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domingo, 13 de janeiro de 2008

L A B I R I N T O

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
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Fazia dias que eu estava prostrado naquela casa, imensa, vazia. Fora deixado nela ela, agora parecendo uma caverna quase luxuosa, aspecto que restou depois da subtração de sua mobília. Agora as palavras ecoavam pela casa, saiam batendo nas paredes como se quisessem povoá-las de outras vozes, mas sempre reverberavam nelas mesmas, ecoavam. Fiquei na casa apenas com meus livros e um quadro que paguei durante dez meses, como se estivesse pagando a prestação minhas falidas pretensões aristocráticas. Fiquei também com o sofá da sala e a televisão de vinte e nove polegadas. O sofá tinha forma de divã, e a TV era minha analista: parecia confirmar o que parece que eu tinha me transformado.

Passava o dia ali, comendo porcarias e vendo TV, como se meu mundo tivesse se resumido àquilo. Dormia, acordava, cochilava, me assustava, o sol entrava pela janela, invadia a sala, eu suava, me virava, mudava de posição... e a TV sempre ligada. Olhava alguma banalidade que ela me oferecia – nossa! Quanta banalidade a TV nos oferece! Voltava a dormir, sonhava entre um cochilo e outro. Mas os sonhos eram diferentes: pela manhã sonhava sonhos quase completos, em que eu estava em alguma ação que, mesmo sempre confusa, nela eu ainda tinha algum ânimo e mobilidade. Pela tarde, sobretudo quando o sol entrava pela janela e ardia em minha cara, tinha pesadelos. Nesses, eu geralmente estava dopado, drogado, ou nu. Alguma coisa ridícula sempre rondava esses tormentos em forma de sonhos-pesadelos. E eu acordava num susto ensopado de suor. Mas pela manhã tinha sonhos diferentes. E ficava na dúvida se não tinha sido durante a noite que eu os havia sonhado. Eu não sei. Agora tanto fazia ser noite, manhã ou tarde, eu estava sempre no sofá, entre restos de porcaria – coisas que eu comia; coisas que vinham da TV.

O sonho de hoje foi curioso. Sonhei que eu ficava cansado desta depressão de quem fora abandonado com alguns livros e algumas drogas – a TV sendo a principal – e resolvia dar uma volta. Ia a um boteco desses que nem sanitários têm. Era na orla velha, um bar improvisado entre aqueles casarios abandonados. Quando a gente queria mijar o garçom indicava um corredor ao lado, que ia dar no interior de uma dessas construções velhas e abandonadas. E não havia ali nem um vaso sanitário, nem um desses canis improvisados de cimento, que servem de mictório na maioria dos bares fuleiros como aquele. O jeito era fazer xixi ali mesmo, no pé da parede, na ponta dos pés para não sujar a barra da calça com a urina dos que vieram antes. Era preciso ficar na ponta dos pés, segurar o pau com uma das mãos e tapar o nariz com a outra. E depois, nem uma piazinha para lavar as mãos. Merda! Coisa de terceiro mundo! E a gente ainda tem orgulho disso! Vangloria-se dizendo que esse é “nosso jeito”, é a nossa “natureza”. Isso não passa de uma moral de jegue – como um dia me disse um amigo meu.

Mas o corredor prosseguia e eu resolvi andar um pouco mais nele, para ver onde ia dar. Houve algo. Alguma passagem eu acho que se deu ali. De repente eu estava numa enorme sala mobiliada em estilo colonial, com uma imensa mesa com todas as doze cadeiras, tudo coberto com plástico. Como se alguma cena tivesse que ser mantida intacta por anos a fio. Na parede atrás da mesa havia um quadro no qual estava estampada a imagem de uma família. Dava pra ver que era. Todos em pose nobre, com roupas galanteadas. Eram muitos. O pai, a mãe, alguns homens jovens, rapazes, deviam ser os filhos, e apenas uma moça. Entre o pai a mãe. Como rosto mais jovem ainda, com cara de quem era uma caçula. Uma única mulher e ainda caçula.

Mas havia mais que isto naquela imagem. Ela parecia reproduzir os lugares daquela imensa mesa. Mas aquela moça guardava traços e circunstâncias muito interessantes. Havia algum mistério em sua feição. Estava entre o pai e mãe, como se ambos estivessem lhe protegendo de alguma coisa. Ou como se ela fosse algum elo quase perdido. Em seu riso havia alguma distorção – como se fosse um alegre solo de guitarra no meio de uma 5ª sinfonia de Beethoven. Aquela imagem me arrepiava. Eu estava totalmente arrepiado. Não sentia os cabelos, os pelos. E mesmo assim eu permaneci ali, mirando aquela imagem, onde aquela moça parecia me mirar. Como se ela quisesse contar-me algum segredo: estivera esperando pos isso esses anos todos, sabe-se lá quanto tempo.

Mas esta sala não era no térreo. Não sei como, mas seguindo aquele corredor eu havia subido algum lance de escada, sem perceber. Ou então aquela sala havia se elevado comigo dentro dela. Talvez tenha sido naquele momento em que eu me arrepiei. Agora eu via que lá embaixo um guarda vinha à minha procura. Talvez houvesse alguma proibição em entrar ali e ficar especulando aquele espaço. Talvez ali estivesse reservado para turistas, que podem tudo – como diria Arnaldo Antunes, “e os turistas estragando todos os lugares”. Talvez estivesse lacrado para alguma inspeção que estivesse sendo aguardada há anos. Além do mais, eu jamais havia ouvido falar que naquele cais antigo, naquela orla abandonada houvesse um casario com tamanha pompa, uma espécie de castelo. Mas, o fato é que vinha o guarda à minha procura, com cara de poucos amigos, como é típico dos guardas e segurança – deve até ser algum quesito específico para a contratação! O guarda vinha! E alguma coisa me dizia que eu não deveria esperá-lo; que eu nem deveria procurar o caminho de volta, para voltar ao boteco por aquele corredor fedorento, e pagar a cerveja, que a estas alturas eu havia esquecido! Será que o cara é segurança do bar e, achando que eu dei o calote está vindo atrás de mim? Mas cerveja quente e corredor fedorento não são motivos para querer voltar. Eu deveria seguir. Os olhos daquela menina me diziam que eu deveria seguir... Para onde?

Avistei uma escada que descia para o outro lado, para o lado do rio. Desci a escada correndo! Quase deslizando nos íngremes degraus. Tudo estava um pouco escuro ali dentro, mas havia uma luz no fim da escada. Parecia o sol. Deveria ser o sol, que se põe para aquele lado... Desci, escorregava, deslizava, parecia uma escorregadeira. Pufo! Caí no fim da escada numa espécie de arraial interno. Como se fosse um quintal de uma grande propriedade, mas havia uma pracinha, com um bangalô no centro, e de uma dos lados o rio. Não era bem um bangalô. Era uma espécie de latada com banquinhos. Era uma estrutura antiga, por isso robusta, com pés-direitos redondos e grossos, feitos de tijolo. Com algumas flores nas bordas dos degraus. E havia bancos. Que alívio, havia bancos e eu estava exausto. Dirigi-me a um deles. E eis que nele havia uma moça, a moça da imagem da sala, o mesmo sorriso como uma distorção de guitarra em uma sinfonia clássica. A mesma jovialidade! E a mesma expressão de quem quer contar algum segredo. Olhava para mim! Queria me contar alguma coisa! Arrepiei-me!

Tocaram a campainha! Acordei suado! Assustado! Arrepiado! Em outra circunstância eu teria exclamado um “merda!”, mas naquele momento eu parecia ter sido salvo de algum destino trágico. Meu Deus! E a porra da TV ali impassível, vendendo suas porcaria. E eu as comprando! Abri a janela par ver quem era. Era uma moça, com o mesmo sorriso distorcido como um solo de guitarra. Dizia: “abre, por favor, querido, que eu esqueci a chave!”

Um comentário:

João Alves disse...

Que deprê braba, heim Companheiro??!!!! Mas sabe que me identifiquei , e muito com esse teu texto, meio depressivo/erótico/desesperador....mas acho que somos todos meio assim, sonhamos o que queremos, planejamos o que seremos..e somos o que somos e pronto!! Mas você já é um homem das letras...e quantas letras!!!! "palavras Iluminadas" e o último "Clarice", me emocionam...adoro ler seus textos....é verdade que eu não pago pra isso, que merda né?? Ai o seu problema de grana fica na mesma...como não sou um homem das letras, e não conheço o caminho das pedras, não sei como ajudar nisso...só posso dizer que adoraria comprar um livro seu, de crônicas ou poemas (se bem que prefiro as crônicas) numa boa livraria!!! Vai em frente Companheiro, e obrigado pelos seus arrobos literários...você nem imagina o bem que faz a quem os lê. Obrigado.