Em geral entramos o ano de ressaca. É regra! A não ser que a "virada" não tenha tido graça! Reveillión que se preze tem que oportunizar a embriaguês, o borrão nas maquiagens e o amassão das sedas brancas, ou de outros tecidos mais ou menos nobres. A gente começa engalanado e termina sendo arrastado para casa, aos trapos! Aí o feriado do primeiro dia serve apenas para curar a ressaca do ano novo.
Se a embriaguês for das boas, faz as vezes de um bom ritual de passagem, desses que oportunizam o renascimento! A ressaca é, portanto, uma oportunidade de renascimento! Muitas vezes um renascimento que termina num "nunca mais bebo", ou em algo menos dramático, como um "este ano vai ser diferente".
De qualquer forma, estou de ressaca - e parte do que espero do ano tem a ver com isso! A minha ressaca, no entanto, é outra! É que este ano me deparei com um tipo de juventude diferente! Não é a juventude que se droga, como foi a minha, embora a de agora se drogue cada vez mais e com coisa mais pesada. Também não é a juventude que fax sexo, como a minha, embora esta faça sexo muito mais! Mas parece uma juventude que desistiu do ritual, da elaboração, do valor do tempo das coisas! O único ritual, é a carnavalização; a única elaboração é a maquiagem, o único tempo é o presente, estendido até depois de onde deveria virar outra coisa! Tudo isso com simulação de holofotes (o orkut serve para isso, em geral)!
Encontro os jovens e eles não estão indo à escola, há muitos que desistiram dela, outros foram reprovados... e também não estão interessado em trabalho! Eles querem festa, sucesso, exibição! Por isso precisam de um celular "da hora", uma máquina digital, uma moto, um somzão no porta-mala... Onde vão achar dinheiro para isso? Quem sabe um Empréstimo Consignado na aposentadoria dos avós! Quem sabe, um pequeno assalto, um sequestro!
Esta é a promiscuidade do momento. A isso temos chamado de violência! A isso eu chamo promiscuidade sistêmica! De onde ela vem? Pergunte aos que ganham dinheiro vendendo droga! E mude o conceito de droga! Vá além da maconha, da cocaína e até mesmo do crack. Vá até onde vendem ilusões! Vá até onde vendem a idéia de que todo mundo tem que ser Rei. Vá até onde todos já querem começar de cima! Todos com o rei na barriga! Vá até onde a liberdade foi vampirizada pelo mercado e pelo consumo! Vá até onde vendem bíceps e sonhos de pop star, música ruim e ética fuleira! Eis aí a drogadição do presente!
Para mim, a mesma imagem dos meninos achando que a vida é uma chapação constante, é a mesma imagem da "chapação das opções que se oferecem". Vou de bar em bar da cidade e ouço a mesma coisa. Viajo centenas de quilômetros e vejo os mesmos gestos. Emcaro as mesmas paisagens - incluindo as mesmas paisagens de ficus benjamina (que muita gente chama "pé de fixo") se repetindo em todas ruas, em todas as praças, em todas as cidades! Prescruto aí os mesmos idiotas sonhos, como se tivessem sido feito em série!
Tô de ressaca disso tudo! É como se tivesse se produzido uma bolha de repetição constante dos mesmos modos de ser! E a palavra alienação - da qual agora os intelectuais e as academias querem distância, pois preferem palavras mais atuais, como agenciamento - se revigora!
A minha ressaca que já se repete há alguns anos, é dessa repetição de tudo! Não há mais diferença entre qualquer outra festa de fim de semana de uma festa de reveillión na maioria das cidades que conheço! A não ser pelos penteados, pelos brilhos nos rostos e nos vestidos das mulheres, ou pelos engalanamentos dos homens, não saberíamos. As opções de festas são todas medíocres: em geral são feitas em cercados de metal que cabem aí uns 30 mil pagantes, pelo menos. São feitas por empresas "laranjas" de políticos que estão no poder, mas quase que indisfarçadamente são postas na mão dos "laranjas". A prefeitura dá a infra, a empreza ganha o dinheiro e divide com os "donos" da coisa, que são os próprios políticos empoderados.
O sucesso da festa é geralmente garantido por uma banda tipo Saia Rodada, Aviões do Forró, Silvano Sales, Swing Tropical, Asas Livres... (a lista é bem maior), que tocam músicas dessas que se repetem umas quinhentas vezes por dia em todos os porta-malas de carros, nos bares, churrascarias e FMs. É tudo um maravilhoso consenso sobre a qualidade das beldades tocadas! No palco, as músicas, com suas estéticas ridículas, são executadas com a dramatização das letras por meninas seminuas e bichinhas que fazem o papel de homens na encenação do erótico. Por isso é um espetáculo tosco de simulações ridículas. E tudo não passa de simulação, até o sexo! Torna-se uma festa que se sustenta na estética do falso! Mas todo mundo compra!
Tô de ressaca disso tudo! Mas ainda bem que a minha "virada" deste ano foi ótima! Primeiramente porque o ambiente era outro, a música era diferente, e por isso não fiquei bêbado. Manti-me lúcido pela madrugada e iniciei a manhã com um belo café da manhã, no cais da cidade, antes de qualquer ressaca - o que me evitou que ela viesse depois. Foi outro tipo de renascimento! Há muitas promessas para o ano novo, como sempre, e espero poder cumpri-las! Uma delas é a de enfrentar a reiteração da mesmice. Não estávamos interessados em ganhar dinheiro, mas em recuperar outras possibilidades de festa e de estética! Por isso a festa foi uma iniciativa de pessoas, e não do poder público (embora este o tenha apoiado)!
E menos ainda a "nossa" festa foi uma iniciativa do mercado! Quanto a esse, aos empresários e homens de negócio, esses não têm mais tempo para sonhar, a não ser com as fórmulas de ganhar dinheiro fácil e rápido! Se for preciso, vendem droga! E é o que têm feito!
Josemar Martins (Pinzoh)
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
sábado, 26 de dezembro de 2009
Sobre o gosto do povo
Consta que em a Odisséia, obra de Homero que relata os disígnios da guerra de Tróia, seu principal herói, Ulisses (Odysseu, por isso, Odisséia),depois de ficar exilado por anos, decide retornar à Gécia. Ele é alertado por Circe sobre uma região pela qual teria que passar, habitada por sereias cujo canto era tão belo e arrebatador que jamais algum ser humano teria escapado a tal beleza, tendo sido todos por ela dragados. A feiticeira instruiu Ulisses, e se ele quizesse escapar com vida e ao mesmo tempo se delitar com a beleza daqueles cantos, deveria pedir para ser amarrado ao mastro de sua embarcação, e antes disso, tapar com cêra os ouvidos de todos os seus remadores, afinal, eles eram a "classe operária", teriam que trabalhar, sem o risco de tão refinada arte.
Os teóricos da Escola de Frankfurt, especialmente Theodor Adorno, utilizam essa passagem do mito homérico para apontarem o momento em que a arte se separa entre arte de elite, que de tão refinada torna-se perigosa (e por isso, a amarração ao mastro é uma metáfora de contenção de todo o perigo), e a arte dedicada ao povo, ou melhor, negada a ele, posto que lhe restou apenas ceras nos ouvidos e trabalho.
Existe um consenso entre muitas pessoas de que existe uma coisa chamada "gosto do povo", não sendo este chegado a refinamento. Seria um gosto mais afeito ao grotesco e ao pitoresco, e por isso o povo estaria incapacitado de acessar e entender certas linguagens mais elaboradas. Tal pressuposição tem sido utilizada como fundamento oficial, à qual recorrem políticos e empresários da mídia, principalmente, para amparar a condenação do povo às mesmas redundâncias, cuja pobreza de variedade é tão drástica que são as próprias coisas que se oferecem ao povo, nesses termos, que se convertem nas "cêras no ouvido do povo".
Por mim prefiro acreditar na capacidade de o povo escapar a essa redução criminosa! Igulamente criminosos são todos aqueles que operam essa redução, com ares de democratismo, quando por trás disso, o povo é convertido em massa, em homogeneidade burra, exposta a todo tipo de exploração comercial ou eleitoreira. Entre os primeiros criminosos estão os políticos e os donos de empresas de comunicação! A estes, quanto mais cêras nos ouvidos (ceras que eles oferecem disfarçadas em música idiota, por exemplo), mais aptos a manobras e à existência meramente laboral. Isso é o paraíso dos canalhas!
Talvez tenhamos que problematizar mais e melhor isso!
Josemar Martins (Pinzoh)
Os teóricos da Escola de Frankfurt, especialmente Theodor Adorno, utilizam essa passagem do mito homérico para apontarem o momento em que a arte se separa entre arte de elite, que de tão refinada torna-se perigosa (e por isso, a amarração ao mastro é uma metáfora de contenção de todo o perigo), e a arte dedicada ao povo, ou melhor, negada a ele, posto que lhe restou apenas ceras nos ouvidos e trabalho.
Existe um consenso entre muitas pessoas de que existe uma coisa chamada "gosto do povo", não sendo este chegado a refinamento. Seria um gosto mais afeito ao grotesco e ao pitoresco, e por isso o povo estaria incapacitado de acessar e entender certas linguagens mais elaboradas. Tal pressuposição tem sido utilizada como fundamento oficial, à qual recorrem políticos e empresários da mídia, principalmente, para amparar a condenação do povo às mesmas redundâncias, cuja pobreza de variedade é tão drástica que são as próprias coisas que se oferecem ao povo, nesses termos, que se convertem nas "cêras no ouvido do povo".
Por mim prefiro acreditar na capacidade de o povo escapar a essa redução criminosa! Igulamente criminosos são todos aqueles que operam essa redução, com ares de democratismo, quando por trás disso, o povo é convertido em massa, em homogeneidade burra, exposta a todo tipo de exploração comercial ou eleitoreira. Entre os primeiros criminosos estão os políticos e os donos de empresas de comunicação! A estes, quanto mais cêras nos ouvidos (ceras que eles oferecem disfarçadas em música idiota, por exemplo), mais aptos a manobras e à existência meramente laboral. Isso é o paraíso dos canalhas!
Talvez tenhamos que problematizar mais e melhor isso!
Josemar Martins (Pinzoh)
domingo, 20 de dezembro de 2009
Eu, um acadêmico filho da puta!
Acordei me sentido um criminoso! Crápula! Filho de todas as putas. Tudo isso porque sou, como se diz nas horas de embriaguês, com ar de ressentimento, um Acadêmico! Em certas horas da noite isso é mais que um xingamento! Pior se é dito sem que a gente perscrute o que realmente diz o missivista. No geral não dizem nada! É só um insulto misto de frustração e escárnio.
Sensação esquisita, porque eu, que nasci de pais semi-analfabetos, numa casa de taipa, lá nos sertões do São Bento, que estudei com professora leiga, em escolhinha rural, que saí lá das brenhas para estudar na cidade, e fui menino matuto na rua, falava tapando a boca, e era pequeno, pobre, sarará e feio, inventei de não ser só isso! Crime sem perdão! E mais, inventei de fazer teatro, poesia, sem rima que é mais difícil, e fazer concurso e dar aula em universidade e fazer mestrado e doutorado e misturar tudo isso com incursões freqüentes aos guetos, onde se encontram os mais paradoxais lotes de boêmios e drogados e artistas e fanfarrões e bufões... Uns são maravilhosos, manejam bem a palavra e riem conosco. Prefiro esses! Outros querem apenas forçar a presença redundantemente à força, se impor pelos quilos de verbo que fazem desabar por entre os dentes... Acham-se lindos demais pra dividir o ar conosco. Nem se mandam nem se mancam!
Há os que começam dizendo “você é do caralho” e terminam dando conselho sobre como “deixar de ser um merda”. Outros nem isso, o mínimo que dizem é "filho da puta", logo no aperto de mão. Descobri que a causa disso é a palavra Academia – com “A” maiúsculo pra fazer justiça aos revoltados. Ela parece ser mágica, tem a força de palavra tantalizada, que ao mesmo tempo oferece e nega, acrescenta e subtrai. Nossa associação a ela nos torna uma espécie de maldito, portador de alguma espécie de vírus. Nunca entendi isso direito!
Há quem cobre um sotaque de raiz e quem lhe ralhe, acaso haja ainda algum resquício disso. Há quem cobre um chapéu de vaqueiro e quem faça proselitismo com as associações “culturais” que deduzem. Mas o pior mesmo é quando nos chega um com álcool até os tímpanos – aliás, álcool e tímpano têm uma relação curiosa – e nos buzina um monte de palavras soltas no ouvido só para azucrinar; mistura alhos com outros bagulhos, moderno com rolo de fumo e toma o tempo que você poderia dedicar a olhar as pernas da moça que está à sua frente, tão bela como nunca, caso sua visão não tivesse sido abruptamente tomada pelo brother, que quer lhe convencer que ele está a anos luz à sua frente. Não, caralho! Você não está a anos luz não; está na minha frente, tapando a visão. Dá licença!
Venho desconfiando, há algum tempo, de que existe algo mal resolvido na relação desses malditos com a Academia. Só espero que a porra desse problema não seja debitado da minha conta! Aliás, estou me acostumando a não tolerar embromação e blefe, desses que ficam disfarçados no amontoado de palavras pronunciadas, como se você fosse demente e não sacasse a jogada! Nesses momentos, a melhor coisa é dobrar o jogo jogado pelo arrivista contra ele próprio. Ou você lança mão da arma dos fracos – a ironia, positivamente – e sai emendando elogios e bajulações e uma safra de palavras estranhas, que você provavelmente passou horas selecionando do dicionário, engatadas umas nas outras, para deixar o outro aturdido, ou você diz logo de uma vez “vai tomar no olho do seu cú”.
É tudo um teatro de vaidades. Melhor mesmo é que não fosse nada disso!
Sensação esquisita, porque eu, que nasci de pais semi-analfabetos, numa casa de taipa, lá nos sertões do São Bento, que estudei com professora leiga, em escolhinha rural, que saí lá das brenhas para estudar na cidade, e fui menino matuto na rua, falava tapando a boca, e era pequeno, pobre, sarará e feio, inventei de não ser só isso! Crime sem perdão! E mais, inventei de fazer teatro, poesia, sem rima que é mais difícil, e fazer concurso e dar aula em universidade e fazer mestrado e doutorado e misturar tudo isso com incursões freqüentes aos guetos, onde se encontram os mais paradoxais lotes de boêmios e drogados e artistas e fanfarrões e bufões... Uns são maravilhosos, manejam bem a palavra e riem conosco. Prefiro esses! Outros querem apenas forçar a presença redundantemente à força, se impor pelos quilos de verbo que fazem desabar por entre os dentes... Acham-se lindos demais pra dividir o ar conosco. Nem se mandam nem se mancam!
Há os que começam dizendo “você é do caralho” e terminam dando conselho sobre como “deixar de ser um merda”. Outros nem isso, o mínimo que dizem é "filho da puta", logo no aperto de mão. Descobri que a causa disso é a palavra Academia – com “A” maiúsculo pra fazer justiça aos revoltados. Ela parece ser mágica, tem a força de palavra tantalizada, que ao mesmo tempo oferece e nega, acrescenta e subtrai. Nossa associação a ela nos torna uma espécie de maldito, portador de alguma espécie de vírus. Nunca entendi isso direito!
Há quem cobre um sotaque de raiz e quem lhe ralhe, acaso haja ainda algum resquício disso. Há quem cobre um chapéu de vaqueiro e quem faça proselitismo com as associações “culturais” que deduzem. Mas o pior mesmo é quando nos chega um com álcool até os tímpanos – aliás, álcool e tímpano têm uma relação curiosa – e nos buzina um monte de palavras soltas no ouvido só para azucrinar; mistura alhos com outros bagulhos, moderno com rolo de fumo e toma o tempo que você poderia dedicar a olhar as pernas da moça que está à sua frente, tão bela como nunca, caso sua visão não tivesse sido abruptamente tomada pelo brother, que quer lhe convencer que ele está a anos luz à sua frente. Não, caralho! Você não está a anos luz não; está na minha frente, tapando a visão. Dá licença!
Venho desconfiando, há algum tempo, de que existe algo mal resolvido na relação desses malditos com a Academia. Só espero que a porra desse problema não seja debitado da minha conta! Aliás, estou me acostumando a não tolerar embromação e blefe, desses que ficam disfarçados no amontoado de palavras pronunciadas, como se você fosse demente e não sacasse a jogada! Nesses momentos, a melhor coisa é dobrar o jogo jogado pelo arrivista contra ele próprio. Ou você lança mão da arma dos fracos – a ironia, positivamente – e sai emendando elogios e bajulações e uma safra de palavras estranhas, que você provavelmente passou horas selecionando do dicionário, engatadas umas nas outras, para deixar o outro aturdido, ou você diz logo de uma vez “vai tomar no olho do seu cú”.
É tudo um teatro de vaidades. Melhor mesmo é que não fosse nada disso!
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
POR UMA POLÍTICA DA POESIA
Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
(texto elaborado para o programa Multicultura, da Radio Tropical SAT, Juazeiro/BA, do dia 18/12/2009)
Sempre houve quem se perguntasse para que serve a poesia, sobre sua utilidade, sobre sua pragmática. Esses são os que estão acostumados a mensurar tudo de cabo a rabo, sem espaços para supostas inutilidades que não gerem lucro, por exemplo. São os homens de negócio, que trocariam todas as praças, parques e suas árvores por algum empreendimento lucrativo; que loteariam a floresta amazônica entre campos de soja, pastos de bois e caixas de banco.
Para esses à linguagem bastaria denotar, definir, precisar. Ao resto dizem simplesmente: “não me venha com poesias”. Mas a poesia é pura metalinguagem, traição da linguagem, para abrir passagens a outros universos de sentido, aos quais não se pode acessar em linha reta. Por isso ela prefere conotar, abrir desvios na lógica hermética! Perguntar para que serve a poesia é a mesma coisa que perguntar por que enfeitamos o prato de salada, se ele será devorado em seguida, pela gula que o espreita.
Para que serve então uma frase assim: “... e aquela num tom de azul quase inexistente azul que não há; azul que é pura memória de algum lugar”, senão para dar acesso a alguma coisa que de outro modo não nos seria acessível?
A poesia serve exatamente para isso: para nutrir os estados da alma de toda a inutilidade de que a alma carece! É aí onde a poesia nutre uma ecologia inteira de sensibilidades. Eis a utilidade da poesia!
E o que dizer da poesia no corpo das cidades? As cidades são esses acontecimentos movediços, que crescem para cima e para baixo, e se estendem no tempo e no espaço, com seus fluxos de coisas, percepção e afeto. Como as cidades tendem a separar tudo entre o útil e o inútil, elas estão ficando pobres em poesia. Sua gramática é a do lucro e de sua contraface: o lixo.
Então a poesia, espremida entre o lucro e o lixo, vira mera negatricidade inexorável ao existir humano – quando, ao contrário, é de uma política da poesia que carecemos, para nutrir novas ecologias de sensibilidade e desejo.
Então o meu grito de hoje é esse: por uma política da poesia nas cidades!
(texto elaborado para o programa Multicultura, da Radio Tropical SAT, Juazeiro/BA, do dia 18/12/2009)
Sempre houve quem se perguntasse para que serve a poesia, sobre sua utilidade, sobre sua pragmática. Esses são os que estão acostumados a mensurar tudo de cabo a rabo, sem espaços para supostas inutilidades que não gerem lucro, por exemplo. São os homens de negócio, que trocariam todas as praças, parques e suas árvores por algum empreendimento lucrativo; que loteariam a floresta amazônica entre campos de soja, pastos de bois e caixas de banco.
Para esses à linguagem bastaria denotar, definir, precisar. Ao resto dizem simplesmente: “não me venha com poesias”. Mas a poesia é pura metalinguagem, traição da linguagem, para abrir passagens a outros universos de sentido, aos quais não se pode acessar em linha reta. Por isso ela prefere conotar, abrir desvios na lógica hermética! Perguntar para que serve a poesia é a mesma coisa que perguntar por que enfeitamos o prato de salada, se ele será devorado em seguida, pela gula que o espreita.
Para que serve então uma frase assim: “... e aquela num tom de azul quase inexistente azul que não há; azul que é pura memória de algum lugar”, senão para dar acesso a alguma coisa que de outro modo não nos seria acessível?
A poesia serve exatamente para isso: para nutrir os estados da alma de toda a inutilidade de que a alma carece! É aí onde a poesia nutre uma ecologia inteira de sensibilidades. Eis a utilidade da poesia!
E o que dizer da poesia no corpo das cidades? As cidades são esses acontecimentos movediços, que crescem para cima e para baixo, e se estendem no tempo e no espaço, com seus fluxos de coisas, percepção e afeto. Como as cidades tendem a separar tudo entre o útil e o inútil, elas estão ficando pobres em poesia. Sua gramática é a do lucro e de sua contraface: o lixo.
Então a poesia, espremida entre o lucro e o lixo, vira mera negatricidade inexorável ao existir humano – quando, ao contrário, é de uma política da poesia que carecemos, para nutrir novas ecologias de sensibilidade e desejo.
Então o meu grito de hoje é esse: por uma política da poesia nas cidades!
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Ecologia de Idéias
Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
Boa tarde a todos os amigos, ouvintes e colaboradores do Multicultura.
O papo hoje é sobre ecologia. Mas não é sobre aquilo que convencionalmente entendemos pelo termo ecologia, restrito à relação dos ecossistemas naturais e aos seus os respectivos equilíbrios e desequilíbrios. Quero sugerir que hoje a palavra ecologia pode ser utilizada para falar de ecossistemas e ecologias de idéias: das boas idéias ou das idéias daninhas e danosas. Isso define aquilo que poderíamos chamar “ambiente de inovação”, que é mais uma espécie de “ambiente de inoculação”, propício ao surgimento de determinados tipos de idéias e modos de pensar.
É evidente que novas idéias podem surgir em qualquer lugar, dada a diversidade dos fluxos de comunicação, que colocam em relacionamento idéias muito variadas e aparentemente distantes entre si.
Mas deveríamos fortalecer o entendimento de que, quanto mais um ambiente é arejado de idéias novas, mais ele se torna propício ao surgimento de outras idéias novas e inovadoras. Há na vida social, uma espécie de “espírito do tempo” e até uma espécie de “espírito de lugar”, constituídos pelos tipos de idéias que perfazem a vida social.
As idéias são tão importantes que todas as ditaduras, começam por persegui-las e controlá-las.
Numa cidade como Juazeiro também existem ecologias de idéias, alimentadas por todo tipo de redundâncias distribuídas pelos fluxos de comunicação. E há também, dada a qualidade desses fluxos, até uma inanição das idéias, formas de iniqüidade das idéias.
É preciso então oxigenar essas ecologias, pois é urgente enfrentar a ignorância através de uma luta não ignorante, ampliando o “ambiente de inovação” das idéias, o que requer que a cidade tenha mais espaços para debates, para experimentações, para intercâmbios despidos da lógica tacanha do lucro imediato.
Comecemos por aí!
Eu sou Josemar Martins, Pinzoh, e volto na semana que vem. Boa tarde!
(Participação no Programa Multicultura de 11/12/2009, na Radio Tropical SAT, Juazeiro/BA)
Boa tarde a todos os amigos, ouvintes e colaboradores do Multicultura.
O papo hoje é sobre ecologia. Mas não é sobre aquilo que convencionalmente entendemos pelo termo ecologia, restrito à relação dos ecossistemas naturais e aos seus os respectivos equilíbrios e desequilíbrios. Quero sugerir que hoje a palavra ecologia pode ser utilizada para falar de ecossistemas e ecologias de idéias: das boas idéias ou das idéias daninhas e danosas. Isso define aquilo que poderíamos chamar “ambiente de inovação”, que é mais uma espécie de “ambiente de inoculação”, propício ao surgimento de determinados tipos de idéias e modos de pensar.
É evidente que novas idéias podem surgir em qualquer lugar, dada a diversidade dos fluxos de comunicação, que colocam em relacionamento idéias muito variadas e aparentemente distantes entre si.
Mas deveríamos fortalecer o entendimento de que, quanto mais um ambiente é arejado de idéias novas, mais ele se torna propício ao surgimento de outras idéias novas e inovadoras. Há na vida social, uma espécie de “espírito do tempo” e até uma espécie de “espírito de lugar”, constituídos pelos tipos de idéias que perfazem a vida social.
As idéias são tão importantes que todas as ditaduras, começam por persegui-las e controlá-las.
Numa cidade como Juazeiro também existem ecologias de idéias, alimentadas por todo tipo de redundâncias distribuídas pelos fluxos de comunicação. E há também, dada a qualidade desses fluxos, até uma inanição das idéias, formas de iniqüidade das idéias.
É preciso então oxigenar essas ecologias, pois é urgente enfrentar a ignorância através de uma luta não ignorante, ampliando o “ambiente de inovação” das idéias, o que requer que a cidade tenha mais espaços para debates, para experimentações, para intercâmbios despidos da lógica tacanha do lucro imediato.
Comecemos por aí!
Eu sou Josemar Martins, Pinzoh, e volto na semana que vem. Boa tarde!
(Participação no Programa Multicultura de 11/12/2009, na Radio Tropical SAT, Juazeiro/BA)
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
O Riso do Rio
ria, meu rio, ria!
com a boca escancarada
lentidão de língua de água
lambendo as beiras das margens
anáguas de lavadeiras
bucho de paquete lento
pecados de toda sorte
ria, que eu também rio!
dessa gargalhada sua
que nua ainda escorrega
entre as margens espremidas
e se ouve à madrugada
quando todos os que uivam
conseguem compartilhá-la
ria, meu rio, ria!
ilumine os desvarios
e até nine nossa insônia
como uma larga ironia
da crueldade do dia
que lhe empazina de fezes
que lhe mata umas mil vezes
depois nos rede poesia
ria, meu rio, ria!
um riso puro sarcasmo
orgasmo dos masoquistas
pois que tua clara pista
onde deslizo delírios
lá por baixo é puro choro
e se eu rio, meu rio,
é da nossa covardia
é do nosso desaforo
não é rima que eu busco
rima não rima com isso
ria, meu rio, ria!!
ironize do sacrifício.
com a boca escancarada
lentidão de língua de água
lambendo as beiras das margens
anáguas de lavadeiras
bucho de paquete lento
pecados de toda sorte
ria, que eu também rio!
dessa gargalhada sua
que nua ainda escorrega
entre as margens espremidas
e se ouve à madrugada
quando todos os que uivam
conseguem compartilhá-la
ria, meu rio, ria!
ilumine os desvarios
e até nine nossa insônia
como uma larga ironia
da crueldade do dia
que lhe empazina de fezes
que lhe mata umas mil vezes
depois nos rede poesia
ria, meu rio, ria!
um riso puro sarcasmo
orgasmo dos masoquistas
pois que tua clara pista
onde deslizo delírios
lá por baixo é puro choro
e se eu rio, meu rio,
é da nossa covardia
é do nosso desaforo
não é rima que eu busco
rima não rima com isso
ria, meu rio, ria!!
ironize do sacrifício.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
PAIXÃO
Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Sem eira nem beira
Sem rima nem métrica
E sem sacrifícios
Uma página aberta,
Janela indiscreta
Quiçá fossem pernas!
Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Uma história inteira
Pode estar aí
Esperando as letras
Lápis zero sete
Ou esferográfica
No papiro velho
Que materialize
Este vir a ser
Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Procuro, não acho
Fico cabisbaixo
Distraio o sentido
Virando na cama
Vou compondo cenas
Entre suas pernas
Só imaginárias
Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Na borda da boca
Nos cílios, nos olhos
Na pele morena
Na curva da nádega
No pico dos seios
Na dobra do braço
Ou nos vales úmidos
Às vezes assim
Nem me reconheço
Quando perco o rumo
Quando perco o sono
Quando caio em mim
Já é madruga
E eu não fiz nada
Além de vagar
Com o fio da idéia
Rabiscando formas
Em sua lembrança
Pode ser que sim
Pode ser que não
– E eu me rendo à rima:
Essa coisa besta
Dizem que é paixão
(Pinzoh)
Pronta pro rabisco
Sem eira nem beira
Sem rima nem métrica
E sem sacrifícios
Uma página aberta,
Janela indiscreta
Quiçá fossem pernas!
Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Uma história inteira
Pode estar aí
Esperando as letras
Lápis zero sete
Ou esferográfica
No papiro velho
Que materialize
Este vir a ser
Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Procuro, não acho
Fico cabisbaixo
Distraio o sentido
Virando na cama
Vou compondo cenas
Entre suas pernas
Só imaginárias
Uma página em branco
Pronta pro rabisco
Na borda da boca
Nos cílios, nos olhos
Na pele morena
Na curva da nádega
No pico dos seios
Na dobra do braço
Ou nos vales úmidos
Às vezes assim
Nem me reconheço
Quando perco o rumo
Quando perco o sono
Quando caio em mim
Já é madruga
E eu não fiz nada
Além de vagar
Com o fio da idéia
Rabiscando formas
Em sua lembrança
Pode ser que sim
Pode ser que não
– E eu me rendo à rima:
Essa coisa besta
Dizem que é paixão
(Pinzoh)
Assinar:
Postagens (Atom)