Pesquisar este blog

sexta-feira, 27 de abril de 2007

EDUCAÇÃO: A CRÔNICA DO PRESENTE

Josemar da Silva Martins
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro, BA)
Doutor em Educação pela FACED/UFBA
Não têm conta entre nós os pedagogos da prosperidade que, apegando-se a certas soluções onde, na melhor das hipóteses, se abrigam verdades parciais, transformam-nas em requisito obrigatório e único de todo o progresso. É bem característico, para citar um exemplo, o que ocorre com a miragem da alfabetização do povo.
(Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil)
A maior parte das análises sobre educação geralmente se prende – e de forma bastante pragmática – à questão escolar. Sobretudo agora, quando um discurso renovado empenha todas as faturas, de todos os problemas sociais, na conta da educação, reduzida à idéia de escola. Isso não é novo: diversas vezes em nossa história, a educação foi tomada como a “alavanca para o progresso” e reduzida à instrução escolar elementar, ao mero alfabetismo.

Esta perspectiva já se anunciou desde a aurora do século XVI, com a Reforma Protestante, quando Lutero e Melanchton defendiam a educação universal e pública, capaz de tornar cada pessoa apta a ler e interpretar por si mesma a Bíblia. Depois, já no séc. XVII, esta perspectiva se deslocou do campo da religiosidade para o terreno volvido pelas idéias iluministas, que ressaltavam a razão como o grande instrumento de apreensão e interpretação do mundo. E a escola passou a ser defendida com caráter leigo e livre, ao encargo do Estado, devendo se tornar um bem de caráter universal, obrigatório e gratuito (Cf. NUNES, 1994: 91-93). Daí em diante o próprio arquétipo da modernidade sustentado pelo Iluminismo, adotou esta idéia de educação reduzida à escola, e suportada em quatro princípios burgueses: a universalidade, a gratuidade, a laicidade e a obrigatoriedade.

Entre nós, desde que a proposta moderna de matriz Iluminista se fez presente, contra um modelo de sociedade tradicional em crise, se discute a importância da educação escolar sustentada naqueles quatro princípios burgueses e a sua vinculação com a idéia de alavanca para o progresso; como elemento modernizador. Desde antigas discussões sobre problemas de integração nacional, de transformação das massas em povo, de conversão dos súditos em cidadãos, de superação de nossas mazelas econômicas ou de enfrentamento do nosso formidável sistema de exclusão social, a educação escolar é erigida como variável modernizadora, o que vai orientar as propostas de universalização da instrução primária na América Latina e no Brasil. É por isso que desde fins do século XIX se dissemina por todo o continente Latino-americano a idéia de que “a educação é a locomotiva do progresso” (SAVIANI, 1984: 10), assim continuando a ser durante todo o século XX, e sobretudo agora, na aurora do século XXI.

Os discursos de agora parecem reinventar entre nós aqueles das primeiras décadas século XX, que vinculavam educação e desenvolvimento e chegavam ao excesso de tratar os “desescolarizados” como doentes. Assim via o médico Miguel Couto:
[ignorância é] não somente uma doença, mas a pior de todas, porque a todas conduz; e quando se instala endemicamente, como na nossa terra, assume proporções de verdadeira calamidade pública. É ela que reduz nosso homem a meio homem, a um quarto de homem, e a nossa população à metade ou quarto da realidade; ela e só ela, é a responsável pelo relativo atraso de nossa Pátria, que não pode sofrer o confronto com as outras (in PAIVA, 1987, p. 28).
Não é à toa que se criou neste mesmo período o Ministério da Educação e Saúde. Efeitos de um exacerbado “entusiasmo pela educação” (Cf. PAIVA, 1987) e de uma visão sanitarista e higienista que via na educação (escolar) um instrumento de “limpeza”, para limpar a pobreza de seus vírus mortais: os vírus da ignorância. De lá até cá essa visão reservou para a educação apenas o ambiente escolar e apenas saiu do campo da medicina ou da higiene sanitarista, para entrar em outro, o da psicologia, como se pode ver no atual predomínio das pedagogias psi.

Mas embora estes discursos tenham sido renovados ultimamente, desde as primeiras décadas do século XX já havia quem deles desconfiasse, como Sérgio Buarque de Holanda, que na década de 1930 já advertia:
Cabe acrescentar que, mesmo independentemente desse ideal de cultura, a simples alfabetização em massa não constitui talvez um benefício sem par. Desacompanhada de outros elementos fundamentais da educação, que a completa, é comparável, em certos casos, a uma arma de fogo posta nas mãos de um cego (HOLANDA, 1995, p. 166).
Estamos de volta a este paradoxo. Por um lado educação tem sido reduzida a escola: escolarização, currículo, prédio escolar, professor, aluno... Não já é momento para pensar a educação em termos mais amplos? Já não é tempo de pensar a conexão entre educação e sociedade pautada em outros elementos?

Nossos discursos insistem em afirmar que estamos formando a cidadania consciente, crítica e participativa através da escola. Mas parece que as personalidades dos alunos, as suas identidades e subjetividades estão menos carregadas destas frases de efeito do que daquilo que circula na rua, na festa, no tape, no outdoor, na TV. Na verdade há um hipertexto social. A própria cidade é esse hipertexto, que vai dotando a educação das novas gerações de um caráter cada vez menos escolar. E junto com este hipertexto social há algo de perigoso que nos assusta cada vez mais, uma espécie de desgoverno com o qual não sabemos lidar; preferimos dar-lhe um outro nome: “barbárie social”.

As escolas se encarcerem ainda mais, suspendam recreios, aumentem suas grades, seus cadeados e também sua guarda. O debate se abre movido a desastres não muito distantes: em Salvador (BA), a morte de duas moças de classe média, em uma escola privada, assassinadas por um jovem colega; em Juazeiro (BA), um menino de 12 anos que invadiu uma escola pública, de um bairro periférico da cidade, e esfaqueou um colega de mais ou menos a mesma idade... E os exemplos vão se somando – sem contar os exemplos a nível nacional.

O debate que se abre culpabiliza mais ainda a escola e acrescenta-lhe novas demandas: formar valores, competências, habilidades e de atitudes; aprender a a apre4nder, a fazer, a ser e a conviver. Ou sugere um abandono do público e o encarceramento em condomínios fechados e instituições religiosas (cada vez mais fundamentalistas e intolerantes), com base na suposição de que tudo que está fora disso é o mau; Acirra-se o apelo moralista-coercitivo, solicitando a ampliação dos aparatos de vigília e punição, o cerceamento das liberdades, o aumento dos dispositivos proibitivos e a ampliação dos aparelhos militares e para-militares. Instala-se o Big Brother, o Grande Irmão que é o Grande Olho. Já foi o olho de Deus na Idade Média. O olho do estado na sociedade moderna. O olho da sociedade em seus múltiplos sistemas de conveniência que definem os códigos de pertencimento e as práticas de habitação. Hoje é tudo isso junto, com o suporte dos novos aparatos tecnológicos de vigília: micro-câmeras por tudo que é lugar. “Sorria, para sua segurança você está sendo filmado”. E o que sabem sobre minha segurança?

Na verdade o que está em jogo é, por um lado, uma falência da escola como dispositivo de governo. Foucault já expôs como as escolas foram produzidas similares às prisões e aos manicômios. Elas nasceram junto com os sistemas de vigília e punição, baseadas em esquemas panópticos (FOUCAULT, 1987). Seus tempos e espaços foram formatados para o disciplinamento e o controle dos corpos e a produção de novas condutas.

As relações de violência, que agem forçando, submetendo, quebrando, destruindo e fechando todas as possibilidades e deixando apenas pólo da passividade, como a experiência da palmatória e do castigo, foram substituídas pelas relações de poder disciplinar em que, ao contrário, o “outro” é reconhecido e mantido como o sujeito da ação, fazendo apenas com que se abram campos de respostas, de reações, de efeitos desejáveis, como funcionam, por exemplo, os dispositivos dos direitos e deveres, as faixas de trânsito na rua ou as listas amarelas dentro dos bancos: para produzir não só uma circularidade, mas um “discurso verdadeiro”, ordenador de práticas; para estabelecer uma governamentalidade (FOUCAULT, 1979). Ocorre que esta tecnologia de governo na escola já faliu há muito tempo. Tudo que se faz agora é tentar recuperá-la, renová-la, fazê-la funcionar novamente. Mas vivemos um tempo de desgovernamentalidade. O tempo do desgoverno. E é isso que nos assusta.

E este desgoverno liga-se ao fato de a escola já não ser mais a referência de formação; ao fato de a sociedade ter entrado em período em que, neste hipertexto contam primordialmente agora a cultura do consumo, a alienação, a erotização, a drogadição e a violência que são distribuídas nos espaços públicos, nos eventos de entretenimento, nas festas de inauguração, nas festividades oficiais, nos programas de TV, na programação das rádios AM e FM, nos barzinhos... Estes ambientes da liberação são ambientes da prática de um liberalismo que é, na verdade, o formato primordial de nossa democracia (a de mercado). E tudo então vira mercadoria. Inclusive a produção das subjetividades que são cada vez mais fabricadas dentro dos modos capitalísticos (GUATTARI & ROLNIK, 1996) de produção material e subjetiva, cujos braços estão estendidos até o campo da cultura, do consumo, da produção dos desejos, da elaboração das identidades e da satisfação dos prazeres.

Este ambiente é o de uma segunda colonização, que passa a dizer respeito à alma, pela distribuição e consumo de novas mercadorias que vendem a varejo os ectoplasmas de humanidade, “os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma” (MORIN, 1997: 14). Produtos que circulam no cinema e na TV, e se desdobram em outras mercadorias de uma extensa “Indústria Cultural” (ADORNO & HORKHEIMER, 1985), virando brinquedos, discos, festas temáticas em escolas, out-doors, as mais-mais das rádios AM e FM, adereços, cadernos, borrachas, roupas, calçados e tatuagens (não apenas essas que vêm nos chicletes; todas porém, grudam em nossos corpos desejantes e mesmo nos procedimentos institucionais e oficiais). Este é o hipertexto, a exterioridade que dialoga com as subjetividades e as refaz.
É a relação da subjetividade com sua exterioridade – seja ela social, animal, vegetal, cósmica – que se encontra assim comprometida numa espécie de movimento geral de implosão e infantilização regressiva. A alteridade tende a perder toda aspereza. O turismo, por exemplo, se resume quase sempre a uma viagem sem sair do lugar, no seio das mesmas redundâncias de imagens e de comportamento (GUATTARI, 1990, p. 8).

Ambientes e hipertextos que produzem também as erosões no Eros e imensos campos de frustrações que, não raras às vezes, viram armas de guerra. O hipertexto não é somente “uma metáfora válida para todas as esferas da realidade em que significações estejam em jogo” – como quer Pierre LÉVY (1993), ou como quer também Manuel CASTELLS (1999), quando reduz demasiadamente esse hipertexto ao espectro das novas tecnologias da informação e da comunicação. Do ponto de vista da educação em sentido amplo, o hipertexto é a própria realidade social e suas esferas de significação. Mas quem está interessado em incluir isso na trama da educação das novas gerações e nas agendas das políticas educacionais e escolares e não-escolares?

Acho que é por isso que a escola deve ser repensada. Ela ainda é muito importante na preparação das novas gerações perante o saber formal, especialmente para os excluídos. É ainda um passaporte fundamental para qualquer proposta de inclusão social. Mas se por um lado a escola deve mudar para ser melhor, por outro, é urgente pensar que educação não é somente escola. As condutas das novas gerações já estão hipertextualizadas e multirreferencializadas. Liberalizadas, banalizadas, prostituídas...

Enquanto as práticas de governo tentam sua re-instituição na escola pelo uso de novos aparatos tecnológicos, o desgoverno já se instalou em várias esferas do convívio social, ajudado pelas posturas liberais e neo-liberais das políticas oficiais. Hoje vivemos na histerese da política, da sexualidade, da estética... Perdemos os referenciais, os parâmetros; entramos na era da transsexualidade, da transpolítica, da transestética, como nos sugere BAUDRILLARD (1990).... Entramos no momento da "pós-orgia". Pare este autor a orgia foi o momento explosiva modernidade: o da liberação em todos os domínios. E o que foi liberado passou para uma esfera de pura circulação infinita. Tudo liberado aí circulando, formando uma órbita, onde tudo fica fadado à comutação incessante, à indeterminação crescente, ao princípio de incerteza... E a pergunta é: e depois da orgia, o que faremos? Tentamos...

Tentamos ter certezas, para nos mantermos do lado do Bem. Este quer o claro, o explicado, o vigiado e o controlado, enfim a oficialidade branca, e em sua prática maniqueísta tende a criar novas zonas escuras de marginalidade e desgovernamentalidade. Por isso não parará de remessar sujeitos à opção do escuro, do inexplicado, do fugidio e do descontrolado. E é a isso que o Bem chamará de Mal – já que o Bem, que sempre está do lado do poder, se autoriza sempre a nomear, ou melhor, a adjetivar o Outro.

Esses são nossos dilemas. E tudo está aí para ser pensado novamente.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


ADORNO, Theodor W. & HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

BAUDRILLARD, Jean. A Transparência do Mal: ensaio sobre fenômenos extremos. Campinas, SP: Papirus, 1990.

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. – (A era da informação: economia, sociedade e cultura; v. 1). – São Paulo: Paz e Terra, 1999.

CHARDIN, Pierre Teilhard de. O fenômeno humano. – São Paulo: Editora Cultrix, 2001.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, RJ: Vozes 1987.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. – Rio de Janeiro: Edições Graal, 1979.

GUATTARI, Félix & ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo – 4ª ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.

GUATTARI, Félix. As três ecologias – Campinas, SP: Papirus, 1990.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. – 26a ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995. (A primeira edição é de 1936).

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. – Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: necrose. 3ª ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1999. (O espírito do tempo II)

MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: neurose. 9ª ed. – Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997. (O espírito do tempo I)

MORIN, Edgar. O método iv: as idéias, a sua natureza, vida, habitat e organização. – Portugal: Edições Seuil: Biblioteca Universitária: publicações Europa-América, 1991.

NUNES, Antonieta D’Aguiar. A Tentativa de Universalização do Ensino Básico na Bahia com a Proclamação da República. In: Revista da FACED/Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, no 0 (out. 1994). Salvador: FACED/UFBA, 1994, p 91-105.

PAIVA, Vanilda Pereira. Educação popular e educação de adultos. – 5ª ed. – São Paulo: Edições Loyola, 1987.

SAVIANI, Dermeval. O lógico e o histórico nas análises de desenvolvimento e educação na América Latina. In: RAMA, German [et. al.]. Desenvolvimento e educação na América Latina – 2ª ed. – São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1984, p. 5-16.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Cidade Grande

a cidade está aqui, plantada em minha frente!
os carros em velocidade e ela parece parada
à primeira vista, são os móveis que se desviam
de suas pontudas esquinas...

ela cheira a borracha e gás carbônico
e eu atônito felizmente fluo entre seus descaminhos
seus fluxos de metal escorrem pelas vielas
em ruas largas, passarelas
mas nada minimiza o desamparo
sensação plantada entre tantos seus degraus

a cidade cresce para cima
mas se enraíza em seus subsolos
redes subterrâneas lhe irrigam
pelo holograma inexplicável dos seus condutores

aqui e ali desponta um tôco de concreto ou outro sintético
e brotam fluidos transnacionais de toda ordem
rugas e rusgas crescem entre os semáforos
utopias vermelhas enxovalhadas que portam luzes
e a sobra de uma sombra escura em forma de gravata

a cidade não é sua aparência paralítica
esta face dura que empata todos os trajetos
ela é sua imaterialidade animada
que se desvia dos carros e outros embustes
e abre buracos, e fende passagens
e faz todos andarem em sua velocidade

a cidade nos habita
mesmo se a gente a ela resiste
e quanto a isso é impossível retê-la em suas minúcias,
posto que ela excede-se a si mesma...

mas triste mesmo é que ela, em sua pressa
escondeu tão bem seu pôr-do-sol
por trás de seus arranha-céus.

enquanto suas nuvens negras
despertam a noite mais cedo
e a cidade alterna, então, os seus segredos
sobra ainda o segredo mais cruel:
- é que de tão perto que tornou-se o seu céu
quanto mais assim ele é tão seu
e quanto mais assim é menos céu!

(São Paulo, fim de tarde na Paulista em 13 de abril de 2007)

CONEXÕES

a vida anda assim encruzilhada
(não seria em cruz ilhada?)
fluxos rodopiando nos fios do cerebelo
ouriçando rimas, enzimas
nos derivando nas conexões
um dia ali, alegre,
outro além, nem tanto
sem exatas equações.
*
estamos todos nos compondo
uns aos outros
uns nos outros
umas para outras...
*
penumbra do dedo
quase apontando um rumo
é o seu nesta foto...
e as cores das flores
marcando o contorno do fato.
*

minhas palavras a esmo...
cá de longe, ermo do mundo
profundo seu beijo sem pitoca
na prancha do seu teclado
seu dedo quase me toca
*
e eu distraio ouriçando ondas
sendo tragado pelas janelas
excitando ainda estes perfil distantes
nas percepções acesas pela tela
*
o virtual nada mais me dá além disso
além desses ouriçamentos distantes.
e, derepente, eu quero mesmo é pêlos
e peles: concretas, acesas, arrepiadas, nuas
para nelas me enroscar de fato
enquanto espero a lua
*
conectar o corpo noutro corpo
plugar a boca noutra boca em chamas
trocar os fluxos por temperaturas
derramar os “áis” e “úis” na cama
encher de novo o copo de loucuras...
*
eis o que desejo
quanto mais me queimo
da fogueira dessa tela
*
e sigo quase ileso...
mas, melhor que isso, é tê-la sem frecuras!

*
*

domingo, 1 de abril de 2007

CARTA-RESPOSTA A ZÉ ALBERTO

Juazeiro, BA, 01 de abril de 2007

Sr. José Alberto,

Esta carta não é à ACCORD, nem à Radio Curaçá FM. É uma carta á pessoa José Alberto. Ela será tornada pública pela única razão de que o assunto assim já se tornou. E porque a sua carta também foi enviada para várias pessoas, como a minha antes também foi. Não terá sido a primeira vez na História que isso ocorreu, quando o assunto é de interesse público. Talvez seja este o único modo de fazer com que outras pessoas aprendam, em contato com nossos equívocos.

Hoje reli várias vezes a minha carta-resposta que enviei a vocês, procurando encontrar os pontos em que eu poderia estar provocando a sua ira, afinal, é de ira e de arrivismo pessoal de que se trata a sua resposta. A começar pelo título que você utiliza (“OS EQUÍVOCOS DE PINZOH – Considerações sobre a Carta-Resposta grosseira e mentirosa do Professor”), sua carta é, em si, um discurso inteiro, que não precisaria de mais uma só palavra para dizer o que diz. Desde aí a minha carta a vocês é, a um só tempo, equivocada, grosseira e mentirosa.

Pelo visto sua resposta não se limita a uma resposta à minha carta-resposta, porque duvido que qualquer leitor encontre nela os atributos que você questiona. E espero que esta sua resposta não esteja permeada de resquícios de atritos que já tivemos, eu e você, em tempos passados, por conta de sua agressividade desferida contra uma pessoa que eu estimo muito, que não mora mais em Curaçá, mas que outras pessoas da ACCORD sabem bem de quem se trata.

Nesse sentido entendo que não há atritos entre mim e a ACCORD, ou entre esta e o INOVE (instituição que presido), mas esta celeuma parece que é entre nós dois. A sua carta não é da instituição ACCORD, mas sua. Os argumentos não são da ACCORD, mas seus. O teor dos sentimentos nos quais destilou suas palavras, não é da ACCORD, mas seu. E, nesse sentido, você usou como método de análise da minha carta (que duvido que tenha sido discutida em assembléia; como duvido que esta resposta seja do coletivo da ACCORD) os mesmos instrumentos que diz estar questionando em meu posicionamento. Se minha carta foi grosseira, espero que os leitores possam comparar as duas para inferir em qual delas há uma dose maior de grosseria. Em sua carta não sou apenas qualificado de equivocado, grosseiro e mentiroso, mas de nefasto (atribuição direta), narcisista, oportunista e leviano (atribuição indireta). Ou seja, você questiona a grosseria utilizando-se como recurso a própria grosseria; questiona a leviandade utilizando-se como recurso a própria leviandade.

Você expõe, de forma descontextualizada, a minha entrada precipitada na reunião da ACCORD da qual participei, e onde realmente entrei pela janela. Não vou pedir perdão por isso, mas seria bom que o leitor soubesse de que espaço se trata, de que janela se trata. Coloque uma foto dessa janela. Diga que é uma espécie de janela quase-porta, onde, naquele mesmo dia e em outros, algumas pessoas têm por hábito sentar nelas, e entrar e sair através delas, por estarem a meio metro do piso. Dê pelo menos algum elemento de contexto. Isso também se chama honestidade. Você poderia também lembrar porque eu fui parar naquela reunião sem ser convidado. Diga, por exemplo, que algumas pessoas do INOVE são também membros da ACCORD; por exemplo, a secretária da ACCORD é vice-presidente do INOVE. E além dela há outros membros comuns: Jane, Zé Íris, Dione, e alguns outros.

Naquele dia fui a Curaçá porque haveria uma reunião da frente de partidos que estavam discutindo como prover os cargos do Estado no âmbito do município, pela manhã, e pela tarde haveria uma reunião do INOVE. E aquele mesmo espaço utilizado pela ACCORD (no qual entrei pela janela) é também utilizado por outras instituições e grupos para suas reuniões. Algumas vezes ele serve às discussões partidárias, e já nos serviu várias vezes para reuniões do INOVE.

Em muitos desses espaços, agrupamentos e instituições, as pessoas são as mesmas. Portanto, aquela reunião poderia ser de qualquer um desses coletivos e, de fato, eu não sabia que era da ACCORD, senão não teria entrado, nem pela janela, nem pela porta, porque aprendi a respeitar espaços institucionais. Somente me dei conta de que tipo de reunião se tratava quando algumas pessoas, que são ao mesmo tempo membros do INOVE, do partido e da ACCORD, me informaram. Portanto, fui parar naquela reunião porque as primeiras pessoas que avistei ali eram comuns ou ao INOVE ou ao partido, ou à frente de partidos à qual já me referi.

A condição de “penetra”, como você qualifica, é apropriada sim, mas não sem contexto. Você sabe disso, mas joga de uma forma que nega ao leitor informações que poderiam fazê-lo encarar as coisas de outra maneira, afinal você mesmo participa de muitos espaços comuns, e participa dessas outras reuniões; aliás, você também faz parte do mesmo partido que eu. Mas você nega tais dados ao leitor, privando-o de informações que o ajudariam a elaborar de outra forma uma opinião sobre o ocorrido. Além disso, não achei que em um espaço em que há tantas pessoas em comum, sobretudo com estreitos laços afetivos, a minha presença, pela janela ou não, seria encarada com tanta reatividade. Só não sei se esta reatividade tem justificativas institucionais, ou é meramente pessoal. Quanto à privação de informações contextuais ao leitor, a pergunta que me resta é: em que esse procedimento se diferencia da leviandade? Pois é contra esse formato de comunicação e de informação invertida que luto.

Mas não falta ao leitor apenas o contexto específico sobre a minha entrada pela janela, em termos literais, na reunião da ACCORD; faltam-lhe também informações sobre o uso metafórico do “entrar pela janela”, atribuído a mim. Nesse caso, certamente é importante dizer que em minha vida “entrar pela janela” nunca foi o meu forte. Exceto o tempo em que trabalhei na roça e no posto de gasolina Asa Branca, ou na UNIMED, em Juazeiro (como vendedor de planos de saúde), e depois na Papelaria Emanuela, todos os meus outros trabalhos foram com ingresso através de concurso público. E, recentemente, em casos de consultoria e assessoria, foi por mérito, mesmo nos casos em que houve a indicação de algum político, como foi o caso a Assessoria à Prefeitura de Juazeiro, no governo passado, e agora, quando fui nomeado para a Diretoria de Currículos Especiais, da Secretaria de Educação do Estado da Bahia. Nem nesses casos o “entrar pela janela” é legítimo quando a mim é dirigido. Claro que as pessoas que não são de Curaçá – e que vão ler sua resposta – podem não me conhecer. Mas as que me conhecem devem saber disso, inclusive você mesmo. Está aí uma carapuça que não me cabe! Em relação a entrar pela janela, eu não sei se isso se aplicaria mais a mim ou a você.

Esse ponto é importante porque parece que estou clamando por um espaço na Rádio Curaçá FM. Achei que o convite me havia sido feito por razão de alguma qualidade que eu possuía. Mas vejo que sua carta me destituiu, no seu conceito particular, de todo e qualquer valor, como profissional e como cidadão. Pior será se a ACCORD concordar com isso. Ainda bem que minha dignidade não depende de seu ódio destilado! Se a ACCORD acha importante que eu contribua com a rádio, o farei de bom grado, e darei minha contribuição como já fiz a faço em Curaçá, em muitos outros momentos, e em diversas situações, porque Curaçá, a rádio e a ACCORD não podem ser reduzidas a essas pendengas pessoais que você quer sustentar. Não quero gastar minha energia com isso, porque tenho muito que fazer. Entre as minhas contribuições a Curaçá, me orgulho de ter sido um dos autores da Proposta Político Pedagógica que, embora institucionalmente desvalorizada no âmbito da administração municipal, pôde mobilizar um certo orgulho em muitas pessoas do município e, além disso, animou em outras relações institucionais, a valorização do município e da própria gestão municipal.

Você, embora diga que minha carta foi mentirosa, esqueceu de apontar as mentiras que constam nela. Em minha carta o leitor não vai encontrar uma só palavra afirmando que há uma “posição da emissora em não querer inovar”. O que nela consta é um trecho entre aspas atribuído a você: “não podemos começar as coisas já inovando”. Essa voz é sua, e não da rádio ou da ACCORD. E eu poderia dizer que as outras pessoas presentes na reunião poderiam testemunhar se essa passagem é uma mentira minha ou não. Mas acho bastante dizer que você mesmo a confirma em um trecho de sua carta: “Para inovar, e a História mostra isso em momentos diferentes da evolução do pensamento, é necessário, antes de qualquer premissa, conhecer-se e conhecer a realidade. Sem esse conhecimento inventaríamos talvez uma caricatura de rádio, que quer inovar, mas não tem o rumo certo para dar os passos seguros”. Sua carta confirma seu pensamento. E é em relação a ele que estou em desacordo; não é contra você. Não se trata de lhe difamar (recurso que você utiliza fartamente em sua carta). Trata-se de um posicionamento diferenciado do seu, que coloquei na minha carta e não vou repeti-lo aqui porque as pessoas podem muito bem lê-la na íntegra, na página eletrônica da Radio Curaçá FM.

Em relação a outros pontos de sua carta você desconsidera que o que questiono não é nem a rádio, nem a ACCORD, nem você, em particular. No programa “O Programador é Você” (do qual participei a convite de sua titular, a professora Jucélia, secretária da ACCORD e vice-presidente do INOVE), o que eu disse foi que tenho uma visão diferenciada em relação à redundante afirmação de que “tem que tocar o que o povo gosta”. É verdade que esta afirmação foi reiterada na reunião por um dos participantes e eu me referi a isso; mas não disse que este é o pensamento da emissora – e, apenas se assim eu o tivesse procedido, você poderia afirmar que me referi a ele de forma equivocada.

Na minha carta, Sr. Zé Alberto, caso você minimize a sua ira e a leia de forma mais cautelosa, vai encontrar uma discussão razoável sobre esse aspecto do tratamento dado ao “gosto popular”. Na minha precária visão, acho que o “gosto do povo” não cai do céu, puro como chuva, pois nem a chuva já não cai tão pura assim do céu. Essa discussão não é uma afronta a você: é um posicionamento conceitual, é uma visão de mundo, que você aceita ou não, mas não pode desconsiderá-lo nem tampouco arrolar isso como uma de leviandade desferida contra você ou contra a rádio. Releia a carta. Eu sei que você tem capacidade interpretativa suficiente para fazer outra leitura do que eu disse.

Em sua carta você ainda diz que “algumas entidades não se interessaram em veicular programas, inclusive o instituto que Pinzoh preside”. Sobre isso confirmo que o INOVE já foi convidado para apresentar alguma coisa à/na radio. Isso já foi assunto de algumas reuniões. E só não o fizemos ainda porque não temos recursos para custear tal atividade, nem temos interesse em sustentar isso de forma meramente voluntária. Essa não é uma decisão minha. Eu não mando no INOVE. Aliás, há outras pessoas tão do INOVE quanto da ACCORD com programas na radio. O que não tivemos ainda foi a condição de propor algo de forma institucional. Não se trata de falta de interesse. E do ponto de vista da participação individual de cada um, não temos nada a arbitrar.

Você ainda se refere a “entidades se valem de dinheiro público para financiamento de seus projetos”. Pareceu-me que você tentou agregar a essas instituições alguma qualidade pejorativa. Esclareço que o INOVE é uma dessas instituições. E, se não sabe, há formas lícitas de participar desses recursos públicos, sem depender de esquemas suspeitos de ações de políticos, na construção de emendas parlamentares ao orçamento, por exemplo. Atualmente o INOVE recebeu R$ 10.000,00 (dez mil reais) do Programa BNB Cultural, para realizar um filme crítico sobre “fuleragem”, que temos prazo até junho para concluí-lo e prestar contas. Para isso construímos um projeto e participamos de um edital público e fomos selecionados. Essa me parece uma forma lícita de participar de recursos públicos. Se você não sabe, foi através de procedimentos parecidos que conseguimos recursos para alguns projetos em Curaçá, durante a gestão de seu irmão. Foi com recursos advindos de projetos aprovados em seleções similares que pudemos construir não apenas a proposta pedagógica do município, mas ainda dar formação aos professores da rede municipal, realizar encontros nas comunidades e publicar vários livros para o município. Se informe sobre isso porque a própria ACCORD pode participar desses editais e seleções de forma lícita, e ter recursos para custear suas atividades. Não há mal nenhum nisso!

Vou deixar por conta do leitor a avaliação sobre os nossos teores de agressividade, falsidade e arrogância. Seria bom ainda que você mesmo avaliasse, diante da crônica “Reflexão Sobre os Otários”, se não se enquadra em algumas das qualidades lá mencionadas.

Por último, achei uma coisa curiosa o fato de a informação sobre sua resposta ter me chegado justo hoje, dia primeiro de abril, dia da mentira. Se à mentira foi concedida um dia, há algo de legítimo nela. Poderíamos arrolar que a mentira é uma condição unicamente humana; participa das convenções sociais, das regras de etiqueta, da vida pública, da política. Mentimos, sobretudo, para nós mesmos – talvez a pior das mentiras. Mas nenhum de nós está isento dessa condição, por algum artifício de razão. E aquilo que chamo de ética tem a ver com o esforço de evitarmos constituir nossas vidas sobre a mentira e a agressão. Eu teria ficado preocupado comigo mesmo, caso você tivesse me desmentido em sua carta ou feito algum gesto contrário ao que questiona. O que você fez foi se expor e expor as suas qualidades, tanto quanto eu o fiz, para o bem e para o mal. E, com estas duas cartas, estamos distantes de decidir, entre nós dois, quem é a pior das espécies.

Continuarei esperando uma resposta da ACCORD sobre se aceita a minha condição de cronista, dentro do viés por mim proposto, pois sua carta não responde a isso. De todo modo, não tenho interesse na continuidade dessa pendenga com Zé Alberto, tampouco me furtarei a responder se for necessário.

Solicito que você a publique no portal da Radio Curaçá FM, no mesmo endereço onde consta sua resposta (http://www.curacafm.org.br/curacafm?curacafm=noticias&id=21). Da minha parte ela estará disponível no meu blog pessoal (http://blogdopinzoh.blogspot.com/), onde será postada ainda hoje, e onde há a minha primeira Carta-Resposta.

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor

domingo, 25 de março de 2007

CANSEI

Cansei de ir atrás das borboletas
Elas estão sempre muito ocupadas
Em procurar flores exóticas
E perambulam agoniadas pela noite
Como se já estivessem
À beira do desespero

Mas escolhem flores muito comuns
Embora achem que são elas
Flores muito raras

Cansei do comum, das mesmas trilhas,
E, no fim delas, os mesmos resultados.
– “Brigadinho, viu! Te adoro!”
Os mesmos disfarces, as mesmas fugas.

Meu tempo é raro!
Vou cuidar de minhas rugas
Que elas são muito caras
Custam-me os sulcos da cara
Por isso meu riso é ouro!

Não quero mais rir à toa
Achar que estou numa boa
Quando não passo de enfeite
E no prato dessa salada
Não chego nem a azeite.

Vou partir noutros atalhos!
Vou cuidar do meu jardim
Borboletas que gostam de suas flores
Que gostam dos seus aromas
E que não lhes cobram nada
E de dádiva em dádiva,
Enchem-lhe de novas cores

Vou cuidar de outros amores
Dos que os meus dias estão cheios
Cansei de fazer a cama
Pros outros plantarem odores
Cansei de enfeitar a mesa
De custear o sorriso
Das musas dos estrangeiros

Vou cuidar do meu jardim
De quem nele planta algo
Pois há os que só nos ligam
Já pensando em colher logo

Vou atrás de outras belezas
Cansei de pagar a conta
Sem poder virar a mesa
Afinal, eu não sou santo,
Muito menos terapeuta!


(Pinzoh)

SOMOS A MAIORIA

(Herbert Daniel e Liszt Vieira)
/
Somos quem quer a paz. Somos quem abomina a passividade. Somos quem não quer o entulho autoritário nem o entulho utilitário. Somos quem quer nuclear nossas energias, para não mais precisar da energia nuclear. Somos quem sabe que não é verdade absoluta que todo racista é filho da puta, pois nenhum racista merece a dignidade de tal mãe. Somos quem sabe que racismo é a ditadura racial real da democratização da violência que vem desde a senzala. Somos quem acha que machismo não é papel de homem.

Somos quem quer uma política de reprodução humana que não faça de homens e mulheres bichos procriadores. Somos quem quer que o aborto seja um último recurso de quem pode escolher métodos anticoncepcionais, e não permaneça na hipocrisia de hoje, numa ilegalidade protegida por interesses contrários aos das mulheres. Somos quem afirma que a mulher deve escolher quando e como ficar grávida. Somos quem não tolera que qualquer adulto possa maltratar qualquer criança, que nenhum adulto seja dono de qualquer vida infantil. Somos quem não que abandonar a infância, nem prender o menor na minoridade. Somos quem quer poder trabalhar, morar, ir e vir, sem ter que obedecer aos padrões sexuais oficiais. Somos quem quer namorar sem a ameaça do impudor de quem vem no escuro ver. Somos quem não quer piedade, pois defeito quem tem é quem alija o deficiente físico. Somos quem não quer ser preso e torturado em asilos que são fábricas de alucinados. Somos quem não tolera o desrespeito à humanidade do preso. Somos quem quer fumar um sem a ameaça dos traficantes da violência. Somos quem não tolera a impunidade da violência. Somos quem quer um menor contingente armado de homens nas ruas da cidade, queremos menos guerra civil. Somos quem não quer se intoxicar com as drogas pesticidas, agrotóxicos, fumaças de indústrias, poluição. Somos quem não quer ver rios assassinados. Somos quem não quer ver a terra assassinada. Somos quem quer ver uma nova relação na terra, queremos viver a Terra. Somos quem está experimentando na juventude novas possibilidades de rejuvenescer a Terra. Somos quem quer ver velhos limitados ao aposentado papel de particípio passado do mundo produtivo. Somos quem não quer uma escola que prenda, somos quem quer um ensino que aprenda da vida. Somos quem não quer a tecnologia da doença, mas a arte da saúde.

Somos quem acha que qualquer maneira de amor vale a pena. Somos quem pensa que nenhuma maneira de temor vale a pena. Somos quem sabe que analfabeto é quem é espoliado por um sistema que fez da escrita um código da elite. Somos quem não quer cultura popular domesticada nos museus de folclore, nem cultura erudita domesticada nos museus vazios da hierarquização. Somos quem quer que a liberdade de expressão de pensamento seja uma matéria sobre a qual não se legislará. Somos quem quer proibir todo tipo de censura. Somos quem quer rádios livres, televisões livres, ouvintes livres, espectadores libertos do condicionamento do plim-plim. Somos quem não quer demarcar os índios na minoridade civil, mas quer ver demarcadas suas terras, suas rotas, suas setas apontando o arco das suas próprias opções. Somos quem não quer pagar dívidas que foram feitas por decisões externas à nossa vontade. Somos quem não quer pagar prestações imprestáveis a não ser para a fome de beeneagás. Somos quem não quer ser punido com a perda do emprego, nem ser punido por ser desempregado. Somos quem não quer ser punido com um emprego num trabalho intolerável, cuja condição é o massacre à mão que obra. Somos quem quer ampliar a greve como direito, para não ter que suportar o encolhimento do salário e o estiramento de uma jornada de trabalho acima de oito horas. Somos quem quer livremente se associar, somos quem na CUT quer garantir a autonomia sindical. Somos quem não quer ser punido por um lazer aviltado pelos donos do lucro. Somos quem não quer ser exportador da morte feita aço de canhão. Somos quem quer assistir paradas do militarismo e policialismo, paradas definitivas. Somos quem quer menos leis, porém melhores e mais legítimas. Somos quem não quer ser obrigado a escolher sempre entre coisas que não quer. Somos quem quer. Somos contra quem só pode mandar e impedir. Somos quem faz. Somos, todos nós, quem cria. E quem faz não precisa mandar, nem pedir. Faz. Somos a maioria.

(Extraído de
em 02/02/2006)

Ética e Comunicação

Josemar da Silva Martins
(Professor no DCH III/UNEB. Mestre em Educação pela UQAC; Doutor em Educação pela FACED/UFBA)
/
Nestas linhas que se seguem reúno as anotações que fiz para a palestra feita em 07 de abril de 2006, no bar "O Escritório", em Juazeiro, a convite do Sindicato dos Jornalistas de Juazeiro e dos “Filhos da Pauta”. Além das anotações feitas anteriormente à palestra, adicionei aqui alguns outros elementos, pois, embora não tenha havido um debate logo após a palestra, pudemos fazer algumas discussões nas mesas de alguns amigos por onde passei e parei. Neste caso, devo agradecer a Toinho, pelo convite para a palestra, e a Carlos Laerte, Paulo César e Rafael Leal, pelos comentários que me fizeram logo em seguida, e que animou as “discussões de mesa” que fizemos.

1. A PARTE ANOTADA PARA, E MENCIONADA NA PALESTRA

1.1. Sobre a Ética?

Ética vem do latim "ethica" e do grego "ethiké". É um ramo da filosofia, e um sub-ramo da axiologia, que estuda a natureza do que consideramos adequado e moralmente correto. Axiología vem do grego άξιος (axios), valor, dignidade + λόγος (logos), estudo, tratado. É uma teoria do valor; um ramo da Filosofia que tem por objeto o estudo da natureza dos valores e dos juízos valorativos, especialmente, os morais. Considera-se a Ética e a Estética como partes constituintes da Axiologia.

A historia da Ética teve sua origem pelo menos sob o ponto de vista formal, na antiguidade grega, especialmente em Atenas, através das idéias de Sócrates, Platão e Aristóteles, cujas especulações incluíam a ética e as virtudes éticas. Segundo Sócrates, por exemplo, ninguém pratica voluntariamente o mal. Só age mal, quem desconhece o bem, pois todo o homem quando fica sabendo o que é bem, reconhece-o racionalmente como tal e necessariamente passa a praticá-lo. A virtude seria o conhecimento das causas e dos fins das ações fundadas em valores morais, identificados pela inteligência, e que impelem o homem a agir virtuosamente em direção ao bem (VÁSQUEZ, 2000).

Nesta direção, a Ética é, portanto, uma doutrina Filosófica que tem por objeto a Moral, a base de valores morais que fundam a vida em uma dada sociedade situada no tempo e no espaço; é, então, o estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana.

Em termos gerais, como doutrina Filosófica, a Ética é essencialmente especulativa e, a não ser quanto ao seu método analítico, ela jamais será normativa, característica esta, exclusiva do seu objeto de estudo, a Moral. Portanto, a Ética discute o que é moralmente aceito numa dada sociedade, e as mudanças no comportamento humano e nas regras sociais e suas conseqüências, podendo daí, detetectar problemas e/ou indicar caminhos e procedimentos.

A ética pode ser interpretada também como um termo genérico que designa aquilo que é freqüentemente descrito como a "ciência da moralidade", isto é, suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade, seja de modo absoluto. Em filosofia, o comportamento ético é aquele que é considerado bom, e, sobre a bondade, os antigos diziam que: o que é bom para a leoa, não pode ser bom à gazela. E, o que é bom à gazela, fatalmente não será bom à leoa. Este é um dilema ético típico, cujo fundamento é a base moral de determinados grupos, não podendo ser generalizado em absoluto.

A Ética, juntamente com outras áreas tradicionais de investigação filosófica, ao lado da metafísica e da lógica, por exemplo, não pode ser descrita de forma simplista. O objetivo de uma teoria da ética é determinar o que é bom, tanto para o indivíduo como para a sociedade, mas em circunstâncias específicas. Os filósofos antigos adotaram diversas posições na definição do que é bom, sobre como lidar com as prioridades em conflito, dos indivíduos versus o todo, sobre a universalidade dos princípios éticos versus a "ética de situação". Sendo assim, o que está certo depende das circunstâncias e não de uma lei geral qualquer.

A ética ainda é muito confundida e vulgarizada para nomear código de conduta de determinados grupos humanos em particular ou de corporações profissionais. É muito comum, por exemplo, falar-se Ética Médica, de Ética Jurídica, de Ética Empresarial e da própria Ética Jornalística. Neste caso, o uso do termo ética, serve para nomear um conjunto de preceitos (de caráter prescritivo), e neste caso, seria mais correto nomeá-lo como “código de conduta moral” e não como “código de ética”, visto que esta é uma apropriação coorporativa, quando não privada, do uso da palavra ética, com uma diferença apenas: enquanto que a moral ordinária não carece de registro escrito, vista que está inscrita nas próprias práticas humanas, estes “códigos de conduta moral” das corporações profissionais mencionadas, instituem-se pelo registro escrito formal; é parte de um contrato e se estabelece pela adesão que os seus membros fazem nos “atos de juramento” próprios.

E porque isso não deveria ser confundido com Ética? Por um lado porque a Ética, sendo um campo de estudo sobre a base moral, não deveria ser convertida em prescrições de conduta. Por outro lado porque, mesmo sendo ela convertida em prescrição de conduta, o que esta prescrição estabelece, extrapola o âmbito privado e corporativo de um grupo profissional particular, coincidindo com uma esfera pública, que não está restrita ao grupo em questão, mas o transcende.

Ora, na Grécia Antiga, berço do surgimento da Ética, esta estava muito mais próxima da moral e da esfera privada, já que para a esfera pública havia a política. Talvez, fora da especulação filosófica, um dos momentos mais marcantes na Grécia Antiga, onde se cruzam a esfera privada da moral e a esfera pública da política, é a condenação de Sócrates. Aliás, um ponto que confirma a ética já compondo um percurso entre o privado e o público. Mas de lá para cá, um amplo processo de deslocamento fez com que a Ética fosse lançada mais e mais para a esfera pública – e, portanto, para a política.

Isso aconteceu especialmente nas sociedades ocidentais modernas, onde se re-institui, depois da Revolução Francesa, um Estado de Direitos, como fundamento do Estado Moderno – Estado este reforçado, no século XX, pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, feita em 1948, pela Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, ONU, nascida em 1945.

Não só por isso, mas porque diversas questões que habitaram a esfera privada e que hoje merecem considerações do campo da Ética, o merecem porque já transitaram da esfera privada para a esfera pública, como os diversos problemas existentes no âmbito das relações conjugais, por exemplo. Por tais razões a Ética desde muito tempo está ancorada na esfera pública, sendo esta uma das razões que explicam o fervor de seu ressurgimento recente.

Qual, nesta direção, é o problema da Ética no dias de hoje? No meu ponto de vista (que, parafraseando Leonardo Boff, é apenas a vista de um ponto), o que reacende hoje as discussões da Ética é exatamente – curiosamente e paradoxalmente – a falência (ou, se quiserem, a transmutação) da base moral em nossa sociedade. É o exato esvaziamento da base de valores morais, ou simplesmente a escassez de valores que perfila em boa parte dos escritos recentes sobre ética.

Ora, a nossa sociedade, que veio de uma periférica tradição moderna, onde – mesmo perifericamente – havia contratos de longo prazo, acordos, palavras dadas que eram honradas, transitou, no contexto do que temos chamado muito imprecisamente de “sociedade pós moderna”, para o que o sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama de “modernidade líquida” (BAUMAN, 2001), ou seja, uma sociedade em que tudo virou fluxo; tudo escorre, “vaza” no dialeto das novas gerações; tudo está destinado a não durar mais do que o instante de um êxtase. Nessa sociedade, a moral transfigurou-se em “moral à la carte” (LIPOVETSKY, 1996), ou seja, cada indivíduo (reduzido a uma instância absoluta) tem o seu próprio código moral, sem mais nenhuma dedicação a causas exteriores a cada um e a seus próprios desejos. É uma sociedade cuja moralidade foi convertida em amoralidade (e, em muitos casos em imoralidade), que funda uma nova ética: a ética pós-moderna, conforme o próprio Bauman (1997).

É uma sociedade, portanto, que apresenta novos desafios não apenas à Ética, mas a muitos outros campos de estudos. Jurandir Freire Costa (2004), em um livro chamado O Vestígio e a Aura, discute corpo e consumismo na moral do espetáculo, e tematiza nossa sociedade como sendo marcada por uma “personalidade somática” cujas características são o hedonismo e o narcisismo, ambos ancorados e potencializados pelo consumismo e pela espetacularização do bem e do mal e do que habita as esferas pública e privada. Em tal sociedade do consumo espetacularizado, este desejo mórbido e impulsivo pelo consumo já é identificado como uma doença, cujo nome é oneomania.

Quanto à sociedade do espetáculo, a primeira importante discussão a este respeito data de 1967, antes mesmo da eclosão da “revolução cultural” de 1968. É de autoria de Guy Debord (1997), um agitador cultural e diretor de cinema, fundador da Internacional Situacionista na Itália e vinculado ao dadaísmo e ao surrealismo, que antecipou uma imagem muito precisa de uma sociedade de consumo dirigida pelo império das imagens e pela submissão alienante às mídias de comunicação de massa. Isso nos lega um ambiente social absolutamente contraditório ao que em geral se diz da própria sociedade atual. É como caracterizamos ela como sendo marcada pela primazia da liberdade e da informação (afinal, vivemos a sociedade da informação).

Em termos de liberdade a minha percepção indica que temos nos retraído o suficiente para abrir mão dela, seja em nome da segurança (o outro pólo que para Freud concorre com a liberdade na produção da experiência civilizada), seja em nome de um tal “sistema” (do qual sabemos muito pouco mas que a ele nos curvamos, e quando não conseguimos entender ou explicar bem certos processos, o senso comum manda que responsabilizemos tal entidade, o sistema, este mesmo que continua a definir muita coisa, incluindo o “tempo” e o formato das FMs). Mas também porque o Big Brother que George Orwell previu em 1984 (ORWELL, 2003), está se realizando entre nós não no programa homônimo da Rede Globo, mas no dia-a-dia, com a proliferação dos sistemas de auto-vigilância (tipo “sorria, você está sendo filmado”) que nós mesmos patrocinamos; e, além disso, porque agora é a exposição da esfera da intimidade (que é a esfera privada por excelência) que garante os maiores índices de audiência. Neste caso, tanto a esfera pública quanto a esfera privada estão sendo desconstruídas em nome de outros empreendimentos que passam a constituir uma terceira esfera, que é por excelência a esfera do negócio.

No caso dos jornalistas, esta liberdade é extremamente questionável, tendo em vista que os meios de comunicação ainda não foram democratizados (César Benjamim, em seu livro A Opção Brasileira, diz que são apenas nove famílias as detentoras dos complexos de comunicação do Brasil, incluído rádio, tv e mídia impressa). Este fato, inclusive serve para questionar a reação de muitos jornalistas que acharam que a discussão de um conselho nacional ou federal de jornalismo (discutida no governo Lula, mas cuja proposição contou com a ação da FENAJ) era algo que iria tirar suas liberdades. Que liberdade?

Em termos da existência de uma suposta sociedade da informação, desconfio que, no máximo, temos uma sociedade do plágio e da pirataria, porque a informação mesma, aquela que sendo informação é a diferença que faz a diferença – esta que é objeto das guerras e piratarias de patentes – não é disponibilizada para o acesso geral; a não ser pelos atos de contravenção, pois são propriedades privadas dos oligopólios. Tudo indica que a informação que é livre ao acesso geral (e que goza de menor prestígio) já constituiu uma cortina que faz recuar os mais acomodados (a maioria). Neste sentido, há exemplos práticos de que estamos diante de gerações que cada vez mais se acostumam à prática do copy & paste (copiar e colar), prática comum, por exemplo, no atual “jornalismo de blogagem” (blogs pessoais na internet), que em muitos casos não passa de um “jornalismo de bobagem”.

Um exemplo prático disso foi como a discussão sobre o “referendo do desarmamento” foi conduzida pela imprensa para uma direção em que o que mais se questionava era o fato de “o governo ter inventado o referendo (e ia gastar uma fortuna) para tapear o mensalão”. Discuti isso com o delegado da Polícia Civil de Petrolina (que, pelo que sei foi apanhado, depois do referendo, com um arsenal de armas em sua casa), na escola Hildete Lomanto. Os jovens ficaram enfurecidos quando eu disse que essa vinculação do referendo ao mensalão não passava de uma desinformação. Primeiramente porque quem faz lei é o Congresso Nacional e não o Presidente da república. O que o Presidente faz é sancionar. Depois porque Estatuto do Desarmamento (Lei nº 10.826) foi aprovado em 22 de dezembro de 2003, e já lá, no parágrafo 1º do Artigo 35, está dito que o referendo seria realizado em outubro de 2005. E ainda porque o estatuto foi fruto de uma mobilização da sociedade que antecedeu o próprio governo Lula. Nesta direção só é possível entender a forma como se lidou com estas informações, se considerarmos uma “sociedade da desinformação”, aonde sequer se vai atrás das fontes – e sendo assim que a imprensa “imprime” os fatos, é assim que eles passam a circular como se tivessem sido lançados em uma órbita independente.

A própria discussão recente, com a finalização da CPI dos Correios em 5 de abril, da existência de um suposto esquema de mensalão mantém duas contradições nas quais ninguém toca: a) se o mensalão era para custear a aprovação de leis favoráveis ao governo, porque foi exatamente neste período em que o governo teve mais dificuldade em aprová-las? b) se, por outro lado, este suposto mensalão era para custear a troca de partido de deputados, porque os deputados mencionados no relatório não o fizeram? Então, em que se sustenta a afirmativa de que “houve mensalão” nos termos em que foi denunciado por Roberto Jefferson?

1.2. Ética e comunicação

Fiz uma opção, um recorte, de não entrar especificamente no tema “Ética Jornalística”. Sei que esta se trata de um conjunto de normas e procedimentos éticos que regem a atividade do jornalismo, e que, embora geralmente não institucionalizadas pelo Estado, são consolidadas em forma de códigos deontológicos que variam de acordo com cada país. No Brasil funcionam as normas da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas do Brasil), com influência do código da FELAP (Federação do Jornalistas da América Latina). E sei que as práticas jornalísticas, em nossa região, vivem a contrariar tais códigos, especialmente pelo que já foi dito em termos do monopólio da comunicação no Brasil, com extensão até a nossa região; e ainda levando-se em conta o coluio da imprensa regional com os poderes políticos mais tradicionais e mais reacionários, que historicamente estiveram contra qualquer liberdade – especialmente a de imprensa. Mas não pretendi entrar nestes aspectos mais específicos.

O que quero fazer é uma relação mais ampla entre Ética e Comunicação. Como professor, fico profundamente angustiado quando, diante um mundo profundamente perturbado, vivem criando demandas para a educação. Se algo vai mal, se o trâsito vai mal, se as meninas estão parindo cada vez mais cedo, se o problema da droga invade os lares, se o meio ambiente está sendo degradado, se a violência toma conta da cidade (e nos impele a construirmos nossas “prisões domiciliares”)... Quanto mais o mundo se perturba, mais se criam demandas para a educaçào.

Isso me irrita porque, todas outras instituições sociais são igualmente responsáveis pela produção desses problemas e deveríam ser responsabilizadas e convocadas a apontar e produzir soluções. Mas não é isso que ocorre. Diz-se: “é falta de educação!” Mas não se diz que educação não se restringe à escola. Não se diz que a cidade, que a mídia, que o comércio, que o apelo consumista também educam. Não se diz que o comércio de fuleragem produz uma sociedade fulera. E o campo da comunicação participa diretamente desta produção, desta educação – afinal as mídias de comunicação de massa são hoje os instrumentos fundamentais da chamada “indústria cultural”, cunhada por Max HORKHEIMER e Theodor ADORNO (1985).

Aliás, a metáfora do “canto das sereias” que estes dois vão buscar em Homero (na Odisséia), continua sendo uma boa metáfora para tratar da indústria cultural do momento. Na Odisséia, Ulisses, iniciar o seu retorno à Grécia, foi avisado pela feiticeira Circe de que teria que passar próximos a alguma ilhas onde se encontravam sereias com cantos tão magníficos que jamais alguém resistiu aos seus encantos, tendo todos se lançado ao mar ao econtro destes, e morrido. Mas a Ulisses fora concedido o direito de ouvir e se deleitar com a beleza de tais cantos, desde que atado ao mastro de sua embarcação, enquanto que aos remadores foi negado este direito, pois estes deveriam continuar remando, desde que com os ouvidos tapados para não ouvir o mesmo que Ulisses ouviria atrato ao mastro de sua embarcação. Este mito, consitui uma metáfora em que a “bela arte” é separada para consumo da elite – enquanto os “trabalhadores” continuam trabalhando com os uvidos tapados. A diferença de hoje é que agora os próprios produtos desta indústria que se oferece ao “povo” (os remadores, a classe operária de Ulisses) foram convertidos na própria cera em seus ouvidos, não apenas para impedir-lhes a audição, mas para danificar o próprio aparelho aditivo.

Atualmente, o jornalismo e a mídia em geral oscila entre a imagem romântica de árbitro social e porta-voz da "opinião pública" e a de empresa comercial sem escrúpulos que recorre a qualquer meio para chamar a atenção e multiplicar suas vendas, sobretudo com a intromissão em vidas privadas e a dimensão exagerada concedida a notícias escandalosas e policiais. Neste sentido o jornalismo não pode ser simplesmente reduzido a uma técnica de transmissão de informações a um público cujos componentes não são antecipadamente conhecidos, mas que se supòe conhecer. Essa coisa cada vez mais banal do que “o povo gosta” e da “opinião pública”, como se as mídias não participassem da construção deste “gosto” e desta “opinião”. É preciso levar em conta que hoje o termo jornalismo faz referência a todas as formas de comunicação pública de notícias e seus comentários e interpretações. Mas não só isso, a publicidade (aqula mesma que é a máquina do consumismo), a assoria de comunicação e os órgão de “promoção cultural” participam da atividade jornalística. Não dá para deixá-los isentos.

Para evitar um relativismo banal e improdutivo – típico do dilema grego do que é bom para a gazela não pode ser bom para a leoa – é preciso achar um ponto em que uma esfera de existência comum inclua tanto a gazela quanto a leoa. Em termos humanos é isto que está em questão hoje. E se isso é algo que todos arremessam para o campo da educação, eu estou me propondo a ajudar a devolver a educação para âmbitos mais amplos que a escola, o que incluiria outras instituições e ramos profissionais, especialmente as mídias de comunicação de massa e, no seio desta, a atividade jornalística.

A paisagem da fuleragem e da banalização (esta em que o fulero é a nova figura de valor; em que o escroto é que é o bacana) é também uma paisagem de subjetivação das novas gerações; é uma exterioridade indisfarçável. E muito dos nossos problemas, incluindo o esvaziamento da base moral e a escassez dos objetos da Ética, estão aí ancorados. Se ainda há desafios éticos nobres a serem encarados, este é um deles.

2. ACRÉSSIMOS

Sei que muitos jornalistas (mais ocupados em estabelecer quem é e quem não é jornalista – aliás, uma preocupação corporativa da qual se ocupam as suas instituições de classe), não toleram esta abordagem. Sei também que poderia ter havido um debate após a palestra e que muitas coisas mais específicas sobre a relação entre ética e jornalismo poderiam ter surgido. No entanto, este foi meu recorte possível. Ademais, se o Sindicato dos Jornalistas está mesmo interessado nesta discussão, seria bom reservar um espaço para isso, com tempo para debate, sem essa agonia da mistura com álcool e barulho típicos de bar em dia de festa. Se for o caso de terem de contar comigo, estarei disponível, desde que o espaço seja mais apropriado.

Obrigado!
/
BIBLIOGRAFIA MENCIONADA E SUGERIDA

BAUMAN, Zygmunt. Ética pós-moderna. São Paulo: Paulus, 1997.

BAUMAN, Zygmunt. A Modernidade líquida. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

COSTA, Jurandir Freire. O vestígio e a aura: corpo e consumismo na moral do espetáculo. – Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

HORKHEIMER, Max & DORNO, Theodor W. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.

LIMA, Luiz Costa (org). Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

LIPOVETSKY, Gilles. A Era do Pós-Dever. In: MORIN, Edgar; PRIGOGINE, Ilya e outros. A sociedade em busca de valores: para fugir à alternativa entre o cepticismo e o dogmatismo. – Lisboa, Portugal: Instituto Piaget, 1996, p. 29-37.

ORWELL, George. 1984. – 29ª ed. – São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2004.

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão. – Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2003.

VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Ética. – 20ª ed. – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000).

CANTADA

Se se pudesse comprar certas coisas
Eu iria trabalhar pesado
Como não, eu fico descansado
/
Mas ainda assim eu preferia ter
que trabalhar muito e alienado
Se certas coisas se pudesse comprar
pagando por elas o seu devido preço justo.
/
Custo por custo, certas coisas
Não se pode mesmo comprar
Senão, era simples: "quanto custa?", "quanto dá?"
Embrulha, empacota, ensaca, bota na gaiola
Sendo bem pago, ainda posso até alforriar
/
Mas certas coisas não se pode comprar
Não há preço, tabela, moeda, câmbio negro
Fiado, crédito, prego: “pode pendurar”
/
Certas coisas só se pode mesmo conquistar
Coisa cara, cara a cara,
Preço que nem sempre se pode pagar
/
Eu compraria um par de seus olhos negros
Nem que fosse uma cópia fajuta
Enjaulava numa moldura e pregava na parede
/
Penduraria fiado a rede ali bem perto
E, de certo, esperaria as cobranças
de olho pregado naquele par de olhar
Assim eu estaria dispensado
do dispêndio de ter que conquistar
/
Mas como eu não sou coronelzinho
Como eu prefiro espernear,
Correr atrás, sofrer, fazer por merecer
/
É somente isso que posso fazer
Pra ter por apenas mais dez minutinhos
Depois que a festa acaba
Seus olhos de jabuticaba.
/
/
Josemar Pinzoh da Silva Martins
Dia 10/01/2004

sexta-feira, 9 de março de 2007

Jean Baudrillard virtualizou-se!

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor do DCH III/UNEB
\
Ultimamente tenho me tornado uma pessoa estranha. Tenho sempre um torpedo espinhoso apontado para a cara da mídia, e uma profunda desconfiança daquilo que nomeamos como "sociedade da informação". Desculpas rotineiras para justificar certas escolhas recorrem sempre a um tal "sistema" ou ao "gosto do povo" (mais comum quando se trata de justificar o apelo mercantil e matemático às massas consumidoras), e tais coisas funcionam como se tivessem se convertido em entidades tangíveis e irrefutáveis, às vezes com status de entes "científicos".

Ao mesmo tempo "povo" e "sistema" disputam um modo de nomear um novo "centrismo", uma espécie de nova revolução copernicana. E, no fundo, as duas coisas não tem outro referente a não ser o universo dos simulacros e das simulações. E, pior ainda, tal ponto de culminância é uma espécie de excedente transversal que não decorre de uma autoria facilmente localizável, mas é o que Baudrillard chamou de O Crime Perfeito: um crime sem autoria, sem culpado! No fundo todos nós somos seus autores!

Tal modo de encarar os fatos advém de certas lentes de visão que adquiri com a leitura de obras de Jean Baudrillard. Curiosamente meu contato com ele foi através de um pequeno livro (84 p.)chamado Senhas (Rio de Janeiro: DIFEL, 2001). E passei a desconfiar de que a atribuição de "pai da pós-modernidade" a ele remetida, é um equívoco, pelo menos em parte. Qualquer um de seus leitores sabe que ele jamais foi um ufanista da pós-modernidade, mas seu crítico, através do recurso de um niilismo irônico que só ele soube esboçar.

Sistema, gosto do povo, sondagem de audiência... Todas essas coisas não passam mais de simulações e simulacros (como cópias inautêncicas que já não se relacionam mais com seus referentes, e se alguma autenticidade pode ser atribuída a elas é por conta mesmo dessa distância original). Tratam-se de uma espécie de realidade pura, solta em sua órbita, compondo constelações que se engendram em novas galáxias! Eis o "sistema"! Eis a "Matrix". E o excesso de mensagens anulando a comunicação; o excesso de exposição erótica anulando o sexo; a reiteração banalizada do tosco anulando o gosto. Involução da espécie pelo progresso da técnica. É isso que ele expõe em A ilusão vital (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001).

Eu poderia arriscar que se houve algum niilismo capaz de nos devolver um senso crítico do ponto onde chegamos, este foi aquele praticado por Baudrillard. Outrora houve um Nietzsche. Mas hoje já não há mais nem um Jean Baudrillard. Ele morreu (tornou-se ele hiper-real?)!

Algumas palavras suas sobre o niilismo: "O niilismo é hoje em dia o da transparência, e é de alguma maneira mais radical, mais crucial que nas formas anteriores e históricas, pois esta transparência, esta flutuação é indissoluvelmente a do sistema, e a de toda a teoria que pretende analisá-la. Quando Deus morreu ainda havia Nietzsche para o dizer - grande niilista perante o Eterno e o cadáver do Eterno. Mas perante a transparência simulada de todas as coisas, perante o simulacro de realização materialista ou idealista do mundo na hiper-realidade (Deus não morreu, tornou-se hiper-real), já não há Deus teórico e crítico para reconhecer os seus" (Simulacros e simulações, Lisboa: Relógio D´Água, 1991, p. 195).

Concluira ele que o universo e nós havíamos entrado todos na era da pura simulação, numa esfera maléfica, ou pior, indiferente; um niilismo de matéria insólita que realiza-se não na destruição, mas na simulação e na dissuasão. Eis que Baudrillard aí ainda é niilista e já não o é mais, porque tornou-se seu severo observador. Seu crítico irônico! Uma ironia que evita deixar explícita sua busca pelo reconhecimento dos seus, mas não disfarça tão bem assim esta busca.

Ao invés de dizermos apenas que Baudrillard foi uma dos "pais" da pós-modernidade, é importante ainda buscar compreender a potência de suas palavras apontado, talvez, outro rumo. Mas agora é tarde, porque tudo o que dissermos a seu respeito; todo e qualquer uso que fizermos de seus textos e de suas idéias, já será mera simulação de seus efeitos. E seu autor nem mais estará entre nós para se defender. Baudrillard, daqui em diante será mera simulação. Tudo o que dele emanar será efeito dessa virtualização de sua existência; de sua presença em forma radical de ausência, ao mesmo tempo a nos dizer que a morte é o que há de mais real. E a virtualidade não passa dessa espécie de morte; dessa passagem. Desse duplo da existência em forma de inexistência.

Baudrillard agora é virtual!
Baudrillard morreu! Viva Baudrillard!
\
É ele que me anima ainda a simular torpedos espinhosos contra a farsa da "sociedade da comunicação" e seus simulacros, como um um Dom Quixote em luta vã contra os moinhos de vento! Sem nem mesmo a companhia de um Sancho Pança!

quinta-feira, 8 de março de 2007

MULHERES

Por mim, acho que só as mulheres podem desarmar a sociedade, até porque elas são desarmadas pela própria natureza: nascem sem pênis, sem o poder fálico da penetração e do estupro, tão bem representado por pistolas, revólveres, flechas, espadas. Ninguém lhes dá, na primeira infância, um fuzil de plástico, como fazem com os meninos, para fortalecer sua virilidade e violência.

As mulheres detestam sangue, até mesmo porque têm que derramá-lo na menstruação ou no parto. Odeiam as guerras, os exércitos regulares ou as gangues urbanas, porque lhes tiram os filhos de sua convivência e os colocam na marginalidade, na insegurança e na violência.

É preciso voltar os olhos para a população feminina como a grande articuladora da paz. E para começar, queremos pregar o respeito ao corpo da mulher. Respeito às suas pernas que têm varizes porque carregam latas d'água e trouxas de roupa. Respeito aos seus seios que perderam a firmeza porque amamentaram seus filhos ao longo dos anos. Respeito ao seu dorso que engrossou, porque elas carregam o país nas costas.
São as mulheres que irão impor um adeus às armas, quando forem ouvidas e valorizadas e puderem fazer prevalecer a ternura de suas mentes e a doçura de seus corações.

Nem toda feiticeira é corcunda.
Nem toda brasileira é só bunda.
///
Autora: Rita Lee
///

Mulheres Gostam

(De Alexandre Leão e Manuca Almeida)
(Melhor na versão cantada por Marina Elali)

Mulheres gostam flores
Mulheres gostam xampu
Mulheres gostam de espelho
Mulheres gostam de corpo nu

Mulheres gostam de homens
Mulheres gostam de gastar
Mulheres gastam o tempo
Não gostam de ver o tempo passar

Algumas gostam de mulheres
Algumas choram demais
Mulheres amam os filhos
Mulheres amam os pais

Mulheres gostam de meias
Mulheres gostam de batom
Mulheres gostam de homens
Que não perguntam se foi bom

Mulheres perdem a hora
Mulheres pedem pra olhar
Mulheres vão juntas ao banheiro
Mulheres ainda querem casar


Mulheres geram
Mulheres cuidam
Mulheres sabem amar

Mulheres choram
Mulheres dançam
Mulheres querem casar

(quem quiser ver um vídeo da Marina Elali cantando esta música acesse o endereço http://marina-elali.letras.terra.com.br/videos/IjLX5Mqn4iX/)

segunda-feira, 5 de março de 2007

NOSSA SOCIEDADE É DOENTE!

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor no DCH III/ UNEB

Da mesma forma que uma adolescente acometida da bulimia (ou de qualquer outra dessas doenças pós-modernas, como a oneomania, a doença do consumo), só poderá ser tratada se admitir-se doente, também a nossa sociedade só poderá ser remediada se se admitir cronicamente patológica. Não sofremos apenas de excesso de egoísmo, narcisismo, hedonismo e estultia. Também falta um nome mais apropriado para essa mania de auto-enganação, para essa carnavalização do desastre. E agora as novas gerações não miram mais a máquina fotográfica na paisagem que há para além de si: miram em si mesmas. É o império da auto-imagem, numa era em que supostamente estamos aptos a lidar com o outro. E onde está o outro, se só temos olhos para nós mesmos? Somos já todos os outros de nós mesmos.

Bastamos-nos! E, no entanto, vivemos enfiados em paradoxos: dizemos viver o império da liberdade, e dormimos em cárceres que nós mesmos construímos: cárceres domésticos; prisões domiciliares. Temos medo! Império do medo e da insegurança! Qual liberdade?

Dizemos que vivemos uma "sociedade da informação", ou "do conhecimento", e nos deparamos cada vez mais com as gerações do tipo "sei-que-lá-sei-que-lá". Tipo assim: "ah, sei lá!" Que confunde rebeldia com aquela coisa enlatada - o RBD - que se estende desde a TV ao DVD, e até as lojas, papelarias e salas de aula como mero objeto de consumo! Aliás, já perdemos a capacidade de discutir e de pensar a qualidade. Agora que tudo virou mero consumo, que tudo foi entregue ao mercado, só há uma regra: a da quantidade! Só conseguimos enxergar números, quantidades, massas consumidoras. Tudo o mais é abstração desprezível! É uma pena! E, talvez, o principal sintoma de nossa patologia.

Mas, ainda assim, continuamos nos encantando com os desertores da ordem do primeiríssimo mundo, que migram para cá para cair na bagunça, gozar com a nossa cara, e tentar nos convencer de que nosso caos lamacento e fedorento é sim o prenúncio do paraíso. Enquanto continuarmos nos enganando com a forma como os loucos do primeiro mundo nos olham, não conseguiremos mirar nossa própria loucura. E já perdemos a medida de tudo, e nem mais enxergamos os descaminhos de nossa barbárie! Se já confundimos tanto liberalismo com liberdade, é porque copiamos rapidamente os padrões dos outros, e pelo menos em parte nossos problemas devem-se a isso. Certamente estamos diante de uma necessidade profunda de revisão de nossas premissas civilizatórias. Admitir isso é um passo para pensar nos rumos que podemos nos dar, e ao nosso futuro!
(copiado do outro blog do autor: http://pinzoh.blog.uol.com.br/)

domingo, 4 de março de 2007

CARTA-RESPOSTA

Juazeiro, BA, 04 de março de 2007

Caríssimo José Alberto Gonçalves Lopes
Presidente da ACCORD

E demais amigos da Rádio Curaçá FM

Em primeiríssimo lugar gostaria de agradecer pelo convite que me fazem para me tornar parte da equipe de cronistas da Rádio Curaçá FM. Fico realmente lisonjeado! No entanto, coloco apenas uma prévia condição para o aceite: que esta carta-resposta seja a minha primeira crônica para a Curaçá FM, pois é nela onde exponho a vocês a minha particular (e precária) visão das coisas, e onde antecipo os riscos que podem estar correndo. O meu intuito, agindo assim, é apenas de evitar que vocês comprem gato por lebre! Por outro lado isso estaria me poupando do esforço de ter que, além de escrever esta carta, ainda escrever uma primeira crônica para a rádio. São estes os meus termos para o aceite!

Passo então a expor o meu modo de encarar o compromisso e a concomitante responsabilidade que estão implicados na manutenção da existência de uma rádio comunitária, em uma cidade interiorana como Curaçá, no atual estado de nossa civilização.

Gostaria de retomar aqui uma frase sua, José Alberto, na única reunião da ACCORD da qual participei. Diante de uma colocação minha, sobre a necessidade de inovar, você afirmou que “não podemos começar as coisas já inovando”. Nesse ponto nós estamos substancialmente em desacordo. A inovação é inerente ao reinício dos ciclos de formação e integração das novas gerações, mesmo em situações de tradições muito fechadas, o que não é o caso aqui. A inovação é o que faz a história andar, é a produção de um desvio criativo, antes mesmo de a criatividade ser aprisionada no establishment institucional das tradições conservadoras. A inovação é, inclusive, um dos discursos mais potentes hoje, no interior dos processos de formação dos gestores dos novos negócios do mundo. A inovação é ainda o que pode mais perfeitamente responder à pergunta: como é que faz para andar na frente? Portanto, é perfeitamente possível – e até desejável – que a experiência desta rádio inicie inovando, até porque estamos todos nós aprendendo, e essa abertura nos levaria mais facilmente à inovação.

Mas, para inovar, meus caro, é preciso exercitar a dúvida, fugir do óbvio, pensar, inventar linhas de fuga em relação aos caminhos já afundados. Ultimamente vivemos de cópias baratas, de plágios, de pirataria. Seríamos mais autênticos se fôssemos nós os inventores de discursividade, os inventores de novas possibilidades criativas para a comunicação, e não meramente os plagiadores.

Acontece que pensar na atual situação do mundo se tornou uma tarefa penosa que ninguém mais quer se dar ao trabalho. Tudo parece estar disponível em algum lugar para ser copiado. A internet tornou-se o mar onde se pesca tudo, inclusive as falsas cópias, que sequer checamos a autenticidade. Nesse sentido – tenho discutido isso com os alunos de Comunicação Social na UNEB –, a tão aclamada “sociedade da informação” tem se tornado a da impossibilidade da comunicação, exatamente porque a comunicação tornou-se o lugar por excelência da mera simulação; o lugar do simulacro, da invenção das realidades e da produção da necessidade e do gosto, para dispor massas de consumidores anestesiados que sustentam a máquina do capitalismo mundial integrado! A questão é: uma rádio comunitária deve apenas se prestar a ser mais uma extensão disso? É possível que ela aponte outra direção? Qual é mesmo o seu sentido político? É enxergar a política no jogo dos “lados partidários” locais, ou enxergá-la para além dessa fronteira, nas maquinarias mais complexas de produção do desejo, do consumo e da alienação?

Por exemplo: ouvi também naquela mesma reunião à qual já me referi que a rádio tem que atender ao gosto do povo. Ora, muito bem! Isso significa que se o povo preferiu, por exemplo, eleger um determinado político, nós temos apenas que aceitar isso como um determinismo – inclusive sem considerar os modos pelos quais se produzem as inclinações políticas, hoje fruto cada vez mais dos planejamentos publicitários? O que é o gosto do povo? Cada um trás o seu gosto de berço? Gosto é que nem c., cada um tem o seu? Estamos dispostos a entender que processos complexos produzem hoje o chamado gosto popular? Alguém de vocês já perguntou por que certos estilos musicais, por exemplo, tocam mais nas rádios? Alguém já perguntou ao gerente do BOMPREÇO, em Petrolina, porque sempre que a gente entra lá, está sendo exibido o DVD de uma determinada banda ou artista? Já tentaram ver como funcionam os esquemas de vendagens nas maiores lojas de disco? Alguém, por exemplo, já ouviu falar em jabá? Já ouviram falar em Indústria Cultural? Sabem no que ela consiste? Entendem que a reiteração de certos produtos não é apenas fruto de uma espontaneidade popular dos consumidores? São estas as minhas questões para vocês.

Se me pedem para ser cronista da Rádio Curaçá FM, não esperem mais do que a minha disposição em problematizar estes lugares comuns, amplamente reiterados, quando se trata de discutir a comunicação, ou o gosto do povo, ou qualquer outro chavão banalizado. Como educador não suporto mais ouvir alguém dizer na imprensa que tudo é questão de educação. Enquanto isso, não apenas a educação continua sendo tratada como pano de chão, como também ela é reduzida à educação escolar. Como educador tenho me disposto a saber, por exemplo, dos responsáveis pela mídia em geral, quais suas responsabilidades com essa educação que eles mesmos dizem que está faltando.

Agora mesmo há uma discussão suscitada pelas recentes cenas de barbárie, sobre a redução da maioridade penal. Todos os que se opõem a isso dizem que em vez de reduzir a maioridade penal é preciso dar educação. Mas ninguém diz que parte da barbarização que estamos vendo, é fruto da reiteração da barbárie por parte dos meios de comunicação; é fruto da estética da barbárie, cujo sangue das telas respinga na vida real. Mas ninguém responsabiliza a mídia por isso. Ela própria faz-se de desentendida e transfere a responsabilidade pela “salvação da sociedade” à escola. E em geral culpa governo. Quer dizer que todo mundo pode “deseducar” e apenas a escola e o governo devem educar? Todo mundo deve continuar ganhando dinheiro vendendo banalidade e depois a conta fica com a escola e o governo? Essa lógica não se difere da lógica do narcotráfico, pois hoje em dia não são apenas os narcotraficantes que vivem de vender drogas – inclusive porque certos produtos culturais têm os mesmos efeitos psicoativos que qualquer narcótico. Vamos encarar os fatos!

Assim sendo, não posso acreditar numa rádio, comunitária ou não, que não se preste a problematizar isso! E, sendo comunitária, o espectro das motivações que a fizeram existir, lhe convoca a ser vetor dessa problematização.

Curaçá é, como qualquer cidadezinha do interior, o espaço primordial para a expansão de atividades e negócios de toda ordem. Atualmente ela está atravessada pela lógica da fuleragem pública. O “fulero” (ou fulheiro, como consta no dicionário) hoje virou signo de moralidade. E quem produziu Isso? E, diante disso, tudo que podemos fazer é festejar e reiterar essa virada moral e ética?

Eu não acho que o gosto do povo é isento de manipulação. Não acredito em sua “santidade” e isenção. Eu não acho que as coisas merecem apenas ser entregues à lógica das quantidades consumidoras. Eu não acho que a cidade deva ser apenas o palco generalizado dos negócios – que produzem todo tipo de lixo material e imaterial. Não acho que esta atitude liberal nos leva a lugar algum. Nesse sentido, entendo que a contribuição de uma rádio como esta é potencializar a condição da cidadania? É provocar sua melhoria! É animar um debate público das questões públicas? É ser guardiã da esfera pública, que não diz respeito apenas ao que é da Prefeitura, mas diz respeito ao comum. É impedir que fiquemos presos a uma nova caverna de Platão – cujas sombras agora podem ser animadas e projetadas não nas paredes, mas nas telas, pelos recursos tecnológicos dos quais dispomos.

Uma rádio como esta não pode se dar ao luxo de ser apenas uma vitrola cuja caixa de som tem um alcance maior. Ela precisa se converter em espaço de problemtização. Precisa chamar à responsabilidade as autoridades locais. Precisa saber da justiça local, que proíbe que os bares funcionem depois das vinte e três horas, o que mais têm a propor para a cidade, para as juventudes, para as crianças. Precisa saber dos políticos se eles estão interessados apenas no espetáculo, na política de “pão e circo”, através da qual fazem a manutenção de suas posições e privilégios, impedindo que o povo pense sobre isso. Precisa saber das lideranças se apenas se preocupam com suas auto-imagens. Esse é o espaço que eu acho que esta rádio pode ocupar.

O resto é manutenção do entretenimento alienador, e qualquer porta-malas de carro pode fazer muito bem este trabalho.

Caso desejem que eu pertença à equipe de cronistas da Rádio Curaçá FM, comecem por admitir essa perspectiva de crônica.

Atenciosamente

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

DIA A DIA

MINHA PAIXÃO
É DA COR DO PÔR-DO-SOL
DE TODO DIA
É DA COR DA POESIA
PERDIDA NO DIA TODO
MINHA PAIXÃO À NOITE
ESQUECE DE SONHAR...
SE CANSA, ADORMECE!

(Pinzoh, 1988)

LAMENTO DE SERPENTE

Ah! As mangas da minha camisa
Desbotaram nessa brisa, nesse sol
Nesse caminho afundado
De tanta gente passar

De tanta gente sofrer, sorrir, chorar
De tanta gente pisar
Nesse caminho
Que eu não sei onde vai dar

Ah! Mas em meu peito desce um rio
Preso a um fio do seu cabelo
Feito serpente acorrentada
Num cílio do teu olhar

E água abaixo leva a sede de te ver
Crescendo rama,
Se estendendo em minha cama
A me agasalhar

(Pinzoh, 1992)

LUZ HUMANA

teu riso é lindo
teus olhos brilham
teu corpo é luz

teu beijo é doce
fosse eu, teu. Fosse!
seria forte

teu beijo é lindo
teus olhos doces
corpo que brilha

teu riso é luz
que não se pode racionar

(Pinzoh, 1988)

MEU VERSO

TENHO UM VERSO AVESSO, TORTO
MORTO DE TANTO SER VERSO
CERTO QUE QUER SER O INVERSO

NASCEU PRA BUSCAR ESPAÇOS
BRANCOS, PRETOS, POUCO, AOS MAÇOS
CONTANTO QUE LHE CAIBA INTEIRO

TENHO UM VERSO CONPANEIRO
QUE GUARDA AS COISAS QUE DIGO
BRIGO, REZO, ESPRAGUEIJO
TUDO NA BOCA DO VERSO

TENHO ATESTADO DE LOUCO
QUE VEIO DEPOIS DO VERSO
TENHO TAMBÉM ESTADO AVESSO
QUE É O PREÇO DE TER UM VERSO
QUE SE PARECE COMIGO


(Pinzoh, Outubro/97)