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sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

POR UMA POLÍTICA DA POESIA

Josemar da Silva Martins (Pinzoh)
(texto elaborado para o programa Multicultura, da Radio Tropical SAT, Juazeiro/BA, do dia 18/12/2009)


Sempre houve quem se perguntasse para que serve a poesia, sobre sua utilidade, sobre sua pragmática. Esses são os que estão acostumados a mensurar tudo de cabo a rabo, sem espaços para supostas inutilidades que não gerem lucro, por exemplo. São os homens de negócio, que trocariam todas as praças, parques e suas árvores por algum empreendimento lucrativo; que loteariam a floresta amazônica entre campos de soja, pastos de bois e caixas de banco.

Para esses à linguagem bastaria denotar, definir, precisar. Ao resto dizem simplesmente: “não me venha com poesias”. Mas a poesia é pura metalinguagem, traição da linguagem, para abrir passagens a outros universos de sentido, aos quais não se pode acessar em linha reta. Por isso ela prefere conotar, abrir desvios na lógica hermética! Perguntar para que serve a poesia é a mesma coisa que perguntar por que enfeitamos o prato de salada, se ele será devorado em seguida, pela gula que o espreita.

Para que serve então uma frase assim: “... e aquela num tom de azul quase inexistente azul que não há; azul que é pura memória de algum lugar”, senão para dar acesso a alguma coisa que de outro modo não nos seria acessível?

A poesia serve exatamente para isso: para nutrir os estados da alma de toda a inutilidade de que a alma carece! É aí onde a poesia nutre uma ecologia inteira de sensibilidades. Eis a utilidade da poesia!

E o que dizer da poesia no corpo das cidades? As cidades são esses acontecimentos movediços, que crescem para cima e para baixo, e se estendem no tempo e no espaço, com seus fluxos de coisas, percepção e afeto. Como as cidades tendem a separar tudo entre o útil e o inútil, elas estão ficando pobres em poesia. Sua gramática é a do lucro e de sua contraface: o lixo.

Então a poesia, espremida entre o lucro e o lixo, vira mera negatricidade inexorável ao existir humano – quando, ao contrário, é de uma política da poesia que carecemos, para nutrir novas ecologias de sensibilidade e desejo.

Então o meu grito de hoje é esse: por uma política da poesia nas cidades!

2 comentários:

Jaquelyne A. Costa disse...

"Eu quero é botar meu bloco na rua, gritar, botar pra ferver..."

É isso aí, Pinzoh!
E viva a Poiesis!

A cor da Imaginação disse...

Por uma política da poesia!!!!!