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sábado, 30 de agosto de 2008

A Face da Arte Contemporânea

Entre Duchamp, A Favorita e Raphael Guedes Augustaitiz

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
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De vez em quando passo por São Paulo, que acho a mais brasileira e a mais internacional de todas a cidades e, por isso, a diversidade de suas opções parece não ter fim. Na maioria das vezes vou a trabalho – mesmo que sempre dê para dar umas voltas. Desta vez fui mais para visitar parentes e amigos, pingar um pouco mais na casa de uns do que na casa outros, e menos a trabalho. Aproveitei para transitar um pouco mais por suas esquinas, vias, vales, montes e subsolos. Cheguei dia 11 de julho e, por puro golpe de sorte, pude testemunhar a abertura da exposição que o Museu de Arte Moderna (MAM) dedicou às “obras” de Marcel Duchamp – entitulada "Marcel Duchamp: Uma Obra Que Não É Uma Obra 'De Arte'". A exposição fica no MAM de 15 de julho a 21 de setembro de 2008. Eu não poderia deixar de ver a simulação dos signos – e enigmas! – que este “artista” impôs ao século XX e à arte de uma forma geral, tendo estabelecido os princípios daquilo que temos chamado de “arte contemporânea”. Eu não poderia deixar de me banhar nessas águas – embora tenha percebido que elas já estejam um tanto envelhecidas.

No Museu, depois de pagar o passaporte, tem-se que atravessar um corredor ladeado por um enorme painel branco, com pichações feitas com tinta preta e borra de café; aí vem os guardas engalanados para nos dizer o que pode e o que não pode ali (filmar não pode!). Na exposição pude perceber que tanto havia aqueles esforçados em ver algum valor na “obra” e até pretendiam fazer outros perceberem sua coerência – como o caso de uma moça que explicava a um grupo de jovens que não usavam All Star (lembro agora de um texto que li numa edição da Revista Bravo!, fazendo uma relação entre os públicos jovens que freqüentavam a Bienal, e distinguia os que usavam All Star, jovens de classe média, universitários; e os que usavam tênis “da hora”, garotos da periferia) – então falavam da transformação operada pelo “artista” com seus ready mades, mesmo que algumas pessoas franzissem a testa.
Havia até aqueles com algum princípio de riso não contido, no canto da boca.

Desconfio que a “arte” atual (entre aspas, como consta no título da exposição) não apenas é mais radical do que Duchamp, como também há um desconforto que se insurge ali. As “obras” são cópias (talvez de outras cópias) e nisso não haveria nada de mais, em se tratando de Duchamp, já que foi ele o principal demolidor da relação entre o original e a cópia – coisa que só tinha sentido quando à arte estava consagrada alguma aura. A questão é que aqueles seguranças engalanados dão a entender que ali trata-se não apenas de um relicário, mas de um santuário. Alguma aura é re-investida ali, mesmo que já seja ela convertida em simulacro, pois as consciências presentes pagam pela falsificação com a certeza de se relacionarem com alguma coisa autêntica. É, no mínimo, uma relação movida pelo fetiche.

Ocorre que, justo no dia 11 de julho, dia em que cheguei à cidade, o capítulo de A Favorita, novela das oito da Globo, levou ao ar uma cena em que a personagem Alícia está apresentando sua “obra de arte contemporânea” constituída de uma “instalação” de ovos espalhados no chão, formando uma espécie de tapete, e um ovo grande (do tamanho de um ovo de avestruz) que ela própria segura nas mãos, enquanto recita um texto. É interrompida pela personagem Céu, que perguntando se é aquilo que chamam de “arte contemporânea”, invade a instalação e começa a atirar ovos em Alicia. Curiosamente nesse mesmo dia fazia exatamente um mês do ato de Raphael Guedes Augustaitiz, aluno concluinte da Escola de Belas Artes, que invadiu a escola acompanhado de 40 pessoas encapuzadas que picharam o prédio da referida escola, dizendo ele que o gesto fazia parte do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). O jovem aluno de 24 anos não logrou o mesmo sucesso de Duchamp. A arte que ele fez está mais para aquilo que, quando criança nossos pais nos diziam: "cuidado com isso, pra não fazer arte". A arte como acidente, desastre, malogro. Por isso o tratamento recebido pelo jovem aluno está mais para o vexame vivido por Alícia, em A Favorita: foi expulso da Faculdade de Belas Artes de São Paulo e ficou sem o diploma. Fez arte! Foi punido, dizem, por ter pichado o prédio da instituição e – conforme palavras de vários veículos de comunicação – por ter depredado, agredido funcionários e destruído alguns trabalhos expostos nas dependências da Universidade. Fez arte!

Voltei de São Paulo com uma sensação estranha em relação à “arte contemporânea” e ao tratamento que damos a ela. De fato, conheço muitas pessoas que não compreendem os seus axiomas, incluindo alguns que nela se aventuram. As pessoas que não tem formação muito requintada de conceitos acadêmicos certamente a estranham. E não a entendem porque não conseguem enxergar o percurso do deslocamento que transforma peças comuns, de uso cotidiano, em obras de arte: o que diferencia um urinol ou uma roda de bicicleta de Ducham de um urinol ou uma roda de bicicleta qualquer? E há aqueles que, compreendendo os axiomas da “arte contemporânea”, deles discordam, como é o caso de Affonso Romano de Sant´Anna, que escreveu um livro de crônicas e críticas de arte cujo título é Desconstruir Duchamp, e para o qual a “arte contemporânea”, emulada a partir do paradigma de Duchamp, rompe com a aura na obra de arte para fincá-la no terreno do puro conceito. É por isso que Céu, personagem “matuta”, não compreendeu a obra de Alícia.

E a minha sensação estranha vai mais além: enquanto “professores” tentam iniciar alguns jovens que não usam All Star no terreno conceitual da “arte contemporânea”, a mesma academia que “banca” o valor da arte de Duchamp, só vê vandalismo na pichação do aluno. É ai onde a estética de contestação da arte contemporânea passa longe da verdadeira contestação. Estava certo Adorno quando relacionou Ulisses atado ao mastro para ouvir o canto das sereias, à divisão da arte em arte de elite (exuberante, refinada, mas atada) e o que se reservara aos remadores: cera nos ouvidos. Este é o duplo silêncio da arte de elite. Silêncio de si. Silêncio dos que poderiam contestar, pois tem sua contestação sequestrada pela simulação "oficial". Suponho que no ato de Raphael Guedes Augustaitiz haja uma dupla inspiração: por um lado o suposto ambiente “liberal” da Universidade, onde aparentemente tudo pode, especialmente no terreno da “arte contemporânea”; por outro lado, a contestação radical, nutrida noutras redes de sentido que, infelizmente, a Universidade não está pronta para dialogar, pois implicaria em reposicionar seu próprio discurso sobre a arte contemporânea.

Neste caso, recomendo ao aluno ler um livro introdutório sobre arte contemporânea, Arte Contemporânea: uma introdução, de Anne Cauquelin (Martins Fontes), para ele entender que a pergunta “o que é arte?”, só pode ser respondida levando em conta a rede de relações que sustenta a respectiva resposta. As redes que decidem o que é arte formam uma instância muito específica, por isso mesmo uma borra de café espalhada em um painel branco na entrada do MAM, abrindo acesso a uma exposição de Marcel Duchamp, não só pode como conta até com trabalho profissional sofisticado, produção, curadoria, etc. Não é apenas estético: é conceitual. E há uma elite que vai ali para consumir este conceito de pichação, educadamente aprisionada em sua rede e em sua simulação: simulacro de rebeldia e transgressão. Por isso mesmo, o ato real, radical, de pichar as paredes da escola, não pode. A rebeldia, a transgressão, desde Duchamp, não passam de encenação! O que não é encenação, pode ser confundido com terrorismo. Maldição!

ONÇA PINTADA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Havia sempre um ritual no meio do verão. Tudo secava. Os barreiros, os tanques, os açudes e até as cacimbas de bogó. A água ia se exaurindo e a terra se exasperando. As pessoas suavam à noite e sonhavam com um furo se abrindo no meio do açude ou do tanque e a água descendo, se contorcendo em rosca, e sumindo para o centro da terra. E as pessoas sonhavam que corriam até o leito do açude a tempo de ainda ouvirem o barulho da água se indo buraco adentro. E restava apenas aquele buraco no meio do leito vazio, como uma passagem para o outro mundo, enquanto o leito dos barreiros ia estalando, esturricando, se arreganhando em rachaduras que mais parecia uma obra surrealista.

Mas fora os pesadelos da noite, depois que toda água se ia, o dia começava sempre antes da manhã. À luz da Estrela Dalva, todos já estavam a caminho do curral, incluindo a meninada que era acordada com um “olha o sol na bunda!” O sol ainda vinha longe, mas era bom prevenir. Parte do trabalho do dia era soltar os animais dos chiqueiros e currais, cortar alguma rama de juazeiro, caraibeira ou outra qualquer que fosse possível, e conseguir água, levantar vaca caída, cortar palma, preparar ração. As cacimbas precisavam ser limpas diariamente porque a areia dos riachos se movia com o pisar dos bichos, e entupia o poço que fora aberto no dia anterior. Além disso, limpar as cacimbas era como se fosse uma forma de massagear as tetas da terra para que ela liberasse um pouco mais do precioso líquido. Mas o fato é que água ficava muito escassa, e a vida ali girava em torno dela. E se a cacimba servia para o consumo humano e para os animais, outros gastos de água ficavam à espera de alternativas. Por isso mesmo, todos os anos, aí pelo mês de outubro, quando tudo já estava pegando fogo, as catingueiras se retorcendo e entrando em hibernação e as cigarras zumbindo em solos desesperados, as famílias se reuniam, juntavam toda a roupa suja, acumulada durante alguns meses, e iam atrás de outras fontes de água – afinal não se podia poluir as poucas fontes com espumas de sabão. Além do mais, a água salobra das cacimbas cortava quilos de sabão em barra, boa parte dele feita em casa, com gordura pobre de fato de bode e decoada, uma espécie de ácido que se extraia do curtimento dos estrumes.

Um destino seguro para encontrar água era a Serra da Natividade. Ali, do outro lado, o norte, onde se chagava contornando sua cabeceira oeste, havia dois “caldeirões” talhados na pedra do “pé da serra”, obras da natureza que ficavam com água o ano todo, porque não infiltrava, e tudo que dali era subtraído era por obra da evaporação e pelo consumo dos animais silvestres: pebas, tatus, jacus, caititus, veados, onças, gambás, saruês, preás, mocós... Por ali, na gramática dos homens, bastava a todos que fossem chamados apenas de “caça”.

A água dos “caldeirões” não era boa para beber, pois ali se acumulava lodo e outras sujeitas dos usos silvestres, mas era excelente para a roupa suja acumulada, que aguardava uma oportunidade de se refrescar. Ia-se à serra, então, por duas razões: as mulheres iam para lavar as roupas; os homens iam para caçar. E a molecada ia para ajudar aos adultos, especialmente às lavadeiras; mas queriam ir porque também era algum tipo de aventura, uma espécie de lazer.
Por obrigação os meninos tinham que carregar água para as mães, irmãs ou tias lavarem a roupa; ajudavam a colocar a roupa para quarar ou para secar em quaradouros de pedras redondas, todas cuidadosamente arrumadas... No resto do tempo a molecada se ocupava em brechar nesga de calçola das lavadeiras e imaginar situações de caça, cujos experimentos em geral se restringiam a matar caga-cebos, correr atrás de calangos e lagartixas com seus estilingues e inventar pequenas mentiras de caçadores – à sombra das grandes mentiras que os adultos contavam à noite, no acampamento, ao redor da fogueira.

Naquele ano foi quase uma expedição. Cinco famílias se juntaram para ir à Serra. Os meninos disputavam para ver quem iria – já que alguns tinham que ficar zelando da casa e dos animais, em cada sítio. A expedição, em geral, durava dois dias e duas noites. Todos levavam material para montar acampamento: redes, algum pano que servisse para improvisar uma tenda, esteiras, cobertores, blusas – afinal, a noite do sertão é muito fria, mesmo nos meses mais quentes. E iam, claro, as trouxas de roupa e as espingardas e rifles. Os mantimentos iam nos alforjes, boca-pius, colchonis e coronas: feijão, arroz, óleo, sal, pimenta do reino, corante, rapadura, farinha, carne seca, fósforo, candeeiro, vela, alho e fumo – até porque era preciso dar um pouco de fumo à caipora. Além das armas de fogo, cartucho, pólvora, espoleta e bucha, cada homem levava também canivete, faca, e facão. Aqui e ali algum levava até um machado ou um serrote – e aproveitava para, na volta, trazer uma carga de lenha, ou alguma madeira para as cercas.

Naquela expedição iam, além dos adultos, homens e mulheres e algumas mocinhas, apenas dois meninos. Um era um sarará amarelo, cabelo de fogo, rosto sardento, um tanto raquítico para a idade. Tais características lhe rendiam apelidos variados: Vermelhinho, Pinto Calçudo, Pintadinho... Este último venceu a disputa com o irmão para que decidir quem iria, pelo simples fato de ser mais frágil. O cuidado do sitio, enquanto os adultos estavam fora, exigia um pouco mais de habilidade e maturidade. O outro guri que ia na viagem era vizinho e primo do primeiro, e fora criado com xodó de avô, por isso havia se acostumado a mentir para tirar proveito das situações. Quando estava junto era um santo, mas a trinta metros de distância, tinha a mania de despachar um monte de palavrões e xingamentos e sair correndo. Nos próximos encontros voltava a ser um santo, como se nada houvesse acontecido. Enquanto o primeiro era de uma timidez assustadora, dessas de ganhar doce e deixar derreter na mão com vergonha de comê-lo em público, o segundo gostava de uns amostramentos inoportunos e chegava a aprontar poucas e boas, destravancando porteiras e colocando a culpa nos outros, ou botando apelidos nas mães e irmãs dos colegas; gostava de gozar com a cara dos amigos, principalmente do amarelo que agora lhe fazia companhia na viagem.

No primeiro dia, chegaram aos caldeirões perto do pôr-do-sol, e o restinho de dia que ainda havia, serviu apenas para armar acampamento. Cortaram e fincaram varas, estiraram lona, armaram redes, estiraram esteiras e agasalharam as trouxas, sacos e alforjes em seus devidos lugares. E enquanto as mulheres e crianças ficaram recolhidas, os homens trataram de explorar a caatinga, com suas armas e cachorros. Vez ou outra se ouvia um latido dos cachorros, ou algum tiro, e lá pela madrugada eles chegaram carregando algumas caças e muitas estórias de caçador. Os meninos já dormiam.

Dormiram pouco, pois, como disse, o dia começa sempre antes da manhã. Tendo despontada nos céus a Estrela Dalva, os homens já estavam fuçando as trempes improvisadas para acender o fogo. Era apenas nessas ocasiões em que os homens chegavam perto do que se pode chamar de fogão. As mulheres haviam trazido cuscuzeiros e chaleiras e logo se improvisou um café. Os homens estavam com pressa de se embrenharem novamente no mato. As mulheres tinham o dia todo para ensaboarem, baterem, quararem e enxaguarem suas trouxas de roupa, com a assistência das mocinhas e dos dois meninos, que na ausência dos adultos ainda faziam as vezes de guardiões de honra da mulherada.

Mas havia tempinhos de folga, às vezes até forçados, quando os dois meninos aproveitavam para arriscar um distanciamento do acampamento e explorar as suas redondezas. Depois as mulheres ralhavam aos berros e eles voltavam correndo para não piorar a situação. Às vezes inventavam coisas bestas para a distração: correr atrás de calango, apostar quem tinha a melhor mira com a baladeira, arrancar flechas de macambiras, fazer cordinhas com tiras de embira, ou subir no alto das pedras mais próximas para vislumbrar a paisagem. Apostavam que estavam vendo a cidade, lá longe, perto do rio, onde sequer tinham ido nunca, a não ser em imaginação. Então o moleque criado com avô propôs ao amarelo que fossem até o outro caldeirão. Era perto, mas era mais selvagem. Certamente a presença de humanos naquele primeiro poço tinha obrigado os animais silvestres a se servirem apenas daquele outro. Iriam lá, mas sem dizer nada às mulheres. Seria na surdina mesmo; quando elas percebessem eles já estariam de volta. E foram!

Cada um foi com suas alpercatas de borracha de caminhão, deixando rastros de pneu de carro no caminho estreito e empoeirado. As baladeiras nas mãos, os bolsos cheios de pedrinhas escolhidas com astúcia. Iam vacilantes, em silêncio ou cochichando comentários sobre a paisagem. O moleque criado com avô inventou que tinha visto um caçador, escondido numa umburana, e era Tintim, o cabeleireiro do povoado, que deixava toda a meninada com o mesmo topete. Mas o amarelo de cabelo de fogo não viu nada. E o moleque criado com avô saiu inventando um monte de coisas que dizia ver e que o outro não via nunca. Alternavam no percurso: ora um ia adiante, ora o outro ia, alternando a brincadeira de meter medo e oferecer suspense um ao outro. Às vezes um triscava no corpo do outro para ou soltava algum rosnado para testar sua coragem. Mas de fato eram os cabelos de ambos que já se haviam arrepiado!

Iam se aproximando do outro caldeirão, este começava a despontar por trás das folhas e já dava pra ver que ele era menos pedregoso e havia até mais lama em suas bordas. De repente, o moleque criado com avô, que ia à frente, fez volta abruptamente e desembestou numa carreira de volta, gritando “Olha a onça!” O amarelo não pensou nem por um milésimo de segundo, fez carreira também atrás do outro, com os cabelos desaparecidos da cabeça. O outro parou antes de chegar ao primeiro caldeirão, onde as mulheres sequer tinham dado por falta dos dois, e perguntou ofegante: “você viu a onça?”.

Claro que deveria ser mais uma das mentiras do garoto – e talvez ele até esperasse que o outro dissesse que não, para que ele insistisse e tirasse alguma outra gozação. Mas, inesperadamente, o amarelo de cabelo de fogo disse que “vi, sim!”, com o coração palpitando na testa. “Viu?”, reagiu o outro, meio incrédulo, e acrescentou um “viu nada!” Mas o amarelo insistiu no “vi, sim” e ficaram ali naquela peleja ofegante. Então o moleque criado com avô disse que não vira onça nenhuma, que estava era brincando e tinha inventando aquilo para assustar o outro, e que o outro é que estava mentindo. Mas o amarelo veio com um “problema seu, se não viu! Eu vi a onça sim, seu otário!” Então se fez um breve silêncio. O amarelo sabia que não poderia mais recuar. E quem poderia lhe desmentir, se aquelas bordas de poço estavam todas pisoteadas de tudo que é pés de bicho do mato? Certamente haveria ali um rastro de onça.

“Tu viu mesmo? E como era a onça?”, perguntou o moleque criado com avô. “A onça?”, respondeu o outro. “Parecia um gato, mas era grande, assim do tamanho de Leão, o cachorro de papai... Acho que era até maior, a bichona. Tava bebendo água, esticada e torcendo o rabo que nem um gato, lá do lado de lá do poço, do lado que fica pro lado da serra”. “Tá mentindo seu sarará!”, o primeiro insistia, incrédulo. Assumiu novamente que não vira nada, pediu que o outro confessasse que também nada tinha visto, mas ele se mantinha firme. Então combinaram que contariam às mulheres o que ambos tinham visto. Mentira ou verdade, seria de ambos.

A mulherada ficou alvoroçada e deram, por uma boca só, broncas e ordens para que os moleques não se afastassem mais dali. Os homens, que deles só se sabia pelos esparsos barulhos que provocavam na mata, um estridente bater de asas ali, um estampido de tiro acolá, um alarido de latidos, mais ali, o eco de um tropel de bicho correndo. Estavam eles enfiados em suas aventuras de caçadores. Em breve chegariam para o almoço, embora já passasse do pino do meio dia. E foram chegando aos poucos, com suas tralhas e uma ou outra caça pendurada nas costas, entre elas um veado ainda jovem, um jacu e dois mocós. A hora do almoço virou um momento de interrogatório coletivo, com o moleque amarelo no centro do inquérito, já que o outro, criado com avô, tinha se reduzido a um coadjuvante, que apenas confirmava as coisas que lhe perguntassem, por força da determinação da estória que o outro contava.

“Parecia um gato grande, maior que um cachorro e era pintada de preto com branco...” seguia explicando o moleque. “Eita! É bem esta bicha que anda comendo a criação! Logo vi que só podia ser coisa de onça pintada”, os homens viam lógica no que lhes era contado por um dos moleques e confirmado pelo outro. Foram ao outro poço, constataram ali rastros de tudo que é bicho e rastros de onça também. “E pela pegada da bicha, é uma bichona! É maior do que um cachorro e muito!” Mas havia rastros menores, rastros de gatos, rastros já endurecidos e outros um pouco mais frescos. Teimaram sobre isto, pois tal detalhe poderia por em prova a estória do menino. Mas se convenceram. E o menino não vacila: tinha visto uma onça, uma onça pintada!

Na volta da viagem, uns com caças ainda frescas na garupa, outros com carnes retalhadas dentro dos bornais e alforjes, as mulheres com suas trouxas de roupas limpas, muitas estórias das caçadas, mas a única estória que havia se consolidado no grupo todo era a do moleque que havia visto uma onça das raras: uma onça pintada! Ou outro moleque, criado por avô, virara um coadjuvante frouxo, que sequer tinha certeza se tinha visto ou não a onça, mas era obrigado a confirmar para não ficar por baixo. O amarelo de cabelo de fogo havia virado celebridade.

No dia da feira, que era sempre aos domingos, o moleque fora abordado por algumas dezenas de homens, velhos e moços, e teve que repetir a mesma estória várias vezes, sempre com a mesma coerência de detalhes, tantos eram que era até surpreendente que tivesse visto tanto em tão pouco tempo. Mas sempre que via o risco de ser posto em prova, dizia “isto aí não deu pra ver, não”. Havia momentos em que se formavam rodas com vários homens em torno dele, e vários deles esbravejavam, depois de ouvir o relato: “é esta fera que tá acabando meu criatório. Já perdi várias cabeças... Eu sabia que tinha um animal destes por aqui, atacando a criação. Ó aí, a prova tai!”

O menino amarelo de cabelo de fogo ficou conhecido como “o caba que viu a onça pintada”. Muitas vezes teve que confirmar aquela estória e repeti-la. O outro moleque, por várias vezes ainda perguntava: “você viu a onça mesmo?” Mas com o tempo deixou de fazer isto; se contentara em fazer parte dela, sem ser seu protagonista. Quanto ao “caba que viu a onça pintada”, seguiu com aquela estória de onça pintada, uma espécie de gato grande, esticada para beber água no poço do caldeirão e contorcendo o rabo. A estória de uma imagem que se tornara algo tão nítido em sua mente que ele jamais teve a oportunidade de dela duvidar.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

DE QUEM ESTAMOS REFÉNS?

JOSEMAR DA SILVA MARTINS (PINZOH)

Acabo de ler um artigo intitulado “Toque de recolher, medo e indignação”, do ator baiano Lázaro Ramos, publicado no 1º caderno do Jornal A Tarde, em 17/06/2008. Faz pouco tempo conclui a leitura de “Mundo Perdido”, de Patrícia Melo – mesma autora de “O Matador”, que deu origem ao filme “O Homem do Ano”, de José Henrique Fonseca (2003). Acabo de chegar de minha cidade natal, Curaçá, BA. Os elementos aqui descritos parecem não ter relação alguma, mas têm! O ponto comum é este estágio civilizatório que logramos atingir, onde figuram, em profundo desequilíbrio, liberdade e segurança. Em Curaçá, por exemplo, fiquei sabendo, entre outras coisas, da morte de um jovem de uma família com as quais tenho próximas relações. Este jovem, depois de morto, foi queimado e enterrado, e tudo indica que tamanha brutalidade não passou de “queima de arquivo”. E o pior de tudo isso é que a população até desconfia (ou sabe) quem pode ter cometido tamanha brutalidade, mas está amedrontada! Acuada! Refém!

Freud, em um pequeno livro cujo título é “O Mal-Estar na Civilização”, trás questões importantes sobre essa relação entre liberdade e segurança – questões estas retomadas por Zygmunt Bauman, em “O Mal-Estar da Pós-Modernidade”. Pois estes dois livros nos ajudam a entender que o “estado de saúde” de uma sociedade diz respeito ao equilíbrio que ela mantém entre liberdade e segurança. Mas atingimos um ponto em que, supostamente, temos muita liberdade, e quase nenhuma segurança. Mas aqui se instala um ponto altamente melindroso, pois já não sabemos o que é a liberdade. Na maioria dos casos, a liberdade é confundida como puro liberalismo (excepcionalmente no mundo dos negócios), ou com aquilo que, na língua do povo, é mera libertinagem (na esfera da moralidade). Num caso ou noutro, trata-se de um tipo de liberação desprovida de parâmetro.

Certamente muito do que nomeamos como liberdade, se enquadra naquilo que Bobbio, em “Igualdade e Liberdade”, chama de liberdade negativa – que, na linguagem política, qualifica a situação na qual um sujeito tem não apenas a liberdade de agir sem ser impedido, mas também a de agir sem ser obrigado e, ainda, a de não ser obrigado a agir. Aqui instala-se o indivíduo com toda a sua absoluta potência, sem parâmetros sociais que qualifiquem e modulem a sua ação ou a sua não-ação. É, sem dúvida, a liberdade do indivíduo, em detrimento da liberdade da coletividade. É a relação muda e surda entre indivíduo e coletividade. Certamente as grandes firmas, têm muito interesse nesse tipo de indivíduo, para transformá-lo em consumidor. E aqui as grandes firmas se isentam de suas responsabilidades e se escondem por trás daquilo que chamam “liberdade de expressão” – sendo este o tipo de liberdade que atualmente mais tem sido vampirizada pelas leis do mercado e do consumo.

Podemos falar do mundo das drogas, podemos discutir o conceito de droga – para incluir nele parte da indústria do consumo legal e da indústria cultural – enfim, podemos falar do sexo dos anjos: mas se não tocarmos neste ponto, não chegaremos a lugar algum. Em Curaçá, enquanto o barulho e a fuleragem enlouquecem a cidade, enquanto tudo vira negócio – e, portanto, enquanto mais dinheiro circula na cidade – os pais já não sabem mais o que fazer com os filhos. Encontrei uma menina de uns doze anos dizendo que estava há dois dias sem dormir só “comendo água”, e para não dormir tomou alguma droga que, segundo ela, era “arrebite”. Quase todas as amigas dela já são mães, antes dos 15. Os filhos? Estes estão sendo cuidados pelos avós. Aliás, os avós, cujas aposentadorias e pensões custeiam boa parte da economia da cidade, são os únicos para os quais a cidade nada oferece, além de barulho e incômodo. É dos salários dos avós, muitas vezes, que os jovens sacam empréstimos bancários para comprar moto ou colocar quilos de som no porta-malas do carro. São os avós que ficam com a conta! E para eles, nada, Necas! Eles não têm voz. Eles não existem! Os governos? Estes estão interessados em votos. Em função disso, enchem a praça de eventos de porcaria, de putaria, de coisa ruim e feia. Nossa crise entre liberdade e segurança também passa por essa vampirização da esfera do cotidiano pelas indústrias do consumo, do voto e da droga.

Pode parecer estranho eu estar dizendo isto, já que pertenço a uma geração que também se drogou, que viveu tardiamente sua fase de “sexo, drogas e rock and roll”. Mas afirmo que nossas transgressões não eram meras perversões. Havia ali um protesto. E contra o que protestam os mercadores da banalidade e da droga de agora! Certamente não inventamos esse estado de perversão! Certamente não quisemos esses festivais de besteirol – nem era isso a contracultura de Woodstock, em 1969. Digo isso antes que apereça um conservador qualquer e aponte o seu dedo facista gritando: “a culpa é de vocês, a geração psicodélica!”. Esta geração gritou contra o fechamento conservador e toda forma de discriminação, principalmente a racial e a sexual. E contra o que gritam os vândalos da fuleragem de agora?

Desta fronteira para a froteira do narcotráfico, da corrupçãoe e da banalidade de todas as formas de violência, há também um ponto comum que é a falência da moral – e olhe que não sou um moralista. Por isto, quero fazer aqui uma relação que me é cara: a moral é o lastro da ética – pelo menos conforme o que indica Adolfo Vásquez, em “Ética” – e, em consequência, penso que toda ética deve se traduzir, em termos práticos, em critérios de moralidade ordinária. Se a moral conservadora e elitista era anti-ética, a ética nem por isso deve pretender o niilismo moral. Pelo contrário, a ética de que precisamos deve nos oferecer capacidade moral suficiente para termos coragem de rechaçar todo tipo de ato estúpido e cruel, bem como todo tipo de liberdade negativa que atenta contra nossa segurança coletiva.

Ocorre que a nossa ética – como sugere Zygmunt Bauman, em "Ética Pós-Moderna" – já é “a la carte” e, portanto, já foi confinada nos confins do individualismo. Mas somos bacanas demais para discutir tais questões. Enquanto isso, temos que admitir o “toque de recolher” determinado pelos canalhas, e medrosamente recolhermo-nos em nossa indignação resignada. Os que têm grana podem dispor de suas fortalezas particulares, condomínios privados, redes de eletrochoque, micro-câmeras de auto-vigília, cabines blindadas, salas vip, etc., enquanto os pobres se contentam com os “toques de recolher”. Mas, deveríamos lembrar aos ricos que parte destes desajustes é fruto dos desajustes que eles também patrocinam, ao estarem interessados apenas em ganhar dinheiro com todas as indústrias do consumo, do voto e da droga, ou simplesmente por lavarem as mãos, julgando estar seguros demais em suas fortalezas particulares. Por quanto tempo?

É deste estado de coisas que estamos reféns!
UM ACRÉSCIMO POSTERIOR:
Espero que Lázaro Ramos, indignado como parace estar, se disponha a incluir o cenário civilizatório de sua indignação, na série "Ó paí, ó!", que será exibida na Globo, e a tematizar Salvador, uma cidade cruzada de paradoxos. Seria bom que ele lesse minha crítica ao filme "Ó paí, ó!" (O Que Eu Vi em "Ó paí, ó!"), que conta neste blog.
Pinzoh

quinta-feira, 17 de abril de 2008

QUEM SOU?

Há dias venho me perdendo de mim
Tornei-me evasivo
Escapo na primeira chance
Depois tomo bronca de mim mesmo.

Hoje neguei-me a ser só esse
Que acorda remoendo sonhos
E cospe-os à pia do banheiro
Que barbeia-se dia sim, dia não
Que dobra as camisas e lustra os sapatos
Que almoça à mesa com a família
Que cochila no sofá da sala
E baba por um dos cantos da boca.

Mas todos os outros que assumo
Vão sempre embora pela madrugada
Depois que eu tropeço no batente da porta
E me rendo prostado na mesma cama.

No dia seguinte cuspo o que deles sobrou
Na pia do banheiro
E volto a babar pelo cato da boca no sofá da sala.


sexta-feira, 4 de abril de 2008

INCONTORNÁVEL

Não havia razão para estar ali
De olho grudado no nada
Parado em frente à TV
Sem ver o que dela emanava

Não havia sentido esse estado
Evasivo do estado de si
Ausentado da física da sala
Esvaído do peso do ser

Galopando distância indizível
Madruguei sobre vales e montes
Constatei o curvo horizonte
Num instante de pura hipnose

Era tu, que eu buscava em imagem
Se era longe, ou bem dentro de mim
Eu não sei responder, pouco importa
Já voltei do estado de transe

Resignei esse fato indelével
Da cruel distância, inefável
Que separa tua face da minha
Acordei! E procuro dormir!

GRANDES E PEQUENAS PERDAS

Os Louros de Nossa Desordem

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Dias 28 e 29 de março estive em Senhor do Bonfim (BA), no encontro de coordenadores de turma do TOPA (Programa Todos Pela Alfabetização) do Governo do Estado da Bahia. Um dia antes eu havia comprado, por indicação de Nilma Lino, o livro “A Gramática do Tempo”, volume 4 de “Para Um Novo Senso Comum: A Ciência, o Direito e a Política na Transição Paradigmática”, de Boaventura de Sousa Santos. No encontro, recebi ao chegar, além da pasta com lápis, caneta e bloco de papel, o livro Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire. Comigo já havia um caderno de anotações (uma espécie de “diário de bordo” do meu trabalho no TOPA) e minha agenda.

Esse era todo o meu material... Mas na noite do primeiro dia, depois do jantar e do forró, quando eu já ia para o hotel, deixei esse material numa mesa perto da entrada do sanitário masculino, entrei nele e, ao voltar, em um tempo muito curto, algo em torno de um minuto, já não encontrei mais esses meus pertences. A princípio achei que alguém havia guardado, ou levado por engano – mas esta última hipótese é tola, já que o tipo de material parecia inconfundível, sobretudo por que havia meu nome em todos eles e ainda os dados pessoais e contatos, tanto na agenda quanto no caderno; além disso, o livro de Boaventura Santos é bem inconfundível e aposto que alguém ali sequer o conhecesse. Anunciei no microfone e nada. No outro dia, anunciei novamente e nada. Comecei a achar que eu havia sido roubado. E fui! Ninguém viu esse material, nem no Campo Clube, onde estávamos, nem no hotel, nem em qualquer outro lugar. As pessoas só lembram que viram esse material antes que ele sumisse. Claro! Eu também!

Voltei para casa pensando sobre isso. Para que alguém quer um caderno com metade das folhas utilizadas, e igualmente para que serve uma pequena agenda com anotações que só a mim interessam? Quanto aos dois livros, duvido que quem os tenha levado se interesse por livros, e menos ainda por Paulo Freire e Boaventura de Sousa Santos. E torço para que eu esteja errado, para que quem os levou os leia e construa com eles grandes aprendizados. Mas, para mim, não apenas as informações contidas ali eram extremamente importantes, como também eu já havia lido e anotado nas bordas das páginas do livro de Boaventura Santos; já havia criado um afeto com ele – sobretudo pela definição da posição política de seu autor, ao criticar o “pós-modernismo celebratório” (niilista e desconstrucionista) e propor um “pós-modernismo de oposição”, ainda preocupado em mudar para melhor o mundo dos oprimidos e explorados. Eu estava gostando de lê-lo pela sua preferência pela abordagem “pós-colonial”, advertindo que também ai há uma perspectiva textualixta vinculada basicamente aos Estudos Culturais (como se não houve realidade de colonização para além das representações literárias) e para isso também propunha um “pós-colonialismo de oposição”.

Eu estava empolgado com esta leitura, porque ela fortalecia entendimentos meus de que esse mundo não vai tão bem assim, especialmente nos países que foram colonizados, países periféricos do terceiro mundo. Nesses países não se podem simplesmente “comprar” as idéias dos pós-modernistas do primeiro mundo, pois se nesses países a modernidade foi real (e é contra esta realidade que os pós-modernistas reclamam), tendo operado de forma significativa o equilíbrio entre regulação e emancipação (mesmo que a emancipação tenha virado o duplo da regulação), e garantindo tanto a autonomia do indivíduo quanto, paralelamente, a igualdade de direitos e as condições de participação desses indivíduos (saúde, educação, trabalho, previdência social, etc.). Ao contrário disso, nos países ex-colônias, no terceiro mundo, na periferia da modernidade e do capitalismo, as coisas aconteceram de modos muito diferentes, e ainda se luta por garantir direitos tão básicos quanto são os direitos a um nome, aos documentos pessoais, a uma terra, a uma moradia, a água, luz, saúde, educação, emprego... Estamos muito longe daquilo que a modernidade e o capitalismo garantiram principalmente aos países europeus. Há muito que construir e não podemos ficar apenas na farra desconstrucionista.

Nem bem eu havia aceitado essa perda, quando tomei conhecimento de uma outra perda muito maior. Ao chegar à minha casa e acessar o e-mail, dei-me conta de que esta minha perda era boba demais em relação àquela que me chegava em várias mensagens: a morte do professor João Francisco de Souza. Não é o fato de ele ter morrido – fim mais do que certo para todos nós. A questão é como ele morreu. O professor foi assassinado na noite de quinta-feira, dia 27 de março, durante assalto na localidade Vila de Abrantes, em Camaçari, Região Metropolitana de Salvador, Bahia. De acordo com notícia divulgada pelo site do jornal A Tarde, o crime ocorreu em um condomínio localizado no Loteamento Portal de Jauá, na Estrada do Coco, durante um suposto assalto à casa do amigo do professor, na qual ele se hospedava, quando foi atingido no peito pelos supostos ladrões, ao tentar escapar. Nada foi roubado – além do mais importante: a vida do professor João Francisco.

E o que tem a ver o roubo das minhas coisas, com as idéias de Boaventura Santos contidas no livro “A Gramática do Tempo” e com a morte do professor João Francisco? Tem a ver com o fato de que um país como o Brasil não pode mais se dar ao luxo de apenas de se resignar diante de pequenas e grandes subtrações como essas. Ambas apontam o mesmo sério problema da desordem social, do enfraquecimento moral, do caos político, e da banalização de todas as formas de violência e de atentado à dignidade humana. Deveríamos perguntar ao pós-modernismo celebratório – o mesmo que se contenta em esteticizar a pobreza e se refestelar na apologia do caos – o que ele tem a dizer sobre isso. Tem a ver com o fato de que a maior parte de nossos discursos e práticas desconstrucionistas ainda não apontaram um novo paradigma que permita que se possa equilibrar de forma razoável liberdade e segurança. Ou, no dizer do próprio Boaventura Santos, como equilibrar os pilares de regulação e da emancipação, sem que se repitam os mesmos processos de exclusão e exploração? Como, evitar que desastres como esses ocorram se as reformas de base não acontecem em ritmo mais acelerado e dando prioridade àqueles que sempre estiveram à margem dos direitos e da participação social? Como, sem reforma agrária e reforma urbana? Como, sem educação levada a sério, incluindo aquela que os meios de comunicação realizam? Como, sem que se pensem em mecanismos de ordem – portanto, de regulação? Como, sem que haja punição severa para atos de banalização da violência – incluindo a abominação moral a tais atos? Como, se nos orgulhamos de nossa desordem social como se ela fosse uma qualidade fundamental de nossa brasilidade? Na Bahia – e em Salvador, principalmente; ou mesmo em Recife – parece que nos divertimos com a sujeira na rua, com o fedor, com o xixi em todo canto, com a deseducação geral, com a malandragem ordinária e o jeitinho para tudo? Como, se nos divertimos com tudo isso, e nos refestelamos nos discursos da desordem?

São esses os saldos de nossa desordem moral, social, política, educativa, econômica... Lamentavelmente!
Que venha alguma trasição paradigmática que nos livre disso!

VIGÍLIA VÃ

(Pinzoh)

Daqui de onde estou
Miro miragens gratuitas que a noite oferece
Há um gato no telhado, que parece um leão sentado
Quase um detalhe da arquitetura
Que só se vê quando é madrugada.

Agora já não há barulhos
A túnica da noite vestiu os homens e o fez pedras em sono
Pedras que sonham com pés pesados que as mexam de lugar
Para que encontrem os seus, em suas diásporas incontornáveis.
Pedras salvas pelo acaso do andar dos pés de outros
Pedras separadas para sempre pelo pisar sem coração
Pedras que não choram porque são fortes, duras...

Eu sou apenas um pêndulo pesado, em vigília.
Ouço os pulmões. Sinto-me, cheiro e textura.
Acato o que a cabeça explora em seu mecanismo meio cínico
Que não deixa espaço para ordenamentos seguros
Aceito que os músculos se expandam e se contraiam
Conforme os pensamentos avancem.
Balanço!

Há um ponto para onde volto sempre
E não é essa brecha no telhado por onde me pisca a lua
Nem é esse farfalhar dos galhos da árvore coçando a parede
Não é esse ressonar das pessoas que dormem

Volto sempre para esse nada em forma de aura
Que me leva insone às auroras claras
Que cochicha vozes às vezes aveludadas
E me diz verdades que nem ouço.

A noite vaza na inclinação do cosmo
O mote esgota-se e outro me caçoa
Imagino especiais abraços
E outros toques mais sutis no dorso
Espano palavras velhas em desuso
Estico o tempo até onde não posso
E amanheço!

domingo, 9 de março de 2008

CONFESSO

CONFESSO

Hoje é dia das mulheres...

Eu adoro mulheres, amo algumas, convivo com muitas, tenho muitas amigas mulheres, tenho tesão por várias, divido confidências com poucas, sou filho, irmão e paí de mulheres...

Dizer que não as compreendo é o mesmo que dizer que também não me compreendo sempre, que não compreendo parte dos homens... Não compreendê-las é parte de minha trágica consciência de mim mesmo. E estou em busca disso.... e espero que elas queiram cada vez mais compreenderem-se a si mesmas, mesmo que de modo imcompleto e trágico, às vezes.

O que peço à mulheres é apenas que elas não aceitem apenas ser mercadoria, fetiche para todos os tipos de comércio, inclusive o sexual, erótico, através do qual se simula o sexo para anulá-lo em seguida, como uma das mais maravilhosas experiências humanas. O que desejo é que elas parem de fingir prazer quando é de dor e desconforto que se trata. Nenhum homem merece esse engano, que é um engano que os deseduca, os torna arrogantes, achando que foram o máximo, quando de fato foram um fracasso. Engano que é da mulher para ela mesma, pintando uma imagem de si que não coincide consigo própria. O que espero é que as mulheres nos ensinem, nos desmascarem, mas não esqueçam de aceitar uma foto fora de pose; aceitem que são belas mesmo sem todas as plasticidades dos salões de beleza.

Gosto das mulhesres quando estão descabeladas, calçando chinelos velhos, enfiadas naquelas roupas com as quais elas não arriscam nem a olhar pelo olho mágico, quanto mais abrir a porta. E gosto delas vestidas em roupas inteligentes, bonitas - uma beleza que não é a das grifes, nem das modas de novela... Também gosto das mulheres sem roupa, para mirar-lhes o corpo em suas imperfeitas belezas, para sentir os odores e promover as contrações da pele. Mas não gosto de exibicionismo idiota metido a fuleragem de banda de forró putaria, funk ou pagode escroto, acima de tudo machistas, que reduzem as mulheres a coisas, e as despem de dignidade. Não gosto desta feiúra de mulher-coisificada, achando que está podendo.

Sobretudo, eu que não sou galã, que não sou compeão em tudo, que não porto as maiores medidas de nada, desejo apenas que as mulheres sejam menos entusiasmadas com os tamanhos... da conta bancária do cara, do carro dele, do som no porta-malas do carro dele, dos músculos que ele porta, da arrogância que ele exibe sem disfarces, ou até mesmo do tamnaho do pênis dele. Porque a mim não me convencem mais bundas grandes, batatas de pernas roliças, peitos de silicone, lábios exuberantes, se não houver dignidade. A mim convence-me apenas o afeto e a disponibilidade em aprender, em assumir-se mais humana e imperfeita. Não quero super-mulheres!!! Nem gosto da idéia de super-homens. E além disso acho que beleza é outra coisa.

É contra a coisificação das mulheres que eu me coloco. Coisificação que muitas delas aceitam sem pestanejar. E espero que que as mulheres, em seu dia, se reconheçam ou não nesta minha confissão.

Josemar Martins (Pinzoh)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

O DIA EM QUE A CHUVA PASSOU

(ilustração de Coelhão para material didático de Curaçá. Aqui as cores foram invertidas)

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Lembro a data, claro! Pois, nem faz muito tempo. Dia 21 de janeiro. Noite. Ninguém estava esperando. Todas as janelas estavam abertas, para arrefecer os lares, pois haviam sido quentes aquelas últimas horas. As pessoas estavam nas calçadas, nas redes e até havia algumas nos bares, matando a sede que sobrou do carnaval. Mas meio tristes, estas pessoas dos bares. Poucas. Cansadas. Pouco barulho havia nas ruas – pelo menos não aquele barulho que ouvimos todas as noites, ou melhor, todos os dias; aliás, o dia todo. Aquela excitação não se via. Aquela Fuleragem de sempre havia anoitecido de ressaca, porque tinha amanhecido em farra. Sexo, só simulação: anulação do sexo – quando todo mundo imagina o contrário, e embora estivesse muito quente!

Havia, no entanto, outro barulho, exatamente porque havia sido quente este dia. Todo mundo estava reclamando. E abriam as janelas, abusavam dos ventiladores, dos condicionadores de ar, aqueles que os tinham. Aqueles que não os tinham, abriam as janelas, se abanavam, abanavam uns aos outros. Gentileza! A maior das gentilezas seria abanar o outro? É bom! E bom mesmo é ser abanado, embora a gente já tenha se desacostumado disso: ser abanado. Mas, de qualquer forma, havia esse outro barulho das pessoas abanando umas às outras, onde as havia – quanto mais aquelas que não possuíam condicionadores de ar. As que os possuíam tinham que agüentar os seus barulhos.

Outros barulhos, sim, mas, pensando bem, bem menos que nos dias normais. E o dia quente! Pegando fogo! Você saudava uma pessoa e ela logo lhe dizia: “tá quente hoje, heim!?” Outros diziam: “para onde vamos com tanta quentura, heim!?” Então você ficava ouvindo muitos “heins” das pessoas, quando ia cumprimentá-las. E há os que respondem “ôôôôôôô!” e só. É que este “ô!” alongado serve para qualquer coisa. Tanto para afirmações quanto para negações e “quanto mais, principalmente”. Você tanto poderia dizer: “tá quente, viu?” e a pessoa responder: “ôôôôôôô!” Mas se dissesse, ao contrário, que estava frio, o mesmo “ôôôôôô!” poderia arrematar a conversa de forma conclusiva.

O fato é que estava quente e ninguém achava que iria chover, pois outros dias também foram tão quentes quanto, e chuva necas. Porque chuva por aqui “é lá um se acaso”. Muitas vezes chega até a ser “de-an-em-ano”. Então todos ficaram assim um tanto esparramados por aí, à vontade, os homens com as barrigas de fora – e quanto maiores, mais expostas; ficam eles alisando-as como se fossem troféus – e as mulheres abanando as pernas. São os dias em que as mulheres vestem roupas mais leves. Jogam fora os sutiãs e deixam aqueles bicos de peito à mostra. Descuidados bicos. Até os telhados das casas foram também esquecidos, e o vento ou os gatos já haviam esbandalhado as telhas. E quem liga? Não chove mesmo! Alguns desejavam até que chovesse para não ser preciso molhar as plantinhas do jardim.

Mas, de repente, uma nuvem ainda rarefeita, cobriu a lua. E quem ligou! Muita gente nem viu, ocupada que estava com o Big Brother. E começou a haver alguns estrondos, mas pouca gente ouvia, porque o volume da TV estava alto. E ninguém prestou atenção nem na informação meteorológica, e, portanto, não se sabe nem se foi avisado que choveria. Certamente houve alguma incongruência entre o que foi noticiado e o que, de fato, aconteceu. Ultimamente anda havendo esses episódios que o Sistema não consegue resolver completamente. O Sistema certamente não previu aquela chuva. E se não houve esta previsão, significa que ainda há esperança!

Mas os estrondos foram ficando mais nítidos, mais fortes e foram, aos poucos, ultrapassando o som da TV, e quando alguém saiu à janela para apurar o ouvido e ter certeza do que era, o trovão estalou seu estampido bem ali em cima, e o relâmpago crispou o céu, franzindo uma região inteira do espaço celestial. A impressão era que aquele relâmpago teria trincado o céu, mas não chegou a tanto. Foi suficiente, no entanto, para que uma parte das pessoas se dessem conta de que a chuva estava a caminho. Algumas outras andavam pregadas no computador, alimentando vícios de MSN, orkut, etc., quando foram surpreendidas com um rápido apagão, quase imperceptível, que desligou a máquina tão depressa que quando elas cairam em si, a CPU já vinha se reiniciando por conta própria. E começou a chover!

Que beleza a chuva! A gente já nem lembrava como era, tamanho é o nosso descuido, como qualquer um pode ver. Tamanha é a demora dela em retornar. Mesmo que não precise, mesmo que haja água suficiente na torneira, a gente se habiatua a pedir a Deus que a mande. E quando ela chega, é real. É tão real que não há simulação que a possa realizar. Porque podem haver os efeitos especiais todos – até mais reais que o real – mas a composição de luz, som, cheiro, prazer e medo humano, não é possível de reprodução em igual teor. Como se diria no sertão “eu pego é posta”. E o cheiro então, quero ver quem simula. O cheiro de chuva, eu tenho para mim, que só se sente no sertão. Não tenho sentido isso na cidade grande. Talvez porque ali o cheiro é diferente, eu não o reconheça, porque está misturado ao cheiro de borracha, é um cheiro meio queimado. Esse eu já senti. Certamente há um outro cheio de chuva que vem do mar, e aqueles menos apressados que se refestelam nas janelas, redes nos alpendres ou sacadas de toda a costa, podem senti-lo. Mas o cheiro de chuva no sertão chega bem antes com sua singularidade - essa palavra que está na moda.

Cheiro de chuva no sertão é cheiro de terra molhada. É como se a terra tivesse concentrado suas reservas de aromas, emudecidos entre os cacos de tudo que é coisa jogada fora, entulhada e esquecida. A própria terra, esquecida, mal-tratada, pisoteada, abandonada, adormecida... estremece, se excita quando os primeiros pingos tocam seu corpo. E se arreganha! E exala todos os seus aromas de terra fêmea, atiçados pela fêmea chuva. Cheiro de fêmeas! Quase cheiro de cio! E é cio! Algumas seivas esperavam este momento para deslizarem para o centro das genitálias das plantas, e se lambuzarem noutras seivas, e engravidarem seus pares. Ou então, há todo um estoque de fecundações consolidadas, esperando apenas este “faça-se” que a chuva trás. Não demora. As coisas vão passando do estado de não-ser ao ser. Uma passagem à existência: poiésis. Daí a pouco há plantinhas estufando de tudo que é lugar, rompendo o casco duro da terra. A chuva é gozo! Sexo pesado de algumas forças da natureza, que cruzam seus negativos com seus positivos, sem ligarem para a acusação de dicotomia que os pós-modernos podem lhe imputar, e gozam! Gozam com mil trovões, e soltam raios pelas franjas.

Quando a gente era criança, junto com calor a gente sentia o ar mudando, o céu se turvando com nuvens pesadas. A gente sabia que era nuvem carregada. E vinha um vento fazendo esvoaçar as catingueiras, as baraúnas, as caraibeiras, os panos no varal, fazendo escapulir os chapéus de palha, arrebitando as anáguas das moças. Era a hora de deixar a estripulia e correr para casa. Ainda mais quando um trovão supapava tudo e a gente jurava que um raio caíra bem ali do lado, "eu cegue, se não foi". A gente via a manga de chuva se formando, como uma cortina que vinha muito rápido fechando tudo. Sentia o cheiro, ouvia o barulho. Aí chovia pingos grossos, e até chuva de pedra. Tem menino que ficava olhando o céu para ver de onde aqueles pingos descambavam. E depois que passava aquela tromba d’água, a gente até arriscava pular na chuva, no terreiro, tomar banho de bica, correr pelas veredas encharcadas, pisar descalço na lama...

Havia o momento em que a sonoplastia mudava: outro som solicitava que a gente apurasse o ouvido. Era o riacho. Todas as pequenas valas e barrocas, todas as veredas afundadas de tanta gente pisar, iam oferecendo pequenas porções de água para nutrir os córregos. E estes repassavam seus volumes para os córregos maiores, e daí para os riachos menores, que despejavam, por sua vez, no riacho principal, o Riacho do Jaquinicó. A gente ouvia o barulho da cabeceira da água. Uma língua barrenta que ia fazendo chiar a areia do riacho, chiado que ecoava nas encostas, que repercutia nos baixios, e explorava todos os acústicos. A gente corria para saudar a água, saia pinotando na frente da língua d’água, às vezes gritando "nem me pega!".

A chuva trás sempre esses outros barulhos. Sobretudo na cidade, são outros. Os pingos, os respingos. No chão, no telhado esbandalhado, nas ruas asfaltadas, nos tetos dos carros, nos galhos das árvores, nas janelas abertas. Os primeiros pingos são grossos, pesados, mal-educados. Estremecemos com eles e seus estrondos, com os raios; tomamos sustos, sofremos de muitos apertos no coração, e além de tudo isso há as goteiras. Durma com um barulho deste! Esta parte, aliás, não é nada erótica. Não há tesão com uma goteira no meio de dois, ensopando a cama. A não ser que o casal seja meio obcecado por novos experimentos e resolva posicionar-se de modo a aproveitar a goteira para esquentar a relação. Duvido! O fato é que é preciso correr para fechar as janelas, todas que haviam sido abertas para arrefecer os lares, desarmar as redes – nossa! Esquecemos disto! – recolher as cadeiras das calçadas. Conferir as goteiras, as manchas no gesso, algum vinco de água descendo pelo canto... Gente que não acordou com os trovões e relâmpagos, de repente, escorrega um pé da cama e se vê com água pela canela. Toma um susto, pula da cama, arrisca a cair... Mas, o fato é que a casa já está tomada de água. Vazou pela telha quebrada ou esbandalhada pelo cio dos gatos, escorreu do forro de gesso, já encharcado, desceu pela parede. Entrou pela porta da frente, vindo das ruas e bueiros que não lhe deram passagem.

E em pouco tempo as casas estão se enchendo de água, inicialmente a partir do telhado; as ruas ficando alagadas, os bueiros entupindo aos poucos com nosso lixo de cada dia, que nós jogamos por aí, de qualquer jeito, porque somos deseducados demais, e folgados. E depois a água subindo, procurando outros lugares por onde andar, por onde descer, por onde entrar na terra – que é o destino de toda água – mas os bueiros entupidos, as ruas calçadas ou asfaltadas e a água sem ter por onde passar, ou, como se diz por aí, por onde “vazar”; e ela vai se acumulando aqui e ali, e daqui começa a escorrer para ali, e assim vai, uma poça se juntando à outra, a reunião de todas as águas empoçadas, represadas, interditadas, até que começam a entrar nas nossas casas. Sem pedir licença, que a água e a chuva não precisam disso.

O jardim está molhado! Não será preciso ter esse trabalho. Mas é preciso acudir a cachorra parida, agasalhar os filhotes; convencê-la a superar o medo que ela tem de relâmpagos e trovões (os cachorros vão assimilando o medo humano; vão ficando um pouco humanos), e ficar com os filhos dando-lhes calor, carinho e segurança. Mas é preciso dar-lhe um agasalho enxuto, que aqueles panos que estavam lá, já estão encharcados. E é preciso achar um rodo para retirar a água do quarto, ou achar alguns panos com bastante capacidade absorvente, talvez alguma toalha velha que foi rebaixada a pano de chão, para fazer uma barreirinha numa das portas; afastar a cama do lugar e desocupar um balde para aparar a goteira... Puxar, com um rodo largo que felizmente há na casa, a água empoçada e ajudá-la a entrar pelo cano, antes que isso nos ocorra. E haja noite para tanta água!

Quantas alegrias trás a chuva! Quantas memórias, e quantos transtornos ela trás também. E mesmo assim é sempre a ela que esperamos, como bonança divina, como dádiva da natureza, porque nossos textos ainda não a mudaram. Nem sempre sabemos disso, mas é. Ela, a chuva, de alguma forma, acaba sendo um modo ou um elo de comunicação nossa com outra dimensão de nossa existência. Há uma magia na chuva, um vigor, um mistério. Ainda não dominamos modos de detê-la ou de educá-la! A chuva é esta excedência em relação a nossas intenções humanas! E, em circunstâncias particulares como a nossa, onde desacostumamos dela e dos seus afagos e afogamentos, ela acaba sendo o termômetro de nossa desorganização. E ela é tanta que não sabemos nem onde guardamos as velas, caso a luz vá-se embora. E quando isso ocorre, é aquela agonia: gente queimando os dedos, andando pela casa com fósforos acessos, ou isqueiros. Aqueles que se acostumaram com a chama elétrica do fogão agora não podem acendê-la, e nem acham os fósforos e têm que tatear pela casa. Nem as lanternas que viviam pela casa, as crianças brincando e gastando pilha sem necessidade, agora se escafederam; quando as encontramos, depois de fuçar pela casa toda, elas estão com as pilhas estouradas dentro, e há uma sujeira ácida apodrecida tomando conta de tudo e impedindo que novas pilhas, se por acaso houvesse, façam contato com as partes metálicas e permitam acender o foquite.

A chuva no sertão, de tão desacostumados que estamos dela, nos pega definitivamente de calças curtas. A chuva passa para nos dar uma bronca – ouçamos o ronco do trovão, olhemos nos olhos do corisco! Ela nos diz que somos um fracsso em organização, sujamos tudo, deixamos tudo largado, emporcalhado. Depois que a chuva passa há uma imagem diferente das ruas, o lixo está mais à mostra do que nunca, e só então a gente pensa – se é que pensa, pois nosso tempo pensa menos. Às vezes não presta nem atenção na chuva, e ela já foi. As águas já estão longe, sabe-se lá onde. Quem tem sua cisterna, sabe-se lá se pelo menos guardou alguma, para os tempos em que haverá muito menos água no mundo inteiro! É tudo isso! Mas o fato é que a chuva passou – e ninguém garante que ela volte tão cedo!

sábado, 19 de janeiro de 2008

A SURRA IMPROVISADA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Desde o primeiro dia de aula que vinha havendo umas provocações, uns insultos dissimulados ou explícitos. Tudo começou quando os sobrinhos da professora e netos do velho patriarca coronelzinho, dono da fazenda onde ficava a escola, quiseram que eu brigasse com um de seus irmãos menores, para ver quem era mais homem. Isso era uma prova maluca, pois tínhamos apenas algo em torno dos sete ou oito anos de idade. Esses os sobrinhos menores da professora eram do meu tope, como se dizia, e havia uma ética de fazer duelarem apenas aqueles que mantinham condições físicas parecidas. Então, naquele primeiro dia de aula, quando saímos da escola, no meio da baixa que ficava entre a escola e a casa grande da fazenda do velho patriarca coronelzinho, pai da professora e avô dos provocadores, fui interditado:

– Aí! Você não disse que é bom! Quero ver é você ganhar para este daí!

E me empurraram um dos irmãos do meu tamanho. Foi o desfecho das provocações miúdas que duraram toda a manhã daquele primeiro dia de aula. Era como se fosse um ritual de passagem, e eu, sendo o menor daquela turma, teria que dar provas de que poderia continuar vindo à escola sem problemas. Mas meu pai, que era rigoroso, havia avisado: “não quero confusão. Se se envolver em briga, quando chegar em casa vai se haver comigo. Se apanhar, quando chegar em casa, apanha. Se bater, apanha do mesmo jeito”. Não tinha escapatória. A situação era do tipo “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. E bastou essa lembrança das palavras do meu pai, para que eu começasse a corar, a tremer e a prenunciar um choro. Puta constrangimento! Foi o jeito ser sincero:

– Meu pai disse que se eu brigasse, ele me batia quando chegasse em casa.

A situação não melhorou. Os muitos meninos que estavam ali, ansiosos pela “farra”, começaram a gritar em coro: “correu, corrão, com medo do gavião”. E começaram a empurrar uns aos outros para cima de mim. O jeito foi abrir o berreiro. Meu irmão me puxou e fomos embora sob vaias e insultos, cujo mais difícil de ouvir era a adjetivação de “covarde”.

Esta situação foi suficiente para que nos outros dias de aula, os insultos e provocações só fizessem aumentar. Até pirralhos mais amarelos do que eu começaram e me insultar. Um deles, no entanto, era o Edvaldo, filho de Bernardino, do Papagaio. Este era um moleque insolente. Metido a valente! Vivia cumprindo expediente que os frouxos sobrinhos da professora e netos do dono da fazenda, não conseguiam por conta própria. Arreliava. Insultava. Provocava. Com isso ia intimidando, até que se auto-proclamava o vencedor das contendas. Na verdade era uma espécie de capataz daqueles sobrinhos da professora, que se consideravam donos do pedaço só porque a escola ficava em suas terras. E o avô de vez em quando até ia à escola, com revolver no coldre, espiar se alguém estava fazendo alguma estripulia e intimidar, exceto aos seus netos. Esses aí, como tinham essa proteção, se aventuravam em algumas confusões, mas como não tinham coragem de dar cabo de suas arrelias por conta própria, usavam o Edvaldo como escudo.

De vez em quando nosso pai nos incumbia de aproveitarmos a ida à escola para trazermos água da cacimba do velho coronelzinho, que era uma das duas únicas fontes de água, naquele período de seca: a outra era o tanque do Juvino. Mas a cacimba do velho coronelzinho era bem mais perto da escola e da nossa casa. Então a gente levava o jegue com a cangalha e dois barris pendurados nela, um de um lado e outro do outro. Deixávamos o jegue amarrado em alguma sombra rala ao lado da escola, durante toda a manhã. Quando a aula acabava, descíamos até a cacimba, enchíamos os dois barris, feitos de borracha de pneu de caminhão, e pendurávamos na cangalha. Esta etapa era curiosa: eu, bem menor que meu irmão mais velho, ajudava ele a colocar o primeiro barril, de um lado, e ficava escorando este, para que não despencasse com cangalha e tudo, enquanto meu irmão se virava para colocar o outro barril do outro lado. Depois de ambos enganchados nos ganchos da cangalha, os pesos se equilibravam.

Foi quando ainda estávamos pelejando com os barris de água que eles chegaram. Eu brincava com o Raimundo de Cizino, que era um rapaz já, quando eles insultaram:

– Quero ver se você é bom é se enfrentar este daqui.

“Este daqui” era o Edvaldo. E o seboso não esperou nem eu responder, veio vindo em minha direção, aproveitando que eu havia afrouxado no primeiro dia de aula, e foi logo retirando a bolsa com os livros e jogando no chão, para ficar livre para a luta. Estávamos embaixo de uma daquelas enormes caraibeiras que adornam a margem do riacho em toda aquela região. Nesse período de seca, era costume cortar os galhos das caraibeiras para servir como forragem para os animais caprinos e ouvinos. Os galhos eram espalhados embaixo da árvore e eram ali mesmo consumidos pelos animais. Depois de desfolhados restavam apenas varas finas, com tamanhos entre um e dois metros. Naquele momento essas varas estavam também amolecidas pelo sol. “São chicotes perfeitos”, pensei.

E lá vinha o Edvaldo, maior do que eu, com ares de vitória antecipada. Eu, mirrado, começando a tremer, entre o jumento com a cangalha e os barris de água, o meu irmão – que não se envolvia – e as pernas do Raimundo de Cizino que, sendo rapaz feito, achava ético também não se envolver. E lá vinha o Edvaldo, inflando as esporas como galo de briga. Se ele me agarrasse eu estava frito. Bastaria uma rasteira para me por ao chão e zerar minha honra, já abalada desde o primeiro dia de aula. E eu, amarelo, com a boca seca, sem querer rogar ajuda aos maiores que estavam do meu lado, olhei aquelas varas desfolhadas e molengas de caraibeiras: “o jeito é não deixar nem ele chegar perto”.

Dei de garra de uma daquelas varas molengas e parti para cima do Edvaldo, que parece não ter acreditado na minha reação, que era, naquele momento, mero desespero. Ele insinuou que iria pegar também uma daquelas varas, mas aí já era tarde: eu desfiei uma seqüência de lapadas no Edvaldo, nas costas, nas pernas, na cabeça, no corpo todo, e ele começou a se contorcer e desistiu de pegar uma vara. Desistiu também de enfrentar-me. Recucou ainda se contorcendo, com o rosto enrubescido, mas sem chorar. Via-se que estava que era ódio vivo. Não admitia que tivesse sido escorraçado a chicotadas. Mas eu estava ali, teso, com escuma saindo pela boca, com a vara – que a esta altura tinha a ponta um tanto desfiada pela seqüência de pancadas – ainda em punho. Olhava para o Edvaldo, com fogo saindo pelos olhos. Então ele pegou sua bolsa de livros que estava logo ali, ao chão, e se foi para junto dos seus conluiados, que também não acreditaram.

Fez-se silêncio! Em silêncio todos se foram, e nós também. Tocamos o jegue para casa. Neste dia meu irmão e eu também íamos em silêncio, ouvindo apenas os barris de água rangendo nos ganchos e na ossatura da cangalha. Mas meu irmão tinha um ar de orgulho nos olhos. Eu ainda tremia, mas nossos olhos pactuaram que nada contaríamos aos nossos pais. E tínhamos certeza de que do outro lado nenhum deles relataria o ocorrido, afinal, a desonra era do Edvaldo e dos seus senhorinhos.
Dali em diante, fui tranqüilo para a escola e ninguém mais me incomodou.

domingo, 13 de janeiro de 2008

O B R A S * S U S P E N S A S

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Aquele Homem agora inventa títulos para os poemas e livros que escreverá.

Primeiro os títulos: “rascunhos de mim”; “todas as vezes que fui embora”; “todas as vezes que ela disse não”... Vai anotando – e imaginando o percurso de cada narrativa, o enredo, as nuances dos seus personagens, e todos, no entanto, dizem respeito à sua vida. Tem enorme consideração por boa parte deles. Mas ainda não os premiou com esta segunda vida ilustrada, cuja morada é a própria literatura.

Por enquanto entretém-se com os títulos que vai inventando: “o rico pobre” – um tratado de sócio-antropologia em forma de literatura dramática, onde cogitará a hipótese de que os ricos de antes eram melhores, pois neles havia pelo menos alguma riqueza moral. Os ricos de hoje, geralmente pobres de ontem, são também pobres de espírito, deseducados, deselegantes... Mas o Homem não desenvolve os temas contidos nos títulos que inventa. Pelo menos por enquanto interessam-lhe apenas os títulos: Mira-os como se fossem obras de arte da pintura. Obras-primas visuais! Ou, por outra, demora-se nas sonoridades de suas pronúncias. De resto, se propõe a compor imaginariamente, linha a linha, cada uma dessas obras, sejam versos, sejam livros, romances. Imagina-os virando best sellers, liderando as listas dos mais lidos, ponto em que, daí em diante, terão a chance de serem adaptados para o cinema, etc., etc., etc.

Mas o que ele precisa mesmo é de dinheiro, está devendo, mas não quer se render a uma existência ordinária; não quer ser uma variação de rico pobre, ao que prefere ser o que sempre foi: um pobre rico! Alguns lhe apontam sem rodeios: “você só quer dar uma de rico”. E ele enforcando-se, ainda escolhe marcas de vinho e inventa ocasiões especiais! Então, se o que lhe falta é exatamente dinheiro – coisa que não deve faltar aos ricos, mesmo quando pobres – então imagina formas de ganhá-lo luxuosamente, por exemplo (e a título de sugestão), como um artista das letras, de sucesso. Um escritor!!! Mas versos – que é bom! –, necas!

Tem procedimentos parecidos quando se trata de mulheres. E também lastima as mulheres com as quais não rolou. Não rolou! Tinha tudo pra rolar e não, nada. Às vezes lastima o fato de ter ido para a cama com algumas delas e ter, literalmente, dormito no ponto. “Sono da bubônica!” – diria um chegado seu, desses que quase se pode chamar de amigo! Claro que essas desventuras soníferas foram raras, pois basicamente o que ele lastima é o fato de não ter colocado em prática aquele movimento estudado, que várias vezes elaborou, e tanto o repetiu em elaboração que tal movimento foi sofisticando-se aos poucos, até tornar-se um movimento refinadíssimo. E na hora H, cadê?

Gastara dias provendo de detalhes um encontro de alcova; prevendo como desceria os dedos pelo busto da moça, como roçaria a ponta do nariz em volta do umbigo, como farejaria os pelos pubianos, como a viraria de bruços para descer as mãos quentes pelos quadris, pela parte interna das coxas e descer até a panturrilha, o calcanhar, a sola dos pés, os entre-dedos; depois subiria devagar até esbarrar nas franjas de pele que entornam as regiões mais íntimas. E, vendo que ela havia se excitado, introduziria dois dedos em sua boceta, enquanto lançaria a língua em seu clitóris... Todos os preliminares foram por ele minuciosamente estudados e planejados, até que cada moça estivesse tão “ao ponto” que imploraria para ser possuída – “vai! Mete! Mete tudo, vai!” Mas ele ampliaria o êxtase apenas com introduções mínimas e sutis, feitas por trás, avançando um pouquinho mais a cada vez, enquanto arrebitava a bunda, e ele recuando um pouco para ouvir os suplícios da moça, já aos gritos: “Ai... Vai... Aaaiiii... Vai... Vaaaiiiii!”

Tanto tempo aquele homem gastou nisso que todas as mulheres se foram embora antes que ele concluísse tais elaborações; se foram embora com homens de movimentos menos refinados, porém mais práticos e mais ágeis. Ou de pau maior que o seu – que nem era lá essas coisas! Em geral ainda resignava-se: “elas não sabem o que perderam!”. Noutras acabava masturbando-se com a imagem de uma moça de cada vez na cabeça, que ele sempre trocava na hora de gozar. Masturbava-se com uma e gozava com outra... Noutras vezes apenas fez poema:

(...)
e enquanto isso
enquanto me acanho
outros são velozes
logo te abocanham
violam os instantes
atropelam tudo
(...)

Menos mal. Mas acabava fazendo poemas sem título, sem início nem fim! Aquele Homem agora não passa dos títulos para a obra; e parece que não passa da obra para os títulos – pelo menos não passa do fragmento do poema, querendo virar escrito literário, órfão de uma nomeação. Seu problema é exatamente este. Ele começa pelo final. Pensa as capas, as contra-capas, as epígrafes, as dedicatórias, os agradecimentos, a relação sumária dos temas, as partes, os subtítulos... Pensa o corpo que nem conhece ainda, o cheiro que não sentiu – e esquece-se, porém, do principal: o que colocar dentro! Dentro dos livros ou das moças! As histórias: é preciso escrevê-las. O corpo é preciso rabiscá-lo como uma página em branco à espera da narrativa.

De todo modo – é importante considerar! – imaginar possibilidades literárias já é um modo inventá-las um pouco, por um lado; por outro, é vivê-las, mesmo que em forma de delírio. Quem sabe, porém, um dia aquele Homem passe ao universo dos atos, que é outra forma de viver as narrativas, de fato.

L A B I R I N T O

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
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Fazia dias que eu estava prostrado naquela casa, imensa, vazia. Fora deixado nela ela, agora parecendo uma caverna quase luxuosa, aspecto que restou depois da subtração de sua mobília. Agora as palavras ecoavam pela casa, saiam batendo nas paredes como se quisessem povoá-las de outras vozes, mas sempre reverberavam nelas mesmas, ecoavam. Fiquei na casa apenas com meus livros e um quadro que paguei durante dez meses, como se estivesse pagando a prestação minhas falidas pretensões aristocráticas. Fiquei também com o sofá da sala e a televisão de vinte e nove polegadas. O sofá tinha forma de divã, e a TV era minha analista: parecia confirmar o que parece que eu tinha me transformado.

Passava o dia ali, comendo porcarias e vendo TV, como se meu mundo tivesse se resumido àquilo. Dormia, acordava, cochilava, me assustava, o sol entrava pela janela, invadia a sala, eu suava, me virava, mudava de posição... e a TV sempre ligada. Olhava alguma banalidade que ela me oferecia – nossa! Quanta banalidade a TV nos oferece! Voltava a dormir, sonhava entre um cochilo e outro. Mas os sonhos eram diferentes: pela manhã sonhava sonhos quase completos, em que eu estava em alguma ação que, mesmo sempre confusa, nela eu ainda tinha algum ânimo e mobilidade. Pela tarde, sobretudo quando o sol entrava pela janela e ardia em minha cara, tinha pesadelos. Nesses, eu geralmente estava dopado, drogado, ou nu. Alguma coisa ridícula sempre rondava esses tormentos em forma de sonhos-pesadelos. E eu acordava num susto ensopado de suor. Mas pela manhã tinha sonhos diferentes. E ficava na dúvida se não tinha sido durante a noite que eu os havia sonhado. Eu não sei. Agora tanto fazia ser noite, manhã ou tarde, eu estava sempre no sofá, entre restos de porcaria – coisas que eu comia; coisas que vinham da TV.

O sonho de hoje foi curioso. Sonhei que eu ficava cansado desta depressão de quem fora abandonado com alguns livros e algumas drogas – a TV sendo a principal – e resolvia dar uma volta. Ia a um boteco desses que nem sanitários têm. Era na orla velha, um bar improvisado entre aqueles casarios abandonados. Quando a gente queria mijar o garçom indicava um corredor ao lado, que ia dar no interior de uma dessas construções velhas e abandonadas. E não havia ali nem um vaso sanitário, nem um desses canis improvisados de cimento, que servem de mictório na maioria dos bares fuleiros como aquele. O jeito era fazer xixi ali mesmo, no pé da parede, na ponta dos pés para não sujar a barra da calça com a urina dos que vieram antes. Era preciso ficar na ponta dos pés, segurar o pau com uma das mãos e tapar o nariz com a outra. E depois, nem uma piazinha para lavar as mãos. Merda! Coisa de terceiro mundo! E a gente ainda tem orgulho disso! Vangloria-se dizendo que esse é “nosso jeito”, é a nossa “natureza”. Isso não passa de uma moral de jegue – como um dia me disse um amigo meu.

Mas o corredor prosseguia e eu resolvi andar um pouco mais nele, para ver onde ia dar. Houve algo. Alguma passagem eu acho que se deu ali. De repente eu estava numa enorme sala mobiliada em estilo colonial, com uma imensa mesa com todas as doze cadeiras, tudo coberto com plástico. Como se alguma cena tivesse que ser mantida intacta por anos a fio. Na parede atrás da mesa havia um quadro no qual estava estampada a imagem de uma família. Dava pra ver que era. Todos em pose nobre, com roupas galanteadas. Eram muitos. O pai, a mãe, alguns homens jovens, rapazes, deviam ser os filhos, e apenas uma moça. Entre o pai a mãe. Como rosto mais jovem ainda, com cara de quem era uma caçula. Uma única mulher e ainda caçula.

Mas havia mais que isto naquela imagem. Ela parecia reproduzir os lugares daquela imensa mesa. Mas aquela moça guardava traços e circunstâncias muito interessantes. Havia algum mistério em sua feição. Estava entre o pai e mãe, como se ambos estivessem lhe protegendo de alguma coisa. Ou como se ela fosse algum elo quase perdido. Em seu riso havia alguma distorção – como se fosse um alegre solo de guitarra no meio de uma 5ª sinfonia de Beethoven. Aquela imagem me arrepiava. Eu estava totalmente arrepiado. Não sentia os cabelos, os pelos. E mesmo assim eu permaneci ali, mirando aquela imagem, onde aquela moça parecia me mirar. Como se ela quisesse contar-me algum segredo: estivera esperando pos isso esses anos todos, sabe-se lá quanto tempo.

Mas esta sala não era no térreo. Não sei como, mas seguindo aquele corredor eu havia subido algum lance de escada, sem perceber. Ou então aquela sala havia se elevado comigo dentro dela. Talvez tenha sido naquele momento em que eu me arrepiei. Agora eu via que lá embaixo um guarda vinha à minha procura. Talvez houvesse alguma proibição em entrar ali e ficar especulando aquele espaço. Talvez ali estivesse reservado para turistas, que podem tudo – como diria Arnaldo Antunes, “e os turistas estragando todos os lugares”. Talvez estivesse lacrado para alguma inspeção que estivesse sendo aguardada há anos. Além do mais, eu jamais havia ouvido falar que naquele cais antigo, naquela orla abandonada houvesse um casario com tamanha pompa, uma espécie de castelo. Mas, o fato é que vinha o guarda à minha procura, com cara de poucos amigos, como é típico dos guardas e segurança – deve até ser algum quesito específico para a contratação! O guarda vinha! E alguma coisa me dizia que eu não deveria esperá-lo; que eu nem deveria procurar o caminho de volta, para voltar ao boteco por aquele corredor fedorento, e pagar a cerveja, que a estas alturas eu havia esquecido! Será que o cara é segurança do bar e, achando que eu dei o calote está vindo atrás de mim? Mas cerveja quente e corredor fedorento não são motivos para querer voltar. Eu deveria seguir. Os olhos daquela menina me diziam que eu deveria seguir... Para onde?

Avistei uma escada que descia para o outro lado, para o lado do rio. Desci a escada correndo! Quase deslizando nos íngremes degraus. Tudo estava um pouco escuro ali dentro, mas havia uma luz no fim da escada. Parecia o sol. Deveria ser o sol, que se põe para aquele lado... Desci, escorregava, deslizava, parecia uma escorregadeira. Pufo! Caí no fim da escada numa espécie de arraial interno. Como se fosse um quintal de uma grande propriedade, mas havia uma pracinha, com um bangalô no centro, e de uma dos lados o rio. Não era bem um bangalô. Era uma espécie de latada com banquinhos. Era uma estrutura antiga, por isso robusta, com pés-direitos redondos e grossos, feitos de tijolo. Com algumas flores nas bordas dos degraus. E havia bancos. Que alívio, havia bancos e eu estava exausto. Dirigi-me a um deles. E eis que nele havia uma moça, a moça da imagem da sala, o mesmo sorriso como uma distorção de guitarra em uma sinfonia clássica. A mesma jovialidade! E a mesma expressão de quem quer contar algum segredo. Olhava para mim! Queria me contar alguma coisa! Arrepiei-me!

Tocaram a campainha! Acordei suado! Assustado! Arrepiado! Em outra circunstância eu teria exclamado um “merda!”, mas naquele momento eu parecia ter sido salvo de algum destino trágico. Meu Deus! E a porra da TV ali impassível, vendendo suas porcaria. E eu as comprando! Abri a janela par ver quem era. Era uma moça, com o mesmo sorriso distorcido como um solo de guitarra. Dizia: “abre, por favor, querido, que eu esqueci a chave!”

C L A R I C E

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
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Poucos dias antes dela chegar por ali, correu o bochicho na redondeza de que viria uma menina morar com “mãe Gripina”. Cogitava-se que era filha de Preta de Espingardinha, fruto de um amor fortuito com algum homem cujo nome poderia ser João da Mata, ou qualquer outro. Pelo visto tal pai, com este ou outro nome, deixou filha e mãe ao relento. Pois então viria a menina, com seus sete anos de idade, morar com Agripina.

Os meninos, que não tardam a viver farejando cheiro de tanga de tudo que é menina, já inflaram o disse-me-disse. Coincidiu com o ano que iríamos para a escola, a de Baiana, tutelada pelo velho pai coronelzinho, de revólver no coldre e tudo. A menina morava com Agripina, que era esposa de um dos filhos do velho e, portanto, ia à escola com os seus agora “irmãos de criação”, netos do velho, sobrinhos da professora. Isso iria dar em confusão, mas por enquanto apenas a menina interessa.

No caminho da escola, onde as estradas se encontram, um pouco antes da casa grande da fazenda do velho coronelzinho, seja porque uns adiantaram o passo, seja porque outros remancharam um pouco, o fato é que os alaridos de todos possibilitaram o encontro. E lá ia ela, toda diferente do todos, calada, linda, com cara redonda e alva como lua cheia.

Meu coração de menino de nove anos já tinha se influído por outras meninas; eu já sabia o que era pelo menos trocar insinuações de ousadia com outras meninas, especialmente no encontro com outros meninos. Lucia, Bela, Alda, Guimar... Todas essas a gente vivia arriscando um lutrimento, se escondendo no mato para velas tomar banho peladas na cacimba. Mas a campeã era Evanilda, menina de corpo bonito, que em minha cabeça estava sempre vestida em um vestido verde cana, curto e com muitos babados. Todos nós tínhamos uma Evanilda particular, quando se tratava de fantasias eróticas. Fora isso, questões de sexualidade eram resolvidas por ali mesmo, entre brincadeiras de “cair no poço” com as primas, ou entre o algodoal, ou na areia do riacho, ou ainda em noite de lua – enquanto os pais debulhavam feijão ou se distraíam com as visitas – quando inventávamos um mundo de pai e mãe, só para experimentar alguma núpcia, atrás do feixe de caibros arrumados em forma de casinha.

Mas agora chegara essa menina para morar na casa de “mãe Gripina”. Linda, branca, cabelos negros, panturrilhas arredondadas e gestos delicados. Quem ousaria dirigir-lhe uma ousadia? Com ela o sentimento era outro. Bastou ela me pedir para fazer-lhe a ponta do lápis, para que eu me apaixonasse perdidamente por ela. Passei a andar com a imagem dela na cabeça, desde o momento em que as estradas se separam e cada um vai para o seu lado na volta da escola. Ao fim das tardes, antes ou depois de gritar as cabras nos pastos, subia na caraibeira mais alta para cantar algumas canções, certo de que o vento, que espalharia o alarido pelos quatro cantos da redondeza, também permitisse a ela ouvir e saber quem cantava. Vez em quando anunciava o nome próprio, para não haver dúvida na audição. Fazia isso até ouvir o berro do meu pai ecoando no baixio: “vem pra casa moleque!... casa moleque! ...moleque! ...leque! ... que!”. Cada fim de tarde eu queria antecipar a manha seguinte para re-encontrá-la lá onde os caminhos se fundem, ou na porta da escola. Então decidi dizer-lhe tudo isso numa carta, primeira, e já de amor.

Meu pai nos escolarizou antes de irmos à escola. Por isso mesmo, naquele primeiro ano de escola eu já me arriscava em escrever uma carta de amor. E escrevi. Derramei meu sentimento todo ali, preto no branco. Mas uma carta jamais é suficiente para caber todo o universo de sutilezas que inventamos em situações sentimentais com esta. De fato eu sonhava primaveras entre as caraibeiras floridas, a acrescentar bordas amarelas ao zigue-zague do riacho esturricado; ou então sonhava noites prateadas, depois das chuvas, entre os muçambês pretos, de caule remelento e flor branca, que faziam a roça ficar infestada de abelhas e besouros. Nas noites de lua cheia, eu e ela, de mãos dadas, corríamos e nos deitávamos naquele mar de flores brancas, entre as abelhas, besouros, vaga-lumes e outros insetos, que doavam alguma trilha sonora à imagem prateada, como uma coisa esponjosa e radiante, na qual afundávamos até a altura dos joelhos. Deitaria ali com ela, lado a lado, de titela virada para a lua, com as abelhas e besouros compondo curiosas melodias. E nem os caules pegajosos dos muçambês, nem o cheiro meloso de suas flores interrompeririam aquela felicidade prateada, minha e dela. Permaneceria ali, imagem congelada, que possa ser revista sempre que quiser, mas que daí não saia, para não corromper-se com outras realidades.

Nesses instantes, sexo era coisa impura demais para se misturar a tal imagem. Era coisa para apontar para outras garotas, com ou sem babados, ou até para alguma cabra velha, ovelha, novilha, jumenta, e outras tantas possibilidades mais ou menos nojentas de prática sexual com animais, coisa que muitos fazem nesses ermos de sertão, mas que pertence o universo das coisas inconfessáveis. Mas com aquela menina nada disso havia; a não ser aquela imagem congelada de um inferno de muçambês floridos feito praga, transformado em paraíso prateado para nós dois.

Por capricho dos destinos minha mãe, que escrevia e não lia, deu com a carta, escrita em mal-traçadas linhas, misturadas ao material da escola. Recorreu a alguém para lê-la, o que se sucedeu de forma mais mal-traçada ainda, mas, suficiente para ela entender do que se tratava e asseverar: “guarde ali na gaveta da máquina que eu vou mostrar pro pai dele”. A coisa ia se complicar. Esperei minha mãe se distrair e entrei na ponta do pé, peguei a carta, levei para o mato e rasguei em pedacinhos miúdos, depois os misturei com as folhas secas de marmeleiros e baraúnas. Mas quem leu a carta para minha mãe andou batendo com a língua nos dentes e no outro dia já se adiantaram os “irmãos de criação” dela, já nos insultos, querendo explicação. O velho coronelzinho já se enchei de gracinhas para perguntar: “já tá mijando pra cima, menino?”. Foi aquele bafafá e eu acabei me acanhando mais com a menina. Passamos a nos falar quase nada, muito raramente ela vinha me pedir que eu fizesse a ponta do seu lápis, e me olhava de raspão, com um quase sorriso pendurado num dos cantos da boca. Mas carta havia estragado tudo, ou quase tudo, principalmente porque não a entreguei, nem pude dizer-lhe como eram bonitas as minhas fantasias.

Minha mãe tinha uma banquinha de doces no mercado novo do povoado, ao lado da banquinha de “mãe Gripina”, que vendia um arroz doce com canela inigualável. Um dia minha mãe me pediu que ficasse na banquinha e, para minha surpresa, lá estava ela, a menina, com um vestido de estampas e laços no cabelo. Passei o dia do lado dela, ela vendendo as coisas da “mãe Gripina”, e eu vendendo as coisas da minha mãe. Raramente, um emprestava algum troco ao outro, e aquilo era pura felicidade. Eu comecei a solicitar à minha mãe que me deixasse ali na baquinha, todos os domingos. Embora não houvesse diálogos, e sempre aparecessem outros meninos insinuando alguma ousadia dissimulada, era eu que passava o dia ao seu lado. E isso era tudo.

Mas veio o dia em que meu pai voltou com a notícia de que iríamos embora. Mandou que juntássemos as cabras, ovelhas, vaquinhas em pele e osso, jumentos, peias e mochilas de dar milho, porcos e cochos, cachorros sem coleira e canários de gaiola, que no dia seguinte partiríamos. E foi o que se sucedeu. À tardinha gritamos os bichos no mato. Eles vieram todos para a malhada. Abrimos a porteira do curral para as vaquinhas, e a porteira do chiqueiro para as cabrinhas; o chiqueiro para os porcos, o cercado da palma para a burra e o jumento. No dia seguinte, cedinho, viramos retirantes.

Muito tempo depois voltei ao mercado daquele povoado e ela estava lá, ao lado da banca de arroz doce de “mãe Gripina”. Mas tinha crescido. Apareceram-lhe seios, bustos, bunda, quadris... Tinha-lhe estufado tudo! Cheirava a sexo. Os meninos olhavam para ela e apalpavam o saco, cuspiam virando a cabeça para o lado e esguichando o cuspe por entre os dentes, como marrões querendo virar pai-de-chiqueiro, lambuzando-se com suas próprias excrescências. Tava na cara que ela agora era a sensação das punhetas da molecada.

Quanto a mim, não era mais ela a menina que deitava comigo naquele tapete prateado de mucambês floridos em noite de lua cheia. Não era mais a menina por quem meu coração acelerava quando vinha pedir-me que fizesse a ponta do seu lápis, quando então eu sentia o cheiro, ouvia a voz, e quase roçava a sua pele. Eu achava que no dia em que isso me acontecesse eu empedrava. E eu desejava isso – que permanecia apenas um grande mistério, um grande delírio. Mas, agora, ela não era mais a pessoa para quem escrevi minha primeira carta de amor. Não era mais!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

PALAVRAS LUMINOSAS

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Minha memória encontra apenas pontos borrados, com espaços iluminados aqui e ali, de todo modo descontínuos. Sei apenas que houve um dia, quando estávamos na roça – provavelmente a roçar com foices o muçambê preto que havia virado praga – quando os nossos primos, filhos de tio Ioiô e tia Carminha, Gigi, Dinô, Mazim, exceto Viva e Xanda, que já eram mais crescidos para irem à escola, e, além desses, Jorge, filho de Paulino e Guiomar, mas criado pelo velho Petú, pai de Ioiô e quase meu avô, passavam lá no alto da encosta, indo para a escola. A algazarra era grande, típica de um bando de meninos indo para a escola juntos, quando se aproveita o percurso para fazer estripulias inconfessáveis, principalmente se vai junto alguma menina, e ia, a filha de Tonhazão e outra prima dos primos, sobrinha de tia Carmina, que viera passar uns dias com ela para estudar. Iam para a escola e aquilo me despertava curiosidade; uma curiosidade misturada à vontade de me ver livre daquela foice e daquele muçambê preto, de flor branca e caule grudento, de cheiro forte e infestado de abelhas e besouros.

A palavra escola eu já conhecia e já sabia que a ela ia-se para aprender a ler e a escrever, afinal, naqueles tempos, “escreveu, não leu, o pau comeu”. Não por este mote, mas, pelo puro acontecimento de ir à escola, já aí residia um bocado de fascínio, independente daquela praga de muçambês. Meu pai havia prometido nos colocar na escola. Mas foi naquele contexto de foices, muçambês e besouros que ouvi outra palavra que a mim me apareceu suficientemente luminosa para que dela eu jamais esquecesse: aluno. Meu pai disse distraidamente: “Eita! Os alunos de Baiana vão ali numa zuada!”. Aluno ligava-se, em minha cabeça, à palavra alumínio, que eu conhecia não apenas dos caldeirões, tachos e panelas que havia em casa, mas de uma memória mais reluzente ainda, a das bolas prateadas – dizíamos niqueladas – que encimavam as antenas da boléia do caminhão de Antônio Roquete, que nos aparecia ali todos os anos, agredindo os marmeleiros das estradas estreitas, para garimpar sacas de algodão ou alguma de feijão ou milho que por ventura tivesse sobrado das reservas dedicadas à alimentação da família ou ao plantio no ano seguinte. A palavra aluno, por via de sua conexão com as bolas niqueladas do Caminhão de Antonio Roquete, ainda ligava-se a outra palavra: buzina.

A primeira buzina que ouvi – um tanto assustado e ainda sem saber nomeá-la – não foi nem daquele caminhão de antenas com bolas niqueladas, que com o tempo foi se tornando muito familiar, mas foi de algum carro atolado lá na Lagoa ou na passagem do riacho, perto de Samuel. Quem caísse naquele atoleiro, buzinava para que os homens da redondeza se compadecessem e aparecessem por lá para empurrá-lo e livrá-lo do atoleiro. A meninada corria junto, quase sempre à frente, de pés descalços a bater na bunda, para chegar primeiro. A primeira buzina que ouvi, como uma espécie de apito estranho e potente, que ecoava nas encostas e o nos baixios, era algo que meus ouvidos não tinham ainda experimentado e para o qual eu ainda não tinha uma palavra. Saía, provavelmente, de alguma rural ou jipe, pois lembro apenas que os pára-choques e as maçanetas das portas do tal carro eram todos prateados, niquelados. A palavra buzina, quando enfim a ouvi, se ligava, em minha cabeça, a outra palavra que ouvi de conversas distraídas dos adultos, mas que havia se reforçado no dia em que meu pai chegou-nos com carros de plásticos – dizíamos “de mangaba” – e afirmava que aqueles carros eram “feitos de fábrica”, e junto à palavra fábrica soltou outra, não sei em que contexto: usina.

O meu mundo começava a se povoar de palavras estranhas que me traziam um mundo de todo modo reluzente, como aquelas bolas que encimavam as antenas da boléia do caminhão de Antonio Roquete. Enxada, foice, facão, caldeirão, tacho, frigideira, também reluziam, pois eram de aço ou de alumínio. Mas, aluno, alumínio, buzina, usina eram para mim palavras parentes, e me sugeriam algo muito mais reluzente, fosse pelas suas luminosidades verdadeiras, fosse apenas pela luminosidade que uma palavra empresta à outra quando as colocamos lado a lado. Eu sabia que essas palavras não diziam a mesma coisa, mas elas se aparentavam. Aluno mesmo eu não sabia o que era: sabia apenas que essa palavra me remetia a algumas imagens brilhantes.

Aluno e escola eram, ao seu modo, palavras que me remetiam a um mundo que eu apenas começava a desejar pelo mistério que a ele se associava – e, como sabemos, há sempre algo brilhante no núcleo turvo dos mistérios – e sugeriam que havia mundos diferentes do que eu vivia ali, e que estes mundos se tocavam em suas bordas, sem de todo se misturarem, mas havia alguma passagem de um a outro, talvez através daquele caminhão de boléia, antenas e bolas niqueladas; talvez através daquela rural ou jipe no meio do atoleiro; talvez através da escola e seus alunos – palavra que até então eu não sabia exatamente o que era, mas sabia que era algo que brilhava
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terça-feira, 6 de novembro de 2007

TV E IMBECILIZAÇÃO DO POVO

Cada vez mais estou convencido de que a TV Brasileira é a maior agencia de imbecilização do nosso povo. Com a desculpa de que "é disso que o povo gosta", a TV Brasileira se imbeciliza e imbeciliza. Agindo assim (“movidos pelo é disso que o povo gosta”), esquecem que o povo sempre foi tratado com "cesta básica": seja de alimentação, seja de saúde, seja de educação e, portanto, de cultura, de formação e de informação; esquecem que se se oferece coisa boa, o povo também gosta. Mas ao povo tem-se negado o poder de escolha: ele escolhe entre as imbecilidades que lhe são oferecidas. E dessa forma a "opinião pública" ou a "opinião nacional", acaba sendo um produto de repetitivos processos de “idiotização”; processos de empobrecimento das formas de discernimento, processos estreitamento do “senso comum”; A “Opinião Nacional”, atualmente não ultrapassa o estreitismo das questões colocadas pelo “Você Decide”.
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Na verdade, as elites brasileiras, possuidoras do poderio midiático estão pouco “se lixando” para o que ocorre com a “formação da opinião pública”, da “opinião nacional”. E tenho ficado cada vez mais angustiado em saber que programas inteligentes na nossa TV estão cada vez mais escassos. A "baixaria" é geral: em todas as TV's – inclusive e principalmente na Globo. Durante a semana, os filmes se encarregam de promover o "imaginário da violência e da destruição", visto que não há um que não se estabeleça a partir das cenas em que estreiam muito sangue, muita bala, muito "terrorismo", muita violência (e depois reclamamos porque a juventude ou a sociedade como um todo é violenta e queima índio vivo em Brasília).
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Filmes bons – incluindo a produção nacional recente – onde encontramos? Em que canal? Enquanto isso o Faustão, o Gugu, Ratinho, a Márcia, o Canário e toda essa 'laia', ganha terreno e ajuda a confundir o resto e a aumentar a "abestalhação" da população, a midiatizar, a sensacionalizar e a banalizar os nossos grandes temas; nossos grandes males. Espaços reservados para a produção da atitude cidadã, estão cada vez mais escassos: são banidos pelo processo de concorrência para ver quem imbeciliza mais. Nos domingos é preciso ter muito 'saco' para agüentar as besteiras e as apelações. Depois a globo lança uma campanha com o mote: “Como salvar um pais através da educação”. Mas ela não se inclui como (des)educadora.
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[Mensagem enviada para o “Boca Livre” (site da Globo na Internet), em 1998. Mas não foi ao ar, mesmo a boca sendo livre].

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

EU, ETIQUETA

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Carlos Drummond de Andrade
(Corpo, Rio de Janeiro, Record, 1984)

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Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou de cartório
Um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nessa vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produtos
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo.
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidências.
Costume, hábito, permência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É duro andar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim mesmo,
Ser pensante sentinte e solitário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio
Ora vulgar ora bizarro.
Em língua nacional ou em qualquer língua
(Qualquer principalmente.)
E nisto me comparo, tiro glória
De minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem à vista exibo esta etiqueta
Global no corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam
E cada gesto, cada olhar
Cada vinco da roupa
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é Coisa.
Eu sou a Coisa, coisamente.