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segunda-feira, 8 de junho de 2009

CRÔNICAS DA (IN)SUSTENTABILIDADE

Participei, entre os dias 26 e 29 de maio, em Campina Grande, PB, do "II Simpósio sobre Mudanças Climáticas e Desertificação no Semiárido Brasileiro". Eu fora convidado para uma mesa sobre tecnologias para difusão de informações na rede de ensino. Bom foi ter interagido com outras falas e com a discussão em geral. Saí de lá convencido de uma coisa: nós pensamos mal a questão "sustentabilidade" e pensamos mal o papel que a educação joga nisso tudo. Mas há esperanças!
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Ponto 1.
Por princípio, educar alguém não resolve nada do ponto de vista da sustentabilidade, não produz, a priori, nenhum tipo de reorientação da nossa relação com os meios e recursos naturais. A degradação ambiental é produzida por ações que derivam da sociedade altamente escolarizada. Neste caso, a educação, a ciência e a tecnologia, antes de serem solução, são parte do problema. Temos que acabar com a visão de que são os pobres e desescolarizados que degradam o meio ambiente. Quem degrada é a sociedade altamente tecnificada, industrializada e consumista.
Um Dr. de São Paulo, do INPE, disse que primeiro houve a SOCIEDADE EXTRATIVISTA, depois a SOCIEDADE DE TRANSFORMAÇÃO (a industrial) e agora a SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO. Quis fazer entender que a sociedade que mais causou dispêndio na natureza foi a primeira. As outras não! Principalmente a última. Disse isso com pose de quem está dando a mais fantástica das notícias! Como se na sociedade da informação, silício, petróleo e energia, não fossem derivados de modos profundos de extração. Um extrativisto levado às últimas consequências. Como se computador não ajudasse a exaurir o que a terra pode oferecer.
Disse o Doutor que um bastão de papel é menos degradante do que um bastão feito de galho de árvore. Nem pensou em quantas árvores têm que tombar para produzir um bastão de papel. Disse que a diferença é que o bastão de papel gera atividade remunerada e isso permite produzir inclusão. Esqueceu-se que nós conhecemos a história do capitalismo, que é a história da remuneração, e isso não produziu inclusão, muito pelo contrário...
Disse que a solução do mundo é educação integral... fez com que essa pronúncia fosse feita de boca cheia, de modo que a sonoridade ressoasse no auditório!
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Ponto 2.
Meu raciocínio é simples: quanto mais a gente refrigera, mais esquenta! O esquentamento é fruto do aumento da pressão antrópica, do aumento cada vez mais acelerado das atividades de produção, consumo e descarte. Aí esquenta. Quem pode, compra refrigerador. Quanto mais refrigeradores ligados, mais o planeta esquenta. Simples! E espero que os cientistas me desmintam. Principalmente os do INPE! Os economistas e o pensamento medíocre dizem que o Brasil tem que crescer a 6% ao ano, pelo menos. Isso resolve o problema da economia nacional e ajuda a resolvê-la em termos globais; isso cria oportunidades individuais (principalmente se as pessoas estiverem escolarizadas, com formação acadêmica sofisticada e especializada), MAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA AMBIENTAL. Pelo contrário, aumenta-o! O aumento da produção e do consumo, aumenta a pressão sobre a natureza! Não há outra fórmula! Se há, nós não a conhecemos! Nós não estamos discutindo a produção de outra experiência civilizatória, baseada na diminuição da produção e do consumo. Isso implicaria em rever muitos dos nossos discursos e re-orientar a nossa vida coletiva. Mas não estamos fazendo isso! Estamos dizendo: "consumam, para nos tirar da crise!". Sequer estamos discutindo a redistribuição das riquezas já produzidas e acumuladas e o problema da desigualdade. Estamos, ao contrário, discutindo como aumentar a produção e o acúmulo em poucas mãos de mais riqueza. Apenas isso! Essa direção não serve para a questão da mudança climática e do esquentamento...
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Ponto 3.
E a questão da Educação? A Educação deve salvar o mundo. Todo mundo deve ganhar dinheiro e gastar, comprar e sujar à vontade, mas a educação deve salvar o mundo. Os professores estão depressivos, doentes, aviltados de todas as formas, fudidos e mal pagos, mas eles devem salvar o mundo. Nenhum doutor, tipo do INPE, aconselha seu filho ou filha a irem para a docência (especialmente no setor mais fragilizado, a educação fundamental), pois há profissões mais nobres, sobretudo aquelas em que se pode granhar muito dineheiro quanto mais rápido melhor, e aumentar o poder de compra e consumo, bem no estilo que só faz degradar mais rápido o meio ambiente... mas a educação deve salvar o mundo! Isso, para mim que sou educador, é o fino da hipocrisia!
Eu sei que todo mundo quer ser bacana, que todo mundo tem o direito de ganhar dinheiro e gastá-lo como quiser. Eu sei que a escola ajuda a abrir essas possibilidades e todas as pessoas têm direito a esse direito. Eu sei que esta é nossa idéia básica de inclusão. Mas isso não resolve nada do ponto de vista da diminuição de nossa pressão sobre o meio ambiente! Não apenas a educação não vai salvar o mundo, como também ela sozinha não pode produzir outra experiência civilizatória, sem que a produção da vida ande noutra direção. Enquanto a escola trabalha valores, os outros meios esvaziam os valores e dizem apenas: "consumam, desejem, vivam o êxtase... e o resto que se exploda".
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Ponto 4.
Tudo bem! A Educação pode ajudar. Mas a educação não está apenas na escola - que tem virado uma ilha. A educação está também na TV, na rua, na praça pública, na festa. Mas esses espaços já foram transformados, por políticos e empresários medíocres, em poleiros de degradação e drogadição. Educação? Sim, eles educam, mas se educassem bem, não estaríamos requisitando a escola para que ela salve o mundo.
Quem quer saber de educação? Eu, que sou educador e não pretendo ser mártir, acho que ela pode fazer muito. Principalmente se os professores começarem a ser tratados com dignidade, principalmente se os espaços escolares forem re-investidos de dignidade, se neles houver espaços e tempos para outras linguagens... Principalmente se deixarmos de comprar livros bestas e caros dos cartéis da indústria do livro didático, basicamente situados em São Paulo. Principalemente se começarmos a ousar produzir novos discursos e novas práticas, sem esperar que sejamos autorizados pelos intectuais do primeiro mundo.
Principalemente se estes discursos vierem acompanhados de ações concretas que apoiem nossa capacidade criativa, para prduzir outros materiais didáticos: livros didáticos, literatura de apoio, filmes, vídeos, CDs, DVs, músicas, jogos... contextualizados segundo nossos dilemas, anseios e auto-imagem! Isso talvez até ajudasse a resolver nossa auto-imagem! Talvez, com isso, não salvássemos o mundo, mas pudéssemos re-orientar algumas práticas, a partir de conteúdos encorajados a tematizar o espectro de nossas relações e a nossa feição civilizatória.
Sem engessar a criatividade; mas também sem deixar essa criatividade escrava do liberalismo de nossa época! Aqui há de haver partilha de sentido e compromisso!
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Ponto 5.
Temos que mostrar que somos capazes disso! Sem a tutela dos Doutores do centro. No máximo, parcerias isonômicas. Nada de submissão! E quanto mais nos experimentarmos nisso, mais Capital Social se produzirá entre nós. Neste sentido, o mais importante é apostar na capacidade e na estética dos subalternos! Abrir-lhes oportunidades; apoiar os sabres e aperfeiçoar-lhes a formação técnica e valorativa, para que sinalizem de modo criativo outros universos de sentido!
É por aí que acho que o INSA cumpre um papel importantíssimo nisso, que ainda está em construção! Vamos construí-lo!

Um comentário:

A cor da Imaginação disse...

Escreveu muitas verdades e que ainda permanecem ocultos nos nossos discursos em busca de uma sustentabilidade apoiada em uma utopia. Essa sustentabilidade poderá se realizá se mudamos nossos conceitos e nossas visões com base nos aspectos que apresenta.

Beijossss