentou sempre um discurso moralizante. Não esqueçamos que Collor, por exemplo, foi eleito com o discurso de que “caçaria” os marajás, quando ele próprio era um marajá, que era sustentado pelos marajás e se portava como um marajá.

Teresa Leonel – E falando em ética, o senhor defendeu em um dos seus artigos sobre Ética e Comunicação que a palavra “ética” ainda é muito confundida e vulgarizada para nomear “código de conduta” de determinados grupos humanos. No caso específico dos políticos e do Partido dos Trabalhadores o que se pode e deve ser aplicado?

Pinzoh - Eu não imaginei que esta entrevista fosse sobre o PT. Mas, vamos lá! O que eu disse no texto, que está em meu Blog, (http://blogdopinzoh.blogspot.com/2007/03/tica-e-comunicao.html), foi que ética ainda é confundida com ética corporativa, por exemplo, quando falamos em “ética médica”, “ética jurídica” ou “ética jornalística”. Na verdade, em geral esses exemplos se tratam de códigos deontológicos, de códigos corporativos de conduta. Prefiro pensar a ética para além disso, fazendo froteira com a esfera pública, que excede o âmbito corporativo. Agora, se você quer discutir a ética dos partitidos políticos (incluindo o PT), podemos até discutir, desde que outras siglas possam compor seu repertório de referências. Pode ser?

Teresa Leonel - O senhor contestou a análise sobre reforma política feita pelo publicitário e marketeiro Zé Nivaldo postada neste blog (04/07) dizendo que o mesmo desdenha de sua importânica. Na sua opinão de que forma as campanhas políticas deveriam ser realizadas ou formatadas?

Pinzoh - Sou amplamente a favor de limitar o uso de propagandas (como aliás já se fez na última eleição, o que, ao meu ver, melhorou muito o perfil das campanhas). Seria uma forma de, por um lado, evitar que se fabricasse um perfil meramente fictício, cuja finalidade é meramente a enganação dos eleitores. Por outro lado, esse trabalho é feito pelo marketing político (um dos principais meios de gestão dos caixas 2). Então, limitando isso estaríamos limitando também uma parte das falcatruas. Sou a favor do financiamento público das campanhas, e do estabelecimento de um sistema rigoroso de análise das contas de campanha. Mas desconfio que uma boa reforma não saia a não ser que houvesse uma constituinte de “não políticos”, apenas para legislar sobre questões onde os políticos são extremamente corporativos e advogam em causa própria.

Teresa Leonel - Agora virando a mesa, qual a sua opinião sobre o papel da mídia em relação a divulgação dos escândalos políticos e apuração dos mesmos para manter a sociedade bem informada? A sociedade está sendo bem informada?

Pinzoh - Eu acho que:1) grande parte da mídia não tem isenção porque está na mão de uma elite comprometida até o pescoço com esses temas e essas mesmas tramoias (aliás, quem da imprensa apoiaria uma CPI da Comunicação – que desvelasse os modos como se estabeleceram e ainda se estebelecem as maiores concessões?) 2) liberdade de imprensa, na maioria dos casos, só existe para quem é dono da empresa de notícias; 3) mesmo assim uma grande parte dos jornalistas “se acha”, ou seja, pensa que “é livre” e que mais ninguém entende de nada. Muitos dizem um monte de aberrações como se fossem a verdade e ponto; 4) aquilo que a gente tem chamado de “a sociedade da informação” tem se traduzido na sociedade da desinformação; do blefe, do “copy and paste”... Nesse sentido não posso achar que a sociedade está bem informada. Ela está confusa. As novas gerações não conseguem formular uma idéia do mundo, além daquilo que vêm nos programas bobos das rádios, das TVs, das revistas de fococa ou nas vitrines e nas relações meramente consumistas e capitalísticas. Analise o conteúdo dos veículos de comunicação de Juazeiro e Petrolina (com poucas exceções) e você mesma pode responder a essa pergunta. Ainda bem que tem gente que consegue viver e se informar para além dessa fronteira!

Teresa Leonel - A mídia também está sendo passada a limpo. O senhor acredita que a nossa forma de noticiar, hoje, tem mais a ver com o espetáculo do que propriamente com a informação?

Pinzoh - Não sei se a mídia está sendo passada a limpo. Só sei é que temos uma mídia de péssima qualidade (com exceções), onde tudo virou espetáculo. A morte, o sexo, a intimidade, a pobreza, a corrupção. Tudo é espetáculo. Tudo é lançado para o jogo das audiências. Aliás, você que vive dentro dos meios de comunicação, pode falar melhor de como se estabelecem critérios para os programas, para as pautas; de como o índice de audiência virou uma paranóia e justifica programações extremamente idiotas. Há duas obras que acho boas para nos falar do que ocorre agora: “A sociedade do espetáculo” de Guy Debord; e “Simulacros e Simulação” (e outros escritos), de Jean Baudrillard. A mídia hoje é isso, com raríssimas exceções.

Teresa Leonel - Gostaria de fazer algum comentário específico?

Pinzoh - Queria acrescentar que eu sou filiado ao PT. Não me envergonho disso. Fui um dos fundadores do partido em Curaçá, lá pelos idos de 1986. Fizemos várias campanhas sem um tostão furado, recolhendo contribuições de centavos, fazendo cartazes em papel madeira e colando com cola caseira feita com soda; fazendo bottons e pintando camisetas com serigrafia caseira e vendendo tudo isso para fazer outros dinheiros para repetir todo o processo. Nunca ganhei um centavo em campanhas, pelo contrário, sempre botei dinheiro, sem pedir nada em troca. Nunca vivi de cargos públicos. Sempre fui professor concursado. Ultimamente tenho também feito palestras, seminários, assessorias para algumas prefeituras – inclusive em Curaçá, onde sou um dos autores da Proposta Pedagógica para as escolas municipais (atualmente não utilizada). E me orgulho muito disso, de nunca ter precisado baixar as calças para algum político. Essa autonomia muitos jornalistas não têm, porque seus patrões, com suas relações duvidosas, lhes tolhe a liberdade! E isso eu não invejo!

Quanto ao PT, este aprendeu a fazer o jogo que as velhas elites sempre jogaram – e isso me entristece. Nada justifica. Tenho sido um crítico dessas novas práticas do PT, principalmente do modo como atualmente as tendências e o critério de BU (Boletim de Urna) têm sido usados para praticar o patrimonialismo e privatizar a esfera pública em seu poder. Por um lado, as práticas pregressas dos outros partidos não justificam essas posturas do PT, tampouco algum partido pode dizer que não faz ou fez isso. Por isso, ver a elite pousando de defensora da ética, “da moral e dos bons costumes”, é algo que me deixa profundamente irado.

Por fim, obrigado pela oportunidade da entrevista e espero que você me permita postá-la também em meu blog.

OBSERVAÇÃO:
Esta entrevista foi dada à jornalista Teresa Leonel, para o seu Blog. O título que ela preferiu dar à entrevista expressa um dos recursos mais utilizados pela imprensa para produzir um determinado efeito e sentido, logo na chamada. Eu realmente disse que o PT tem errado e tem que pagar pelos seus erros, mas se eu fosse dar um título ou fazer uma chamada para esta entrevista, teria utilizado outro fragmento de minhas respostas.

Confiram no Blog de Teresa Leonel (http://teresaleonel.blogspot.com/2007/07/entrevista-professor-pinzoh-o-pt-tem.html)

domingo, 24 de junho de 2007

Estamos às portas do PAN

Por Juca Kfouri
Do Pan dos desatinos, do orçamento estourado quatro vezes. Porque, segundo as autoridades, o Rio foi preparado para muito mais, para ser sede da Olimpíadas. Mesmo que não se tenha saneado a baía da Guanabara, a lagoa Rodrigo de Freitas, não se tenha ampliado o metrô nem o transporte de barcas, nada, embora tudo tenha sido prometido. A chance de o Rio ser sede de uma Olimpíada nos próximos 20 anos é zero. Mas estamos às portas do Pan. Relaxe e goze, pois, como diria o..., como diria a... Afinal, o estupro foi mesmo inevitável. E a gente gostamos de esporte.
Ainda bem que teremos um maravilhoso torneio de futebol no Engenhão, com a Seleção Brasileira...sub-17. Felizmente os norte-americanos vêm com seu quinto time de basquete, se tanto, e os argentinos, campeões olímpicos, com o terceiro, se tanto. Porque o nosso time de basquete também será o segundo, se tanto, já que nenhum dos nossos que jogam na NBA virão.
A vontade que dá é a de seguir no caminho da ironia. Mas não dá. Porque o que dá é raiva. Raiva da chance que o Brasil desperdiça ao não fazer do Pan uma oportunidade de inclusão social por meio do esporte. Raiva de ver essa cartolagem que nos assola nadar de braçada no dinheiro público e mentir sem pudor.
Houve até quem dissesse (o ministro do Esporte, Orlando Silva) que o planeta estará de olhos voltados para o Rio.Mas na Europa nem se sabe o que é o Pan.E nem mesmo em países como Estados Unidos ou Argentina, que dele participam, a competição desperta qualquer interesse.Que dirá na Ásia, na África, na Oceania!
O Pan era para ser evento nosso, muito nosso, para estimular essa gente bronzeada a entender o valor da prática esportiva. Uma competição para cidades como Salvador, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Floripa, Porto Alegre, talvez, Brasília. Jamais para o Rio ou São Paulo.
Vamos viver dias, isto sim, de hipocrisia explícita. A TV aberta, sócia do Pan e, portanto, absolutamente acrítica em relação aos seus milhões de pecados, exaltará o ouro dos tolos e criará uma expectativa que tornará os Jogos Olímpicos de Pequim, no ano que vem, palco de grande frustração nacional.
Porque os resultados que aqui acontecerão, com raras exceções, se houver, não significarão rigorosamente nada em relação às marcas mundiais. O Pan, enfim, é um evento menor. Maior torna-se o escândalo do dinheiro nele investido. E as CPIs, tanto municipal, quanto estadual e federal, inevitáveis.
Mas devolver o dinheiro do povo que é bom, nem pensar. Estamos às portas do Pan. Não é para amá-lo nem deixá-lo, que não somos disso. Mas deveremos cobrá-lo. Até o fim.
Juca Kfouri é jornalista.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

A CRISE DA MÍDIA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)


A mídia brasileira está um tanto confusa! Prestemos atenção nos discursos que são veiculados nela, como há alguns que não são combináveis. Por um lado há um forte e constante questionamento do Governo Lula em dois pontos essenciais: a) o crescimento do país; b) a corrupção no governo. Em ambos os casos, há discursos divergentes e até inconciliáveis. E por outro lado não consegue oferecer uma contrapartida em termos de outros assuntos relevantes.

No caso do crescimento econômico todo mundo alardeia que o país está crescendo mediocremente; o país está paralisado, atrofiado, etc. E nesse assunto há sempre os que aparentam saber muito, sendo que uma parte desses sabedores são jornalistas (que, afinal, pretendem entender de tudo). Ao mesmo tempo (e ás vezes na mesma matéria) se diz que o poder aquisitivo da população aumentou; que está havendo mobilidade social com a inserção nas condições de participação no consumo de classes sociais e setores totalmente excluídos dessa participação. Diz-se que as pessoas estão comprando mais e que, inclusive, as pessoas estão consumindo coisas que não tinham por hábito consumir, como o entretenimento, a diversão, o lazer, etc., e até estão entrando no consumo de bens mais supérfluos que estão fora da “cesta básica” das necessidades primárias. Estão trocando bens móveis, automóveis e imóveis. Há aí algo a ser esclarecido: afinal, o país está ou não está numa fase boa? Está ou não está crescendo?

Não se trata de negar que ele precisa investir em infra-estrutura, melhorar as estradas, os portos; melhorar as vias por onde devem circular os fluxos do desenvolvimento e do crescimento. Mas trata-se de uma coisa mal explicada. Por exemplo, houve um momento, enquanto o dólar caía que houve reclamações, bloqueios de estradas, protestos. Claro que este “movimento” (em ano eleitoral, é importante não esquecer) era de quem negocia em dólar, e se coloca mais na perspectiva externa do que interna. Houve até manifestações explícitas na imprensa, na TV, alegando que o dólar baixo era uma ficção, que se o dólar baixasse mais o país quebraria etc. E o dólar despencou e o país não quebrou – inclusive nos parece que os manifestantes estão descobrindo que também podem lucrar com a baixa do dólar. Há coisas aí que poderíamos entender melhor se a mídia brasileira fosse melhor informada e menos instrumentalizada pelo jogos de interesse.

O outro ponto é a questão da corrupção do governo. No ano passado a velha elite em processo de esclerose apoderou-se das cagadas dos aloprados do PT para dizer ao país que jamais houve momento na história da República em que se viu tanta corrupção. Não só isso, mas fazia-se crer que essa corrupção era praticada exclusivamente pelo governo. E, aproveitando-se de nossa memória curta, se dizia: “nunca houve governo tão corrupto”. O PLF (agora DEM) pousou de paladino da moralidade (esquecendo que os principais escândalos de corrupção do país na história recente da República foram protagonizados por gente do PLF ou por ele apoiada).

Mas agora surge um fato curioso que a mídia trata de forma extremamente “vacilona”. É o caso das corrupções tornadas públicas pela Operação Navalha, especialmente no tocante ao senador Renan Calheiros (PMDB-AL). Por um lado foi o próprio Renan que enquadrou o Senado. Diante da iminência de uma investigação das suas relações com a rede de corrupção que envolve contratos com construtoras, ele foi esperto: defendeu que, se fosse para investigar, que se fizesse uma investigação geral e profunda, das relações que o congresso tem com empreiteiras. Claro que ninguém quer um negócio desses. Aliás, foi essa a razão de terem escolhido para relator um senador que se encontrava ausente, Epitácio Cafeteira (PTB-AM). Coitado! Herdou o abacaxi, pois ninguém queria se comprometer ele. Nem o próprio Cafeteira! Por isso inocentou Renan e agora está solicitando afastamento do Conselho de Ética, alegando problemas de saúde. Ora! Nós podemos no mínimo desconfiar de tais procedimentos. Nós sabemos que as relações do Congresso Nacional com as redes de corrupção não são nada amistosas. Nós abemos inclusive, de onde vêm os patrimônios da maior parte dos deputados e senadores, em geral incompatíveis com suas próprias rendas declaradas.

Claro que a mídia não quer explorar isso – embora saiba como as coisas funcionam! Todos nós sabemos que já se formou uma “cultura da licitação” que vai do mais alto ao mais sorrateiro escalão de poder. Conheço uma pessoa que trabalha com captação de recursos em grosso volume na região Sudestina (com prioridade para São Paulo e Rio de Janeiro). Ela me assegurou que todas as empresas, quando vão participar de licitações, sempre aumentam os preços em no mínimo 30 %. E uma parte dessa cifra é geralmente doada como prêmio aos titulares do órgão no qual a respectiva licitação se dá. É assim que uma boa parte dos políticos (senão todos, especialmente as “raposas velhas”) custeia suas campanhas e mantém suas redes de beneficiamento e dependência política entre eleitores. Ainda mais quando se tratam de contratos milionários ou bilionários como aqueles que se estabelecem com empreiteiras que trabalham com grandes obras. Não esqueçamos que uma parte dessas empresas pertence a políticos, como se pode ver na Bahia, no Maranhão... e onde mais?

O problema da mídia é que não quer falar sério! É que se for escarafunchar demais, pode chegar nos modos como a própria mídia brasileira se estabeleceu, num sistema formidável de beneficiamento de compatriotas e comparsas, como é o caso especialmente da TV no Brasil. A rede de corrupção é muito mais ampla, e é claro que ninguém quer mexer nela. Esse foi o pulo do gato de Renan Calheiros. No fundo ele não é nem mais nem menos corrupto que a maioria esmagadora dos nossos políticos, de esquerda e de direita.

Mas a mídia não tem pulso para assumir isso. Prefere ficar estandardizando o “relaxe e goza” da Marta Suplicy!

NOSSA ATUAL PERDIÇÃO:

Contribuição à constituição de uma teoria da greve atual


Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)

Cada dia me sinto mais confuso! A minha confusão agora é em relação às greves de professores na Bahia, tanto a da Educação Básica, quanto a da Educação Superior. Em uma de nossas discussões no DCH III um colega disse com muita ênfase que, uma coisa ele tem certeza: que ele pertence a uma categoria de trabalhadores, a categoria docente. Se para ele isso esclarece tudo ou quase tudo, para mim isso não esclarece quase nada. Desconfio que essa consciência de classe nós não chegamos a construir – e nem sei se isso é bom ou é ruim.

Talvez, se abandonássemos um pouco os chavões, as frases de efeito (que confundem mais do que esclarecem; por exemplo, o que quer dizer atualmente “reforma neoliberal da educação”?), restasse uma pequena fresta para pensarmos as contradições que envolvem nosso “movimento”. Uma delas é que, em que pese essa insistência de alguns em falar em nome da “classe dos professores” com uma suposta legitimidade, não conseguimos explicar porque o “movimento docente” se faz com tão pouca gente. As assembléias que deliberam sobre a própria greve sequer atingem 10% do número de professores, no caso da UNEB. No caso da APLB esse índice é muito menor. Não há procedimentos de representação e os líderes sequer aceitam que se discuta isso, em nome da democracia que eles mesmo dizem estar de acordo. No caso da UNEB o seu caráter de multicampia jamais foi levado a sério pela ADUNEB, embora os seus líderes cobrem isso das instâncias de gestão da Universidade. Esse detalhe permanece como algo para o qual aparentemente sabemos o que é certo (e cobramos dos outros), mas não sabemos praticá-lo.

Em relação à consciência de classe chegou-se a aventar que as pessoas que se colocam criticamente em relação à greve – e colocam questionamentos como os que estou tecendo aqui – não tem consciência de classe e estão instrumentalizados pelo Governo para defendê-lo. Ocorre que, como não somos crianças, sabemos também como nossa consciência de classe está eivada de posições divergentes, e que, nesse exato momento há uma parte de nós que é vinculada a um movimento de oposição que não começa e nem termina com o Governo Wagner e já era seu opositor antes mesmo de ele se iniciar. Esse campo de disputa política que extrapola o próprio Estado da Bahia foi, em boa medida, o que acelerou a nossa atual greve (não esqueçamos, por exemplo, que temos um colega, que está na liderança da greve, que foi candidato a Governador). Não dá pra falar aqui em consciência de classe, mas em interesses políticos que sequer se assentam mais em oposições do tipo esquerda-direita. Eis a dinâmica de nossa greve! Em nossa comissão de greve, temos colegas que tiveram sua participação questionada na comissão porque tinha uma posição diferenciada, ou seja, só temos capacidade de acatar o tipo de pensamento inteiramente convergente. Qualquer outro, rapidamente pode ser taxado de outra coisa.

Há quem diga, por exemplo, que aquela ira com a qual Rui, da APLB, se coloca na TV Bahia (e olha como ele está na mídia como nunca esteve, virou astro) é uma ira dirigida exclusivamente ao Secretário de Educação, Adeum Sauer, pela razão de que no movimento paredista há quem gostaria que o secretário fosse outro, ou outra. Há quem afirme que o trabalho ali, da greve da APLB, é de desgaste do atual secretário.

Outra mudança que precisamos ter capacidade de interpretar e reagir a ela, é ao formato que a TV Bahia assumiu rapidamente. Nunca houve tanto debate na TV Bahia, nunca Casemiro Neto foi tão ávido e "livre" com seus entrevistados, ao cobrar explicações da parte do governo. Se fôssemos ingênuos poderíamos achar é como se, finalmente, o pessoal da TV Bahia estivesse aprendendo a fazer televisão, inclusive diversificando seus convidados. Uma vez, em um dia 15 de outubro não lembro de que ano, dia dos professores, dei uma entrevista à TV Norte (atual TV São Francisco, em Juazeiro) à repórter Sibele Fonseca. Naquele momento estávamos também em uma greve nas universidades baianas e o governador, salvo engano, era Paulo Souto. No final da entrevista Sibele me perguntou se havia o que os professores comemorarem. Eu respondi que não, exatamente pelo tratamento que o Governo do Estado estava dando aos professores e à educação baiana. Como o programa não era ao vivo, Dadau, que era diretor na TV, falou pelo ponto da repórter que eu deveria refazer a minha resposta, porque eu havia me referido ao Governo do Estado da Bahia, e não podia.

Olha, vejam só! Como a TV Bahia se tornou “democrática”. Não me surpreenderia se daqui a pouco ela estivesse nas ruas, reivindicando “liberdade de expressão”, se colocando numa condição de “oprimida” e, ainda por cima, contanto com o nosso apoio de “classe trabalhadora”, consciente de sua “condição de classe”, e vigilante em sua “memória das lutas da categoria”. Será que em outros tempos essa nossa “revolução” seria televisionada?

Será que depois que fragilizarmos o atual governo (ainda em formação) seremos convidados à festa da direita, e teremos o direito de emitir uma opiniãozinha na TV Bahia? Sobretudo, tomara que estejamos com a disposição que estamos agora de abrir o verbo como estamos abrindo, com tanta ira nos olhos. Da minha parte acho que nem Rui, da APLB, nem qualquer um de nossos líderes da greve das Universidades Estaduais, têm a mesma coragem quando se trata de encarar os olhos do carlismo.

Será que diante disso teríamos condição de avaliar quem “instrumentaliza” quem? Quem está sendo “instrumentalizado” por quem? Teríamos condição de avaliar em quantos pedaços se despedaçou a nossa “consciência de classe trabalhadora”? Espero que aceitemos o fato de que esta greve tem muitos motivadores que extrapolam a pauta ordinária de nossas reivindicações e a suposta moldura de nossa “consciência de classe”.

Aceitem o atual grau de minha atual “perdição” e a legitimidade das questões que ela permite levantar.

“NOSSO” DE QUEM, SARARÁ?

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)

Há alguns dias comecei a escrever algo sobre a constituição e a condução do governo Wagner, mas me retive por várias vezes, por diferentes motivos. Um deles é a minha própria implicação com o governo, já que fui nomeado (embora não tenha tomado posse) para uma das Diretorias da SEC (a de Currículos Especiais); e já que, agora mesmo, há um processo de consultoria em vias de se consolidar – e eu espero que se confirme!

No entanto, há muitos outros motivos que me convocam a finalizar o que iniciei. Um deles é o fato de eu ser cidadão, eleitor, filiado ao PT, e perceber certas incongruências na condução dos processos de composição do governo. Por outro lado vivo outra crise como funcionário do Estado, enquanto professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB) desde 1994. Nesta, por exemplo, estamos vivendo uma greve (juntamente com os docentes das outras universidades estaduais), em função do acúmulo da precarização nas condições básicas de funcionamento do ensino superior. Não apenas faltam-lhe os recursos para as atividades de ensino, pesquisa e extensão, como também faltam estruturas físicas e equipamentos e até materiais de expediente, tão essenciais quanto detergente e papel higiênico. Hoje mesmo soubemos também que a empresa de segurança vai demitir os guardas, em decorrência dos vários meses de pagamentos em atraso.

De fato estou entre dois universos. E titubeio! No momento em que a greve começou a se esboçar, eu me posicionei contra ela, alegando que é muito cedo para o governo dar as respostas que dele esperamos, considerando que ele herdou um orçamento aprovado na gestão passada, bem como os muitos problemas e vícios infestados no serviço público pela tradição política carlista. Logo depois me inclino a aceitar que o governo deveria ter se antecipado, fazendo funcionar o que tinha que funcionar, negociando e implementando pequenas reformas e reajustes, abrindo diálogos setoriais e implantando um planejamento transparente e participativo, inclusive ao estabelecer os números para compor o PPA para os próximos anos. Então me inclino a aceitar o que as pessoas comuns dizem pelas ruas, por onde passamos (com a frase já convertida em piada): “o governo Wagner ainda não tomou posse”.

Por minha vez acho que o que tem acontecido é que “o governo” não consegue se acertar consigo mesmo. Por um lado porque ele já começou de forma absolutamente equivocada. Um governo que prometeu mudanças não pode simplesmente reproduzir as mesmas velhas formas de se fazer governo, utilizadas pelo carlismo. Mas isso tem efetivamente acontecido: onde antes questionávamos os cabides de emprego, agora brigamos para definir quem será o novo donatário do cabide. Isso não passa de uma forma pouco disfarçada de patrimonialismo.

É isso que ocorre, por exemplo, em Juazeiro, BA, na definição dos cargos e funções. Aqui o critério para prover cargos é apenas um: BU (Boletim de Urna). Quem teve mais voto, tem poder de mando, encarna a figura do coronel contemporâneo, que define, indica e veta e ainda pousa de democrático. As vagas nos estabelecimentos, todos nós sabemos, foram loteadas entre os partidos da base aliada (briga que dura até agora), e dentro do PT as vagas que lhe couberam, foram loteadas entre as tendências, seguindo o mesmo critério do BU.

Curiosidades à parte, um caso exemplar é o do Centro de Cultura João Gilberto. Na matemática do loteamento dos cargos e da troca dos donatários, o CCJG acabou se tornando propriedade de uma das tendências do PT, a AE (Articulação de Esquerda). Essa é uma primeira privatização, tão sutil que a gente nem percebe: o CCJG pertence à AE. Como nesta tendência há uma pessoa com maior expressão no meio artístico-cultural, logo a vaga do cargo é exatamente desta pessoa. Esta pessoa é Márcio Ângelo (Marcinho).

Claro que os nobres companheiros entendem que estão fazendo a coisa da maneira mais correta, e quando a gente quer questionar este formato, é subitamente confundido com alguém que quer tumultuar o processo, pois já está tudo decidido, tendo havido inclusive a elaboração de uma fórmula matemática específica para solucionar o processo de loteamento. Se a gente quer saber em que pé anda esta questão ou se quer problematizar este formato, a resposta mais comum é: “companheiro, você não participou da discussão” (leia-se: do loteamento).

Os nobres companheiros estão simplesmente privatizando a discussão, restringindo-a ao círculo restrito dos “eleitos”. Esquecem-se, por exemplo, que o “meio ambiente” da arte e da cultura em Juazeiro é muito mais amplo, e tem muitas histórias a contar. Há um coletivo grande de pessoas que fazem arte de forma militante (não em termos partidários, claro) que sequer são tidas como pares nessa discussão. Esse aspecto piora a sensação de privatização.

O caos e a crise que se anunciam no governo Wagner é fruto dessa arrogância dos companheiros que privatizam tudo com base no critério do BU, e desconsideram que há outras histórias em andamento, movimentos com agendas construídas há bastante tempo – inclusive com avanços já firmados nos governos anteriores (apesar do carlismo). Não se pode simplesmente jogar isso fora, e transformar todos os sujeitos não alinhados aos guetos das tendências em opositores automáticos. Mas é isso que tende a acontecer! É como se essa galera quisesse governar por apenas um mandato – como ocorreu no governo Joseph, em Juazeiro, pois só há um culpado pela sua derrota: o próprio governo Joseph.

Pois é contra essa atitude mesquinha que venho me pronunciar publicamente. O governo precisa urgentemente abandonar o “balcão de negócios” para tornar-se ágil e competente. Os companheiros precisam desprivatizar a discussão a respeito dos órgãos públicos e dos cargos a eles inerentes. Precisam ver menos inimigos entre aliados e abandonar a tática isolacionista. Isso é prenúncio de derrota futura. Além disso, o governo precisa acontecer!

É contra essa arrogância de gueto que me pronuncio contra a privatização do Centro de Cultura João Gilberto sob o critério do BU e sob domínio da Articulação de Esquerda. Posiciono-me contra a indicação PRIVADA do nome de Márcio Ângelo para ser seu diretor (e não há nada de pessoal nisso), pois é uma indicação de gueto, privatista e até onde sei sem o respaldo da classe artística de Juazeiro.

E se é Marcinho mesmo o indicado, porque ele ainda não foi nomeado? Há alguma coisa mal-explicada nisso. Recentemente ouvi dizer que Luiz Galvão (aquele dos Novos Baianos) está andando rua acima rua abaixo com um abaixo-assinado indicando o seu nome. Acho essa outra solução também desastrosa, inclusive por Luiz Galvão já foi diretor do CCJG e não foi lá essas coisas. Há, certamente, outras pessoas e capacidades a serem reconhecidas.

O meu posicionamento aqui se deve a esse fechamento dos companheiros em discutir tais questões. E nesse sentido, sugiro que a discussão da direção do Centro de Cultura João Gilberto seja reaberta e que outros nomes sejam postos à análise. Aqui vai a sugestão de um nome que desde já me coloco em campanha para defendê-lo – principalmente porque não está alinhado aos guetos das tendências do partido: Antonio Carlos Coelho de Assis (Coelhão).

Pois, se a direção das coisas for essa perspectiva privatista, não se pode dizer que esse governo é “nosso”. “Nosso”, de quem, sarará?

domingo, 20 de maio de 2007

O ZECA É MESMO BALEIRO!


Josemar da Silva Martins
Professor da UNEB/DCH III
Doutor em Educação

19 de maio de 2007. Iate Clube, Petrolina, Pernambuco. Show do Zeca Baleiro. No início, aquela expectativa, e aquela angústia por ver ali, do lado de fora, enquanto a fila andava, aqueles pitboys com seus carrões e seus porta-malas cheios de porcaria. Aliás, ali também encontrei alguém que se pergunta, como eu: porque quem gosta de música ruim (e há, sim, música ruim!) só consegue ouvir em último volume? Um tipo de exibicionismo simplesmente irritante. Esse culto do fuleiro como signo de valor.

Lá dentro, uma boa surpresa: ao contrário do que faz o Country Club, em Juazeiro, no show dos Paralamas do Sucesso, as mesas vendidas não tomaram totalmente a frente do palco e permitiram àqueles que compraram ingressos avulsos, compartilharem pelo menos um pouco o espaço do palco. Isso merece uma menção de razoável inteligência no planejamento espacial do show à equipe do Perna Longa.

Mas a graça mesmo veio do próprio show. Não apenas o tom rock in roll balançou a galera (essa palavra anda meio gasta, pelo uso abusivo que o Axé Music faz dela), mas a comunicação do Zeca com a platéia foi um diferencial. Em geral os artistas de renome que vem aqui, meramente dão “boa noite”, trocam o nome da cidade e dizem “obrigado, tchau!” no final. Engenheiros do Havaii, no Casarão, eu acho que nem isso pronunciou. E até Djavan economizou palavras nas duas vezes em que veio aqui. Certamente esses artistas não sabem como isso fornece um diferencial em termos de presença, de interação, para uma região já vapirizada pelas porcarias que se disseminam por aqui em todos os espaços, e que vive carente desses contatos. Com o Zeca foi diferente! Ele estabeleceu um contato alegre, descontraído! Segurou a onda quando a luz faltou por duas vezes (e poderia muito bem ter aproveitado para sair fora, pelo menos na segunda vez). Mas o público também segurou a onda, sem confusão, sem invasão de palco. Eu achei um puta show!

Mas há uma parte que considero particularmente significativa: não apenas os vários momentos de conversa, mas o momento em que Zeca Baleiro expressou sua opinião sobre o “fechamento” da indústria cultural em torno de estéticas como a do forró eletrônico, do axé e do pagode-bobagem, os três ícones da cultura da fuleragem. Sua defesa de uma abertura para a pluralidade cultural é algo que me soa corajosa – afinal, parece haver um pacto de silêncio em relação a isso, contra o qual nem nomes como Caetano Veloso parece disposto a pronunciar-se!

É uma pena que não pude entrevistá-lo, pois seria de muita importância seu depoimento em nosso vídeo “O Estado da Arte da Fuleragem” que o INOVE/UNEB está fazendo com apoio do BNB. De qualquer forma, há aqui outra constatação a ser feita: está cada vez mais claro que há público suficiente (mesmo aceitando os fuleiros entre esse público) para custear a vinda de outros nomes e outras estéticas da música brasileira para a região do São Francisco. Espero que os produtores de Juazeiro e Petrolina se dêem conta da asfixia que a mesmice do “forró putaria”, do “axé bobagem” e do “pagode fuleragem” estão nos ocasionando! Puta que pariu!

segunda-feira, 7 de maio de 2007

O BRADESCO, O BRASIL E NÓS


Josemar da Silva Martins
Professor da UNEB no DCH III

Suponho que no Brasil já se tornou uma de suas qualidades o fato de todos nós falarmos mal dele. Uma mania paradoxal, porque no momento seguinte a gente inventa uma piada em que um brasileiro raquítico ganhou algum campeonato estapafúrdio (de peido, por exemplo), confrontando com um adversário forte, seja ele um português, um japonês ou um americano. Nessas anedotas o brasileiro sempre sai vencendo, como se a gente quisesse inverter alguma dizibilidade maldita que pesa sobre nós.

Mas no geral todos nós falamos mal do Brasil. E falamos mal de seus políticos. Mas isso não de forma incondicional. Atualmente, por exemplo, como quem está no poder não é legítimo representante das classes dominantes, essas classes falam mal de qualquer jeito. E olhe que isso é expressão de enorme ingratidão, tendo em vista que os ricos deste país têm ganhado muito dinheiro nos governos de Lula 1 e 2. Tanto que sequer podem acusá-lo de que faz assistencialismo para os pobres. Perto do que os ricos têm embolsado, o que é dedicado aos pobres é absolutamente irrisório.

Suponho que os donos do Bradesco sejam deste tipo de gente que fala mal do governo, mas, olhando os números suponho que pelo menos os senhores Amador Aguiar (dono-fundador) e Márcio Artur Laurelli Cypriano (diretor-presidente) não tenham nenhum motivo para isso. Aliás, pelas somas de lucros, o exemplo seria até um bom exemplo para um país que, como todos dizem a uma boca só, “precisa crescer no mínimo 5 % ao ano!”

A cada ano o Bradesco bate recordes de lucro e crescimento. No dia 09 de maio de 2005 a Folha Online anunciava que lucro do Bradesco (de 1,205 bilhão no primeiro trimestre de 2005) superara o do Itaú (de 1,141 bilhão). Seguindo essa tendência o Bradesco fechou o ano de 2005 com lucro líquido recorde de R$ 5,514 bilhões, resultado 80,2 % superior ao do ano anterior (em 2004 o lucro fora de R$ 3,06 bilhões). Esse lucro em 2005 foi tido como o maior da história entre os bancos de capital aberto de toda a América Latina.

Mas as coisas não param por aí, pois é pra frente que se anda! Em 2006, no primeiro trimestre, o lucro do banco foi de 1,53 bilhão de reais e fechou o ano com um lucro líquido de R$ 5,054 bilhões. Deveras houve em 2006 uma queda nos lucros da ordem de 8,3 % em relação aos resultados de 2005 (R$ 5,514 bilhões); mas é importante lembrar que essa queda deveu-se a amortizações de ágios referentes a aquisições realizadas pelo banco e contabilizadas no balanço de 2006. Ou seja, o Bradesco lucrou menos em 2006 porque investiu em importantes aquisições, para se confirmar como o maior banco brasileiro.

Agora nos chegam informações de que o lucro líquido do banco no primeiro trimestre de 2007 teve um aumento de 11,4 % em relação ao mesmo período do ano passado. O resultado foi positivo em R$ 1,705 bilhão de reais, ante o lucro de R$ 1,53 bilhão de reais em 2006 (e lembremos que os lucros de 2005 foi de “apenas” R$ 1,205 bilhão para o mesmo período). É um exemplo e tanto! “O Brasil deveria se mirar nele” – diriam alguns!

Eu, por minha vez, que sou cliente do Bradesco de forma forçada – pois sou funcionário do Estado da Bahia desde de 1991 e fui “vendido” como cliente ao Bradesco, juntamente com os ativos do antigo BANEB – não posso pensar igual aos que acham que o Bradesco é um exemplo. Primeiramente deve haver algum erro no fato de termos sidos todos “vendidos” ao Bradesco quando este comprou o BANEB. Na verdade o Bradesco acabou sendo o “banco oficial” da Bahia, afinal que espécie de coisa haveria para que um Estado como o da Bahia force seus funcionários a serem clientes de um único banco. Esse não seria um assunto para ser enquadrado em leis de licitações – afinal, é uma prestação de serviço, que implica na geração de lucros para a empresa prestadora? Que tipo de acordo haveria legalmente para nos mantermos escravos de um mesmo senhor? Isso é algo que me cutuca.

O outro mal-estar é o fato de o Bradesco acumular concomitantemente os títulos de maior banco brasileiro e de pior banco brasileiro. Evidentemente a propaganda só fala nos dados positivos. O que não se diz é que o Bradesco cresce e lucra cada vez mais à custa do sacrifício de seus clientes, à custa da má qualidade dos seus serviços, equipamentos, etc. Desde algum tempo tenho me habituado a ir ao banco disposto a reclamar dos seus péssimos serviços. Em geral os funcionários dizem que não é culpa deles. Dão um 0800 para você ligar e reclamar; Você vai e faz isso, pedem a você para anotar um número de protocolo e nada acontece. Há anos vou aos caixas de auto-atendimento do Bradesco e não houve uma só vez em que não houvesse uma máquina quebrada, uma fila grande...

Eu até já adotei um slogan para o banco: “QuebraBradescompleto: colocando você sempre diante de uma máquina quebrada, uma fila enorme, um aborrecimento qualquer”. Acho que esse não deveria ser exemplo algum para o Brasil seguir. Além desta lógica de seguir lucrando à custa da miséria e do sofrimento, é a mesma lógica de sempre. Não merece nenhum crédito, pois crescer e ganhar dinheiro, ao invés de ser um meio para melhorar a vida das pessoas, virou finalidade única e exclusiva. A despeito do dinheiro que estas instituições gastam com a propaganda de que cumprem com sua “responsabilidade social”, desconfio que esse é o emblema que mascara o “não to nem aí pra isso”!. Responsabilidade social é tratar bem as pessoas, e poderia começar pelos clientes que fazem os estrondosos lucros do banco.

Mas banco não tem alma e não adianta reclamar, falar com alguém ou ligar no 0800. Eu, por minha vez, adotei outra estratégia. Todas as vezes em que me deparo com esta situação eu pego um daqueles envelopes para depósito, que têm uma borda adesiva, e colo na tela da máquina quebrada com a seguinte anotação: “esse banco é uma bosta”. E fico aliviado!

domingo, 6 de maio de 2007

INTENSOS ENCONTROS IMAGINÁRIOS

Eu poderia até fechar os olhos
Mas é como se só o toque
Jamais fosse suficiente
Para crer na geografia do seu corpo

Imagino os dedos correndo sobre a pele
Os olhos dançando sobre as formas
O nariz farejando cheiros
Que a boca pede prova

Não há momento mais intenso – penso!
Quando os olhos encontram os seus
Enquanto os dedos exploram seus relevos

Ou quando outras carícias
Produzem tamanhas cumplicidades
Que umedecem as bocas e seus segredos

O OUTRO DE HOJE

Hoje meus eus, são tão outros
Que os desconheço...

Às vezes peço um tempo
Às vezes não há tempo
Pra objetar qualquer pedido

E ainda assim, de atrevido
Eu deixo que um deles
Aquele que mais de mim se esquece
Que assuma o rumo do dia
E nele projete a noite

Hoje, o outro que instalou-se
Como se pouco não fosse
Quer que eu te diga tudo

Que eu te informe
Que eu te avise
Que, embora eu não precise,
O adorno mais bonito
Que a noite pode me dar
Seja seu corpo estendido
No lastro desse meu outro
Enquanto a noite durar

Refrões Refrescos

e quando a noite for menina feita
molhar tua boca de refrões refrescos
frases sem verdades, só sonoridades
chiados excitados nos ouvidos

quando a noite for menina feita
mirar o céu de frente, na horizontal
imaginar tudo de ponta cabeça
quando o céu já é abismo, e nada mal.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

O que eu vi em “Ó paí, Ó!”

Josemar da Silva Martins
Doutor em Educação
Professor da UNEB no DCH III


Fui ver o filme “Ó paí, Ó!” (Monique Gardenberg, Brasil, 2007) já alimentado por alguns comentários que havia ouvido sobre o mesmo, e que o enquadravam como uma obra meramente comercial, uma espécie de longo comercial para vender uma Bahia há muito vampirizada pela indústria do Axé Music, ou uma espécie de palco para desfile gratuito deste filão de arte comercial.

Mas – ainda bem! – me deparei com outra coisa. Ali sempre está presente, por trás (ou ao lado) de uma suposta alegria baiana (ou soteropolitana, afinal, o Brasil continua achando que a Bahia é apenas Salvador) uma insistente sombra, um tipo de luto que não deve ser confundido com mera alegoria cinematográfica.

Na verdade, por trás de toda a ginga, o que há é a sutil denúncia de nossa frágil felicidade! Gente que mora mal, come mal, dorme mal, e sonha mal com uma vida que é mera utopia caolha, no fim do horizonte ondulado do Pelô, sempre esticado e renovado ao término de cada desastre de dia, emulado como forma de paraíso.

Não se trata apenas de uma diversidade para ser festejada. Diversidade há em todo lugar; entre-lugares risonhos-e-tristes, são atributos da vida, não apenas na Bahia. Eu prefiro achar que o filme ajuda a desmascarar a fantasia de paraíso tropical e seus recursos de malandragem, diversos da versão carioca. Malandragem já se iniciando na infância risonha e trágica dos meninos que enganam a mãe, e cometem pequenos e humanizados delitos.

Ali, ainda, é o teatro de nossa santa enganação de todo santo dia! O fetiche em relação ao turista gringo (que pode cagar e mijar onde bem entender, que continuará a ser tratado como Totem); o sonho de uma vidinha medíocre na Europa, dando o rabo e limpando banheiro, para voltar cantando vantagem de vida de princesa; pé-rapado que fala inglês – mesmo que não tenha dinheiro para o acarajé ou o camarote; o comerciante respeitado e moralista que banca o trabalho de extermínio de menores; o policial bem relacionado que faz (com muita eficiência) o trabalho sujo de “limpeza. Os xingamentos como forma de dissimulação, quando não se tem o que dizer (“vá tomar no cú!”), expediente que os taxistas usam a torto e direito.

Claro que a gente ri durante todo o filme e se engasga com o seu final. Há os que, acostumados aos roteiros lineares dos enlatados americanos, dizem: “só não gostei do final!”. Pois o final é quando aquela sombra de luto, que acompanha o filme desde suas primeiras imagens, ganha forma e entala nossa gargalhada!

Não consigo vê-lo sem lembrar que, no Brasil, ficamos inventando formas autênticas, heróicas e nobres, para encobrir o fato de sermos todos filhos da puta! Como disse Contardo Calligaris, essa “ausência de pai”, com a qual até a Antropofagia vira mera forma de dissimulação de nossa origem caótica e sem nobreza, que não consegue disfarçar nem o fato de que foi o bispo (a empresa colonizadora) quem comeu os índios, e não o contrário!

Ele me fez lembrar que o brasileiro vive inventando piadas em que o mais fodido (ele próprio) é quem vence no final (independente de o adversário ser português, japonês ou americano). Vive inventando expressões sem sentido: “Deus é Brasileiro”; “Terra do futebol” – enquanto a qualidade de nossos estádios não sustenta nem a reivindicação para sediar uma Copa do Mundo. E nessa linha tudo acaba sendo transformado em “orgulho nacional”, até a corrupção!

Além dessa forma de enganação, há no filme traços de nossa cordialidade patrimonialista – na forma apresentada por Sérgio Buarque de Hollanda – transformada em regra de convívio ordinário. Ali, não há o que festejar, mas o que refletir – e, talvez, seja este o convite do desfecho do filme! Há algo de curioso nessa nossa alegria da miséria, não porque não teríamos o direito ao riso, mas porque isso disfarça bem essa sombra de luto que acompanha nossa gargalhada. Nem o carnaval de Salvador – essa forma já falida de opressão risonha, como sugere Sérgio Bianchi, em Cronicamente Inviável! – não consegue mais disfarçar sua lógica de apartheid e sua expansão meramente mercantil, que já vampirizou a cidade e sua programação.

Curiosamente eu não achei estereótipos no filme, nem nos sotaques, que me pareceram coerentemente bastante diversos. Apenas uma coisa me soou postiço: a pronúncia do “ó paí, ó”. É como se ele devesse ser pronunciado apenas em momentos estratégicos, para demarcar alguma forma de desastre.

Gostei do filme por ter encontrado nele estas propriedades. Parece que ele me disse, em seu final: “Ta rindo de quê, sarará?” Mas parece que é algo que ele tentava me dizer desde o início, mas eu continuava encantado com a festividade da diversidade alegre e maledicente do Pelô, como se sua mensagem fosse apenas esta!

Salvador que se repense! Eu, por exemplo, não consigo esquecer de que o “ó, paí, ó!”, ou o “colé?” (abreviação para a expressão qual é?), ou ainda o “aonde?”, tomados como formas autênticas de criação lingüística, não conseguem disfarçar nossos índices de analfabetismo e o fato de Salvador ser uma das capitais brasileiras onde mais se usa mal a Língua Portuguesa. Do mesmo modo não consigo esquecer (por mais que o filme me faça rir) que muita gente não fez opção por morar mal, comer mal, dormir mal e sonhar mal. Não se trata de opção de vida, poeticamente pensada. Trata-se de processos de exclusão, dentro dos quais se estruturam formas de vida e comunhão criativas e irônicas– ainda bem!

Sobre os benefícios de nossa desordem de cortiço, apenas os turistas, que moram bem e usufruem dos benefícios que a moderna ordem capitalística proporcionou aos seus países (e, talvez, estejam cansados desta ordem, da pontualidade de seus ônibus e das bumdas mínimas de suas mulheres) é que dela gostam; e vêm nela se divertir (não por muito tempo) e tirar proveito de nossa miséria alegre, como uma espécie de souvenir. E aqui são tratados como Totens. Por tudo isso o filme é alegremente trágico, e tragicamente alegre! E nem isso as releases sobre ele conseguem descrever. Elas sempre param em termos como criatividade, ironia, sensualidade e música. Ó paí, ó! Mas, apesar de suas releases, o filme é bom!

sexta-feira, 27 de abril de 2007

EDUCAÇÃO: A CRÔNICA DO PRESENTE

Josemar da Silva Martins
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro, BA)
Doutor em Educação pela FACED/UFBA
Não têm conta entre nós os pedagogos da prosperidade que, apegando-se a certas soluções onde, na melhor das hipóteses, se abrigam verdades parciais, transformam-nas em requisito obrigatório e único de todo o progresso. É bem característico, para citar um exemplo, o que ocorre com a miragem da alfabetização do povo.
(Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil)
A maior parte das análises sobre educação geralmente se prende – e de forma bastante pragmática – à questão escolar. Sobretudo agora, quando um discurso renovado empenha todas as faturas, de todos os problemas sociais, na conta da educação, reduzida à idéia de escola. Isso não é novo: diversas vezes em nossa história, a educação foi tomada como a “alavanca para o progresso” e reduzida à instrução escolar elementar, ao mero alfabetismo.

Esta perspectiva já se anunciou desde a aurora do século XVI, com a Reforma Protestante, quando Lutero e Melanchton defendiam a educação universal e pública, capaz de tornar cada pessoa apta a ler e interpretar por si mesma a Bíblia. Depois, já no séc. XVII, esta perspectiva se deslocou do campo da religiosidade para o terreno volvido pelas idéias iluministas, que ressaltavam a razão como o grande instrumento de apreensão e interpretação do mundo. E a escola passou a ser defendida com caráter leigo e livre, ao encargo do Estado, devendo se tornar um bem de caráter universal, obrigatório e gratuito (Cf. NUNES, 1994: 91-93). Daí em diante o próprio arquétipo da modernidade sustentado pelo Iluminismo, adotou esta idéia de educação reduzida à escola, e suportada em quatro princípios burgueses: a universalidade, a gratuidade, a laicidade e a obrigatoriedade.

Entre nós, desde que a proposta moderna de matriz Iluminista se fez presente, contra um modelo de sociedade tradicional em crise, se discute a importância da educação escolar sustentada naqueles quatro princípios burgueses e a sua vinculação com a idéia de alavanca para o progresso; como elemento modernizador. Desde antigas discussões sobre problemas de integração nacional, de transformação das massas em povo, de conversão dos súditos em cidadãos, de superação de nossas mazelas econômicas ou de enfrentamento do nosso formidável sistema de exclusão social, a educação escolar é erigida como variável modernizadora, o que vai orientar as propostas de universalização da instrução primária na América Latina e no Brasil. É por isso que desde fins do século XIX se dissemina por todo o continente Latino-americano a idéia de que “a educação é a locomotiva do progresso” (SAVIANI, 1984: 10), assim continuando a ser durante todo o século XX, e sobretudo agora, na aurora do século XXI.

Os discursos de agora parecem reinventar entre nós aqueles das primeiras décadas século XX, que vinculavam educação e desenvolvimento e chegavam ao excesso de tratar os “desescolarizados” como doentes. Assim via o médico Miguel Couto:
[ignorância é] não somente uma doença, mas a pior de todas, porque a todas conduz; e quando se instala endemicamente, como na nossa terra, assume proporções de verdadeira calamidade pública. É ela que reduz nosso homem a meio homem, a um quarto de homem, e a nossa população à metade ou quarto da realidade; ela e só ela, é a responsável pelo relativo atraso de nossa Pátria, que não pode sofrer o confronto com as outras (in PAIVA, 1987, p. 28).
Não é à toa que se criou neste mesmo período o Ministério da Educação e Saúde. Efeitos de um exacerbado “entusiasmo pela educação” (Cf. PAIVA, 1987) e de uma visão sanitarista e higienista que via na educação (escolar) um instrumento de “limpeza”, para limpar a pobreza de seus vírus mortais: os vírus da ignorância. De lá até cá essa visão reservou para a educação apenas o ambiente escolar e apenas saiu do campo da medicina ou da higiene sanitarista, para entrar em outro, o da psicologia, como se pode ver no atual predomínio das pedagogias psi.

Mas embora estes discursos tenham sido renovados ultimamente, desde as primeiras décadas do século XX já havia quem deles desconfiasse, como Sérgio Buarque de Holanda, que na década de 1930 já advertia:
Cabe acrescentar que, mesmo independentemente desse ideal de cultura, a simples alfabetização em massa não constitui talvez um benefício sem par. Desacompanhada de outros elementos fundamentais da educação, que a completa, é comparável, em certos casos, a uma arma de fogo posta nas mãos de um cego (HOLANDA, 1995, p. 166).
Estamos de volta a este paradoxo. Por um lado educação tem sido reduzida a escola: escolarização, currículo, prédio escolar, professor, aluno... Não já é momento para pensar a educação em termos mais amplos? Já não é tempo de pensar a conexão entre educação e sociedade pautada em outros elementos?

Nossos discursos insistem em afirmar que estamos formando a cidadania consciente, crítica e participativa através da escola. Mas parece que as personalidades dos alunos, as suas identidades e subjetividades estão menos carregadas destas frases de efeito do que daquilo que circula na rua, na festa, no tape, no outdoor, na TV. Na verdade há um hipertexto social. A própria cidade é esse hipertexto, que vai dotando a educação das novas gerações de um caráter cada vez menos escolar. E junto com este hipertexto social há algo de perigoso que nos assusta cada vez mais, uma espécie de desgoverno com o qual não sabemos lidar; preferimos dar-lhe um outro nome: “barbárie social”.

As escolas se encarcerem ainda mais, suspendam recreios, aumentem suas grades, seus cadeados e também sua guarda. O debate se abre movido a desastres não muito distantes: em Salvador (BA), a morte de duas moças de classe média, em uma escola privada, assassinadas por um jovem colega; em Juazeiro (BA), um menino de 12 anos que invadiu uma escola pública, de um bairro periférico da cidade, e esfaqueou um colega de mais ou menos a mesma idade... E os exemplos vão se somando – sem contar os exemplos a nível nacional.

O debate que se abre culpabiliza mais ainda a escola e acrescenta-lhe novas demandas: formar valores, competências, habilidades e de atitudes; aprender a a apre4nder, a fazer, a ser e a conviver. Ou sugere um abandono do público e o encarceramento em condomínios fechados e instituições religiosas (cada vez mais fundamentalistas e intolerantes), com base na suposição de que tudo que está fora disso é o mau; Acirra-se o apelo moralista-coercitivo, solicitando a ampliação dos aparatos de vigília e punição, o cerceamento das liberdades, o aumento dos dispositivos proibitivos e a ampliação dos aparelhos militares e para-militares. Instala-se o Big Brother, o Grande Irmão que é o Grande Olho. Já foi o olho de Deus na Idade Média. O olho do estado na sociedade moderna. O olho da sociedade em seus múltiplos sistemas de conveniência que definem os códigos de pertencimento e as práticas de habitação. Hoje é tudo isso junto, com o suporte dos novos aparatos tecnológicos de vigília: micro-câmeras por tudo que é lugar. “Sorria, para sua segurança você está sendo filmado”. E o que sabem sobre minha segurança?

Na verdade o que está em jogo é, por um lado, uma falência da escola como dispositivo de governo. Foucault já expôs como as escolas foram produzidas similares às prisões e aos manicômios. Elas nasceram junto com os sistemas de vigília e punição, baseadas em esquemas panópticos (FOUCAULT, 1987). Seus tempos e espaços foram formatados para o disciplinamento e o controle dos corpos e a produção de novas condutas.

As relações de violência, que agem forçando, submetendo, quebrando, destruindo e fechando todas as possibilidades e deixando apenas pólo da passividade, como a experiência da palmatória e do castigo, foram substituídas pelas relações de poder disciplinar em que, ao contrário, o “outro” é reconhecido e mantido como o sujeito da ação, fazendo apenas com que se abram campos de respostas, de reações, de efeitos desejáveis, como funcionam, por exemplo, os dispositivos dos direitos e deveres, as faixas de trânsito na rua ou as listas amarelas dentro dos bancos: para produzir não só uma circularidade, mas um “discurso verdadeiro”, ordenador de práticas; para estabelecer uma governamentalidade (FOUCAULT, 1979). Ocorre que esta tecnologia de governo na escola já faliu há muito tempo. Tudo que se faz agora é tentar recuperá-la, renová-la, fazê-la funcionar novamente. Mas vivemos um tempo de desgovernamentalidade. O tempo do desgoverno. E é isso que nos assusta.

E este desgoverno liga-se ao fato de a escola já não ser mais a referência de formação; ao fato de a sociedade ter entrado em período em que, neste hipertexto contam primordialmente agora a cultura do consumo, a alienação, a erotização, a drogadição e a violência que são distribuídas nos espaços públicos, nos eventos de entretenimento, nas festas de inauguração, nas festividades oficiais, nos programas de TV, na programação das rádios AM e FM, nos barzinhos... Estes ambientes da liberação são ambientes da prática de um liberalismo que é, na verdade, o formato primordial de nossa democracia (a de mercado). E tudo então vira mercadoria. Inclusive a produção das subjetividades que são cada vez mais fabricadas dentro dos modos capitalísticos (GUATTARI & ROLNIK, 1996) de produção material e subjetiva, cujos braços estão estendidos até o campo da cultura, do consumo, da produção dos desejos, da elaboração das identidades e da satisfação dos prazeres.

Este ambiente é o de uma segunda colonização, que passa a dizer respeito à alma, pela distribuição e consumo de novas mercadorias que vendem a varejo os ectoplasmas de humanidade, “os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma” (MORIN, 1997: 14). Produtos que circulam no cinema e na TV, e se desdobram em outras mercadorias de uma extensa “Indústria Cultural” (ADORNO & HORKHEIMER, 1985), virando brinquedos, discos, festas temáticas em escolas, out-doors, as mais-mais das rádios AM e FM, adereços, cadernos, borrachas, roupas, calçados e tatuagens (não apenas essas que vêm nos chicletes; todas porém, grudam em nossos corpos desejantes e mesmo nos procedimentos institucionais e oficiais). Este é o hipertexto, a exterioridade que dialoga com as subjetividades e as refaz.
É a relação da subjetividade com sua exterioridade – seja ela social, animal, vegetal, cósmica – que se encontra assim comprometida numa espécie de movimento geral de implosão e infantilização regressiva. A alteridade tende a perder toda aspereza. O turismo, por exemplo, se resume quase sempre a uma viagem sem sair do lugar, no seio das mesmas redundâncias de imagens e de comportamento (GUATTARI, 1990, p. 8).

Ambientes e hipertextos que produzem também as erosões no Eros e imensos campos de frustrações que, não raras às vezes, viram armas de guerra. O hipertexto não é somente “uma metáfora válida para todas as esferas da realidade em que significações estejam em jogo” – como quer Pierre LÉVY (1993), ou como quer também Manuel CASTELLS (1999), quando reduz demasiadamente esse hipertexto ao espectro das novas tecnologias da informação e da comunicação. Do ponto de vista da educação em sentido amplo, o hipertexto é a própria realidade social e suas esferas de significação. Mas quem está interessado em incluir isso na trama da educação das novas gerações e nas agendas das políticas educacionais e escolares e não-escolares?

Acho que é por isso que a escola deve ser repensada. Ela ainda é muito importante na preparação das novas gerações perante o saber formal, especialmente para os excluídos. É ainda um passaporte fundamental para qualquer proposta de inclusão social. Mas se por um lado a escola deve mudar para ser melhor, por outro, é urgente pensar que educação não é somente escola. As condutas das novas gerações já estão hipertextualizadas e multirreferencializadas. Liberalizadas, banalizadas, prostituídas...

Enquanto as práticas de governo tentam sua re-instituição na escola pelo uso de novos aparatos tecnológicos, o desgoverno já se instalou em várias esferas do convívio social, ajudado pelas posturas liberais e neo-liberais das políticas oficiais. Hoje vivemos na histerese da política, da sexualidade, da estética... Perdemos os referenciais, os parâmetros; entramos na era da transsexualidade, da transpolítica, da transestética, como nos sugere BAUDRILLARD (1990).... Entramos no momento da "pós-orgia". Pare este autor a orgia foi o momento explosiva modernidade: o da liberação em todos os domínios. E o que foi liberado passou para uma esfera de pura circulação infinita. Tudo liberado aí circulando, formando uma órbita, onde tudo fica fadado à comutação incessante, à indeterminação crescente, ao princípio de incerteza... E a pergunta é: e depois da orgia, o que faremos? Tentamos...

Tentamos ter certezas, para nos mantermos do lado do Bem. Este quer o claro, o explicado, o vigiado e o controlado, enfim a oficialidade branca, e em sua prática maniqueísta tende a criar novas zonas escuras de marginalidade e desgovernamentalidade. Por isso não parará de remessar sujeitos à opção do escuro, do inexplicado, do fugidio e do descontrolado. E é a isso que o Bem chamará de Mal – já que o Bem, que sempre está do lado do poder, se autoriza sempre a nomear, ou melhor, a adjetivar o Outro.

Esses são nossos dilemas. E tudo está aí para ser pensado novamente.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ADORNO, Theodor W. & HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

BAUDRILLARD, Jean. A Transparência do Mal: ensaio sobre fenômenos extremos. Campinas, SP: Papirus, 1990.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. – (A era da informação: economia, sociedade e cultura; v. 1). – São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CHARDIN, Pierre Teilhard de. O fenômeno humano. – São Paulo: Editora Cultrix, 2001.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, RJ: Vozes 1987.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. – Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

GUATTARI, Félix & ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo – 4ª ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.

GUATTARI, Félix. As três ecologias – Campinas, SP: Papirus, 1990.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. – 26a ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995. (A primeira edição é de 1936).

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. – Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: necrose. 3ª ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999. (O espírito do tempo II)

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: neurose. 9ª ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997. (O espírito do tempo I)

MORIN, Edgar. O método iv: as idéias, a sua natureza, vida, habitat e organização. – Portugal: Edições Seuil: Biblioteca Universitária: publicações Europa-América, 1991.

NUNES, Antonieta D’Aguiar. A Tentativa de Universalização do Ensino Básico na Bahia com a Proclamação da República. In: Revista da FACED/Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, no 0 (out. 1994). Salvador: FACED/UFBA, 1994, p 91-105.

PAIVA, Vanilda Pereira. Educação popular e educação de adultos. – 5ª ed. – São Paulo: Edições Loyola, 1987.

SAVIANI, Dermeval. O lógico e o histórico nas análises de desenvolvimento e educação na América Latina. In: RAMA, German [et. al.]. Desenvolvimento e educação na América Latina – 2ª ed. – São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1984, p. 5-16.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Cidade Grande

a cidade está aqui, plantada em minha frente!
os carros em velocidade e ela parece parada
à primeira vista, são os móveis que se desviam
de suas pontudas esquinas...

ela cheira a borracha e gás carbônico
e eu atônito felizmente fluo entre seus descaminhos
seus fluxos de metal escorrem pelas vielas
em ruas largas, passarelas
mas nada minimiza o desamparo
sensação plantada entre tantos seus degraus

a cidade cresce para cima
mas se enraíza em seus subsolos
redes subterrâneas lhe irrigam
pelo holograma inexplicável dos seus condutores

aqui e ali desponta um tôco de concreto ou outro sintético
e brotam fluidos transnacionais de toda ordem
rugas e rusgas crescem entre os semáforos
utopias vermelhas enxovalhadas que portam luzes
e a sobra de uma sombra escura em forma de gravata

a cidade não é sua aparência paralítica
esta face dura que empata todos os trajetos
ela é sua imaterialidade animada
que se desvia dos carros e outros embustes
e abre buracos, e fende passagens
e faz todos andarem em sua velocidade

a cidade nos habita
mesmo se a gente a ela resiste
e quanto a isso é impossível retê-la em suas minúcias,
posto que ela excede-se a si mesma...

mas triste mesmo é que ela, em sua pressa
escondeu tão bem seu pôr-do-sol
por trás de seus arranha-céus.

enquanto suas nuvens negras
despertam a noite mais cedo
e a cidade alterna, então, os seus segredos
sobra ainda o segredo mais cruel:
- é que de tão perto que tornou-se o seu céu
quanto mais assim ele é tão seu
e quanto mais assim é menos céu!

(São Paulo, fim de tarde na Paulista em 13 de abril de 2007)

CONEXÕES

a vida anda assim encruzilhada
(não seria em cruz ilhada?)
fluxos rodopiando nos fios do cerebelo
ouriçando rimas, enzimas
nos derivando nas conexões
um dia ali, alegre,
outro além, nem tanto
sem exatas equações.
*
estamos todos nos compondo
uns aos outros
uns nos outros
umas para outras...
*
penumbra do dedo
quase apontando um rumo
é o seu nesta foto...
e as cores das flores
marcando o contorno do fato.
*

minhas palavras a esmo...
cá de longe, ermo do mundo
profundo seu beijo sem pitoca
na prancha do seu teclado
seu dedo quase me toca
*
e eu distraio ouriçando ondas
sendo tragado pelas janelas
excitando ainda estes perfil distantes
nas percepções acesas pela tela
*
o virtual nada mais me dá além disso
além desses ouriçamentos distantes.
e, derepente, eu quero mesmo é pêlos
e peles: concretas, acesas, arrepiadas, nuas
para nelas me enroscar de fato
enquanto espero a lua
*
conectar o corpo noutro corpo
plugar a boca noutra boca em chamas
trocar os fluxos por temperaturas
derramar os “áis” e “úis” na cama
encher de novo o copo de loucuras...
*
eis o que desejo
quanto mais me queimo
da fogueira dessa tela
*
e sigo quase ileso...
mas, melhor que isso, é tê-la sem frecuras!

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