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domingo, 29 de novembro de 2009

a céu aberto

um dia a gente encheu a cara,
chapou, bebeu, fumou e foi pescar poesia.

a noite se afundava muito para cima
e era lá que a gente jogava isca de rima
e risco de língua no corpo...

de vez em quando uma faisca de frase arranhava o céu
e um sussurro qualquer quebrava o silêncio dos pelos

a gente se impressionava muito com isso
com essa fundura do céu boiando por cima de nós
e nos mirando impiedosamente de cima
com seus bilhões de olhos arregalados

algum verbo supapava o fio do papo em forma de verso
reverberava nas profundezas do cosmo
mas era difícil estancar o fluxo do pensamento
para dar forma a alguma frase solta
sobretudo porque o papo era outro: era tátil

acima de tudo, o céu nos sugava
e nos estasiava em seu chiado mudo
a gente apenas enganchava mais um corpo no outro
para não despencar nesse abismo iluminado acima de nós

(Pinzoh)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

EU SÓ PEÇO A DEUS

Como nossa "sociedade da informação" é traiçoeira, procurei saber quem era o autor ou a autora da música "Eu Só Peço a Deus", que foi, em algum momento, gravada por Beth Carvalho & Mercedes Sosa. A internet isiste em me informar que a música é de Beth Carvalho. De longe eu sei que não é: contesto. Procuro um pouco mais e encontro nome de Léon Gieco, e depois o nome deste associado ao de Raul Elwanger. Aposto que estou chegando perto. Mas já sei que só vou saber ao certo quando outras fontes, além da internet, eu acessar. Por enquanto segue a letra da música e um vídeo já repetitivo na internet, que não dá nem os créditos de si, nem dos autores da música e de quem a canta. É um exemplo!
EU SÓ PEÇO A DEUS

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o q’eu queria

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria

Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucada brutalmente

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda fome e inocência dessa gente

Eu só peço a Deus
Que a mentira não me seja indiferente
Se um só traidor tem mais poder que um povo
Que este povo não esqueça facilmente

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Sem ter que fugir desenganando
Pra viver uma cultura diferente

Tempos!

Um dia antes da morte de Mercedes Sosa um amigo, que é também dono de rádio, me falou preocupado que há uma coisa estranha: a geração de agora não conhece artistas como Milton Nascimento, como se tivesse havido um vácuo de comunicação entre esta geração e a anterior. Mais por impulso do que por falta de educação respondi na bucha que isso era também culpa dele e dos outros donos de rádio, que se acostumaram a ganhar dinheiro oferecendo porcaria à população. Não chegamos a dar continuidade a essa conversa.

Um dia depois, morreu Mercedes Sosa, no dimingo, dia 4 de outubro, aos 74 anos. Fiquei sabendo apenas na segunda, no Jornal Hoje. Pensei, imediatamente: “e quem é Mercedes Sosa para a maior parte das pessoas que neste momento estão em frente à televisão?”. Ora, pouco importa! Os sonhos que tínhamos, quando a ouvíamos e dela gostávamos muito, viraram bosta. Agora andamos em bando em busca de outras coisas que nem sabemos o que é! A maioria de nós anda por aí, repetindo que hoje o que conta é ganhar dinheiro, nem que seja vendendo droga (droga ruim, do tipo que as FMs vendem), e que a questão é “se jogar na vida e vivê-la”. Parece bom!

O mundo é outro! Novo! Livre! Alguns dirão que é a sociedade do conhecimento. Eu acredito por um breve instante e por um breve instante espero que os meninos vão entar na internet e destrinchar o que está por trás do nome da artista morta. Mas, que nada, eles estão ocpudados demais no MSN, no orkut, no youtube, revendo mil vezes as cenas do Pânico na TV ou do Se liga Bocão. Os outros estão em frente à TV vendo futilidades, tipo “todo enfiado”, para que a vida seja sempre leve! Alguns outros estão sintonizados nas FMs, ouvindo a série de besteiróis do momento, que se repetem em todas elas como se fosse uma espécie de transe!

Se jogue meu rapaz, que a vida é esta! E não reclame do peso dessa leveza!
Ainda bem que há outros, outras, inventando saídas, distâncias de singularização, criando redes a partir de outras subtâncias, artísticas, estéticas ou tóxicas, algo que rompa com a tirania do MAIS DO MESMO dos meios de comunicação, cujo efeito psicoativo é mais radical!

sábado, 12 de setembro de 2009

SUSPENSO

(SEGUE O TEXTO ABAIXO, QUEM QUISER PODE PONTUÁ-LO, CORRIGI-LO, POIS EU FI-LO PORQUE QUI-LO)

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não é grande

mas essa atriz tem uma voz massa

agora sou só ouço o som

e um veludo comprido

no verso

perdi o passo

meu passo

pode até perder um ésse

que eu sigo aceso

não cesso

diz a língua que esse S não existe

êsse ésse

não é grande

o meu conhecimento disso

tenho pra mim que o erasmo

tá melhor que o roberto

berra um cabrito

e nesse horário eu já não presto

amanhã talvez penso nisso

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(OBRIGADO A QUEM FÊ-LO)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

TUDO ENFIADO NA HIPOCRISIA


Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)

Consta que uma professora por nome Jaqueline Carvalho, que lecionava no Colégio Objetivo em Salvador, para crianças de 5 a 7 anos, foi demitida da escola porque, num show de uma banda chamada “O Troco”, ela subiu no palco e dançou uma música chamada “Todo Enfiado”. Ali por perto estavam vários malas, praticantes indiscretos do voyeurismo, equipados com celulares com capacidade de filmagem. Gravações em vídeo em baixa resolução (aliás, a baixa resolução é perfeitamente coerente com o contexto em questão) foram parar no Youtube, pois o atual voyeurismo tecnológico sempre resulta nisso. Os vídeos “bombaram” e a professora teve que se explicar na escola e acabou sendo demitida e tendo que se mudar do apartamento onde morava com a filha.

O contexto é o seguinte: a banda é apenas uma entre milhares que, na falta de capacidade lingüística e espaço social para explorar outros universos de sentido, atua na linha abaixo da cintura. As letras das músicas, a exemplo da música em questão, são as pérolas da Novíssima Música Popular Brasileira – considerando que esse tipo de estética musical não se resume à Bahia – e exploram expressões de escatologia e escracho que são muito bem aproveitadas pela indústria do entretenimento no Brasil inteiro. Com este tipo de material, muitos canais de TV, muitas rádios AM e FM, principalmente, fazem a sua audiência, e amparando esse negócio, que tem a audiência como critério principal, muitos empresários corroboram com esta realidade ao escolherem justamente tais formatos estéticos para veicularem suas propagandas e sua publicidade institucional. Que merda!

Antes de qualquer coisa, uma constatação: quase todo mundo está interessado nesse negócio, ganha dinheiro com isso, inclusive ampara tais escolhas estéticas e econômicas com justificativas do tipo “liberdade individual”, “liberdade de expressão”, “gosto popular”, etc. Claro que não sabemos mais o que significam tais coisas, mas isso não deixa de operar justificativas para todo tipo de atividade espúria, no entanto, em geral não questionável, pois nem sabemos mais por onde começar um questionamento disso.

Tenho acompanhado a repercussão, a professora tem participado de alguns programas de qualidade similar ao episódio, já alcançou seus 15 minutos de fama, dizem que está recebendo propostas para entrar em uma banda, como dançarina, e outros especulam se a Playboy estaria interessada nela, para pousar pelada. Eu por mim acho que ela não tem calibre para tanto. Mas não duvido que ela chegue a ser apresentadora de programa infantil na televisão, pois parece ser assim que a coisa tem funcionado, no ritmo do “tudo enfiado na hipocrisia”. Mas nossos argumentos é que são péssimos! No final das contas, apenas a professora é que é julgada. Uns a perdoam, outros a execram. Isso tudo não sai do senso comum mais rasteiro. Em geral os argumentos esbarram em três formas básicas:

a) A primeira forma é do argumento de puro relativismo niilista, que não é “nem contra nem a favor, muito pelo contrário, quanto mais principalmente, tanto neste caso quanto noutros, se bem que cada caso é um caso” – forma esta que não é senão uma forma charlatã, proselitista e dissimulada de não dizer nada, exatamente porque não sabe e não tem o que dizer;

b) A segunda forma é a do argumento acadêmico, hoje muito próximo da primeira forma, pois também os intelectuais se demitiram da função de oferecer alguma possibilidade de interpretação do mundo que se destaque pelo menos um pouquinho da média atingida pelo senso comum – a maior parte dos intelectuais hoje se contenta com um “quem sou eu para julgar seu ninguém” ou com um “isso é representativo das formas autônomas do povo viver e se divertir”, como se já não houvesse uma vampirização dessas “formas autônomas” do povo viver e gozar;

c) A terceira e última forma é a do argumento moral, transversal a todas as outras formas, que acha que algumas categorias de pessoas não podem viver como as demais, nesse caso, uma professora, apenas ela, não pode sair por aí mostrando a bunda, quando todo mundo mostra e convoca a mostrar; como se os “aluninhos” da professora já não estivessem infestados por esses conteúdos, que estão na rua, nos porta-malas dos carros, nos bares, na praça, nas festas de largo, na TV, nas rádios e em todos os lugares, muitas vezes sustentados com dinheiro público destinado à cultura. Por que é a professora que tem que pagar o pato sozinha? Por que apenas é dos professores que se cobra a responsabilidade de dar bons exemplos e formar valores?

No geral o que há é uma confusão entre o universo das escolhas individuais, relativa à esfera privada, e a esfera pública. A professora até pode ser perdoada porque estava alcoolizada. Ou seja, ela tem direito de ficar doidona e fazer a extravagância que quiser. Claro que se, ao invés de álcool ela tivesse fumado unzinho, tava mais ferrada ainda! Mas no geral o bafafá não passa desse limite! A própria nocividade da exposição do ato da professora, feita pelos malas-paparazzi e seus celulares e pela própria banda (é a mão do vocalista que arregaça a intimidade da moça), esse big-brother, essa especulação da intimidade movida a enorme falta de ética, não entram na questão.

Vendo os depoimentos da professora concluo que, como professora, ela é fraca! Quer se vingar dos vizinhos “voltando por cima”, depois que virar dançarina de pagode-putaria. Ela sequer percebe que a parte mais frágil nessa história toda é ela própria; que tem muita gente ganhando dinheiro com o episódio que ela protagonizou – os próprios programas de TV e de rádio que fizeram audiência com o ela, e a própria banda que, em decorrência isso, pôde sair do ostracismo. Só ela perdeu até agora, e é apenas dela que se cobra decência. Tudo o mais pode ser indecente! Se ela não é capaz nem perceber isso, se não é capaz de julgar os efeitos de seu ato e ver o nível de hipocrisia que ela fez aparecer, ela é uma coitada, não merece piedade nem ser professora.

Eu prefiro ficar com a oportunidade de afirmar que tal episódio só fez aparecer o nosso atual nível de hipocrisia. Todos os dias, em algum lugar, coisas parecidas acontecem até em praça pública, com a presença majoritária de crianças e com recursos públicos. Vimos isso quando filmamos “O Estado da Arte da Fuleragem”. A cidade de Salvador então, está repleta dessas jóias. Coisas como “Cadeira Erótica”, “Surubão” e outras piores animam festivais de exibição e simulação erótica em vários lugares todos os dias. Por isso não condeno a professora isoladamente, embora ache que qualquer pessoa com um pouco de noção da própria hipocrisia social, não faria o que ela fez. Mas a coitada é mais vítima do que vilã. Nem se deu conta de que, como professora, ela herda uma carga de responsabilidades que eu mesmo já nem quero para mim; mas é como pessoa mesmo que ela deveria ser mais cuidadosa. Por outro lado, o mais importante é isto: se é preciso educar bem as crianças, que estejam também interessados nisso a mídia como um todo, os empresários (que vendem entretenimento como se fosse droga), e todos os que apóiam e lucram com isso. Não pensem que é a cena da professora que vai "danificar" as criancinhas. Esse mesmo conteúdo que pode "danificá-las", está aí, em todos os espaços sociais, convocando todos a se jogarem. E quem liga? É isso que deveria entrar na discussão!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

DO CORREIO CAROS AMIGOS

Peço permissão à Revista Caros Amigos e ao Correio Caros Amigos para replicar aqui, o escrito abaixo, que recebi por e-mail e que vem datado de 10 de junho de 2009. Na verdade é apenas a minha contribuição no oferecimento de outra posição e de outra visão das coisas, que não seja aquela emanada das grandes corporações da mídia nacional e nem da ANJ. Aliás, a justificativa do meu interesse por isso pode ser acrescida da informação de que eu não sou jornalista; sou educador.
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Nova descoberta da Petrobrás abala mídia grande


A criação do blog da Petrobrás merece atenção não apenas por levar a público informações relevantes sobre a maior empresa do Brasil – isto já era feito por sua página na Rede. O grande diferencial do blog está em sua postura firme e decidida na divulgação de sua versão dos fatos e, o que é mais importante: a crítica contundente – e elegante – do posicionamento editorial das corporações de mídia




Foi assim com a Folha de S. Paulo, que afirmou em sua edição do dia 6 de junho que a Petrobrás possui 1.150 jornalistas em sua equipe de comunicação, mas não publicou o desmentido enviado pela empresa. No dia seguinte o blog denunciava a omissão. O mesmo foi feito com matérias publicadas pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Em postagem no dia 5 de junho, o blog da Petrobrás registra, na íntegra, todas as perguntas enviadas por esses três jornais, bem como as respostas encaminhadas pela empresa. E sempre fazendo questão de dizer que apóia a liberdade de imprensa e de ampla circulação das informações.

Com menos de uma semana de vida, o blog foi alvo de violenta crítica de O Globo. Matéria publicada em edição dominical (7 de junho) acusa a empresa de “vazar informações”: “Empresa quebra confidencialidade de perguntas enviadas à assessoria de imprensa pelos veículos de comunicação”, diz o subtítulo. O texto começa afirmando que a Petrobrás é “alvo de suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos”.

A onda raivosa contra a Petrobrás chegou ao ápice neste dia 8 de junho com a divulgação de nota da Associação Nacional de Jornais (ANJ), espécie de confraria das virgens imaculadas da imprensa. A cara de pau é tanta que o senhor Júlio César Mesquita, que assina a nota, afirma que o blog encampa uma “prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa” e que se trata de uma “política de comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao democrático escrutínio de seus atos”. Como, santo Deus, se o blog publica tudo na íntegra – diferentemente das corporações de mídia?

Na verdade, a nota da ANJ é bastante esclarecedora. Se lida ao contrário. Para tanto, basta lembrarmos que atores patrocinaram um golpe de Estado no Brasil, em 1964, em nome da democracia e da liberdade de imprensa. E para que não restem dúvidas vamos consultar a história recente do país e relacionar os setores que sempre lucraram ao manter a opinião pública debaixo de rígida tutela, sobretudo numa época em que não existia a internet – cujas possibilidades põem em marcha uma verdadeira revolução nos meios de comunicação no mundo inteiro. Por fim, vamos notar que esses grupos são os mesmos. E são também os mesmos que juravam de pé junto que no Brasil não existia petróleo...
O argumento político das suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos – todos levantados pela direita entreguista, vale destacar – não se sustenta, posto que acusações semelhantes são simplesmente ignoradas pelos mesmos veículos de comunicação. Exemplo: a denúncia feita pelo deputado federal Ivan Valente ao Núcleo Piratininga de Comunicação de contratos suspeitos firmados entre a editora Abril e o governo do Estado de São Paulo, controlado pelo PSDB. Segundo o parlamentar, nada menos que 10 milhões de reais foram destinados à empresa, sem licitação, só no segundo semestre de 2008.O fato é que o monopólio dos meios de comunicação de massa no Brasil acostumou-se a descrever o país segundo sua própria concepção de mundo. Como não havia voz discordante, esse sistema sempre esteve à vontade para mentir, distorcer, manipular e omitir informações, sem jamais encontrar uma força política proporcional que lhe opusesse resistência.

Esse momento talvez tenha chegado. Agora, a maior empresa brasileira – e a maior do mundo em tecnologia de prospecção de petróleo em águas profundas – criou uma ferramenta capaz de fazer frente à máquina de propaganda neoliberal. Em menos de uma semana o blog da Petrobrás alcançou nada menos que 100.000 visitas, uma repercussão capaz de desestruturar o esquema dos veículos que manipulam as informações para prejudicar a empresa. Se milhares de pessoas passam a ter acesso aos argumentos da Petrobrás diretamente da fonte, e os comparam com o que foi publicado pela imprensa, então esta imprensa é quem será julgada pelos leitores. A nova descoberta da Petrobrás abalou a tática da mídia grande, que consiste em dizer sem permitir o contraponto.
O acesso a diferentes fontes com o advento da internet, aliás, pode ajudar a explicar o recente relatório divulgado pelo Instituto Verificador de Circulação, que aponta declínio na tiragem dos jornais de maior circulação no Brasil. Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Dia estão entre os que mais perderam circulação, sobretudo neste primeiro trimestre de 2009. Não vendem, nem influenciam tanto quanto antigamente. O Globo, só na última década, perdeu mais de 20% da circulação. Por outro lado, a tiragem dos jornais populares e democráticos vem subindo, como evidencia o próprio blog da Petrobrás e outras tantas iniciativas.
Por fim, é preciso ressaltar que se a maior empresa do Brasil vem mudando a partir da nova gestão – mais contratações em concursos públicos, novos investimentos no país e aumento no lucro líquido – ainda existem problemas que prejudicam substancialmente o desenvolvimento do país, sendo a manutenção da quebra do monopólio estatal do petróleo o mais grave deles. E num momento em que os contratos da empresa são questionados, dou minha contribuição: por que não investir na criação e consolidação dos jornais, revistas e blogs que, faz tempo, têm mostrado que praticar Jornalismo ainda é possível? Uma imprensa que mereça este nome é o pilar que resta ser erguido para a constituição da democracia no Brasil.




[Marcelo Salles, jornalista, é coordenador da Caros Amigos no Rio de Janeiro, editor do jornal Fazendo Media e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.]
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

CRÔNICAS DA (IN)SUSTENTABILIDADE

Participei, entre os dias 26 e 29 de maio, em Campina Grande, PB, do "II Simpósio sobre Mudanças Climáticas e Desertificação no Semiárido Brasileiro". Eu fora convidado para uma mesa sobre tecnologias para difusão de informações na rede de ensino. Bom foi ter interagido com outras falas e com a discussão em geral. Saí de lá convencido de uma coisa: nós pensamos mal a questão "sustentabilidade" e pensamos mal o papel que a educação joga nisso tudo. Mas há esperanças!
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Ponto 1.
Por princípio, educar alguém não resolve nada do ponto de vista da sustentabilidade, não produz, a priori, nenhum tipo de reorientação da nossa relação com os meios e recursos naturais. A degradação ambiental é produzida por ações que derivam da sociedade altamente escolarizada. Neste caso, a educação, a ciência e a tecnologia, antes de serem solução, são parte do problema. Temos que acabar com a visão de que são os pobres e desescolarizados que degradam o meio ambiente. Quem degrada é a sociedade altamente tecnificada, industrializada e consumista.
Um Dr. de São Paulo, do INPE, disse que primeiro houve a SOCIEDADE EXTRATIVISTA, depois a SOCIEDADE DE TRANSFORMAÇÃO (a industrial) e agora a SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO. Quis fazer entender que a sociedade que mais causou dispêndio na natureza foi a primeira. As outras não! Principalmente a última. Disse isso com pose de quem está dando a mais fantástica das notícias! Como se na sociedade da informação, silício, petróleo e energia, não fossem derivados de modos profundos de extração. Um extrativisto levado às últimas consequências. Como se computador não ajudasse a exaurir o que a terra pode oferecer.
Disse o Doutor que um bastão de papel é menos degradante do que um bastão feito de galho de árvore. Nem pensou em quantas árvores têm que tombar para produzir um bastão de papel. Disse que a diferença é que o bastão de papel gera atividade remunerada e isso permite produzir inclusão. Esqueceu-se que nós conhecemos a história do capitalismo, que é a história da remuneração, e isso não produziu inclusão, muito pelo contrário...
Disse que a solução do mundo é educação integral... fez com que essa pronúncia fosse feita de boca cheia, de modo que a sonoridade ressoasse no auditório!
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Ponto 2.
Meu raciocínio é simples: quanto mais a gente refrigera, mais esquenta! O esquentamento é fruto do aumento da pressão antrópica, do aumento cada vez mais acelerado das atividades de produção, consumo e descarte. Aí esquenta. Quem pode, compra refrigerador. Quanto mais refrigeradores ligados, mais o planeta esquenta. Simples! E espero que os cientistas me desmintam. Principalmente os do INPE! Os economistas e o pensamento medíocre dizem que o Brasil tem que crescer a 6% ao ano, pelo menos. Isso resolve o problema da economia nacional e ajuda a resolvê-la em termos globais; isso cria oportunidades individuais (principalmente se as pessoas estiverem escolarizadas, com formação acadêmica sofisticada e especializada), MAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA AMBIENTAL. Pelo contrário, aumenta-o! O aumento da produção e do consumo, aumenta a pressão sobre a natureza! Não há outra fórmula! Se há, nós não a conhecemos! Nós não estamos discutindo a produção de outra experiência civilizatória, baseada na diminuição da produção e do consumo. Isso implicaria em rever muitos dos nossos discursos e re-orientar a nossa vida coletiva. Mas não estamos fazendo isso! Estamos dizendo: "consumam, para nos tirar da crise!". Sequer estamos discutindo a redistribuição das riquezas já produzidas e acumuladas e o problema da desigualdade. Estamos, ao contrário, discutindo como aumentar a produção e o acúmulo em poucas mãos de mais riqueza. Apenas isso! Essa direção não serve para a questão da mudança climática e do esquentamento...
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Ponto 3.
E a questão da Educação? A Educação deve salvar o mundo. Todo mundo deve ganhar dinheiro e gastar, comprar e sujar à vontade, mas a educação deve salvar o mundo. Os professores estão depressivos, doentes, aviltados de todas as formas, fudidos e mal pagos, mas eles devem salvar o mundo. Nenhum doutor, tipo do INPE, aconselha seu filho ou filha a irem para a docência (especialmente no setor mais fragilizado, a educação fundamental), pois há profissões mais nobres, sobretudo aquelas em que se pode granhar muito dineheiro quanto mais rápido melhor, e aumentar o poder de compra e consumo, bem no estilo que só faz degradar mais rápido o meio ambiente... mas a educação deve salvar o mundo! Isso, para mim que sou educador, é o fino da hipocrisia!
Eu sei que todo mundo quer ser bacana, que todo mundo tem o direito de ganhar dinheiro e gastá-lo como quiser. Eu sei que a escola ajuda a abrir essas possibilidades e todas as pessoas têm direito a esse direito. Eu sei que esta é nossa idéia básica de inclusão. Mas isso não resolve nada do ponto de vista da diminuição de nossa pressão sobre o meio ambiente! Não apenas a educação não vai salvar o mundo, como também ela sozinha não pode produzir outra experiência civilizatória, sem que a produção da vida ande noutra direção. Enquanto a escola trabalha valores, os outros meios esvaziam os valores e dizem apenas: "consumam, desejem, vivam o êxtase... e o resto que se exploda".
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Ponto 4.
Tudo bem! A Educação pode ajudar. Mas a educação não está apenas na escola - que tem virado uma ilha. A educação está também na TV, na rua, na praça pública, na festa. Mas esses espaços já foram transformados, por políticos e empresários medíocres, em poleiros de degradação e drogadição. Educação? Sim, eles educam, mas se educassem bem, não estaríamos requisitando a escola para que ela salve o mundo.
Quem quer saber de educação? Eu, que sou educador e não pretendo ser mártir, acho que ela pode fazer muito. Principalmente se os professores começarem a ser tratados com dignidade, principalmente se os espaços escolares forem re-investidos de dignidade, se neles houver espaços e tempos para outras linguagens... Principalmente se deixarmos de comprar livros bestas e caros dos cartéis da indústria do livro didático, basicamente situados em São Paulo. Principalemente se começarmos a ousar produzir novos discursos e novas práticas, sem esperar que sejamos autorizados pelos intectuais do primeiro mundo.
Principalemente se estes discursos vierem acompanhados de ações concretas que apoiem nossa capacidade criativa, para prduzir outros materiais didáticos: livros didáticos, literatura de apoio, filmes, vídeos, CDs, DVs, músicas, jogos... contextualizados segundo nossos dilemas, anseios e auto-imagem! Isso talvez até ajudasse a resolver nossa auto-imagem! Talvez, com isso, não salvássemos o mundo, mas pudéssemos re-orientar algumas práticas, a partir de conteúdos encorajados a tematizar o espectro de nossas relações e a nossa feição civilizatória.
Sem engessar a criatividade; mas também sem deixar essa criatividade escrava do liberalismo de nossa época! Aqui há de haver partilha de sentido e compromisso!
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Ponto 5.
Temos que mostrar que somos capazes disso! Sem a tutela dos Doutores do centro. No máximo, parcerias isonômicas. Nada de submissão! E quanto mais nos experimentarmos nisso, mais Capital Social se produzirá entre nós. Neste sentido, o mais importante é apostar na capacidade e na estética dos subalternos! Abrir-lhes oportunidades; apoiar os sabres e aperfeiçoar-lhes a formação técnica e valorativa, para que sinalizem de modo criativo outros universos de sentido!
É por aí que acho que o INSA cumpre um papel importantíssimo nisso, que ainda está em construção! Vamos construí-lo!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

EVANDRO TEIXEIRA E O JORNALISMO DE SUPERFÍCIE

Evandro Teixeira, um dos mais renomados fotojornalistas brasileiros esteve em Juazeiro. No Centro de Cultura João Gilberto, no dia 22 de maio, abriu a exposição de fotografias do Mural Galeria Euvaldo Macedo, com fotos do livro Canudos 100 anos. Ali o céu se move! Está em todos os lugares, e te olha, e dança por trás dos personagens!
Depois da abertura da exposição mostrou fotos de seu acervo e contou as histórias que as fotografias, por si só não contam. Talvez seja preciso lembrar que, especialmente no fotojornalismo, as fotos são registros que não devem contar tudo, e não contam. A maioria delas exige sempre que se explicite, por outras vias, a narrativa que lhe é inerente! Não se trata do deleite esttético da fotografia. Trata-se do que ela tem para contar. E esta narrativa não pode se desgrudar do próprio autor. O fotojornalismo trás essa marca do autor. Se alguma objetividade deve ser aí discutida, deve reconhecer que ela fala do sujeito também. De suas escolhas, de suas aventuras, do seu campo de guerra.
Parei nas fotos do enterro do poeta chileno Pablo Neruda. Evandro estava no Chile cobrindo os eventos do golpe militar liderado por Pinochet. Cobriu os massacres nas ruas e no Estádio Nacional. Registrou cenas da chacina! Fez fotos da janela da sede do governo, em cuja sala Salvador Allende tombou. E soube que Neruda estava muito mal. Foi ao hospital, encontrou apenas o corpo frio de Neruda sendo preparado para a urna funerária e para o enterro. Era o único fotográfo e decidiu a companhar tudo. A preparação, a transferencia do corpo para outro lugar, para escapar dos militares, o enterro... Quero considerar duas coisas aqui:
a) há fotos que, sem essa narrativa, se tornam fotos banais ou iguais a qualquer outra foto, como a foto de uma pessoa improvisando uma ponte para passar o riacho cheio. Seria uma foto qualquer, se sua narrativa não incluisse o fato de que aquela ponte estava sendo improvisada para permitir a passagem do corpo de Pablo Neruda. A foto é um testemunho a espera de outro, que a completa.
b) e se Evandro Teixeira, como fotojornalista, não soubesse quem era Pablo Neruda? Aqui a objetividade e a competência técnica do fotógrafo dependem de uma coisa chamada "repertório". Chamamos isso, ordinariamente, de "bagagem". Sem isso, ele não seria o único fotojornalista do mundo a ter feito tais fotos. E onde se ensina isso? Em que matéria "objetiva" e "prática" se ensina isso?
Todo jornalista jovem, quer chegar primeiro ao sucesso. Já quer estrear como âncora do Jornal Nacional. Na fotografia, já querem começar com uma premiação internacional. Esquecem dos percursos que todos os bons profisionais tiveram que trilhar, começando entregando cafezinho ou espanando o pó das prateleiras. Recebendo alguns nãos e persistindo! Assim se faz um bom profissional, em qualquer área. Com esforço, dedicação e menos nariz arrebitado!
O fetiche no jornalismo anda junto com o agravamento de sua sperficialidade. A objetividade do texto, o foco no espetacular, inibem a perspectiva mais plural dos contextos. Os grandes nomes não se fizeram em salas com ar condicionado! Mas, ao contrário, com trabalho árduo!
Trabalho árduo, aliás, foi o da comissão formada por Flávio Ciro e pelos seus alunos monitores e voluntários, com destaque para Cecílio e Silvana. Eles realizaram um dos mais importantes acontecimentos do jornalismo no Vale do São Francisco, que foi a vinda de Evandro Teixeira. Mas nem sequer a imprensa local, acotumada ao jornalismo de superfície, compareceu e cobriu o evento.
É uma pena!

A LOUCURA EM MOVIMENTO

Na manhã do último dia 19 de maio de 2009, no Auditório Clementino Coelho do Centro de Convenções de Petrolina, participei de um dos mais inisutados acontecimentos, entre os muitos para os quais sou chamado. "A LOUCURA EM MOVIMENTO" nomeou um evento comemorativo ao Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Os debates da mesa para a qual fui convidado orientavam pelo mote "O que é loucura, afinal?".
Boa pergunta, pensei eu! E lá no autidório, todos tinham de louco, um pouco! Usuários dos CAPS, loucos varridos, alunos da UNIVASF, professores, médicos psiquiátricos, artistas, coordenadores de centros de apoio prsiquiátrico... A mesa, então, estava bem representada!

Antes da nossa mesa vi um vídeo de um usuário do CAPS em Minas Gerais, contando um música que dizia algo como: "alguma coisa está querendo sair de dentro de mim; será um caminhão carregado de cimento; ou será um sentimento...". Boa! A loucura é isso: alguma coisa querendo sair, crescendo dentro... Precisa sair!

Para mim que não sou da medidcina - e sei que há na medicina esta pretensão de ser o único campo em que se pode produzir o discurso legítimo sobre a loucura - acho que a discussão é boa! Acho ainda que a loucura é um tema múltidisciplinar. Aliás, a primeira coisa a considerar é o fator contextual da loucura. Basta que uma convenção ou uma conveniência qualquer seja ignorada para que se produza uma situação de loucura. O louco, neste caso (na política, nas relações sociais...) é aquele que coloca-se contra uma ordem estabelecida. Ou então é uma desordem fora do lugar - pois, certamente há um lugar onde se pode ser louco à vontade...
O louco, então, é o imprevisível, o portador da força indomável, uma temível materialidade. Por isso é preciso "educar", como primeiro ato de "cura". Foucault já temtizou quase à exaustão os viesses em que a loucura é epnas este dispêndio de desajuste a alguma regra estabelecida. Por isso é preciso mais que educar: é preciso reter, interditar, silenciar... Assim, fui eu o louco que com outros loucos pixamos a parede da Prefeitura, questionando o despotismo que ali reinava, na minha pequena cidade, tornada feudo. Assim fomos os loucos que saimos no carnaval de paletó, gravata e cueca; que recitamos em cima dos postes do calçadão, que ouvimos rock ("eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada..."), que pomos brincos nas orelhas, que tomamos banho pelados na ilha e usamos roupas um tanto fora de moda... Para nós estavam reservados os recursos da cadeia ou do manicômio, como procedimento normal.

É correto pensar que há, como no filme "As Loucuras do Rei Georege", uma situação de alteração orgânica, em que a pessoa já não controla duas próprias escolhas. Mas nem isso está ausente de motivações contextuais. A sociedade de agora, por exemplo, é uma formidável fábrica de ansiedades e depressões. Leiam a Caros Amigos, edição do mês de maio de 2009. Ali há uma entrevista com a psicanalista MARIA RITA KEHL, onde, falando de seu livro, analisa as conseqüências do ritmo frenético da vida contemporânea e aponta a depressão como sintoma social (leia trechos). Nunca vi uma geração tão facilmente depressiva! Nunca a palavra depressão se banalizou tanto. Em "O Vestígio e a Aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo", Jurandir Costa Freire analisa bem algumas situações, e entre elas, o hedonismo, o narcisismo, a doenças somáticas de todo tipo, as bulimias e aneroxias, e estultia, resultado das excitações cotidianas, das promessas não cumpridas, das autopunições em razão disso e da assunção da impotência e da autocomplacência. O resultado nunca é tranquilo! Como diz Gabriel, O Pensador, "Aquilo que o mundo me pede, não é o que o mundo me dá". Esta é a fábrica de loucura que não cessa! A felcidade tornou-se paradoxal, segundo estudos do francês Gilles Lipovetsky. O gozo sempre postergado, adiando, não cumprido - principalmente quando a promessa é sempre de um gozo excepcional e até extra-humano. Mas ele nunca vem! É sempre aquela normalidade pífia. Frustração que vira buraco sempre mais aprofundado, para ser enchido de tudo que é apetrecho material e sensorial: a vertigem do consumo, a aneomania, a velocidade, o êstase, a moda, o fetiche, a droga... Isso dá dinheiro! As indústria e sua publicidade não param de sacar desta conta e de aumentar o rombo! No fim das contas, são as pessoas que, sozinhas, têm que ser responsabilizadas pelo descontrole. São elas que pagam, em seus corpos, com seus corpos, essa conta. São elas as encarceradas, as interditadas, as mutiladas!

Mas a conversa versou sobre esperanças. Aquilo que quer sair, que precisa sair e como oportunizar a saída. Os monstros que devem ser exorcizados, não exigem tanto as drogas científicas destinadas a este fim, mas as oportunidades de desinterdição. É preciso destrancar o sujeito! A arte, as produções expressivas, o movimento, a dança, o riso, a minimização da solidão! Às vezes, isso é quase tudo o que uma pessoa precisa para voltar a si, recuperar o cuidado de si, tomar de volta o controle de suas escolhas.

Achei bacanas as conversas! Mas acho ainda que os governos deveriam criar mais oportunidades para as novas e velhas gerações, para acalentar nossas loucuras. As nossas cidades continuam feias, sujas, barulhentas e ivadidas por tudo que é porcaria. É preciso abrir outros destinos!

domingo, 17 de maio de 2009

D E S V E N T U R A

O poema não é esse
Mas outro não acontece
Não se insinua, não nasce
E se não nasce, não cresce
Não desenvolve ou floresce

Outro poema não veio
Pois paralisou no meio
Nas franjas do cerebelo
No pouco de zelo e medo
Entre ousadia e receio

Porque olhou de viés
E afundou cem mil pés
O amor que nem merece?

Mas não há nenhuma multa
Nenhum castigo se imputa
Sua desculpa é que não desce!

NADA

Pelos pêlos do camelo!
Meu amor carece zelo
Como ar para o nariz
A bola, a pipa e o cabelo

Meu José carece Mar
Para amar as profundezas
Do teu corpo de planeta

Meu corpo carece um copo
De nada para nadar!

L U T O ! ! !

Quando caio na luta
Ás vezes saio de luto
E mesmo de luto
Caio na luta
E luto!

domingo, 3 de maio de 2009

A LIBERDADE POSSIBILISTA

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Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
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Mesa de bar é onde os papos mais inusitados se estabelecem! Algumas vezes é onde se dispõem aquelas convicções que sequer duram até o último instante da noite. Há sempre os que têm convicção de sobra e os que nada querem com a convicção. Há os que constóem uma imagem de si tentando demonstrar a clareza de suas escolhas, e os que preferem ancorar esta auto-imagem na imagem de abertura total. Em geral nem uma e nem outra são posições assim tão sustentáveis. A certa aultura da noite, estarão os sectários tentando desfazer alguma rigidez que se esconde no ecletismo dos relativistas. É só papo de mesa de bar! Mas, em compensação, é um bom exemplo de como produzimos a vida! Primeiro, a necessidade de ir ao bar! É como religião! No fundo todo mundo se fixa em alguma órbita. Alguns vão para a gnose, outros para o chá de auasca, outros para algum esoterismo oriental, outros vão para a Igreja Universal. E muitos outros vão para o Cais do Porto! Eu, entre estes!
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O mais interessante é quando a gente encontra gente muito nova querendo dar lição em gente mais vivida! Ultimamanete é isso: os meninos sempre acham que estão por cima da carne seca. Estão na crista da onda, na crista da novidade, surfando na "sociedade da infromação". De vez em quando até ficam tentando fazer com que a gente se sinta mais velho do que é. Meninos e meninas da geração saúde, que não fumam, que não bebem, que só se drogam de shoping e de moda enlatada, e que dão a entender que são muito abertos, descoladas e bonitinhas, podem até levar a gente a ficar lastimando não ter podido acompanhar melhor essa era da pegação! Ou então a gente fica tentando "agregar algum valor" à idade, pousando de quem viveu coisas sensacionais. O problema é que a certa altura do papo vem sempre uma frase do tipo "isso era no seu tempo". Que coisa horrível! Aí somos obrigados a reagir com algum "meu tempo é hoje!" Resta saber se esta geração descolada e expert em tudo, é mesmo sem preconceito, ou se tudo não passa de uma capa de exibição com verniz cafona, caretice que se esconde na maquiagem da cutis sedosa.
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O papo dessa vez era sobre liberdade, escolhas, educação de filhos, etc. Liberdade é uma dessas palavras que já não sabemos mais o que quer dizer. Os homens de negócio sabem que é preciso não haver barreiras às suas criativas formas de ganhar dinheiro e a isso chamam liberdade. A liberdade de expressão também anda por aí. Antigamente ela era um bordão na boca de uma geração silenciada pela repressão e pela grande mídia, coadunada com a repressão. Liberdade de expressão não era termo proferido pelas grandes comporações da imprensa. Pelo contrário: este era um discurso dos silenciados, dos pasquins clandestinos. Ultimamente a liberdade de expressão banalizou-se como discurso do grande conglomerado da imprensa nacional, justamente aquela que se especializou em distribuir baboseiras aos montes para imbecilização geral na nação! E qualquer proposta de questionamento disso aparece, perante o discurso dessas corporações, como sendo uma ameaça à liberdade de expressão! Em outra instância a liberdade de organização e de fé beira hoje a cartelização geral do mundo e a comercialização de Deus. A própria fé virou um bom negócio, com direito a publicidade e tudo!
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De fato, tudo virou uma questão de consumo. A indústria que dirige a promoção e a regulação do consumo (sim, por que é preciso administrá-lo, criar disposições...) tem a publicidade e a propaganda como os principais instrumentos de gestão da própria vida coletiva. E ai de quem ouse questionar a liberdade da publicidade, mesmo quando ela é explicitamente danosa e irresponsável. Nos tornamos ordas de consumidores atrás dos nossos "nichos" - palavra mais que apropriada e assimilada pelo próprio discurso do empreendedorismo. Nossa liberdade virou uma coisa estranha. Nós a temos cada vez mais, e cada vez mais somos mais prisioneiros. Construimos em nossas casas nossas prisões domésticas, aparelhadas com muros altos, grades, cadeados, microcâmeras e cercas elétricas. Temos medo de tudo, e os que podem só saem às ruas em carros com vidros blindados. Vivemos a era do medo e do pânico, muitas vezes distribuídos pela mídia de massa! Curiosa essa nossa liberdade!
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Mas, como estamos numa mesa de bar, sempre pode acontecer o inusitado. Desta vez uma garota bonita trouxe uma palavra nova. Nos disse que o mundo não é mais determinista, mas possibilista. Sonoridade nova! Coisa chique! Ora pois, mas então devem estar ensinando isso nas escolas, na Universidade! E talvez até a própria publicidade esteja se encarregando de generalizar tal novo conceito, tão importante à nossa vida contemporânea! Possibilismo! Grifo eu! E o que vem a ser isto? - pergunto. "Ah, é isso, é que hoje em dia você pode escolher, você pode decidir sobre sua vida, o que você quer ser; não tem mais esse negócio de imposição, de proibição. E você não é obrigado a gostar de uma coisa só, depende do momento..." Parece bom! Parece residir aí uma formidável imagem de abertura. Seria um devir deleuziano?
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Bom, minha curiosidade não pode esperar que a nova palavra fosse grafada nos dicionários, ou nos livros. Como um bom contemporâneo que afirma que "meu tempo é hoje", recorri ao copy & past que a internet e as novas tecnologias da informação e da comunicação (NTIC, chique!) me possibilitam. Fui ao meu amigo Google, escorreguei até a Wikipédia (ignorei suas pendengas) e achei: "Possibilismo foi uma tendência introduzida no movimento socialista europeu que aceitava o princípio do reformismo, considerando que se devia tentar obter apenas o que era possível, o que no seu entender não incluía uma revolução proletária. O conceito teve origem na França, no seio do movimento socialista defendido por Paul Brousse, Benoît Malon e outros. O surgimento do possibilismo e de uma facção que defendia a via reformista levou à cisão do Partido dos Trabalhadores da França em 1882".
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Ora, ora! Será que as Universidades estão ensinando direito? Será que a propaganda e os workshops que trabalham também com outras palavras chiques como inovação, flexibilidade, resiliência, etc., estão colocando a palavra possibilismo no lugar certo? Essa origem um tanto política do termo será que ainda interessa a alguém? Se mexer um pouco mais vai ver que o possibilismo aparecerá de namorico com o pós-estruturalismo francês, com o pós-modernismo, com o pós-utópico, o pós-crítico e o pós-tudo... e quiça não ande de braços dados com o neoliberalismo!
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Fucei um pouco mais e encontrei, também na Wikipédia, que o "possibilismo é uma escola do pensamento geográfico (Francês) que encara o ambiente natural (a Natureza) como um mero fornecedor de possibilidades para a modificação humana, não determinando a evolução das sociedades, sendo o homem o principal agente geográfico (...). O gênero de vida não é uma consequência inevitável das condições ambientais, mas de um acervo de técnicas, hábitos, usos e costumes, que lhe permitiram utilizar os recursos naturais disponíveis. Juro que já vi isso, especialmente nas teorias da cultura, nas definições de territorialidade, enfim! Mas há mais: o possibilismo surgiu nos finais do século XIX, em França, como reação ao determinismo ambiental propugnado pelas correntes geográficas alemães, tendo como principal proponente Paul Vidal de la Blache. Mesmo que admita alguma influência do meio [natural, digo eu] sobre o homem, essa escola afirma que, o homem, como ser racional, é elemento ativo, portanto tem condições de modificar o meio natural e adaptá-lo segundo suas necessidades".
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Bom! Mas aqui há ainda uma ressalva a fazer. Há também um francês, chamado Edgar Morin, que em um de seus "Métodos", o IV, vai afirmar que o meio não é só natural. O meio ambiente é social, noosférico! O homem é sim o seu pricipal agente transformador, mas isso inclui todo tipo de jogo. Inclui todo tipo de força e de farsa. Os dispositivos físicos e a camada de imaterialidade constituída de todo tipo de signo, de linguagem. A cultura, a tecnosfera, a política, o negócio, a publicidade, o narcotráfico e tudo o mais! Este meio interfere sim na constituição das condutas, especialmente porque somos levados a adotar sempre uma gramática de bando. É preciso levar em conta essa nossa tão antiga - e cada vez maior - disposição para o bando, essa espécie de "espírito de bando", de experiência de "manada", o "efeito manada". Um meio que possibilita (possibilismo) e o faz em geral operando também certas convocações e mesmo certas coerções. A própria Natureza não só possibilita, mas também veta. E ai de nós que não entendamos urgentemente os seus limites!
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Menina bonita essa que pronunciou "possibilismo". Mesmo! Resta saber se ela não será a mesma que pode expressar facilmente uma espécie de caretice "de bando", típica de uma geração que se mostra demasiadamente eclética, mas que, no fundo, esconde nesse ecletismo seus fechamentos e suas limitações para o julgamento! Uma geração facilmente disposta a julgar o feio, o fora de moda, o cafona, o nada a ver! Que até vive julgando os pais em relação a isso, reclamando das combinações de roupa das mães; muitos até se envergonham dos país, não querem ser vistos com eles... Uma geração que sofre com pouca coisa, que vive com depressão, que vive se achando fora do modelo - e é dai que vem a maior parte das doenças somáticas dessa geração! Ave Maria, nunca vi uma geração tão facilmente depressiva! Eu não entendo! E onde é que entra o tal possibilismo? Será que não é um termo que apenas faz frente a qualquer regra de responsabilidade que esta geração tenta a todo custo evitar? Quais são seus outros engajamentos, fora da moda, do consumo e das fantasias elatadas? Se ainda querem transfromar o mundo, em que direção será essa transformação? Será demasiado afirmar que esta mesma geração, que diz estar à nossa frente, é a mesma que não concebe a possibilidade de ter responsabilidades?
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Voltando à liberdade, esta todo mundo quer! Ninguém, por outro lado, quer lutar por ela e bancá-la. Liberdade virou uma coisa que os pais dão aos filhos logo muito cedo, como se fosse uma penca de chaves e a autorização para dormir em casa com o/a parceiro ocasional. Liberdade é isso? Liberdade virou sinônimo de plaquinha no quarto do filho "favor bater antes de entrar, respeite minha privacidade", quando é a própria privacidade dos pais que não existe mais, nem é levada em conta. Aliás, numa sociedade paranoicamente autovigiada, é a própria privacidade como condição da liberdade que foi-se para as cucuias. Tá assim de filhos repreendendo os país por alguma bobagem, enquanto os repreensores detestam ser repreendidos. Tá assim de pai que virou refém dos filhos apenas para parecer moderno! Aliás, há de tudo - e coforme o pensamento em voga, cada caso é um caso!
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Resta saber se essa idéia de "liberdade possibilista" não está ela própria retida no limite do "copy & paste". Eu mesmo copiei e colei informações sobre o possibilismo que constam na Wikipédia, com a ajuda do meu "amigo" Google. E podemos dar por concluído o aprofundamento sobre o conceito? Há outros exemplos, como aqueles que se situam no contexto da linguística, quando se trata de discutir reformas que implicam numa tensão entre língua e identidade nacional, como ocorre no seio do chamado nacionalismo galego, em que o possibilismo acaba sendo questionado e aproximado do mero liberalismo. Ora, então pode ser isto: uma palavra nova para dizer de um novo jeito aquilo que o liberalismo já selou. Ao que tudo indica, há muito mais a conhecer sobre o possibilismo!
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Em relação à liberdade, não se trata de apenas "jogar os dados" e de deixar a porta sempre aberta. Se assim fosse, por que estaríamos nos encarcerando tanto? O que eu sei é que toda a liberdade de que se fala ultimamente está de algum modo adequada às escolhas de consumo, já vampirizadas pelo dirigismo da publicidade. Além disso, como é que eu escolho algo que não está posto para escolha? - pois uma das coisas que a lógica de mercado faz é vetar o espaço para aquilo que não se presta a ser cosumido em grandes quantias. O grosso consumo e a audiência é que mandam! A imprensa e a própria política são escravas da audiência e do espírito de bando, e se encarregam de (re)produzir o efeito manada! Para onde uns vão, todos devem ir. A própria política e a imprensa trabalham para fortalecer esta idéia, para levá-la ao extremo, à exasperação. Então, me digam onde fica a liberdade e o possibilismo nisso!
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Se em boa medida os dados já foram jogados, é preciso saber até onde essa palavra nova nos leva e o que ela se presta a esconder atrás de sua sonoridade charmosa e de sua promessa de novidade. Ainda bem que, com essa palavra ou apesar dela, há sempre a possibilidade de, lá pelas tantas, depois de vários goles, a gente mandar a seriedade ir passear, cuspir na cara das regras duras e se jogar no possibilismo! Mas se fosse só isso, por que teríamos que tolerar uma "lei seca"? Porque há também os sem noção, os exibicionistas, o individualismo, o narcisismo e o hedonismo! E é apenas para preservar o lugar de todos que certas coibições se justificam! Mas regra virou palavra feia demais, eca! Na abertura do ERECOM (encontro regional de estudantes de comunicação), que ocorreu no ano passado no DCH III/UNEB, quando um dos coordenadores da abertura disse que tinham que combinar algumas regras, o bando todo ensaiou uma vaia: "que porra de regra!". Ainda bem que houve a auto-gestão de regras. Mas regras houve!
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Fiquei pensando apenas o seguinte: e quanto a nós, os pais, ainda temos algum papel a cumprir? Não me parece que é isso que coisas como a Super Nanny, alguns episódios de novela, algumas reportagens e os novos discursos pedagógicos estão a dizer. Sinto mesmo que uma nova convocação para que os pais reassumam seu papel na educação dos filhos está ganhando vigor. E sobre o resto eu prefiro acreditar em Bárbara, minha filha, conforme o seu blog: http://blueknapsack.blogspot.com/. Ela deve saber mais do que eu sobre a sua própria geração.
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Mas é claro que, lá para as tantas, um papo como este já cansou a maior parte dos participantes - ou então já ficou animado demais e até pernicioso. Então vamos cair na bagaceira, pois como diz um outro jargão em voga no presente, "QUANTO PIOR, MELHOR". Pense numa sociedade doida! Mas não me cobre nada não viu, que eu estou na minha LIBERDADE... e a noite é uma criança (tomara que não seja mimada)!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

PAPO DA MADRUGADA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Véspera de feriado é assim. Mesmo que o tempo esteja de cara feia, e haja uma atmosfera murcha nos bares, a gente inventa um canto na casa de alguém pra esticar a noite. E lá pelas tantas, os mais sóbrios se arriscam em ir buscar mais alguma coisa pra beber em algum lugar sempre aberto na madrugada. Aí não vai um só: vai uma cambada inteira! E aproveita pra ouvir um som, pra puxar um papo e para dar outras voltas.
Ontem foi assim. E o papo foi daqueles. Falei de pessoas que nunca conhecem as músicas que a gente gosta, como se vivêssemos em mundos muito diferentes. Uma garota que pegou carona comigo peguntou se eu não tinha O Bonde do Tigrão. Eu falei que não! "E Gatinha Manhosa?" Também não. E "Saia Rodada?". Também não. E "Vitor e Léo?" Também não. "Vixe, você não tem nada disso? Você ouve o quê?" Ouço Djavan e Gil, e Céu e Ceumar e Pedro Luis e a Perede e Cidadão Instigado e Zeca Baleiro e Nilton Freitas e Alexandre Leão e Maviael Melo e Clã Brasil... "Djavan? Você tem Djavan? Eu adoro Djavan!" Tenho sim! "Tem Dia Frio?". Não! Tenho um disco chamado "Alumbramento". "Não, conheço não"... No meio da conversa a pessoa vê um disco de "Garotos de Programa" e seus olhos brilharam: "não acredito! Você tem Garoros de Programa? Bote aí!" E vai logo se enxerindo em colocar o tal disco que recebei num brinde de posto de gasolina, afff! E vai logo se atrevendo a aumentar o volume até... "Peraí! Calma! Eu não costumo nem ouvir este disco nem ouvir nada neste volume. Por favor!" Pois é!
Cris falou de uma pessoa que ele conhece que revelou num papo que não conhece, Caetano Veloso, nem Djavan, nem Tom Jobom, nem - imagine! - Gilberto Gil, nem - pior ainda! - Luiz Gonzaga!!! Porra! Mas, segundo informações do informante, é uma garota gostosíssima! Gosta de pagode, de "rala a tcheca no asfalto" e coisas do gênero! Ambas as situações narradas envolvem garotas em torno dos 20 ou 20 e pucos anos. Pensei comigo: a nossa Constituição Brasileira, a Constituição Cidadã, faz 21 anos neste ano de 2009. É da idade dessas garotas! E o papo foi andando!
Já ouvi alguns conservadores afirmarem que o problema do mundo é que hoje em dia "tem democracia demais". Às vezes acho que deveríamos simplesmente desprezar posições deste tipo. Às vezes acho que deveríamos considerar a possibilidade de posições deste tipo serem um índice de que essa saudade dos tempos de chumbo ainda pode criar problemas. Mas não me furto a pensar no paradoxo da nossa jovem democracia! Fico pensando, às vezes: as gerações que hoje têm em torno de 20 anos (idade de nossa constituição) são um retumbante exemplo da qualidade de nossa democracia! Será que nesses anos o apartheid cultural só fez de acirrar? Será que nossa sociedade da informação tem sofisticado os seus filtros para fazer com que existam mundos tão separados e paralelos que uma jovem de 21 anos, vivendo um centro urbano de relativa importância, cruzado de diversos meios de comunicação, não conheça alguns artistas que de fato são ícones da cultura musical brasileira? O que isso significa? Este é um tema banal e sem importãncia? Como é que isso marca a nossa jovem cidadania?
Os que me lêem podem pensar: "eita que o cara agora assumiu o seu próprio conservadorismo". Estam na era do relativismo absolutista (ou do absolutismo relativista, que deve dar no mesmo). Os mais "descolados" intelectualmente acham que "é isso mesmo". É o povo gerindo sua própria vida como bem entende e sem dar explicação a ninguém. Eu de cá penso: "santa inocência!" Eis aí um modo de a própria "indústria do abestalhamento" se autojustificar - e de se ocultar também. Então ficamos no seguinte ponto - porque afinal a noite segue seu ritmo e a cerveja está esquentando, e não podemos nos dar esse luxo de desperdício: a questão é saber se essa aparente "livre escolha" tem produzido um mundo melhor. Temos sido mais responsáveis, mais comprometidos com problemas coletivos, mais preocupados com o futuro nosso e do planeta. Tenho muitas pistas para afirmar que não. Tenho muitas razões para pensar que JAMAIS deveríamos desejar voltar à situação anterior, da Ditadura! Mas tenho as mesmas razões para pensar que, se não quisermos voltar àquilo (e ainda viver na ilusão de que somos mais livres, o que é perfeitamente possível), deveríamos tantar fazser a nossa democracia sair da adolescência - afinal ela já vai fazer 21 anos.
Sair da adolescência significa, não voltar a proibir, mas distribuir de modo mais igual as condições de participação, a educação, a cultura, ainformação. Uma sociedade que se nomeia de "sociedade da informação" não pode simplesmente deixar a socialização das novas gerações ao encargo do orkut, do MSN, dos porta-malas dos automóveis ou da sanha privatista que hoje abocanha as festas populares e a praça pública.
Não há nenhum problema em uma jovem gostosíssima (segundo Cris) gostar de pagode e de ralar a tcheca no chão. Mas há problemas sim em ela não conhecer um dos mais importantes artistas brasileiros que, acima de tudo, foi também o mais significativo dos Ministros da Cultura Brasileira até mo momento, Gilberto Gil. É apenas este ponto! Exatamente este ponto porque ele coloca um desafio ao próprio Ministério da Cultura, que é o de ampliar as oportunidades culturais. Mas coloca também desafios à Comunicação (ainda bastante privada e privatista) e à Educação.
A Democracia Brasileira precisa sair de sua fase adolescente, marcadamente leberal e ingênua! O apartheid social no Brasil ainda é enorme.
Mas agora é hora de voltar e abrir mais uma cerveja, que já demoramos demais nessa conversinha!

domingo, 19 de abril de 2009

ALMAS CIBERNÉTICAS

que almas calmas roçam de leve a poça d’água
sopram os galhos da palmeira
estilhaçam cada gota antes que elas toquem a terra
e rompam sua áspera aridez?

que almas calmas embalam as cigarras?
não aquelas de óperas desesperadas
no seio ressequido do sertão
mas este chiado constante do lugar aonde chegamos

estas almas calmas conseguem captar velocidades?
e conseguem contrapô-las?
há almas que resistam a este chiado constante
de cigarras cibernéticas?
a este reboliço que estremece
na invisibilidade das instituições que nos habitam?

que almas calmas resistem a longas reuniões?
a barrigas vazias, salários atrasados
e demasiadas teorias?

que pressupostos movem as almas calmas?
e as fazem acordar cedo no chiado de cada dia
bule no fogão, chiado da chaleira
trânsito na rua, turbina do avião
vassoura e chinelo se arrastando pela sala
esgotos descendo embaixo do chão...

casulo de lagarta se rompendo
ruídos das asas da borboleta
que almas calmas captam esses sons sutis
do estrondo do sol se levantando
das raízes rompendo lá embaixo o chão
da lua escorregando na minha janela?

almas calmas dormem nesse zum-zum-zum de abelha?
no chiado do enorme entulho de barulho
que depositaram bem abaixo da minha orelha?

dormem com o rugir da vida andando, indivisível?
ou na engenhoca das coisas se movendo, dragão invisível?
onde se afugentaram longe daqui as almas calmas?

aqui moram agora as cibernéticas, de silício,
só éter, chama, luz e sobra sem textura
que não dormem um instante e sequer pousam

e se cairmos todos agora desta altura?


(Poema ganhador do VI Salão de Artes Universitário Regional, na categoria poesia. UNEB/DCH, abril de 2004)

A CHUVA

A CHUVA

Há dias vinha havendo o aumento do abanar de mãos à cama
O arreganhar de janelas e o abuso dos ventiladores
O tempo quente e úmido e pesados tons eram os do céu.
A mulher murmurava – “vai pegar fogo em tudo!”
Enquanto o homem desabotoava a camisa alisava a pança.

Presságios! E nem por isso arrumou-se o telhado.
Nem por isso recolheu-se o lixo das ladeiras
Ou limparam-se as bordas dos bueiros.
Nem por isso afastou-se dos precipícios das encostas
Os desvalidos de todas as estações do ano
Nem deu-se folga à margem já minguada do riacho!

E o tempo trincando tudo de calor!
Daí a pouco, um pingo grosso, pancada forte na vidraça
E logo outro e outro e outros...
Um raio rachou o céu no meio, de cima a baixo
Crispou uma franja na borda do céu
E o estampido foi quase uma bronca irada na moçada!
E veio a primeira enxurrada!

E tão logo correram todos a aparar goteiras,
A fechar janelas, a recolher roupas no varal
E desligar os aparelhos eletrônicos...
E outros tantos a desabar ladeira abaixo
Ou a nadar no rio da rua, se a sorte lhe foi boa!

Era a chuva, nos dizer de nosso despreparo
em conviver com suas (ir)regularidades.
E ainda assim comemoramos, em meio ao aperreio!
Certamente a natureza se refresca
E em pouco tempo os brotos farão festa.

Por enquanto uns alegremente se lameiam.

Outros tantos só lamentam!
E alguns, nem isso! Apenas bóiam!

DIA E NOITE

os dias passam como as águas
como o rio, o tempo é sempre adiante.
só eu pareço parado, franja na testa, idéia tesa!
ouvindo escorregar o tempo como as águas
e algo, porém, em mim, é radiante.

eu ouço o tilintar metálico das horas
eu sinto o palpitar da terra se movendo
perscruto até o ranger das nuves lá no céu
outras coisas nem com esforço entendo
como um larido que há aqui na vizinhança
que eu não cogito razão de existência...
ou a xaropice dos barulhos da cidade
que vazam até mim pela fresta da janela
e gastam até um pouco a minha tolerância
mas por hora só sei do zumbido maior dentro de mim
este sim, exige dose maior de paciência.

acho que sei que a vida é assim
um labirinto largo, que dura a vida toda
e que só à noite a alma se liberta
e até flana em passeios que não conto.

penso que um outro eu de mim se despreende
para rondar os becos da cidade
até achar um deles que leve ti
para ter, assim, notícias suas
e vira esquinas e dobra ruas
e volta a me dizer que dorme em paz,
que tem os olhos bem fechados
e um riso inciado na boca entreaberta
e quando a manhã vem e me desperta
eu tenho a sensação de ter sonhado.

assim vivo, dessas sensações pequenas
desses pequenos acenos dos seus olhos
dessas mentiras que invento pra mim mesmo
pois dentro de mim só o que existe é ermo
o tempo extenso, o dia quente e longo

já que nessa confissão eu escorrego
aproveito então e digo logo
que só em sua promessa e eu já me afogo
um meio sorriso seu, e eu já desabo...

e espero o tempo, rio que nunca pára
que me promete que quem espera alcança
promessa esta que em mim balança
pêndulo do tempo, e apenas isto!
e se nem assim isto me cansa,
assim também, afirmo, eu não desisto!