terça-feira, 6 de outubro de 2009

EU SÓ PEÇO A DEUS

Como nossa "sociedade da informação" é traiçoeira, procurei saber quem era o autor ou a autora da música "Eu Só Peço a Deus", que foi, em algum momento, gravada por Beth Carvalho & Mercedes Sosa. A internet isiste em me informar que a música é de Beth Carvalho. De longe eu sei que não é: contesto. Procuro um pouco mai e encontro nome de Léon Gieco, e depois o nome deste associado ao de Raul Elwanger. Aposto que estou chegando perto. Mas já sei que sou vou saber ao certo, quando outras fontes, além da internet, eu acessar. Por enquanto segue a letra da música um vídeo já repetitivo na internet, que não dá nem os créditos de si, nem dos autores da música e de quem a canta. É um exemplo!
EU SÓ PEÇO A DEUS

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o q’eu queria

Eu só peço a Deus
Que a dor não me seja indiferente
Que a morte não me encontre um dia
Solitário sem ter feito o que eu queria

Eu só peço a Deus
Que a injustiça não me seja indiferente
Pois não posso dar a outra face
Se já fui machucada brutalmente

Eu só peço a Deus
Que a guerra não me seja indiferente
É um monstro grande e pisa forte
Toda fome e inocência dessa gente

Eu só peço a Deus
Que a mentira não me seja indiferente
Se um só traidor tem mais poder que um povo
Que este povo não esqueça facilmente

Eu só peço a Deus
Que o futuro não me seja indiferente
Sem ter que fugir desenganando
Pra viver uma cultura diferente

video

Tempos!

Um dia antes da morte de Mercedes Sosa um amigo, que é também dono de rádio, me falou preocupado que há uma coisa estranha: a geração de agora não conhece artistas como Milton Nascimento, como se tivesse havia um vácuo de comunicação entre esta geração e a anterior. Mais por impulso do que por falta de educação respondi na bucha que isso era também culpa dele e dos outros donos de rádio, que se acostumaram ganhar dinheiro oferecendo porcaria à população. Não chegamos a dar continuidade à conversa.

Um dia depois, morreu Mercedes Sosa, no dimingo, dia 4 de outubro, aos 74 anos. Fiquei sabendo apenas na segunda, no Jornal Hoje. Pensei, imediatamente: “e quem é Mercedes Sosa para a maior parte das pessoas que neste momento estão em frente à televisão?”. Ora, pouco importa! Os sonhos que tínhamos, quando a ouvíamos e dela gostávamos muito, viraram bosta. Agora andamos em bando em busca de outras coisas que nem sabemos o que é! Estamos por aí, repetindo que hoje o que conta é ganhar dinheiro, nem que seja vendendo droga (como as muitas pérolas que as FMs vendem), e “se jogar na vida e vivê-la”. Parece bom!

O mundo é outro! Novo! Livre! Alguns dirão que é a sociedade do conhecimento. Eu acredito por um breve instante e por um breve instante espero que os meninos vão entar na internet e destrinchar o que está por trás do nome da artista morta. Mas, que nada, eles estão ocpudados demais ao MSN, no orkut, no youtube, revendo mil vezes as cenas de Pânico na TV ou de Se liga Bocão. Os outros estão em frente à TV vendo futilidades, tipo “todo enfiado”, para que a vida seja sempre leve! Alguns outros estão sintonizados nas FMs, ouvindo a série de besteiróis do momento, que se repetem em todas elas como se fosse uma espécie de trase!

Se jogue meu rapaz, que a vida é esta! E não reclame do peso dessa leveza!

sábado, 12 de setembro de 2009

SUSPENSO

(SEGUE O TEXTO ABAIXO, QUEM QUISER PODE PONTUÁ-LO, CORRIGI-LO, POIS EU FI-LO PORQUE QUI-LO)

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não é grande

mas essa atriz tem uma voz massa

agora sou só ouço o som

e um veludo comprido

no verso

perdi o passo

meu passo

pode até perder um ésse

que eu sigo aceso

não cesso

diz a língua que esse S não existe

êsse ésse

não é grande

o meu conhecimento disso

tenho pra mim que o erasmo

tá melhor que o roberto

berra um cabrito

e nesse horário eu já não presto

amanhã talvez penso nisso

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(OBRIGADO A QUEM FÊ-LO)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

TUDO ENFIADO NA HIPOCRISIA


Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Professor da UNEB no DCH III (Juazeiro)

Consta que uma professora por nome Jaqueline Carvalho, que lecionava no Colégio Objetivo em Salvador, para crianças de 5 a 7 anos, foi demitida da escola porque, num show de uma banda chamada “O Troco”, ela subiu no palco e dançou uma música chamada “Todo Enfiado”. Ali por perto estavam vários malas, praticantes indiscretos do voyeurismo, equipados com celulares com capacidade de filmagem. Gravações em vídeo em baixa resolução (aliás, a baixa resolução é perfeitamente coerente com o contexto em questão) foram parar no Youtube, pois o atual voyeurismo tecnológico sempre resulta nisso. Os vídeos “bombaram” e a professora teve que se explicar na escola e acabou sendo demitida e tendo que se mudar do apartamento onde morava com a filha.

O contexto é o seguinte: a banda é apenas uma entre milhares que, na falta de capacidade lingüística e espaço social para explorar outros universos de sentido, atua na linha abaixo da cintura. As letras das músicas, a exemplo da música em questão, são as pérolas da Novíssima Música Popular Brasileira – considerando que esse tipo de estética musical não se resume à Bahia – e exploram expressões de escatologia e escracho que são muito bem aproveitadas pela indústria do entretenimento no Brasil inteiro. Com este tipo de material, muitos canais de TV, muitas rádios AM e FM, principalmente, fazem a sua audiência, e amparando esse negócio, que tem a audiência como critério principal, muitos empresários corroboram com esta realidade ao escolherem justamente tais formatos estéticos para veicularem suas propagandas e sua publicidade institucional. Que merda!

Antes de qualquer coisa, uma constatação: quase todo mundo está interessado nesse negócio, ganha dinheiro com isso, inclusive ampara tais escolhas estéticas e econômicas com justificativas do tipo “liberdade individual”, “liberdade de expressão”, “gosto popular”, etc. Claro que não sabemos mais o que significam tais coisas, mas isso não deixa de operar justificativas para todo tipo de atividade espúria, no entanto, em geral não questionável, pois nem sabemos mais por onde começar um questionamento disso.

Tenho acompanhado a repercussão, a professora tem participado de alguns programas de qualidade similar ao episódio, já alcançou seus 15 minutos de fama, dizem que está recebendo propostas para entrar em uma banda, como dançarina, e outros especulam se a Playboy estaria interessada nela, para pousar pelada. Eu por mim acho que ela não tem calibre para tanto. Mas não duvido que ela chegue a ser apresentadora de programa infantil na televisão, pois parece ser assim que a coisa tem funcionado, no ritmo do “tudo enfiado na hipocrisia”. Mas nossos argumentos é que são péssimos! No final das contas, apenas a professora é que é julgada. Uns a perdoam, outros a execram. Isso tudo não sai do senso comum mais rasteiro. Em geral os argumentos esbarram em três formas básicas:

a) A primeira forma é do argumento de puro relativismo niilista, que não é “nem contra nem a favor, muito pelo contrário, quanto mais principalmente, tanto neste caso quanto noutros, se bem que cada caso é um caso” – forma esta que não é senão uma forma charlatã, proselitista e dissimulada de não dizer nada, exatamente porque não sabe e não tem o que dizer;

b) A segunda forma é a do argumento acadêmico, hoje muito próximo da primeira forma, pois também os intelectuais se demitiram da função de oferecer alguma possibilidade de interpretação do mundo que se destaque pelo menos um pouquinho da média atingida pelo senso comum – a maior parte dos intelectuais hoje se contenta com um “quem sou eu para julgar seu ninguém” ou com um “isso é representativo das formas autônomas do povo viver e se divertir”, como se já não houvesse uma vampirização dessas “formas autônomas” do povo viver e gozar;

c) A terceira e última forma é a do argumento moral, transversal a todas as outras formas, que acha que algumas categorias de pessoas não podem viver como as demais, nesse caso, uma professora, apenas ela, não pode sair por aí mostrando a bunda, quando todo mundo mostra e convoca a mostrar; como se os “aluninhos” da professora já não estivessem infestados por esses conteúdos, que estão na rua, nos porta-malas dos carros, nos bares, na praça, nas festas de largo, na TV, nas rádios e em todos os lugares, muitas vezes sustentados com dinheiro público destinado à cultura. Por que é a professora que tem que pagar o pato sozinha? Por que apenas é dos professores que se cobra a responsabilidade de dar bons exemplos e formar valores?

No geral o que há é uma confusão entre o universo das escolhas individuais, relativa à esfera privada, e a esfera pública. A professora até pode ser perdoada porque estava alcoolizada. Ou seja, ela tem direito de ficar doidona e fazer a extravagância que quiser. Claro que se, ao invés de álcool ela tivesse fumado unzinho, tava mais ferrada ainda! Mas no geral o bafafá não passa desse limite! A própria nocividade da exposição do ato da professora, feita pelos malas-paparazzi e seus celulares e pela própria banda (é a mão do vocalista que arregaça a intimidade da moça), esse big-brother, essa especulação da intimidade movida a enorme falta de ética, não entram na questão.

Vendo os depoimentos da professora concluo que, como professora, ela é fraca! Quer se vingar dos vizinhos “voltando por cima”, depois que virar dançarina de pagode-putaria. Ela sequer percebe que a parte mais frágil nessa história toda é ela própria; que tem muita gente ganhando dinheiro com o episódio que ela protagonizou – os próprios programas de TV e de rádio que fizeram audiência com o ela, e a própria banda que, em decorrência isso, pôde sair do ostracismo. Só ela perdeu até agora, e é apenas dela que se cobra decência. Tudo o mais pode ser indecente! Se ela não é capaz nem perceber isso, se não é capaz de julgar os efeitos de seu ato e ver o nível de hipocrisia que ela fez aparecer, ela é uma coitada, não merece piedade nem ser professora.

Eu prefiro ficar com a oportunidade de afirmar que tal episódio só fez aparecer o nosso atual nível de hipocrisia. Todos os dias, em algum lugar, coisas parecidas acontecem até em praça pública, com a presença majoritária de crianças e com recursos públicos. Vimos isso quando filmamos “O Estado da Arte da Fuleragem”. A cidade de Salvador então, está repleta dessas jóias. Coisas como “Cadeira Erótica”, “Surubão” e outras piores animam festivais de exibição e simulação erótica em vários lugares todos os dias. Por isso não condeno a professora isoladamente, embora ache que qualquer pessoa com um pouco de noção da própria hipocrisia social, não faria o que ela fez. Mas a coitada é mais vítima do que vilã. Nem se deu conta de que, como professora, ela herda uma carga de responsabilidades que eu mesmo já nem quero para mim; mas é como pessoa mesmo que ela deveria ser mais cuidadosa. Por outro lado, o mais importante é isto: se é preciso educar bem as crianças, que estejam também interessados nisso a mídia como um todo, os empresários (que vendem entretenimento como se fosse droga), e todos os que apóiam e lucram com isso. Não pensem que é a cena da professora que vai "danificar" as criancinhas. Esse mesmo conteúdo que pode "danificá-las", está aí, em todos os espaços sociais, convocando todos a se jogarem. E quem liga? É isso que deveria entrar na discussão!

quinta-feira, 11 de junho de 2009

DO CORREIO CAROS AMIGOS

Peço permissão à Revista Caros Amigos e ao Correio Caros Amigos para replicar aqui, o escrito abaixo, que recebi por e-mail e que vem datado de 10 de junho de 2009. Na verdade é apenas a minha contribuição no oferecimento de outra posição e de outra visão das coisas, que não seja aquela emanada das grandes corporações da mídia nacional e nem da ANJ. Aliás, a justificativa do meu interesse por isso pode ser acrescida da informação de que eu não sou jornalista; sou educador.
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Nova descoberta da Petrobrás abala mídia grande


A criação do blog da Petrobrás merece atenção não apenas por levar a público informações relevantes sobre a maior empresa do Brasil – isto já era feito por sua página na Rede. O grande diferencial do blog está em sua postura firme e decidida na divulgação de sua versão dos fatos e, o que é mais importante: a crítica contundente – e elegante – do posicionamento editorial das corporações de mídia




Foi assim com a Folha de S. Paulo, que afirmou em sua edição do dia 6 de junho que a Petrobrás possui 1.150 jornalistas em sua equipe de comunicação, mas não publicou o desmentido enviado pela empresa. No dia seguinte o blog denunciava a omissão. O mesmo foi feito com matérias publicadas pelos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo. Em postagem no dia 5 de junho, o blog da Petrobrás registra, na íntegra, todas as perguntas enviadas por esses três jornais, bem como as respostas encaminhadas pela empresa. E sempre fazendo questão de dizer que apóia a liberdade de imprensa e de ampla circulação das informações.

Com menos de uma semana de vida, o blog foi alvo de violenta crítica de O Globo. Matéria publicada em edição dominical (7 de junho) acusa a empresa de “vazar informações”: “Empresa quebra confidencialidade de perguntas enviadas à assessoria de imprensa pelos veículos de comunicação”, diz o subtítulo. O texto começa afirmando que a Petrobrás é “alvo de suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos”.

A onda raivosa contra a Petrobrás chegou ao ápice neste dia 8 de junho com a divulgação de nota da Associação Nacional de Jornais (ANJ), espécie de confraria das virgens imaculadas da imprensa. A cara de pau é tanta que o senhor Júlio César Mesquita, que assina a nota, afirma que o blog encampa uma “prática contrária aos princípios universais de liberdade de imprensa” e que se trata de uma “política de comunicação que visa a tutelar a opinião pública, negando-se ao democrático escrutínio de seus atos”. Como, santo Deus, se o blog publica tudo na íntegra – diferentemente das corporações de mídia?

Na verdade, a nota da ANJ é bastante esclarecedora. Se lida ao contrário. Para tanto, basta lembrarmos que atores patrocinaram um golpe de Estado no Brasil, em 1964, em nome da democracia e da liberdade de imprensa. E para que não restem dúvidas vamos consultar a história recente do país e relacionar os setores que sempre lucraram ao manter a opinião pública debaixo de rígida tutela, sobretudo numa época em que não existia a internet – cujas possibilidades põem em marcha uma verdadeira revolução nos meios de comunicação no mundo inteiro. Por fim, vamos notar que esses grupos são os mesmos. E são também os mesmos que juravam de pé junto que no Brasil não existia petróleo...
O argumento político das suspeitas de má gestão e favorecimento político em contratos – todos levantados pela direita entreguista, vale destacar – não se sustenta, posto que acusações semelhantes são simplesmente ignoradas pelos mesmos veículos de comunicação. Exemplo: a denúncia feita pelo deputado federal Ivan Valente ao Núcleo Piratininga de Comunicação de contratos suspeitos firmados entre a editora Abril e o governo do Estado de São Paulo, controlado pelo PSDB. Segundo o parlamentar, nada menos que 10 milhões de reais foram destinados à empresa, sem licitação, só no segundo semestre de 2008.O fato é que o monopólio dos meios de comunicação de massa no Brasil acostumou-se a descrever o país segundo sua própria concepção de mundo. Como não havia voz discordante, esse sistema sempre esteve à vontade para mentir, distorcer, manipular e omitir informações, sem jamais encontrar uma força política proporcional que lhe opusesse resistência.

Esse momento talvez tenha chegado. Agora, a maior empresa brasileira – e a maior do mundo em tecnologia de prospecção de petróleo em águas profundas – criou uma ferramenta capaz de fazer frente à máquina de propaganda neoliberal. Em menos de uma semana o blog da Petrobrás alcançou nada menos que 100.000 visitas, uma repercussão capaz de desestruturar o esquema dos veículos que manipulam as informações para prejudicar a empresa. Se milhares de pessoas passam a ter acesso aos argumentos da Petrobrás diretamente da fonte, e os comparam com o que foi publicado pela imprensa, então esta imprensa é quem será julgada pelos leitores. A nova descoberta da Petrobrás abalou a tática da mídia grande, que consiste em dizer sem permitir o contraponto.
O acesso a diferentes fontes com o advento da internet, aliás, pode ajudar a explicar o recente relatório divulgado pelo Instituto Verificador de Circulação, que aponta declínio na tiragem dos jornais de maior circulação no Brasil. Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Dia estão entre os que mais perderam circulação, sobretudo neste primeiro trimestre de 2009. Não vendem, nem influenciam tanto quanto antigamente. O Globo, só na última década, perdeu mais de 20% da circulação. Por outro lado, a tiragem dos jornais populares e democráticos vem subindo, como evidencia o próprio blog da Petrobrás e outras tantas iniciativas.
Por fim, é preciso ressaltar que se a maior empresa do Brasil vem mudando a partir da nova gestão – mais contratações em concursos públicos, novos investimentos no país e aumento no lucro líquido – ainda existem problemas que prejudicam substancialmente o desenvolvimento do país, sendo a manutenção da quebra do monopólio estatal do petróleo o mais grave deles. E num momento em que os contratos da empresa são questionados, dou minha contribuição: por que não investir na criação e consolidação dos jornais, revistas e blogs que, faz tempo, têm mostrado que praticar Jornalismo ainda é possível? Uma imprensa que mereça este nome é o pilar que resta ser erguido para a constituição da democracia no Brasil.




[Marcelo Salles, jornalista, é coordenador da Caros Amigos no Rio de Janeiro, editor do jornal Fazendo Media e integrante do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.]
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segunda-feira, 8 de junho de 2009

CRÔNICAS DA (IN)SUSTENTABILIDADE

Participei, entre os dias 26 e 29 de maio, em Campina Grande, PB, do "II Simpósio sobre Mudanças Climáticas e Desertificação no Semiárido Brasileiro". Eu fora convidado para uma mesa sobre tecnologias para difusão de informações na rede de ensino. Bom foi ter interagido com outras falas e com a discussão em geral. Saí de lá convencido de uma coisa: nós pensamos mal a questão "sustentabilidade" e pensamos mal o papel que a educação joga nisso tudo. Mas há esperanças!
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Ponto 1.
Por princípio, educar alguém não resolve nada do ponto de vista da sustentabilidade, não produz, a priori, nenhum tipo de reorientação da nossa relação com os meios e recursos naturais. A degradação ambiental é produzida por ações que derivam da sociedade altamente escolarizada. Neste caso, a educação, a ciência e a tecnologia, antes de serem solução, são parte do problema. Temos que acabar com a visão de que são os pobres e desescolarizados que degradam o meio ambiente. Quem degrada é a sociedade altamente tecnificada, industrializada e consumista.
Um Dr. de São Paulo, do INPE, disse que primeiro houve a SOCIEDADE EXTRATIVISTA, depois a SOCIEDADE DE TRANSFORMAÇÃO (a industrial) e agora a SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO. Quis fazer entender que a sociedade que mais causou dispêndio na natureza foi a primeira. As outras não! Principalmente a última. Disse isso com pose de quem está dando a mais fantástica das notícias! Como se na sociedade da informação, silício, petróleo e energia, não fossem derivados de modos profundos de extração. Um extrativisto levado às últimas consequências. Como se computador não ajudasse a exaurir o que a terra pode oferecer.
Disse o Doutor que um bastão de papel é menos degradante do que um bastão feito de galho de árvore. Nem pensou em quantas árvores têm que tombar para produzir um bastão de papel. Disse que a diferença é que o bastão de papel gera atividade remunerada e isso permite produzir inclusão. Esqueceu-se que nós conhecemos a história do capitalismo, que é a história da remuneração, e isso não produziu inclusão, muito pelo contrário...
Disse que a solução do mundo é educação integral... fez com que essa pronúncia fosse feita de boca cheia, de modo que a sonoridade ressoasse no auditório!
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Ponto 2.
Meu raciocínio é simples: quanto mais a gente refrigera, mais esquenta! O esquentamento é fruto do aumento da pressão antrópica, do aumento cada vez mais acelerado das atividades de produção, consumo e descarte. Aí esquenta. Quem pode, compra refrigerador. Quanto mais refrigeradores ligados, mais o planeta esquenta. Simples! E espero que os cientistas me desmintam. Principalmente os do INPE! Os economistas e o pensamento medíocre dizem que o Brasil tem que crescer a 6% ao ano, pelo menos. Isso resolve o problema da economia nacional e ajuda a resolvê-la em termos globais; isso cria oportunidades individuais (principalmente se as pessoas estiverem escolarizadas, com formação acadêmica sofisticada e especializada), MAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA AMBIENTAL. Pelo contrário, aumenta-o! O aumento da produção e do consumo, aumenta a pressão sobre a natureza! Não há outra fórmula! Se há, nós não a conhecemos! Nós não estamos discutindo a produção de outra experiência civilizatória, baseada na diminuição da produção e do consumo. Isso implicaria em rever muitos dos nossos discursos e re-orientar a nossa vida coletiva. Mas não estamos fazendo isso! Estamos dizendo: "consumam, para nos tirar da crise!". Sequer estamos discutindo a redistribuição das riquezas já produzidas e acumuladas e o problema da desigualdade. Estamos, ao contrário, discutindo como aumentar a produção e o acúmulo em poucas mãos de mais riqueza. Apenas isso! Essa direção não serve para a questão da mudança climática e do esquentamento...
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Ponto 3.
E a questão da Educação? A Educação deve salvar o mundo. Todo mundo deve ganhar dinheiro e gastar, comprar e sujar à vontade, mas a educação deve salvar o mundo. Os professores estão depressivos, doentes, aviltados de todas as formas, fudidos e mal pagos, mas eles devem salvar o mundo. Nenhum doutor, tipo do INPE, aconselha seu filho ou filha a irem para a docência (especialmente no setor mais fragilizado, a educação fundamental), pois há profissões mais nobres, sobretudo aquelas em que se pode granhar muito dineheiro quanto mais rápido melhor, e aumentar o poder de compra e consumo, bem no estilo que só faz degradar mais rápido o meio ambiente... mas a educação deve salvar o mundo! Isso, para mim que sou educador, é o fino da hipocrisia!
Eu sei que todo mundo quer ser bacana, que todo mundo tem o direito de ganhar dinheiro e gastá-lo como quiser. Eu sei que a escola ajuda a abrir essas possibilidades e todas as pessoas têm direito a esse direito. Eu sei que esta é nossa idéia básica de inclusão. Mas isso não resolve nada do ponto de vista da diminuição de nossa pressão sobre o meio ambiente! Não apenas a educação não vai salvar o mundo, como também ela sozinha não pode produzir outra experiência civilizatória, sem que a produção da vida ande noutra direção. Enquanto a escola trabalha valores, os outros meios esvaziam os valores e dizem apenas: "consumam, desejem, vivam o êxtase... e o resto que se exploda".
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Ponto 4.
Tudo bem! A Educação pode ajudar. Mas a educação não está apenas na escola - que tem virado uma ilha. A educação está também na TV, na rua, na praça pública, na festa. Mas esses espaços já foram transformados, por políticos e empresários medíocres, em poleiros de degradação e drogadição. Educação? Sim, eles educam, mas se educassem bem, não estaríamos requisitando a escola para que ela salve o mundo.
Quem quer saber de educação? Eu, que sou educador e não pretendo ser mártir, acho que ela pode fazer muito. Principalmente se os professores começarem a ser tratados com dignidade, principalmente se os espaços escolares forem re-investidos de dignidade, se neles houver espaços e tempos para outras linguagens... Principalmente se deixarmos de comprar livros bestas e caros dos cartéis da indústria do livro didático, basicamente situados em São Paulo. Principalemente se começarmos a ousar produzir novos discursos e novas práticas, sem esperar que sejamos autorizados pelos intectuais do primeiro mundo.
Principalemente se estes discursos vierem acompanhados de ações concretas que apoiem nossa capacidade criativa, para prduzir outros materiais didáticos: livros didáticos, literatura de apoio, filmes, vídeos, CDs, DVs, músicas, jogos... contextualizados segundo nossos dilemas, anseios e auto-imagem! Isso talvez até ajudasse a resolver nossa auto-imagem! Talvez, com isso, não salvássemos o mundo, mas pudéssemos re-orientar algumas práticas, a partir de conteúdos encorajados a tematizar o espectro de nossas relações e a nossa feição civilizatória.
Sem engessar a criatividade; mas também sem deixar essa criatividade escrava do liberalismo de nossa época! Aqui há de haver partilha de sentido e compromisso!
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Ponto 5.
Temos que mostrar que somos capazes disso! Sem a tutela dos Doutores do centro. No máximo, parcerias isonômicas. Nada de submissão! E quanto mais nos experimentarmos nisso, mais Capital Social se produzirá entre nós. Neste sentido, o mais importante é apostar na capacidade e na estética dos subalternos! Abrir-lhes oportunidades; apoiar os sabres e aperfeiçoar-lhes a formação técnica e valorativa, para que sinalizem de modo criativo outros universos de sentido!
É por aí que acho que o INSA cumpre um papel importantíssimo nisso, que ainda está em construção! Vamos construí-lo!

segunda-feira, 25 de maio de 2009

EVANDRO TEIXEIRA E O JORNALISMO DE SUPERFÍCIE

Evandro Teixeira, um dos mais renomados fotojornalistas brasileiros esteve em Juazeiro. No Centro de Cultura João Gilberto, no dia 22 de maio, abriu a exposição de fotografias do Mural Galeria Euvaldo Macedo, com fotos do livro Canudos 100 anos. Ali o céu se move! Está em todos os lugares, e te olha, e dança por trás dos personagens!
Depois da abertura da exposição mostrou fotos de seu acervo e contou as histórias que as fotografias, por si só não contam. Talvez seja preciso lembrar que, especialmente no fotojornalismo, as fotos são registros que não devem contar tudo, e não contam. A maioria delas exige sempre que se explicite, por outras vias, a narrativa que lhe é inerente! Não se trata do deleite esttético da fotografia. Trata-se do que ela tem para contar. E esta narrativa não pode se desgrudar do próprio autor. O fotojornalismo trás essa marca do autor. Se alguma objetividade deve ser aí discutida, deve reconhecer que ela fala do sujeito também. De suas escolhas, de suas aventuras, do seu campo de guerra.
Parei nas fotos do enterro do poeta chileno Pablo Neruda. Evandro estava no Chile cobrindo os eventos do golpe militar liderado por Pinochet. Cobriu os massacres nas ruas e no Estádio Nacional. Registrou cenas da chacina! Fez fotos da janela da sede do governo, em cuja sala Salvador Allende tombou. E soube que Neruda estava muito mal. Foi ao hospital, encontrou apenas o corpo frio de Neruda sendo preparado para a urna funerária e para o enterro. Era o único fotográfo e decidiu a companhar tudo. A preparação, a transferencia do corpo para outro lugar, para escapar dos militares, o enterro... Quero considerar duas coisas aqui:
a) há fotos que, sem essa narrativa, se tornam fotos banais ou iguais a qualquer outra foto, como a foto de uma pessoa improvisando uma ponte para passar o riacho cheio. Seria uma foto qualquer, se sua narrativa não incluisse o fato de que aquela ponte estava sendo improvisada para permitir a passagem do corpo de Pablo Neruda. A foto é um testemunho a espera de outro, que a completa.
b) e se Evandro Teixeira, como fotojornalista, não soubesse quem era Pablo Neruda? Aqui a objetividade e a competência técnica do fotógrafo dependem de uma coisa chamada "repertório". Chamamos isso, ordinariamente, de "bagagem". Sem isso, ele não seria o único fotojornalista do mundo a ter feito tais fotos. E onde se ensina isso? Em que matéria "objetiva" e "prática" se ensina isso?
Todo jornalista jovem, quer chegar primeiro ao sucesso. Já quer estrear como âncora do Jornal Nacional. Na fotografia, já querem começar com uma premiação internacional. Esquecem dos percursos que todos os bons profisionais tiveram que trilhar, começando entregando cafezinho ou espanando o pó das prateleiras. Recebendo alguns nãos e persistindo! Assim se faz um bom profissional, em qualquer área. Com esforço, dedicação e menos nariz arrebitado!
O fetiche no jornalismo anda junto com o agravamento de sua sperficialidade. A objetividade do texto, o foco no espetacular, inibem a perspectiva mais plural dos contextos. Os grandes nomes não se fizeram em salas com ar condicionado! Mas, ao contrário, com trabalho árduo!
Trabalho árduo, aliás, foi o da comissão formada por Flávio Ciro e pelos seus alunos monitores e voluntários, com destaque para Cecílio e Silvana. Eles realizaram um dos mais importantes acontecimentos do jornalismo no Vale do São Francisco, que foi a vinda de Evandro Teixeira. Mas nem sequer a imprensa local, acotumada ao jornalismo de superfície, compareceu e cobriu o evento.
É uma pena!