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sábado, 17 de setembro de 2011

taquim

eu queria era a poesia

esta que me escapa agora

que eu procuro no escuro

que eu cerco com tanto muro

e ela acaba indo embora

esta poesia mulher

como poema liberto

que só me vem quando quer

que justo o seu lado incerto

teima em me oferecer

e mesmo assim eu queria

esse qualquer de poesia


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Pré-pós-tudo-bossa-band

Todo mundo quer ser bacana

Álbuns, fotos, dicas pro fim de semana

Filmes, sebos, modas, cabelos

Cabeça-feita, receitas perfeitas

Descobertas geniais


Todo mundo acha que é novo

Tribos, gírias, grifes, adornos

Ritmos exóticos, viagens experimentais


Pré-pós-tudo-bossa-band

Mente que sempre muito bem

Pré-pós-tudo-bossa-band

Gosto que me enrosco em quem?

Pré-pós-tudo-bossa-band

Não sei, mas to dizendo amém


Todo mundo quer ser da hora

Tem nego sambando com o ego de fora

Caras, bocas, marcas estilos

O “ó” do bobó, o rei da cocada

A pedra fundamental


Todo mundo quer ser de novo o novo

O ovo de pé, o estouro

Ícones atlânticos

O dono da voz crucial


Pré-pós-tudo-bossa-band

Não vi, mas sinto que já vem

Pré-pós-tudo-bossa-band

Moderno, eu não te enxergo bem

Pré-pós-tudo-bossa-band

Tá cego, mas tá guiando alguém


(Lenine/Zélia Duncan, Do disco homônimo, Universal Music, 2005)


terça-feira, 26 de julho de 2011

ATINGINDO O NIRVANA

Sempre acho que sou um remanescente curioso da geração beat, da geração hippie, rock and roll, irmão de dor e de sonho desses loucos, cabeludos, tatuados, que gritam contra um peso de viver que nem sabem como explicar senão se jogando com tanta força na vida, em todas as viagens, que tão rápido a consomem, e passam rápido, cometas que vão embora sem sequer umazinha despedida. E tão curioso é este meu vínculo com tais gerações, que me arrepio quando os vejo em vídeos velhos, de um tempo que eu nem alcancei, e que me entristeço e até choro, quando outros remanescentes, contemporâneos meus, cedo também partem. Elis Regina, Cazuza, Cássia Eller, Renato Russo, Amy Winehouse...

Tenho a impressão que sou quase-irmão de Jimi Hendrix, de Jenis Joplin e de todos aqueles cabeludos de Woodstock. Sou menos parente de Jim Morrison e Kurt Cobain, porque nos embarramos menos, além das vezes em que eles vieram numa estampa de camisa de algum outro cabeludo. Ouvi bem menos The Doors e Nirvana. Aprendi cedo um outro mantra: “tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” (Walter Franco). Assumo o parentesco e a minha caretice em não querer gastar a vida tão rapidamente. E tão careta sou que nem sei se tomaria banho de lama em Woodstock, ou se compartilharia a heroína, o LSD. Só não morri drogado aos 27 porque precisava trabalhar. Alienado, eu! A minha caretice consiste nisto: em evitar que a mente se desgarre do corpo e o deixe por aí, jogado, caído em alguma calçada, enquanto o espírito flana na quarta dimensão.

Mas não condeno os que ousam isso. A cada um de nós, o ônus de nossos experimentos. Em alguns casos sei que o problema não são os experimentos: é o fato de que as pessoas não saberem o que procuram, ou talvez procurem um hiper-gozo, prometido sempre, mas jamais alcançado, a não ser na morte, o Nirvana. Sei que morreram tentando suportar a insustentável leveza do ser, buscando, talvez, o Corpo Sem Órgão, a Intensidade Zero. Eu os saúdo a todos, inclusive à Amy, por suas tentativas! E vou devagar, ao som das belezas que deixaram, nas vezes em que foram belos!

domingo, 24 de julho de 2011

LIQUIDAÇÃO DE INVERNO

Aceito a sugestão de Elisabet Goçalves Moreira, em sua "Poesia de Domingo" e posto aqui a sua sugestão de hoje: LIQUIDAÇÃO DE INVERNO de Carlos Drummond de Andrade.

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LIQUIDAÇÃO DE INVERNO


Carlos Drummond de Andrade


Olha o ajuntamento na calçada,
o bolo humano denso, silencioso,
a paralisia coletiva...
Que foi que aconteceu?
Crime, suicídio, bomba, um novo deus?
Calma, não te assustes.
Precisas acostumar-te com a cidade
e seus ritos pendulares.
Não viste nos jornais aquele grito
e nas vitrinas as vermelhas tiras
anunciando em voz e cifra
Liquidação
Liquidação?

Agora vejo que esse grupo
indecifrado logo se esclarece.
Homem nenhum, ou quase. Só mulheres,
pois só mulheres sabem quando é hora
de (formigas) comprar para guardar.

A porta está fechada? Mas no aquário
de lãs tricôs camurças couros
quatro consumidoras são servidas,
outras quatro, cá fora, esperam vez.
Esperar resignado
de quem sabe que tudo anda difícil
e até os ossos do festim ,
têm que ser disputados como pérolas.

Outras quatro mais quatro vão entrando
no longo dia lento, frio.
O casaco de acrílico de 1000
961 por 900
e 84, uma pechincha. A calça jeans
para menina, a camisola, a jardineira,
meu Deus, o casacão, o plush,
tudo ficou barato de repente
ou dá a ilusão de ser barato,
convida, chama, intima:
Me compra rapidinho, enquanto o inverno
faz que vai mas não vai, e está gelado
o corpo, o quarto, o amor e tudo mais.

Liquidação, palavra mágica,
seu fundo de negrume e seu clarão.
Liquida-se um império,
uma política, um chefe, uma doutrina,
e nas vazias prateleiras outras formas
se acumulam, aguardam
o tempo de murchar, o desapreço
do preço baixo, a remarcada
voga da estação, como se tudo
durasse um quarto de ano: juramentos,
códigos, angústias, braceletes,
sandálias, planos...
E dura, e dura mais?

...e seu clarão.
Liquidadas as modas sazonais,
restaura-se a esperança na vitrina.
O jogo do futuro nos cativa.
A primavera, juro, vai trazer
o inolvidável prêmio de existir.
Seremos todos jovens. Ninguém mais
se lançará da ponte, ou traficâncias
fará contra a sorte dos humildes.
Todos serão humildes, na alegria
de um tempo verdejante...

Calma, não sonhes tanto.
Liquidação é apenas
porta deixando passar
compradores de saldos.
Se queres o brinquedo
de jogar com palavras, preferível
esta, que te dou entre dois goles
de papo vespertino: liquidâmbar.
Gostaste? Seu olor resinoso
o nariz te penetra e reconforta
a poluída garganta? Esquece, esquece
as liquidações que não liquidam
a carga de injustiça e desamor
pairante sobre a vida,
seja inverno ou verão, outono ou primavera.

(Carlos Drummond de Andrade (31 de Outubro de 1902 — 17 de Agosto de 1987), in Amar se Aprende Amando, 22ª edição, Editora Record, 1999, pp. 166-168).

quinta-feira, 7 de julho de 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

cobras andam rente ao chão

ouvem pelas arcadas das presas

e são como tiras ocas

os peixes não.

vão contra a correnteza

mas morrem ainda pela boca

quarta-feira, 29 de junho de 2011

TRAÇANDO

A gente vai tentando!

Com calma!

Na palma, na lama...

A gente vai trançando!

Com tanta calma,

que pode até virar pedra.

Com tanta calma,

que pode até virar pó.

Mas é preciso ir traçando,

mesmo em estado solúvel,

sólido, líquido ou gasoso.

Gostoso gozo em estado,

em seu estado de linha,

em seu estado de nó,

ou em estado de bicho,

mesmo em estado de só.

A gente vai trançando,

com tanta calma,

que pode até virar era

e quando for ver já era.

E era pra ser melhor!

Com tanta calma,

que pode até nem dar tempo

de ser uma coisa pior.

A gente vai seguindo!

domingo, 19 de junho de 2011

quase poiésis

trago no corpo
sensações feitas de materiais de ausência
um afago que não fora
mora e se demora em mim
como uma promessa desistida, desinvestida,
a faltar apenas um dedo de empurrão
um trisco de uma pedra noutra
de uma pele ou pelo noutro
para que se precipite e principie
poiésis feita de faísca louca
instante mágico de experiência
desses que a vida inteira esperou vida
já a gritar de impaciência

sexta-feira, 17 de junho de 2011

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Eu Quero Blues

Hoje eu quero blues, ou jazz, ou qualquer outra música que não seja nenhuma carícia besta. Algo áspero! Cortante! Que me atravesse desabotoando o lacre do ser. Do ser do ente, do ser doente, equilibrando em aço de guitarra, desobediente. Quero essa música que me entra com estilo de estilete, e com o seu metal raspa algum fiapo de ser enterrado lá dentro, na lama dos interiores, no refúgio do ventre, numa frequência que desbote os dentes, e dê gastura, encha a boca d’água, faça franzir a testa. Hoje eu quero essa festa, como uma fresta do inusitado no abrigo de um condenado! Hoje a minha dose de Diazepam eu quero no diapasão ansiolítico da música.

domingo, 5 de junho de 2011

NOSSA CASA NO SERTÃO

Nossa casa do sertão era tão baixa

Os ombros do meu pai a sustentavam

Franzino, seu corpo era dela pé direito

Tão firme, no entanto, que a toda estrutura amparava.


Nossa casa no sertão tinha telhado

De tantos cacos de telha, formado

E se ria ele mesmo em buraquinhos,

Que à rede, se podia balançar o céu de lá pra cá.


Réstias de sol traziam as nuvens

A passear devagar pelas paredes

Em noites de lua, era ela que, acanhada,

Pelas frestas nos mirava em nossa inocência.


Se havia chuva, cada goteira que por ali pingava

Tornava menos sal a nossa lágrima

E, no entanto, tanto afeto havia lá

Que no mundo todo, era só ali nosso agasalho.


quarta-feira, 25 de maio de 2011

brilhantes

quando o dia cai seu peso escuro sobre mim
tenho que afinar minha prosa de silêncios.

aquela transição de fim de tarde
é como se nos rasgasse ao meio
e escancarasse nossa multidão de avessos.

o dedo de espanar nuvens, não pode aparar estrelas
as que já não são cadentes, são só memória brilhante
buracos que o tempo fez no teto escuro da noite
pra iluminar os poetas e enganar os amantes!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Contra-Tempo

Sento nos degraus da tarde,
tento bordar uns atalhos,
para estacar a noite.

E é a noite que me atalha,
a me oferecer retalhos
de improváveis remendos.
A tarde logo desaba
para escuros descabidos,
não há como estancar-lhe.

De fato é bom avexar-se:
- parado, é o tempo nos anda.

BUSCA VÃ

Me perguntas o que fui buscar do outro lado do mundo, ao longe, ao além-mar, exterior deste lado? Fui procurar um outro de mim que suspeitei que lá habita, e justifica o daqui, esvaziado de si, a mentir que o de lá é estrelas que fabrica.

Mas encontrei o mesmo-outro, a cavucar o chão da existência, a mastigar reticências e a engolir silêncios, sem temperos de provérbios. Me apontou céu riscado das caudas dos aviões, cujas estrelas varreram. E outras, de desespero, tornaram todas cadentes e se atiraram ao mar. As que restam são verdinhas: para atingir estado de rezulências, terão que morrer primeiro.

Disse ainda, esse outro, que é provável que outros de mim haja, que de mim nem desconfiam. Se há, têm outras estórias, talvez até mais risonhos, talvez com olhos mais verdes, talvez com mais solidão, talvez conduzam comboios, talvez durma na sarjeta, talvez já mais anciãos. O certo é que em cada um, há um primeiro, andarilho deste mundo, desde quando não se sabe, e se esconde lá no uno fundo do si de cada. Todos eles buscam tanto, ou encontrar cada seus, ou se perder no sem rumo.

Me disse que a busca é vã, mesmo que vá ou que fique, que os outros são ficções, tanto quanto o mesmo este. E é só este que existe, com suas muitas facetas, no mesmo corpo que enruga–se, a cada manhã que estoura no horizonte da vida. Sugeriu orientar a inquietude do ser para compor horizontes e neles plantar estrelas. Mas não assim, quando der. Sugeriu que fosse agora, no nestante de cada pé, um a um, a cada vez, a palmilhar o consigo. Não deu consolo, nem nada. Apenas riu, e tão logo se esvaiu.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

É isto!

Então tá! Vamos enfim suspender os pés do chão. Não há promessas seguras, e nem por isso o coração altera o ritmo do seu ritual. Acelera, se for o caso - e pouco há para fazer, quanto a isto. Talvez uma dose maior de alguma bebida amarga alivie um pouco. Mas, só! Não sei o que procuro, mas, seguramente, é o que faço. Algum tipo de azia, de acidez, de areia nos olhos, de coceira inexplicável atiça o devenir do ser, o devir e o devaneio! No entanto, sei que volto! Volto sempre para os mesmos afetos e para os mesmos pontos de espera, armazéns de falta, buscas aflitas, vacilantes entre envelhecer sensato, virando sombra de tantos, ou recuar o descanso e empurrar o horizonte, a cada passo, para mais longe.

É isto!

terça-feira, 8 de março de 2011

mulheres lindas

o problema das mulheres lindas é que elas se acham muito lindas. e são!
e tão convencidas estão disto, que se esquecem até de fingir que são humildes.
nos olham por cima dos ombros e nunca descem dos saltos

um dia as mulheres lindas vão acordar feias,
depois de gastarem com excessos suas belezas, sendo tão lindas
um dia o couro repuxado das pálpebras vai se contrair
com espanto verão aquela foto, do tempo em que eram lindas
aí então, vão pedir socorro aos feios
vão achá-los tão gentis e lindos, que até vão amá-los!

aqui reside a minha esperança na humanidade das mulheres lindas!
quando, enfim, aprenderão a ser lindas!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

TARA

a verdade da brancura do papel,
esta virgindade sedutora,
intolerável!
a convidar-me para esvaziar um pouco o peso o ser,
a aliviar sobre ela a existência,
talhada por todas as precipitações

sou magro de fé e de coragem
quase um abstêmio, um estulto,
a desculpar-me sempre de mim mesmo

por isto tornou-se meu divã
esta brancura, resoluta, impiedosa!
à espreita, aí, como um devir
a devorar-me,
a exigir-me a confissão,
a seduzir-me sem esforço algum!

Pego, afago, esfrego
grafo, grito, groso, gozo, gosto de arranhá-la!
depois fumo meu cigarro e vou dormir

DESCOMPASSO

Meu coração desandou
Passo de seu descompasso.

Como uma ave sozinha,
Andorinha sem verão
No faz de conta da linha
Ave de pipa no ar
Quase a se soltar da mão

Quer voar o coitadinho!

Vou pendurá-lo, por fora
Como um piercing, no mamilo
Do lado esquerdo do peito
Dotar de realidade
Isso que não tem mais jeito

Balanço de todo dia
O samba que nunca pára
Um samba de ser sozinho!

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O MESMO OUTRO

A embarcação é açoitada pelos seus motores, até que desencalha, desengata, desatraca. Eu permaneço estático. Não me comove se o mar não está pra peixe, pareço alguém que cuida só de suas escamas. Se chove, eu me recolho em minha bolha, e nem sei se ela bóia, se dilúvio. Permaneço um atávico atarracado, afinando o meu egoísmo de batráquio. Sou deste mundo: ele é minha escola! Aos poucos aprendo a arte da isenção, do distanciamento, e até durmo - um estrangeiro? - enquanto o mundo desintegra. Desperto sempre um pouco mais cruel, coração endurecido. Detenho-me nos noves-fora deste cálculo, até que a embarcação atinge a outra margem. E eu, embora outro, sou o mesmo - azedo! Talvez com um pouco mais de sofisticação.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011