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domingo, 14 de fevereiro de 2010

Sobre o Lazer e a Pressa dos Meios de Comunicação

Josemar da Silva Martins
Professor do DCH III/UNEB

Os meios de comunicação não têm tempo – estão sempre apressados em transformar informação em notícia, correndo de um lado para outro para fazer matérias rápidas, com perguntas que rondam o lugar-comum, sem tempo para uma resposta mais completa, afinal, na lógica dos meios de comunicação, tempo é ouro, e não há como dar ouvidos a coisas importantes

A opção dos meios de comunicação é pelo entretenimento, pela distração, pela superfície, pela aparência. Por isso não tocam em temas importantes; por isso vivem de factóides, adoram polêmica e ficam sempre com o pueril. Só isso já afasta os meios de comunicação da idéia de lazer. Ficam eles mais próximos do entretenimento, mas do lazer não, exatamente porque lazer requer outro ritmo, outro desinteresse, que não é uma renúncia, mas a abertura para outra dimensão da experiência elaborativa. Bom, mas isso não interessa aos meios de comunicação!

Prova disso? Ontem fui entrevistado por uma aluna de comunicação social (foi minha aluna), para o canal de TV local, afiliada da Globo. Estávamos numa chácara onde foi recentemente inaugurado um atelier e estava havendo um ensaio. Eu não pedi para ser entrevistado – eu nunca peço! As perguntas eram sobre o espaço, a importância dele... e no decorrer veio uma pergunta se ali, aquele espaço, era uma mistura de lazer com cultura. Iniciei a resposta tentando dizer que lazer tem tudo a ver com isso, já que na origem da palavra lazer (que é grega) está esta finalidade de fruição e de elaboração, diferentemente do mero entretenimento...

Para meu espanto a repórter recolheu o microfone enquanto eu respondia à pergunta que ela mesma fizera, como se disse “chega!”. Continuei falando, o cinegrafista continuou filmando, até que se dissipasse aquele incômodo, que não se desfez. Depois completei que essa postura não é condizente com uma postura de alguém que, além de repórter, está concluindo um curso de jornalismo. A resposta? “Você é meu brother!”. Que espécie de brodagem é essa?

O que eu ia dizendo é que o termo lazer está associado ao termo scholé, que ainda na Grécia Antiga deu origem à palavra escola. Lá scholé significava exatamente lazer. Esta informação encontra-se no livro “Guerras Culturais”, de Teixeira Coelho, num texto intitulado “Lazer, Globalização e Identidade Cultural – um decálogo, dois teoremas e uma perspectiva para o lazer”. Ali ele explica que o lazer não é uma interrupção da atividade, ou seja, não é uma pausa para alguma coisa diferente da pausa; não é uma pausa que recupera as energias e colocar a pessoa em condição de voltar à ocupação. Na verdade lazer é uma interrupção do ritmo normal de atividade que se volta apenas para si mesma, como um modo de atividade superior (p. 145).

Isso quer dizer que lazer é puro dispêndio de tempo livre, disposto à fruição, à elaboração, ao saboreio, com fim em si mesmo. Essa é sua principal relação com a cultura, com a arte, com a invenção despida de espírito de negócio meramente. Não serve para nada, a não para esses saltos espirituais que não passam pelos templos religiosos. Por isso estávamos naquela chácara, naquele espaço, naquele atelier, naquele ensaio.

Mas nisso os meios de comunicação não estão interessados! Eles têm pressa! E os/as repórteres aprendem, em boa parte do curso de comunicação social, especialmente nos estágios remunerados nos meios locais, esse axioma. É uma pena!

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

RESSACA DE ANO NOVO

Em geral entramos o ano de ressaca. É regra! A não ser que a "virada" não tenha tido graça! Reveillión que se preze tem que oportunizar a embriaguês, o borrão nas maquiagens e o amassão das sedas brancas, ou de outros tecidos mais ou menos nobres. A gente começa engalanado e termina sendo arrastado para casa, aos trapos! Aí o feriado do primeiro dia serve apenas para curar a ressaca do ano novo.

Se a embriaguês for das boas, faz as vezes de um bom ritual de passagem, desses que oportunizam o renascimento! A ressaca é, portanto, uma oportunidade de renascimento! Muitas vezes um renascimento que termina num "nunca mais bebo", ou em algo menos dramático, como um "este ano vai ser diferente".

De qualquer forma, estou de ressaca - e parte do que espero do ano tem a ver com isso! A minha ressaca, no entanto, é outra! É que este ano me deparei com um tipo de juventude diferente! Não é a juventude que se droga, como foi a minha, embora a de agora se drogue cada vez mais e com coisa mais pesada. Também não é a juventude que fax sexo, como a minha, embora esta faça sexo muito mais! Mas parece uma juventude que desistiu do ritual, da elaboração, do valor do tempo das coisas! O único ritual, é a carnavalização; a única elaboração é a maquiagem, o único tempo é o presente, estendido até depois de onde deveria virar outra coisa! Tudo isso com simulação de holofotes (o orkut serve para isso, em geral)!

Encontro os jovens e eles não estão indo à escola, há muitos que desistiram dela, outros foram reprovados... e também não estão interessado em trabalho! Eles querem festa, sucesso, exibição! Por isso precisam de um celular "da hora", uma máquina digital, uma moto, um somzão no porta-mala... Onde vão achar dinheiro para isso? Quem sabe um Empréstimo Consignado na aposentadoria dos avós! Quem sabe, um pequeno assalto, um sequestro!

Esta é a promiscuidade do momento. A isso temos chamado de violência! A isso eu chamo promiscuidade sistêmica! De onde ela vem? Pergunte aos que ganham dinheiro vendendo droga! E mude o conceito de droga! Vá além da maconha, da cocaína e até mesmo do crack. Vá até onde vendem ilusões! Vá até onde vendem a idéia de que todo mundo tem que ser Rei. Vá até onde todos já querem começar de cima! Todos com o rei na barriga! Vá até onde a liberdade foi vampirizada pelo mercado e pelo consumo! Vá até onde vendem bíceps e sonhos de pop star, música ruim e ética fuleira! Eis aí a drogadição do presente!

Para mim, a mesma imagem dos meninos achando que a vida é uma chapação constante, é a mesma imagem da "chapação das opções que se oferecem". Vou de bar em bar da cidade e ouço a mesma coisa. Viajo centenas de quilômetros e vejo os mesmos gestos. Emcaro as mesmas paisagens - incluindo as mesmas paisagens de ficus benjamina (que muita gente chama "pé de fixo") se repetindo em todas ruas, em todas as praças, em todas as cidades! Prescruto aí os mesmos idiotas sonhos, como se tivessem sido feito em série!

Tô de ressaca disso tudo! É como se tivesse se produzido uma bolha de repetição constante dos mesmos modos de ser! E a palavra alienação - da qual agora os intelectuais e as academias querem distância, pois preferem palavras mais atuais, como agenciamento - se revigora!

A minha ressaca que já se repete há alguns anos, é dessa repetição de tudo! Não há mais diferença entre qualquer outra festa de fim de semana de uma festa de reveillión na maioria das cidades que conheço! A não ser pelos penteados, pelos brilhos nos rostos e nos vestidos das mulheres, ou pelos engalanamentos dos homens, não saberíamos. As opções de festas são todas medíocres: em geral são feitas em cercados de metal que cabem aí uns 30 mil pagantes, pelo menos. São feitas por empresas "laranjas" de políticos que estão no poder, mas quase que indisfarçadamente são postas na mão dos "laranjas". A prefeitura dá a infra, a empreza ganha o dinheiro e divide com os "donos" da coisa, que são os próprios políticos empoderados.

O sucesso da festa é geralmente garantido por uma banda tipo Saia Rodada, Aviões do Forró, Silvano Sales, Swing Tropical, Asas Livres... (a lista é bem maior), que tocam músicas dessas que se repetem umas quinhentas vezes por dia em todos os porta-malas de carros, nos bares, churrascarias e FMs. É tudo um maravilhoso consenso sobre a qualidade das beldades tocadas! No palco, as músicas, com suas estéticas ridículas, são executadas com a dramatização das letras por meninas seminuas e bichinhas que fazem o papel de homens na encenação do erótico. Por isso é um espetáculo tosco de simulações ridículas. E tudo não passa de simulação, até o sexo! Torna-se uma festa que se sustenta na estética do falso! Mas todo mundo compra!

Tô de ressaca disso tudo! Mas ainda bem que a minha "virada" deste ano foi ótima! Primeiramente porque o ambiente era outro, a música era diferente, e por isso não fiquei bêbado. Manti-me lúcido pela madrugada e iniciei a manhã com um belo café da manhã, no cais da cidade, antes de qualquer ressaca - o que me evitou que ela viesse depois. Foi outro tipo de renascimento! Há muitas promessas para o ano novo, como sempre, e espero poder cumpri-las! Uma delas é a de enfrentar a reiteração da mesmice. Não estávamos interessados em ganhar dinheiro, mas em recuperar outras possibilidades de festa e de estética! Por isso a festa foi uma iniciativa de pessoas, e não do poder público (embora este o tenha apoiado)!

E menos ainda a "nossa" festa foi uma iniciativa do mercado! Quanto a esse, aos empresários e homens de negócio, esses não têm mais tempo para sonhar, a não ser com as fórmulas de ganhar dinheiro fácil e rápido! Se for preciso, vendem droga! E é o que têm feito!

Josemar Martins (Pinzoh)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Sobre o gosto do povo

Consta que em a Odisséia, obra de Homero que relata os disígnios da guerra de Tróia, seu principal herói, Ulisses (Odysseu, por isso, Odisséia),depois de ficar exilado por anos, decide retornar à Gécia. Ele é alertado por Circe sobre uma região pela qual teria que passar, habitada por sereias cujo canto era tão belo e arrebatador que jamais algum ser humano teria escapado a tal beleza, tendo sido todos por ela dragados. A feiticeira instruiu Ulisses, e se ele quizesse escapar com vida e ao mesmo tempo se delitar com a beleza daqueles cantos, deveria pedir para ser amarrado ao mastro de sua embarcação, e antes disso, tapar com cêra os ouvidos de todos os seus remadores, afinal, eles eram a "classe operária", teriam que trabalhar, sem o risco de tão refinada arte.

Os teóricos da Escola de Frankfurt, especialmente Theodor Adorno, utilizam essa passagem do mito homérico para apontarem o momento em que a arte se separa entre arte de elite, que de tão refinada torna-se perigosa (e por isso, a amarração ao mastro é uma metáfora de contenção de todo o perigo), e a arte dedicada ao povo, ou melhor, negada a ele, posto que lhe restou apenas ceras nos ouvidos e trabalho.

Existe um consenso entre muitas pessoas de que existe uma coisa chamada "gosto do povo", não sendo este chegado a refinamento. Seria um gosto mais afeito ao grotesco e ao pitoresco, e por isso o povo estaria incapacitado de acessar e entender certas linguagens mais elaboradas. Tal pressuposição tem sido utilizada como fundamento oficial, à qual recorrem políticos e empresários da mídia, principalmente, para amparar a condenação do povo às mesmas redundâncias, cuja pobreza de variedade é tão drástica que são as próprias coisas que se oferecem ao povo, nesses termos, que se convertem nas "cêras no ouvido do povo".

Por mim prefiro acreditar na capacidade de o povo escapar a essa redução criminosa! Igulamente criminosos são todos aqueles que operam essa redução, com ares de democratismo, quando por trás disso, o povo é convertido em massa, em homogeneidade burra, exposta a todo tipo de exploração comercial ou eleitoreira. Entre os primeiros criminosos estão os políticos e os donos de empresas de comunicação! A estes, quanto mais cêras nos ouvidos (ceras que eles oferecem disfarçadas em música idiota, por exemplo), mais aptos a manobras e à existência meramente laboral. Isso é o paraíso dos canalhas!

Talvez tenhamos que problematizar mais e melhor isso!

Josemar Martins (Pinzoh)

domingo, 20 de dezembro de 2009

Eu, um acadêmico filho da puta!

Acordei me sentido um criminoso! Crápula! Filho de todas as putas. Tudo isso porque sou, como se diz nas horas de embriaguês, com ar de ressentimento, um Acadêmico! Em certas horas da noite isso é mais que um xingamento! Pior se é dito sem que a gente perscrute o que realmente diz o missivista. No geral não dizem nada! É só um insulto misto de frustração e escárnio.

Sensação esquisita, porque eu, que nasci de pais semi-analfabetos, numa casa de taipa, lá nos sertões do São Bento, que estudei com professora leiga, em escolhinha rural, que saí lá das brenhas para estudar na cidade, e fui menino matuto na rua, falava tapando a boca, e era pequeno, pobre, sarará e feio, inventei de não ser só isso! Crime sem perdão! E mais, inventei de fazer teatro, poesia, sem rima que é mais difícil, e fazer concurso e dar aula em universidade e fazer mestrado e doutorado e misturar tudo isso com incursões freqüentes aos guetos, onde se encontram os mais paradoxais lotes de boêmios e drogados e artistas e fanfarrões e bufões... Uns são maravilhosos, manejam bem a palavra e riem conosco. Prefiro esses! Outros querem apenas forçar a presença redundantemente à força, se impor pelos quilos de verbo que fazem desabar por entre os dentes... Acham-se lindos demais pra dividir o ar conosco. Nem se mandam nem se mancam!

Há os que começam dizendo “você é do caralho” e terminam dando conselho sobre como “deixar de ser um merda”. Outros nem isso, o mínimo que dizem é "filho da puta", logo no aperto de mão. Descobri que a causa disso é a palavra Academia – com “A” maiúsculo pra fazer justiça aos revoltados. Ela parece ser mágica, tem a força de palavra tantalizada, que ao mesmo tempo oferece e nega, acrescenta e subtrai. Nossa associação a ela nos torna uma espécie de maldito, portador de alguma espécie de vírus. Nunca entendi isso direito!

Há quem cobre um sotaque de raiz e quem lhe ralhe, acaso haja ainda algum resquício disso. Há quem cobre um chapéu de vaqueiro e quem faça proselitismo com as associações “culturais” que deduzem. Mas o pior mesmo é quando nos chega um com álcool até os tímpanos – aliás, álcool e tímpano têm uma relação curiosa – e nos buzina um monte de palavras soltas no ouvido só para azucrinar; mistura alhos com outros bagulhos, moderno com rolo de fumo e toma o tempo que você poderia dedicar a olhar as pernas da moça que está à sua frente, tão bela como nunca, caso sua visão não tivesse sido abruptamente tomada pelo brother, que quer lhe convencer que ele está a anos luz à sua frente. Não, caralho! Você não está a anos luz não; está na minha frente, tapando a visão. Dá licença!

Venho desconfiando, há algum tempo, de que existe algo mal resolvido na relação desses malditos com a Academia. Só espero que a porra desse problema não seja debitado da minha conta! Aliás, estou me acostumando a não tolerar embromação e blefe, desses que ficam disfarçados no amontoado de palavras pronunciadas, como se você fosse demente e não sacasse a jogada! Nesses momentos, a melhor coisa é dobrar o jogo jogado pelo arrivista contra ele próprio. Ou você lança mão da arma dos fracos – a ironia, positivamente – e sai emendando elogios e bajulações e uma safra de palavras estranhas, que você provavelmente passou horas selecionando do dicionário, engatadas umas nas outras, para deixar o outro aturdido, ou você diz logo de uma vez “vai tomar no olho do seu cú”.

É tudo um teatro de vaidades. Melhor mesmo é que não fosse nada disso!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

POR UMA POLÍTICA DA POESIA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
(texto elaborado para o programa Multicultura, da Radio Tropical SAT, Juazeiro/BA, do dia 18/12/2009)


Sempre houve quem se perguntasse para que serve a poesia, sobre sua utilidade, sobre sua pragmática. Esses são os que estão acostumados a mensurar tudo de cabo a rabo, sem espaços para supostas inutilidades que não gerem lucro, por exemplo. São os homens de negócio, que trocariam todas as praças, parques e suas árvores por algum empreendimento lucrativo; que loteariam a floresta amazônica entre campos de soja, pastos de bois e caixas de banco.

Para esses à linguagem bastaria denotar, definir, precisar. Ao resto dizem simplesmente: “não me venha com poesias”. Mas a poesia é pura metalinguagem, traição da linguagem, para abrir passagens a outros universos de sentido, aos quais não se pode acessar em linha reta. Por isso ela prefere conotar, abrir desvios na lógica hermética! Perguntar para que serve a poesia é a mesma coisa que perguntar por que enfeitamos o prato de salada, se ele será devorado em seguida, pela gula que o espreita.

Para que serve então uma frase assim: “... e aquela num tom de azul quase inexistente azul que não há; azul que é pura memória de algum lugar”, senão para dar acesso a alguma coisa que de outro modo não nos seria acessível?

A poesia serve exatamente para isso: para nutrir os estados da alma de toda a inutilidade de que a alma carece! É aí onde a poesia nutre uma ecologia inteira de sensibilidades. Eis a utilidade da poesia!

E o que dizer da poesia no corpo das cidades? As cidades são esses acontecimentos movediços, que crescem para cima e para baixo, e se estendem no tempo e no espaço, com seus fluxos de coisas, percepção e afeto. Como as cidades tendem a separar tudo entre o útil e o inútil, elas estão ficando pobres em poesia. Sua gramática é a do lucro e de sua contraface: o lixo.

Então a poesia, espremida entre o lucro e o lixo, vira mera negatricidade inexorável ao existir humano – quando, ao contrário, é de uma política da poesia que carecemos, para nutrir novas ecologias de sensibilidade e desejo.

Então o meu grito de hoje é esse: por uma política da poesia nas cidades!

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Ecologia de Idéias

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

Boa tarde a todos os amigos, ouvintes e colaboradores do Multicultura.

O papo hoje é sobre ecologia. Mas não é sobre aquilo que convencionalmente entendemos pelo termo ecologia, restrito à relação dos ecossistemas naturais e aos seus os respectivos equilíbrios e desequilíbrios. Quero sugerir que hoje a palavra ecologia pode ser utilizada para falar de ecossistemas e ecologias de idéias: das boas idéias ou das idéias daninhas e danosas. Isso define aquilo que poderíamos chamar “ambiente de inovação”, que é mais uma espécie de “ambiente de inoculação”, propício ao surgimento de determinados tipos de idéias e modos de pensar.

É evidente que novas idéias podem surgir em qualquer lugar, dada a diversidade dos fluxos de comunicação, que colocam em relacionamento idéias muito variadas e aparentemente distantes entre si.

Mas deveríamos fortalecer o entendimento de que, quanto mais um ambiente é arejado de idéias novas, mais ele se torna propício ao surgimento de outras idéias novas e inovadoras. Há na vida social, uma espécie de “espírito do tempo” e até uma espécie de “espírito de lugar”, constituídos pelos tipos de idéias que perfazem a vida social.

As idéias são tão importantes que todas as ditaduras, começam por persegui-las e controlá-las.

Numa cidade como Juazeiro também existem ecologias de idéias, alimentadas por todo tipo de redundâncias distribuídas pelos fluxos de comunicação. E há também, dada a qualidade desses fluxos, até uma inanição das idéias, formas de iniqüidade das idéias.

É preciso então oxigenar essas ecologias, pois é urgente enfrentar a ignorância através de uma luta não ignorante, ampliando o “ambiente de inovação” das idéias, o que requer que a cidade tenha mais espaços para debates, para experimentações, para intercâmbios despidos da lógica tacanha do lucro imediato.

Comecemos por aí!

Eu sou Josemar Martins, Pinzoh, e volto na semana que vem. Boa tarde!

(Participação no Programa Multicultura de 11/12/2009, na Radio Tropical SAT, Juazeiro/BA)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O Riso do Rio

ria, meu rio, ria!
com a boca escancarada
lentidão de língua de água
lambendo as beiras das margens
anáguas de lavadeiras
bucho de paquete lento
pecados de toda sorte

ria, que eu também rio!
dessa gargalhada sua
que nua ainda escorrega
entre as margens espremidas
e se ouve à madrugada
quando todos os que uivam
conseguem compartilhá-la

ria, meu rio, ria!
ilumine os desvarios
e até nine nossa insônia
como uma larga ironia
da crueldade do dia
que lhe empazina de fezes
que lhe mata umas mil vezes
depois nos rede poesia

ria, meu rio, ria!
um riso puro sarcasmo
orgasmo dos masoquistas
pois que tua clara pista
onde deslizo delírios
lá por baixo é puro choro
e se eu rio, meu rio,
é da nossa covardia
é do nosso desaforo

não é rima que eu busco
rima não rima com isso
ria, meu rio, ria!!
ironize do sacrifício.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

PAIXÃO

Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Sem eira nem beira
Sem rima nem métrica
E sem sacrifícios

Uma página aberta,
Janela indiscreta
Quiçá fossem pernas!

Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Uma história inteira
Pode estar aí
Esperando as letras
Lápis zero sete
Ou esferográfica
No papiro velho
Que materialize
Este vir a ser

Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Procuro, não acho
Fico cabisbaixo
Distraio o sentido
Virando na cama
Vou compondo cenas
Entre suas pernas
Só imaginárias

Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Na borda da boca
Nos cílios, nos olhos
Na pele morena
Na curva da nádega
No pico dos seios
Na dobra do braço
Ou nos vales úmidos

Às vezes assim
Nem me reconheço
Quando perco o rumo
Quando perco o sono
Quando caio em mim
Já é madruga
E eu não fiz nada
Além de vagar
Com o fio da idéia
Rabiscando formas
Em sua lembrança

Pode ser que sim
Pode ser que não
– E eu me rendo à rima:
Essa coisa besta
Dizem que é paixão

(Pinzoh)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

gato preto

ontem sonhei com você
estava com um vestido bonito, florido e rosado
algumas vezes estava solícita, carinhosa
me beijou a face demoradamente
depois abaixou para acariciar um gatinho
e quase que o vento lhe deixa de bunda de fora

num instante essa porra de gatinho ganhou o sonho todo
tudo virou uma diversão chata, com um gato preto
que alguém inventou que faria alguma coisa extraordinária
atrás de uma grande grade de ferro...
e nós ficamos por horas, numa casa não sei de quem
em silenciosa expectativa, olhando o gato pela grade

até as imagens se misturarem, os gatos se multiplicarem
as pessoas se tornarem desconhecidas
o portão de ferro que era cá, já era lá
e a casa virou clube e a brincadeira virou fila de caixa
para pagar conta de cerveja que não consumi
e eu não sei que fim levou você nesse sonho

não sei porque os sonhos são tão assim, sem pé nem cabeça.
porque, ao invés do gato, o sonho não perseguiu a sua mansidão de moça?
ou o seu vestido florido, que o vento insistia em levantar?

eu não entendo essa estupidez dos sonhos
que se deixam atravessar por gatos pretos

quanto a você, nem em sonho, meu Deus?

domingo, 29 de novembro de 2009

a céu aberto

um dia a gente encheu a cara,
chapou, bebeu, fumou e foi pescar poesia.

a noite se afundava muito para cima
e era lá que a gente jogava isca de rima
e risco de língua no corpo...

de vez em quando uma faisca de frase arranhava o céu
e um sussurro qualquer quebrava o silêncio dos pelos

a gente se impressionava muito com isso
com essa fundura do céu boiando por cima de nós
e nos mirando impiedosamente de cima
com seus bilhões de olhos arregalados

algum verbo supapava o fio do papo em forma de verso
reverberava nas profundezas do cosmo
mas era difícil estancar o fluxo do pensamento
para dar forma a alguma frase solta
sobretudo porque o papo era outro: era tátil

acima de tudo, o céu nos sugava
e nos estasiava em seu chiado mudo
a gente apenas enganchava mais um corpo no outro
para não despencar nesse abismo iluminado acima de nós

(Pinzoh)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

EU SÓ PEÇO A DEUS

Como nossa "sociedade da informação" é traiçoeira, procurei saber quem era o autor ou a autora da música "Eu Só Peço a Deus", que foi, em algum momento, gravada por Beth Carvalho & Mercedes Sosa. A internet isiste em me informar que a música é de Beth Carvalho. De longe eu sei que não é: contesto. Procuro um pouco mais e encontro nome de Léon Gieco, e depois o nome deste associado ao de Raul Elwanger. Aposto que estou chegando perto. Mas já sei que só vou saber ao certo quando outras fontes, além da internet, eu acessar. Por enquanto segue a letra da música e um vídeo já repetitivo na internet, que não dá nem os créditos de si, nem dos autores da música e de quem a canta. É um exemplo!
EU SÓ PEÇO A DEUS

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o q’eu queria

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria

Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucada brutalmente

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda fome e inocência dessa gente

Eu só peço a Deus
Que a mentira não me seja indiferente
Se um só traidor tem mais poder que um povo
Que este povo não esqueça facilmente

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Sem ter que fugir desenganando
Pra viver uma cultura diferente

Tempos!

Um dia antes da morte de Mercedes Sosa um amigo, que é também dono de rádio, me falou preocupado que há uma coisa estranha: a geração de agora não conhece artistas como Milton Nascimento, como se tivesse havido um vácuo de comunicação entre esta geração e a anterior. Mais por impulso do que por falta de educação respondi na bucha que isso era também culpa dele e dos outros donos de rádio, que se acostumaram a ganhar dinheiro oferecendo porcaria à população. Não chegamos a dar continuidade a essa conversa.

Um dia depois, morreu Mercedes Sosa, no dimingo, dia 4 de outubro, aos 74 anos. Fiquei sabendo apenas na segunda, no Jornal Hoje. Pensei, imediatamente: “e quem é Mercedes Sosa para a maior parte das pessoas que neste momento estão em frente à televisão?”. Ora, pouco importa! Os sonhos que tínhamos, quando a ouvíamos e dela gostávamos muito, viraram bosta. Agora andamos em bando em busca de outras coisas que nem sabemos o que é! A maioria de nós anda por aí, repetindo que hoje o que conta é ganhar dinheiro, nem que seja vendendo droga (droga ruim, do tipo que as FMs vendem), e que a questão é “se jogar na vida e vivê-la”. Parece bom!

O mundo é outro! Novo! Livre! Alguns dirão que é a sociedade do conhecimento. Eu acredito por um breve instante e por um breve instante espero que os meninos vão entar na internet e destrinchar o que está por trás do nome da artista morta. Mas, que nada, eles estão ocpudados demais no MSN, no orkut, no youtube, revendo mil vezes as cenas do Pânico na TV ou do Se liga Bocão. Os outros estão em frente à TV vendo futilidades, tipo “todo enfiado”, para que a vida seja sempre leve! Alguns outros estão sintonizados nas FMs, ouvindo a série de besteiróis do momento, que se repetem em todas elas como se fosse uma espécie de transe!

Se jogue meu rapaz, que a vida é esta! E não reclame do peso dessa leveza!
Ainda bem que há outros, outras, inventando saídas, distâncias de singularização, criando redes a partir de outras subtâncias, artísticas, estéticas ou tóxicas, algo que rompa com a tirania do MAIS DO MESMO dos meios de comunicação, cujo efeito psicoativo é mais radical!

sábado, 12 de setembro de 2009

SUSPENSO

(SEGUE O TEXTO ABAIXO, QUEM QUISER PODE PONTUÁ-LO, CORRIGI-LO, POIS EU FI-LO PORQUE QUI-LO)

***********************************

não é grande

mas essa atriz tem uma voz massa

agora sou só ouço o som

e um veludo comprido

no verso

perdi o passo

meu passo

pode até perder um ésse

que eu sigo aceso

não cesso

diz a língua que esse S não existe

êsse ésse

não é grande

o meu conhecimento disso

tenho pra mim que o erasmo

tá melhor que o roberto

berra um cabrito

e nesse horário eu já não presto

amanhã talvez penso nisso

********************************

(OBRIGADO A QUEM FÊ-LO)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

TUDO ENFIADO NA HIPOCRISIA


Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)

Consta que uma professora por nome Jaqueline Carvalho, que lecionava no Colégio Objetivo em Salvador, para crianças de 5 a 7 anos, foi demitida da escola porque, num show de uma banda chamada “O Troco”, ela subiu no palco e dançou uma música chamada “Todo Enfiado”. Ali por perto estavam vários malas, praticantes indiscretos do voyeurismo, equipados com celulares com capacidade de filmagem. Gravações em vídeo em baixa resolução (aliás, a baixa resolução é perfeitamente coerente com o contexto em questão) foram parar no Youtube, pois o atual voyeurismo tecnológico sempre resulta nisso. Os vídeos “bombaram” e a professora teve que se explicar na escola e acabou sendo demitida e tendo que se mudar do apartamento onde morava com a filha.

O contexto é o seguinte: a banda é apenas uma entre milhares que, na falta de capacidade lingüística e espaço social para explorar outros universos de sentido, atua na linha abaixo da cintura. As letras das músicas, a exemplo da música em questão, são as pérolas da Novíssima Música Popular Brasileira – considerando que esse tipo de estética musical não se resume à Bahia – e exploram expressões de escatologia e escracho que são muito bem aproveitadas pela indústria do entretenimento no Brasil inteiro. Com este tipo de material, muitos canais de TV, muitas rádios AM e FM, principalmente, fazem a sua audiência, e amparando esse negócio, que tem a audiência como critério principal, muitos empresários corroboram com esta realidade ao escolherem justamente tais formatos estéticos para veicularem suas propagandas e sua publicidade institucional. Que merda!

Antes de qualquer coisa, uma constatação: quase todo mundo está interessado nesse negócio, ganha dinheiro com isso, inclusive ampara tais escolhas estéticas e econômicas com justificativas do tipo “liberdade individual”, “liberdade de expressão”, “gosto popular”, etc. Claro que não sabemos mais o que significam tais coisas, mas isso não deixa de operar justificativas para todo tipo de atividade espúria, no entanto, em geral não questionável, pois nem sabemos mais por onde começar um questionamento disso.

Tenho acompanhado a repercussão, a professora tem participado de alguns programas de qualidade similar ao episódio, já alcançou seus 15 minutos de fama, dizem que está recebendo propostas para entrar em uma banda, como dançarina, e outros especulam se a Playboy estaria interessada nela, para pousar pelada. Eu por mim acho que ela não tem calibre para tanto. Mas não duvido que ela chegue a ser apresentadora de programa infantil na televisão, pois parece ser assim que a coisa tem funcionado, no ritmo do “tudo enfiado na hipocrisia”. Mas nossos argumentos é que são péssimos! No final das contas, apenas a professora é que é julgada. Uns a perdoam, outros a execram. Isso tudo não sai do senso comum mais rasteiro. Em geral os argumentos esbarram em três formas básicas:

a) A primeira forma é do argumento de puro relativismo niilista, que não é “nem contra nem a favor, muito pelo contrário, quanto mais principalmente, tanto neste caso quanto noutros, se bem que cada caso é um caso” – forma esta que não é senão uma forma charlatã, proselitista e dissimulada de não dizer nada, exatamente porque não sabe e não tem o que dizer;

b) A segunda forma é a do argumento acadêmico, hoje muito próximo da primeira forma, pois também os intelectuais se demitiram da função de oferecer alguma possibilidade de interpretação do mundo que se destaque pelo menos um pouquinho da média atingida pelo senso comum – a maior parte dos intelectuais hoje se contenta com um “quem sou eu para julgar seu ninguém” ou com um “isso é representativo das formas autônomas do povo viver e se divertir”, como se já não houvesse uma vampirização dessas “formas autônomas” do povo viver e gozar;

c) A terceira e última forma é a do argumento moral, transversal a todas as outras formas, que acha que algumas categorias de pessoas não podem viver como as demais, nesse caso, uma professora, apenas ela, não pode sair por aí mostrando a bunda, quando todo mundo mostra e convoca a mostrar; como se os “aluninhos” da professora já não estivessem infestados por esses conteúdos, que estão na rua, nos porta-malas dos carros, nos bares, na praça, nas festas de largo, na TV, nas rádios e em todos os lugares, muitas vezes sustentados com dinheiro público destinado à cultura. Por que é a professora que tem que pagar o pato sozinha? Por que apenas é dos professores que se cobra a responsabilidade de dar bons exemplos e formar valores?

No geral o que há é uma confusão entre o universo das escolhas individuais, relativa à esfera privada, e a esfera pública. A professora até pode ser perdoada porque estava alcoolizada. Ou seja, ela tem direito de ficar doidona e fazer a extravagância que quiser. Claro que se, ao invés de álcool ela tivesse fumado unzinho, tava mais ferrada ainda! Mas no geral o bafafá não passa desse limite! A própria nocividade da exposição do ato da professora, feita pelos malas-paparazzi e seus celulares e pela própria banda (é a mão do vocalista que arregaça a intimidade da moça), esse big-brother, essa especulação da intimidade movida a enorme falta de ética, não entram na questão.

Vendo os depoimentos da professora concluo que, como professora, ela é fraca! Quer se vingar dos vizinhos “voltando por cima”, depois que virar dançarina de pagode-putaria. Ela sequer percebe que a parte mais frágil nessa história toda é ela própria; que tem muita gente ganhando dinheiro com o episódio que ela protagonizou – os próprios programas de TV e de rádio que fizeram audiência com o ela, e a própria banda que, em decorrência isso, pôde sair do ostracismo. Só ela perdeu até agora, e é apenas dela que se cobra decência. Tudo o mais pode ser indecente! Se ela não é capaz nem perceber isso, se não é capaz de julgar os efeitos de seu ato e ver o nível de hipocrisia que ela fez aparecer, ela é uma coitada, não merece piedade nem ser professora.

Eu prefiro ficar com a oportunidade de afirmar que tal episódio só fez aparecer o nosso atual nível de hipocrisia. Todos os dias, em algum lugar, coisas parecidas acontecem até em praça pública, com a presença majoritária de crianças e com recursos públicos. Vimos isso quando filmamos “O Estado da Arte da Fuleragem”. A cidade de Salvador então, está repleta dessas jóias. Coisas como “Cadeira Erótica”, “Surubão” e outras piores animam festivais de exibição e simulação erótica em vários lugares todos os dias. Por isso não condeno a professora isoladamente, embora ache que qualquer pessoa com um pouco de noção da própria hipocrisia social, não faria o que ela fez. Mas a coitada é mais vítima do que vilã. Nem se deu conta de que, como professora, ela herda uma carga de responsabilidades que eu mesmo já nem quero para mim; mas é como pessoa mesmo que ela deveria ser mais cuidadosa. Por outro lado, o mais importante é isto: se é preciso educar bem as crianças, que estejam também interessados nisso a mídia como um todo, os empresários (que vendem entretenimento como se fosse droga), e todos os que apóiam e lucram com isso. Não pensem que é a cena da professora que vai "danificar" as criancinhas. Esse mesmo conteúdo que pode "danificá-las", está aí, em todos os espaços sociais, convocando todos a se jogarem. E quem liga? É isso que deveria entrar na discussão!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

DO CORREIO CAROS AMIGOS

Peço permissão à Revista Caros Amigos e ao Correio Caros Amigos para replicar aqui, o escrito abaixo, que recebi por e-mail e que vem datado de 10 de junho de 2009. Na verdade é apenas a minha contribuição no oferecimento de outra posição e de outra visão das coisas, que não seja aquela emanada das grandes corporações da mídia nacional e nem da ANJ. Aliás, a justificativa do meu interesse por isso pode ser acrescida da informação de que eu não sou jornalista; sou educador.
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Nova descoberta da Petrobrás abala mídia grande


A criação do blog da Petrobrás merece atenção não apenas por levar a público informações relevantes sobre a maior empresa do Brasil – isto já era feito por sua página na Rede. O grande diferencial do blog está em sua postura firme e decidida na divulgação de sua versão dos fatos e, o que é mais importante: a crítica contundente – e elegante – do posicionamento editorial das corporações de mídia




Foi assim com a Folha de S. Paulo, que afirmou em sua edição do dia 6 de junho que a Petrobrás possui 1.150 jornalistas em sua equipe de comunicação, mas não publicou o desmentido enviado pela empresa. No dia seguinte o blog denunciava a omissão. O mesmo foi feito com matérias publicadas pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Em postagem no dia 5 de junho, o blog da Petrobrás registra, na íntegra, todas as perguntas enviadas por esses três jornais, bem como as respostas encaminhadas pela empresa. E sempre fazendo questão de dizer que apóia a liberdade de imprensa e de ampla circulação das informações.

Com menos de uma semana de vida, o blog foi alvo de violenta crítica de O Globo. Matéria publicada em edição dominical (7 de junho) acusa a empresa de “vazar informações”: “Empresa quebra confidencialidade de perguntas enviadas à assessoria de imprensa pelos veículos de comunicação”, diz o subtítulo. O texto começa afirmando que a Petrobrás é “alvo de suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos”.

A onda raivosa contra a Petrobrás chegou ao ápice neste dia 8 de junho com a divulgação de nota da Associação Nacional de Jornais (ANJ), espécie de confraria das virgens imaculadas da imprensa. A cara de pau é tanta que o senhor Júlio César Mesquita, que assina a nota, afirma que o blog encampa uma “prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa” e que se trata de uma “política de comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao democrático escrutínio de seus atos”. Como, santo Deus, se o blog publica tudo na íntegra – diferentemente das corporações de mídia?

Na verdade, a nota da ANJ é bastante esclarecedora. Se lida ao contrário. Para tanto, basta lembrarmos que atores patrocinaram um golpe de Estado no Brasil, em 1964, em nome da democracia e da liberdade de imprensa. E para que não restem dúvidas vamos consultar a história recente do país e relacionar os setores que sempre lucraram ao manter a opinião pública debaixo de rígida tutela, sobretudo numa época em que não existia a internet – cujas possibilidades põem em marcha uma verdadeira revolução nos meios de comunicação no mundo inteiro. Por fim, vamos notar que esses grupos são os mesmos. E são também os mesmos que juravam de pé junto que no Brasil não existia petróleo...
O argumento político das suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos – todos levantados pela direita entreguista, vale destacar – não se sustenta, posto que acusações semelhantes são simplesmente ignoradas pelos mesmos veículos de comunicação. Exemplo: a denúncia feita pelo deputado federal Ivan Valente ao Núcleo Piratininga de Comunicação de contratos suspeitos firmados entre a editora Abril e o governo do Estado de São Paulo, controlado pelo PSDB. Segundo o parlamentar, nada menos que 10 milhões de reais foram destinados à empresa, sem licitação, só no segundo semestre de 2008.O fato é que o monopólio dos meios de comunicação de massa no Brasil acostumou-se a descrever o país segundo sua própria concepção de mundo. Como não havia voz discordante, esse sistema sempre esteve à vontade para mentir, distorcer, manipular e omitir informações, sem jamais encontrar uma força política proporcional que lhe opusesse resistência.

Esse momento talvez tenha chegado. Agora, a maior empresa brasileira – e a maior do mundo em tecnologia de prospecção de petróleo em águas profundas – criou uma ferramenta capaz de fazer frente à máquina de propaganda neoliberal. Em menos de uma semana o blog da Petrobrás alcançou nada menos que 100.000 visitas, uma repercussão capaz de desestruturar o esquema dos veículos que manipulam as informações para prejudicar a empresa. Se milhares de pessoas passam a ter acesso aos argumentos da Petrobrás diretamente da fonte, e os comparam com o que foi publicado pela imprensa, então esta imprensa é quem será julgada pelos leitores. A nova descoberta da Petrobrás abalou a tática da mídia grande, que consiste em dizer sem permitir o contraponto.
O acesso a diferentes fontes com o advento da internet, aliás, pode ajudar a explicar o recente relatório divulgado pelo Instituto Verificador de Circulação, que aponta declínio na tiragem dos jornais de maior circulação no Brasil. Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Dia estão entre os que mais perderam circulação, sobretudo neste primeiro trimestre de 2009. Não vendem, nem influenciam tanto quanto antigamente. O Globo, só na última década, perdeu mais de 20% da circulação. Por outro lado, a tiragem dos jornais populares e democráticos vem subindo, como evidencia o próprio blog da Petrobrás e outras tantas iniciativas.
Por fim, é preciso ressaltar que se a maior empresa do Brasil vem mudando a partir da nova gestão – mais contratações em concursos públicos, novos investimentos no país e aumento no lucro líquido – ainda existem problemas que prejudicam substancialmente o desenvolvimento do país, sendo a manutenção da quebra do monopólio estatal do petróleo o mais grave deles. E num momento em que os contratos da empresa são questionados, dou minha contribuição: por que não investir na criação e consolidação dos jornais, revistas e blogs que, faz tempo, têm mostrado que praticar Jornalismo ainda é possível? Uma imprensa que mereça este nome é o pilar que resta ser erguido para a constituição da democracia no Brasil.




[Marcelo Salles, jornalista, é coordenador da Caros Amigos no Rio de Janeiro, editor do jornal Fazendo Media e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.]
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

CRÔNICAS DA (IN)SUSTENTABILIDADE

Participei, entre os dias 26 e 29 de maio, em Campina Grande, PB, do "II Simpósio sobre Mudanças Climáticas e Desertificação no Semiárido Brasileiro". Eu fora convidado para uma mesa sobre tecnologias para difusão de informações na rede de ensino. Bom foi ter interagido com outras falas e com a discussão em geral. Saí de lá convencido de uma coisa: nós pensamos mal a questão "sustentabilidade" e pensamos mal o papel que a educação joga nisso tudo. Mas há esperanças!
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Ponto 1.
Por princípio, educar alguém não resolve nada do ponto de vista da sustentabilidade, não produz, a priori, nenhum tipo de reorientação da nossa relação com os meios e recursos naturais. A degradação ambiental é produzida por ações que derivam da sociedade altamente escolarizada. Neste caso, a educação, a ciência e a tecnologia, antes de serem solução, são parte do problema. Temos que acabar com a visão de que são os pobres e desescolarizados que degradam o meio ambiente. Quem degrada é a sociedade altamente tecnificada, industrializada e consumista.
Um Dr. de São Paulo, do INPE, disse que primeiro houve a SOCIEDADE EXTRATIVISTA, depois a SOCIEDADE DE TRANSFORMAÇÃO (a industrial) e agora a SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO. Quis fazer entender que a sociedade que mais causou dispêndio na natureza foi a primeira. As outras não! Principalmente a última. Disse isso com pose de quem está dando a mais fantástica das notícias! Como se na sociedade da informação, silício, petróleo e energia, não fossem derivados de modos profundos de extração. Um extrativisto levado às últimas consequências. Como se computador não ajudasse a exaurir o que a terra pode oferecer.
Disse o Doutor que um bastão de papel é menos degradante do que um bastão feito de galho de árvore. Nem pensou em quantas árvores têm que tombar para produzir um bastão de papel. Disse que a diferença é que o bastão de papel gera atividade remunerada e isso permite produzir inclusão. Esqueceu-se que nós conhecemos a história do capitalismo, que é a história da remuneração, e isso não produziu inclusão, muito pelo contrário...
Disse que a solução do mundo é educação integral... fez com que essa pronúncia fosse feita de boca cheia, de modo que a sonoridade ressoasse no auditório!
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Ponto 2.
Meu raciocínio é simples: quanto mais a gente refrigera, mais esquenta! O esquentamento é fruto do aumento da pressão antrópica, do aumento cada vez mais acelerado das atividades de produção, consumo e descarte. Aí esquenta. Quem pode, compra refrigerador. Quanto mais refrigeradores ligados, mais o planeta esquenta. Simples! E espero que os cientistas me desmintam. Principalmente os do INPE! Os economistas e o pensamento medíocre dizem que o Brasil tem que crescer a 6% ao ano, pelo menos. Isso resolve o problema da economia nacional e ajuda a resolvê-la em termos globais; isso cria oportunidades individuais (principalmente se as pessoas estiverem escolarizadas, com formação acadêmica sofisticada e especializada), MAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA AMBIENTAL. Pelo contrário, aumenta-o! O aumento da produção e do consumo, aumenta a pressão sobre a natureza! Não há outra fórmula! Se há, nós não a conhecemos! Nós não estamos discutindo a produção de outra experiência civilizatória, baseada na diminuição da produção e do consumo. Isso implicaria em rever muitos dos nossos discursos e re-orientar a nossa vida coletiva. Mas não estamos fazendo isso! Estamos dizendo: "consumam, para nos tirar da crise!". Sequer estamos discutindo a redistribuição das riquezas já produzidas e acumuladas e o problema da desigualdade. Estamos, ao contrário, discutindo como aumentar a produção e o acúmulo em poucas mãos de mais riqueza. Apenas isso! Essa direção não serve para a questão da mudança climática e do esquentamento...
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Ponto 3.
E a questão da Educação? A Educação deve salvar o mundo. Todo mundo deve ganhar dinheiro e gastar, comprar e sujar à vontade, mas a educação deve salvar o mundo. Os professores estão depressivos, doentes, aviltados de todas as formas, fudidos e mal pagos, mas eles devem salvar o mundo. Nenhum doutor, tipo do INPE, aconselha seu filho ou filha a irem para a docência (especialmente no setor mais fragilizado, a educação fundamental), pois há profissões mais nobres, sobretudo aquelas em que se pode granhar muito dineheiro quanto mais rápido melhor, e aumentar o poder de compra e consumo, bem no estilo que só faz degradar mais rápido o meio ambiente... mas a educação deve salvar o mundo! Isso, para mim que sou educador, é o fino da hipocrisia!
Eu sei que todo mundo quer ser bacana, que todo mundo tem o direito de ganhar dinheiro e gastá-lo como quiser. Eu sei que a escola ajuda a abrir essas possibilidades e todas as pessoas têm direito a esse direito. Eu sei que esta é nossa idéia básica de inclusão. Mas isso não resolve nada do ponto de vista da diminuição de nossa pressão sobre o meio ambiente! Não apenas a educação não vai salvar o mundo, como também ela sozinha não pode produzir outra experiência civilizatória, sem que a produção da vida ande noutra direção. Enquanto a escola trabalha valores, os outros meios esvaziam os valores e dizem apenas: "consumam, desejem, vivam o êxtase... e o resto que se exploda".
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Ponto 4.
Tudo bem! A Educação pode ajudar. Mas a educação não está apenas na escola - que tem virado uma ilha. A educação está também na TV, na rua, na praça pública, na festa. Mas esses espaços já foram transformados, por políticos e empresários medíocres, em poleiros de degradação e drogadição. Educação? Sim, eles educam, mas se educassem bem, não estaríamos requisitando a escola para que ela salve o mundo.
Quem quer saber de educação? Eu, que sou educador e não pretendo ser mártir, acho que ela pode fazer muito. Principalmente se os professores começarem a ser tratados com dignidade, principalmente se os espaços escolares forem re-investidos de dignidade, se neles houver espaços e tempos para outras linguagens... Principalmente se deixarmos de comprar livros bestas e caros dos cartéis da indústria do livro didático, basicamente situados em São Paulo. Principalemente se começarmos a ousar produzir novos discursos e novas práticas, sem esperar que sejamos autorizados pelos intectuais do primeiro mundo.
Principalemente se estes discursos vierem acompanhados de ações concretas que apoiem nossa capacidade criativa, para prduzir outros materiais didáticos: livros didáticos, literatura de apoio, filmes, vídeos, CDs, DVs, músicas, jogos... contextualizados segundo nossos dilemas, anseios e auto-imagem! Isso talvez até ajudasse a resolver nossa auto-imagem! Talvez, com isso, não salvássemos o mundo, mas pudéssemos re-orientar algumas práticas, a partir de conteúdos encorajados a tematizar o espectro de nossas relações e a nossa feição civilizatória.
Sem engessar a criatividade; mas também sem deixar essa criatividade escrava do liberalismo de nossa época! Aqui há de haver partilha de sentido e compromisso!
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Ponto 5.
Temos que mostrar que somos capazes disso! Sem a tutela dos Doutores do centro. No máximo, parcerias isonômicas. Nada de submissão! E quanto mais nos experimentarmos nisso, mais Capital Social se produzirá entre nós. Neste sentido, o mais importante é apostar na capacidade e na estética dos subalternos! Abrir-lhes oportunidades; apoiar os sabres e aperfeiçoar-lhes a formação técnica e valorativa, para que sinalizem de modo criativo outros universos de sentido!
É por aí que acho que o INSA cumpre um papel importantíssimo nisso, que ainda está em construção! Vamos construí-lo!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

EVANDRO TEIXEIRA E O JORNALISMO DE SUPERFÍCIE

Evandro Teixeira, um dos mais renomados fotojornalistas brasileiros esteve em Juazeiro. No Centro de Cultura João Gilberto, no dia 22 de maio, abriu a exposição de fotografias do Mural Galeria Euvaldo Macedo, com fotos do livro Canudos 100 anos. Ali o céu se move! Está em todos os lugares, e te olha, e dança por trás dos personagens!
Depois da abertura da exposição mostrou fotos de seu acervo e contou as histórias que as fotografias, por si só não contam. Talvez seja preciso lembrar que, especialmente no fotojornalismo, as fotos são registros que não devem contar tudo, e não contam. A maioria delas exige sempre que se explicite, por outras vias, a narrativa que lhe é inerente! Não se trata do deleite esttético da fotografia. Trata-se do que ela tem para contar. E esta narrativa não pode se desgrudar do próprio autor. O fotojornalismo trás essa marca do autor. Se alguma objetividade deve ser aí discutida, deve reconhecer que ela fala do sujeito também. De suas escolhas, de suas aventuras, do seu campo de guerra.
Parei nas fotos do enterro do poeta chileno Pablo Neruda. Evandro estava no Chile cobrindo os eventos do golpe militar liderado por Pinochet. Cobriu os massacres nas ruas e no Estádio Nacional. Registrou cenas da chacina! Fez fotos da janela da sede do governo, em cuja sala Salvador Allende tombou. E soube que Neruda estava muito mal. Foi ao hospital, encontrou apenas o corpo frio de Neruda sendo preparado para a urna funerária e para o enterro. Era o único fotográfo e decidiu a companhar tudo. A preparação, a transferencia do corpo para outro lugar, para escapar dos militares, o enterro... Quero considerar duas coisas aqui:
a) há fotos que, sem essa narrativa, se tornam fotos banais ou iguais a qualquer outra foto, como a foto de uma pessoa improvisando uma ponte para passar o riacho cheio. Seria uma foto qualquer, se sua narrativa não incluisse o fato de que aquela ponte estava sendo improvisada para permitir a passagem do corpo de Pablo Neruda. A foto é um testemunho a espera de outro, que a completa.
b) e se Evandro Teixeira, como fotojornalista, não soubesse quem era Pablo Neruda? Aqui a objetividade e a competência técnica do fotógrafo dependem de uma coisa chamada "repertório". Chamamos isso, ordinariamente, de "bagagem". Sem isso, ele não seria o único fotojornalista do mundo a ter feito tais fotos. E onde se ensina isso? Em que matéria "objetiva" e "prática" se ensina isso?
Todo jornalista jovem, quer chegar primeiro ao sucesso. Já quer estrear como âncora do Jornal Nacional. Na fotografia, já querem começar com uma premiação internacional. Esquecem dos percursos que todos os bons profisionais tiveram que trilhar, começando entregando cafezinho ou espanando o pó das prateleiras. Recebendo alguns nãos e persistindo! Assim se faz um bom profissional, em qualquer área. Com esforço, dedicação e menos nariz arrebitado!
O fetiche no jornalismo anda junto com o agravamento de sua sperficialidade. A objetividade do texto, o foco no espetacular, inibem a perspectiva mais plural dos contextos. Os grandes nomes não se fizeram em salas com ar condicionado! Mas, ao contrário, com trabalho árduo!
Trabalho árduo, aliás, foi o da comissão formada por Flávio Ciro e pelos seus alunos monitores e voluntários, com destaque para Cecílio e Silvana. Eles realizaram um dos mais importantes acontecimentos do jornalismo no Vale do São Francisco, que foi a vinda de Evandro Teixeira. Mas nem sequer a imprensa local, acotumada ao jornalismo de superfície, compareceu e cobriu o evento.
É uma pena!

A LOUCURA EM MOVIMENTO

Na manhã do último dia 19 de maio de 2009, no Auditório Clementino Coelho do Centro de Convenções de Petrolina, participei de um dos mais inisutados acontecimentos, entre os muitos para os quais sou chamado. "A LOUCURA EM MOVIMENTO" nomeou um evento comemorativo ao Dia Nacional de Luta Antimanicomial. Os debates da mesa para a qual fui convidado orientavam pelo mote "O que é loucura, afinal?".
Boa pergunta, pensei eu! E lá no autidório, todos tinham de louco, um pouco! Usuários dos CAPS, loucos varridos, alunos da UNIVASF, professores, médicos psiquiátricos, artistas, coordenadores de centros de apoio prsiquiátrico... A mesa, então, estava bem representada!

Antes da nossa mesa vi um vídeo de um usuário do CAPS em Minas Gerais, contando um música que dizia algo como: "alguma coisa está querendo sair de dentro de mim; será um caminhão carregado de cimento; ou será um sentimento...". Boa! A loucura é isso: alguma coisa querendo sair, crescendo dentro... Precisa sair!

Para mim que não sou da medidcina - e sei que há na medicina esta pretensão de ser o único campo em que se pode produzir o discurso legítimo sobre a loucura - acho que a discussão é boa! Acho ainda que a loucura é um tema múltidisciplinar. Aliás, a primeira coisa a considerar é o fator contextual da loucura. Basta que uma convenção ou uma conveniência qualquer seja ignorada para que se produza uma situação de loucura. O louco, neste caso (na política, nas relações sociais...) é aquele que coloca-se contra uma ordem estabelecida. Ou então é uma desordem fora do lugar - pois, certamente há um lugar onde se pode ser louco à vontade...
O louco, então, é o imprevisível, o portador da força indomável, uma temível materialidade. Por isso é preciso "educar", como primeiro ato de "cura". Foucault já temtizou quase à exaustão os viesses em que a loucura é epnas este dispêndio de desajuste a alguma regra estabelecida. Por isso é preciso mais que educar: é preciso reter, interditar, silenciar... Assim, fui eu o louco que com outros loucos pixamos a parede da Prefeitura, questionando o despotismo que ali reinava, na minha pequena cidade, tornada feudo. Assim fomos os loucos que saimos no carnaval de paletó, gravata e cueca; que recitamos em cima dos postes do calçadão, que ouvimos rock ("eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada..."), que pomos brincos nas orelhas, que tomamos banho pelados na ilha e usamos roupas um tanto fora de moda... Para nós estavam reservados os recursos da cadeia ou do manicômio, como procedimento normal.

É correto pensar que há, como no filme "As Loucuras do Rei Georege", uma situação de alteração orgânica, em que a pessoa já não controla duas próprias escolhas. Mas nem isso está ausente de motivações contextuais. A sociedade de agora, por exemplo, é uma formidável fábrica de ansiedades e depressões. Leiam a Caros Amigos, edição do mês de maio de 2009. Ali há uma entrevista com a psicanalista MARIA RITA KEHL, onde, falando de seu livro, analisa as conseqüências do ritmo frenético da vida contemporânea e aponta a depressão como sintoma social (leia trechos). Nunca vi uma geração tão facilmente depressiva! Nunca a palavra depressão se banalizou tanto. Em "O Vestígio e a Aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo", Jurandir Costa Freire analisa bem algumas situações, e entre elas, o hedonismo, o narcisismo, a doenças somáticas de todo tipo, as bulimias e aneroxias, e estultia, resultado das excitações cotidianas, das promessas não cumpridas, das autopunições em razão disso e da assunção da impotência e da autocomplacência. O resultado nunca é tranquilo! Como diz Gabriel, O Pensador, "Aquilo que o mundo me pede, não é o que o mundo me dá". Esta é a fábrica de loucura que não cessa! A felcidade tornou-se paradoxal, segundo estudos do francês Gilles Lipovetsky. O gozo sempre postergado, adiando, não cumprido - principalmente quando a promessa é sempre de um gozo excepcional e até extra-humano. Mas ele nunca vem! É sempre aquela normalidade pífia. Frustração que vira buraco sempre mais aprofundado, para ser enchido de tudo que é apetrecho material e sensorial: a vertigem do consumo, a aneomania, a velocidade, o êstase, a moda, o fetiche, a droga... Isso dá dinheiro! As indústria e sua publicidade não param de sacar desta conta e de aumentar o rombo! No fim das contas, são as pessoas que, sozinhas, têm que ser responsabilizadas pelo descontrole. São elas que pagam, em seus corpos, com seus corpos, essa conta. São elas as encarceradas, as interditadas, as mutiladas!

Mas a conversa versou sobre esperanças. Aquilo que quer sair, que precisa sair e como oportunizar a saída. Os monstros que devem ser exorcizados, não exigem tanto as drogas científicas destinadas a este fim, mas as oportunidades de desinterdição. É preciso destrancar o sujeito! A arte, as produções expressivas, o movimento, a dança, o riso, a minimização da solidão! Às vezes, isso é quase tudo o que uma pessoa precisa para voltar a si, recuperar o cuidado de si, tomar de volta o controle de suas escolhas.

Achei bacanas as conversas! Mas acho ainda que os governos deveriam criar mais oportunidades para as novas e velhas gerações, para acalentar nossas loucuras. As nossas cidades continuam feias, sujas, barulhentas e ivadidas por tudo que é porcaria. É preciso abrir outros destinos!